LITERATURA | A COZINHA LITERÁRIA DE BANANA YOSHIMOTO

Kitchen apresenta a visão de um Japão moderno num relato que coloca personagens insólitos em dramas cotidianos, narrados com sobriedade e sutileza

Por Ignácio Dotto Neto

Em novembro de 1987, um livro com título em inglês escrito por uma garçonete de 24 anos, filha de um intelectual de esquerda vence o 6o Concurso Kaien de novos escritores no Japão.  Em janeiro de 1988, esse mesmo livro vence o 16o Concurso Izumi Kyoka. Em 1997, o cineasta Yim Ho, de Hong Kong, adapta a obra para o cinema e a uma versão para a televisão, feita pela TV japonesa. Estamos falando de Kitchen, de Banana Yoshimoto, livro que já foi traduzido em mais de 20 idiomas desde seu lançamento.

A escritora japonesa Banana Yoshimoto.
A escritora japonesa Banana Yoshimoto.

Banana Yoshimoto é o pseudônimo literário de Mahoko Yoshimoto, filha de Takaaki Yoshimoto – um dos mais famosos intelectuais japoneses de esquerda da geração 1960 – e irmã da cartunista Haruno Yoiko.

Uma leitura apressada poderia resumir Kitchen como uma combinação leve de melodrama com mensagens de otimismo.Mas Kitchen é mais que isso. A começar pelo título, em inglês ao invés da palavra japonesa, daidokoro. É como uma placa que indica uma fronteira: a partir daqui, não espere um Japão tradicional, com cozinhas onde há sempre uma chaleira esquentando sobre um fogão a lenha e os utensílios são feitos de bambu. Um dos personagens é consumista de produtos eletro-eletrônicos,  outro odeia tofu, quando a personagem principal pousa na casa dos amigos, eles lhe oferecem o sofá para dormir, não o tradicional futon.

Mikage Sakurai é uma jovem universitária que perdeu os pais quando era muito pequena e foi criada pelos avós. A narrativa começa quando Mikage perde sua avó, a última de seus familiares, e vai morar na casa de Eriko Tanabe, uma viúva dona de um clube noturno e Yuichi, seu filho adolescente. Logo Mikage descobre que Eriko é na verdade o pai de Yuichi, que resolveu mudar de sexo quando faleceu a esposa para poder educar melhor o filho.

Toda a história é contata pela ótica de Mikage e é aí que está o encanto do livro. O que Kitchen tem a apresentar ao leitor não é um enredo cheio de peripécias e surpresas ou mirabolantes reflexões metafísicas, é a maneira como Mikage observa o mundo e reflete sobre ele e sobre sua própria situação, seu “estar no mundo”. O olhar de Mikage é singelo, um pouco adolescente, mas em cuja singeleza e limpidez se refletem temas quotidianos e ao mesmo tempo profundamente humanos, singelamente humanos: a convivência com a morte, a perda e a solidão. A trajetória do personagem principal é uma sucessão de perdas. O filosofar de  Mikage-chan, embora sejam esboços de respostas a questões fulcrais da existência, não é um sistema retoricamente elaborado. É um modo de olhar para o mundo de um modo singelo. Entre uma perda e outra, mesmo nas cenas de pathos mais intenso, o a personagem nunca se perde em divagações ou nos sentimentos, mesmo angustiantes, ela sempre apresenta  descrições do céu, da paisagem. O tempo da personagem é o futuro, uma vez que o presente se apresenta como uma imensa solidão. Mas é um futuro no qual  se aposta por pureza, não por convicções heróicas ou idealismo apaixonado. A cena final, onde poderíamos ver um “happy end” melodramático é apresentada como uma possibilidade, remota ou não de um futuro que leva o indivíduo ao contato com o outro.

Capa do livro "Kitchen".

Capa do livro “Kitchen”.

Mