NOTÍCIA | HAIKAA YAMAMOTO E A MÚSICA DO MUNDO

 

Haikaa: proposta de um canção "torre de babel". Foto: divulgação.

Além de Fernanda Takai, mais uma nipo-brasileira entra no concorrido mundo da música popular. É Haikaa Yamamoto,  36 anos, que se propõe a ser uma artista da “aldeia global”,  cantando  em várias línguas.  Seu objetivo é celebrar a diversidade cultural, com a canção “Work of Art”, que tem  oito minutos e é cantada  em 19 idiomas diferentes. Atualmente ela prepara a versão da canção em polonês.

Haikaa é uma típica cidadã do século 21.  Nasceu no Brasi e estudou no  Japão e nos s Estados Unidos. No  Japão, já cantava no grupo pop adolescente “Girls Club”.  Também participou da trilha sonora da novela para internet “Mina & Lisa”, sobre duas adolescentes nipo-descendentes, com a canção “Nananananana”.

A canção “Work of Art” está disponível no Youtube, aqui e também em seu site oficial, aqui.

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14 LITERATURA | A PRIMAVERA DE MISHIMA

Ikeda, Koson, 1802?-1867?

Por Benedito Costa

Tanta tinta já foi derramada para se falar da tetralogia “Mar da Fertilidade”, de Yukio Mishima. Mas sua obra é inesgotável. Vão-se os tempos, mudam-se os hábitos mas está lá a obra de Mishima nos olhando com olhos de espanto, como costumo dizer.

Em particular, este mês pede uma palavrinha sobre a primavera e me ocorreu uma ideia bastante curiosa: a de que um dos livros de “Mar da fertilidade” chama-se “Neve de Primavera” e não “yukiyanagi[1]”. A escolha de Mishima deu-se para a neve mesmo, literal, e não para o nome da bela planta que floresce na primavera, enchendo ruas japonesas inteiras de forte beleza branca.

A escolha de Mishima não é tão óbvia e está inserida em seu modo peculiar de ver o mundo, lógico, o que nos permite uma reflexão. Mishima escolhe “Haru no Yuki”[2] como uma metáfora para o que ocorre com o amor trágico do casal Kiyoaki e Satoko. Esta tragicidade tomada aqui do modo mais comum de se entendê-la não é incomum na obra de Mishima, pois, em outros romances, o amor de dois personagens tivera cenário triste, dramático ou sem solução, com exceções aqui e ali, quando Mishima resolve reescrever um conto da tradição japonesa com fim feliz ( mas não sem ironia e um toque de perversidade).

No caso de “Neve de Primavera”, esta neve apontada pelo título, que é apenas um tipo de tantas neves (úmida, densa, de chuva, etc.), serve bem para a situação do que ele nos narra. A neve da primavera marca o fim do inverno, mas ainda faz frio. É como se o frio do inverno continuasse lembrado, ignorando calendários ou qualquer outro sistema de marcação humana. Ao mesmo tempo, mostra que o inverno está indo, e que uma nova época surge, tempo de acasalamento, de florescimento, de renovação. Mishima não ignora tal tradição, que não é comum apenas no Oriente. Em todos os lugares do planeta em que as estações são bem marcadas, a primavera é comemorada, havendo deidades representativas dela. É uma bela época, marcada, no Japão, inclusive, pela flora da(o) yukiyanagi. No entanto, no imaginário de Mishima, é uma época perfeita que serve como metáfora para a tragédia que se abaterá sobre o casal protagonista.

Ao mesmo tempo, Mishima não deixa de lado seu complexo modo de entrelaçar discursos. A tragédia que se abate sobre o casal não difere da tragédia que se abaterá sobre o Japão nos dois primeiros quartéis do século XX. Digamos que as metáforas nessa obra sejam metáforas sobrepostas.

Há uma gravura atribuída a Ikeda Koson que mostra uma ave negra pousada num galho de árvore coberta de neve. Há referências sobre a/o yukiyanagi. Esta ave negra no caule branco de neve/branco de flor (que virão?) serviria bem para ilustrar o pensamento de Mishima: preto sobre branco, realidades opostas brigando por espaço.

Sobre a questão dos opostos, também vale um comentário: tanto já se falou sobre a oposição “ocidente versus oriente” tanto na obra quanto na vida de Mishima. Tanto se falou sobre a contradição de seu discurso sobre a tradição e a modernidade. No meu entender, Mishima foi o autor de sua época que mais entendeu não esta oposição, esta questão binária, maniqueísta, e sim a complexidade de discursos existentes em seu país. No entender de Edward Said, o teórico da literatura e da História, não há exatamente um confronto entre o ocidente e o oriente e sim uma relação muito complexa, construída durante milênios, sem começo, fim ou meio.

“Mar da fertilidade” merece ser lida (a tetralogia toda) por muitos motivos, eu sei, mas agora na primavera eu começaria a leitura justamente por “Neve de primavera”, tendo como pano de fundo as floradas de yukiyanagi e a imagem de um corvo sobre um galho branco, gravura do século XIX, da melhor tradição da gravura japonesa.

Benedito Costa é professor de Literatura e critico de arte, autor do livro “Diante do abismo” (Benvirá, 2011).


[1] Salgueiro da primavera.

[2] Neve de primavera.

 

14 LITERATURA | A DAMA DO PAVILHÃO DE FLORES ROXAS

Podem wakas de mil anos fazer sentido no mundo de hoje? Em especial os tankas de uma corte refinada, em que sensibilidade e erudição eram requisitos sociais? A resposta é sim.

Regina Bostulim[1]

A gueixa morena criada por Joba Tridente. Foto: divulgação.

A era Heian[2] foi o período áureo do Japão. Começa em 794 quando o imperador Kammu ordena a construção de Heian-Kyo (Cidade da Paz e da Tranquilidade), atualmente chamada Kyoto. Dura quatro séculos, até 1185, período Kamamura, a época dos samurais.

O período Heian médio conheceu uma cultura aristocrática, em que florescem a religião e as artes, em especial a literatura. Enquanto o povo vivia de forma ignorante e rude, a nobreza vivia no luxo e na ociosidade. O esteticismo chegou a requintes, sendo os homens não guerreiros como os do período posterior, mas dândis, femininos em suas maneiras.

Mulheres da corte

The Genji Monogatari Emaki, Chapter 50, "Eastern Cottage", Tokugawa Art Museum, 12th Century.

A escrita chinesa kanji era pronunciada de forma diferente, gerando símbolos fonéticos chamados kana. O hiragana era mais fácil, o katakana era suplementar. Cada um com cerca de 46 signos e dois diacríticos especiais.

As mulheres da corte não tinham o que fazer, então liam muito, mas não achavam interessantes as leituras. Então criaram sua própria literatura. A escreveram em transcrição fonética da língua que as mulheres falavam.

Glicínia

Lady Muraski Shikibu escreve a estória de Genji.

A mulher da época, para ser considerada elegante, tinha de ser bela, escrever com caligrafia elegante, saber música. Devia dominar a poesia, não só ler, mas saber interpretá-la, e criar suas próprias poesias. A necessidade de ter sensibilidade poética na corte Heian era uma obrigação, como o era ter espírito na corte de Luís XIV.

Murasaki Shikibu, nascida entre 970 e 978 e falecida por volta de 1020, foi chamada de To-Shikibu no século XI. To significando fuji, a glicínia, e shikibu, a profissão de seu pai, funcionário do Departamento de Ritos.

 

Estória de Gengi

 

Genji Monogatari Emaki, Chapter 37, “Flute”, Tokugawa Art Museum, 12th Century.

Diz a lenda que Murasaki escreveu A estória de Gengi, “num acesso de inspiração provocado pela contemplação da lua cheia”.[3] Isto teria ocorrido num retiro espiritual no Templo de Ishiyama, que ainda hoje conserva o “quarto de Gengi”.

O livro um de A estória de gengi, chamado A dama do pavilhão de flores roxas, conta do nascimento do filho da favorita do rei e sua ascensão a gengi. O gengi é um príncipe, filho de rei. Ao contrário de um herdeiro de sangue real (shinnô) não pode ascender ao trono.

Tankas

A tradução inglesa de Waley encaixa os pequenos poemas (wakas) como frases entre o texto, algumas vezes em itálico, noutras dentro do texto, ao passo que a tradução portuguesa de Oliveira destaca-os como tankas (poema curto de 31 sílabas, em metrificação 5-7-5-7-7).

Na transcriação a seguir, baseada no texto de Waley, optou-se por divergir da visão de Oliveira quanto ao sentido. Foi decidido também dar títulos aos tankas, alusivos às circunstâncias em que surgem na estória. E a fugir da metrificação 5-7-5-7-7, com adoção dos versos livres.

GENJI MONOGATARI Livro um

 

REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS:

 

DALBY, Lisa. A história de Murasaki. Trad. de Helena Cardoso.  Lisboa: Gótica, 2001. 487 p.

 

SHIKIBU, Murasaki. O romance do gengi. Tradução, prefácio e notas de Carlos Correia Monteiro de Oliveira. Lisboa: Relógio d’àgua, 2008. 367 p.

 

SHIKIBU, Murasaki. The tale of Gengi. Translation of the Lady’s Murasaki’s  masterpiece by Arthur Waley. London: George Allen & Unwin, 1965. 537 p. 4ª ed. Vol I.

 


[1] Investigadora do Centro de Estudos Clássicos da Universidade de Coimbra.

[2] OLIVEIRA, 2008, p. 9-16.

[3] DALBY, 2001, p. 483.

 

14 FICÇÃO | GENJI MONOGATARI – Livro um

Poema 1

Sussurros de favorita agonizante

pelo menos

através do desejado

nós fomos

porque vou sozinha

como queria viver[4

Poema 2

A criança desprotegida

ao som do vento

que cola o orvalho

na charneca de Takagi,

meu coração vai,

à deriva, no lilás[5]

Poema 3

Coro de grilos sob um céu sem nuvens

incessante

não pára nunca

grilo como sino

a noite toda –

lágrimas caem[6]

Poema 4

Resposta da avó aos grilos

sobre moitas

sussurrantes de insetos

orvalho-lágrimas

de quem vive

nas nuvens[7]

Poema 5

O destino do jovem principe

flor desprotegida do galho

em meio ao vento forte

selvagem e intocada

pelas mãos daqueles

que choram a morte[8]

Poema 6

Lamento ao ver o leque da favorita morta

um mago podia ir

e buscá-la,

por mensageiro ensinar-me

onde seu espírito

repousa[9]

Poema 7

Lágrimas do imperador sob a lua de outono

homens sobre as nuvens

deslizam

quando a lua

submerge

no céu[10]

Poema 8

A taça real

laços púrpura

simbolizam união

diz o pai,

olhando nos olhos

de dois jovens[11]

Poema 9

Réplica do ministro ao brinde real

nada pode dividir

união selada –

nem o desvanecer

de um dos lados

em púrpura[12]

___________________________________________________________________

[4] WALEY, 1965, p. 9.

[5] Id., ibid., p. 11.

[6] Id., ibid., p. 12.

[7] Id., ibid., p. 12-13.

[8] Id., ibid., p. 13-14.

[9] Id., ibid., p. 14.

[10] Id., ibid., p. 14.

[11] Id., ibid., p. 19.

[12] Id., ibid., p. 19.

 

 

 

14 KINEMA | FILMES REGISTRAM O JAPÃO EM LONDRINA

Cartaz do filme Haruo Ohara. Foto: divulgação.
A poesia é o fundamento dos  curta-metragens Haruo Ohara e Satori Uso, dirigidos pelo cineasta  Rodrigo Grota, tendo como foco personagens da história e do imaginário da comunidade japonesa de Londrina.
Os dois  filmes compõem a Trilogia do Esquecimento, série iniciada pelos curtas Satori Uso (2007) e Booker Pittman (2008) e finalizada por Haruo Ohara (2010),  somando  mais de 20 prêmios entre festivais nacionais e internacionais.
O filme sobre Haruo Ohara foi  rodado em julho de 2009 em Londrina e arredores. O elenco está repleto de descendentes de japoneses, interpretando o fotógrafo, a esposa  e seus nove filhos.  Satori Uso também aparece no filme.  As imagens reproduzem as fotos mais famosas de Ohara,  como a do lavrador que equilibra a enxada tendo ao fundo um céu imenso e a da menina que salta de uma escada de mão com a sombrinha aberta  – o bom observador pode notar que essa última foi “roubada” pelo diretor Vicente Amorim e pode ser vista no filme Corações Sujos. Além de reproduzir as imagens das fotos de Ohara, Grota também incluiu um video doméstico produzido pelo próprio fotógrafo.
Ohara morou na cidade a partir dos anos 30 a passou a se dedicar à fotografia de 1938 em diante.  No final de 1970 obtém os primeiros indícios de reconhecimento a sua obra. Antes de morrer, em 1999, viu montarem três exposições individuais sobre sua obra, uma em Londrina, em  1998, e duas em Curitiba, nesse ano e no ano  seguinte.
O filme presta reverência à imagem pura, que Ohara cultivou.  O silêncio, aliás, é uma estratégias narrativas do filme: os diálogos quase sempre são em japonês ou estão em off.
Satori Uso
Cena do filme “Satori Uso”. Foto: divulgação.

Como conta o poeta Rodrigo Garcia Lopes,  Satori Uso nasceu em 1985,   inspirado no zen-budismo e influenciado pelo haiku. Garcia Lopes inventou toda uma biografia para o poeta japonês,  que teria imigrado para Assaí, cidade perto de Londrina, nos anos 50, depois de ter vindo do Japão, ter convivido com os beats na California, e  perder toda a sua obra na viagem de navio para o Brasil.  Uso acaba recebendo um convite da família Akiro para trabalhar no sítio da família na cidade paranaense,   até ser descoberto como o grande poeta japonês desaparecido e  ser assediado por poetas que vinham a seu encontro em seu sítio.

Satori Uso  significa falso brilhante, ou iluminação mentirosa e brinca com conceitos do zen-budismo que se popularizaram no mundo a partir dos anos 60. Uso, por exemplo, prefere as sombras à luz,  vive em ambientes mal iluminados e até há uma cena no filme em que  está deitado ao lado de um aparelho de tevê dos anos 50.  As  sombras aludem  não apenas aos beatniks como também ao cinema e literatura noir, e as narrativas policiais americanas,  que começaram a ganhar o mundo depois da Segunda Guerra Mundial.
As duas produções  estão disponíveis no Youtube.  Veja aqui o filme sobre Haruo Ohara e aqui o de Satori Uso. (MK)

14 HAICAI | HAICAIS DA INDIA

Por Rafael Noris

India: foto de Rajiv Lather.

O haicai só nasceu no Japão, mas sua prática ocorre no mundo inteiro: isso não é novidade.

Em uma recente pesquisa que fiz, tive a oportunidade de conhecer o haicai praticado na Índia. É interessante que alguns poetas transformaram ele num terceto espiritualista, em contraponto com os tercetos espirituosos do Ocidente.

Neste estilo, vale conferir os poemas de Mohammed Fakhruddin, publicados em Haiku Self-Exploration:

O pior dos poderes
É o do dinheiro que compra
Favores de Deus.

A natureza não é livre
Assim são as aves e os pensamentos:
Escravos, assim somos.

A música é divina –
Seu sabor estético é melhor
que o do vinho ou da mulher.

Sem julgar o valor literário deles como tercetos, é claro que comohaicais eles falham: são moralistas e se encaixam muito mais no gênero dos aforismos. Mas isso tem uma desculpa, e quem dá é Angelle Deodhar: na Índia, não há associações ou grêmios onde possam estudar.

Claro que ninguém depende destas organizações para compreender o haicai (embora não seja possível negar a importância delas na divulgação e teorização do haicai).

Kala Ramesh.

Nestas minhas caminhadas pela web tive o prazer de conhecer os versos de Kala RameshRajiv Lather e da própria Angelee Deodhar, estes sim bons haicais que faço questão de compartilhar com vocês.

Haicais de Kala Ramesh:

silenciosamente
recebo as boas-vindas –
mangueira em flor

chuva de inverno –
mais fria que nunca
a tigela de arroz.

moscas
até dentro do templo:
issa

lua de verão –
a espuma branca da onda
dá brilho ao rochedo

Haicais de Rajiv Lather:

fim da primavera –
a velha acácia
continua sem folhas

tarde da noite –
me dirijo ao banheiro
pra terminar o livro

sesta de verão –
em sua quinta tentativa,
a mosca é morta

noite fria –
o apito da chaleira
cala o trem distante

Haicais de Angelee Deodhar:

uma brisa suave –
no banho do pássaro
a lua tremula

ameixeira em flor
entra e sai da sombra do Buda
um par de esquilos

súbito blecaute –
tantos vagalumes
no jardim de casa…

explico ao mestre
meu atraso para o zazen –
a borboleta branca…

***

Saiba mais sobre:

Kala Ramesh – em Tanka Online
Rajiv Lather – em Haryana Online
Angelee Deodhar – em World Haiku

Publicado originalmente aqui.

Rafael Noris é poeta e blogueiro, escreve no Hai-kais.


NOTÍCIA | OSCAR NAKASATO É INDICADO AO JABUTI

 

Jabuti é o terceiro prêmio que Nakasato concorre com Nihonjin.

O romance Nihonjin , de Oscar Nakasato, publicado pela Editora Benvirá (Saraiva) é um dos finalistas do Prêmio Jabuti de Literatura 2012. Nakasato, que é professor na Universidade Tecnológica Federal do Paraná (UTFPR), em Apucarana, é natural de Maringa, cidade do norte do estado do Paraná.

O livro, que conta a  história de um imigrante japonês no Brasil,  Hideo Inabata, foi publicado por ter vencido o Prêmio Benvirá de Literatura, em 2010. Em 2011, obteve o Prêmio Literário Nikkei, instituído pelo Bunkyo de São Paulo.

Os  livros que concorrem ao Jabuti foram publicados no Brasil entre 1º de janeiro e 31 de dezembro de 2011. Só o primeiro lugar ganha o prêmio de R$ 3.500. Os segundos e terceiros colocados levam a estatueta do Jabuti.

Os três vencedores de cada categoria serão revelados no dia 18 de outubro. Na premiação, em 28 de novembro, serão conhecidos os dois melhores livros publicados em 2011 em Ficção e Não Ficção – eles ganham R$ 35 mil cada um. (Com informações de O Estado de S.Paulo).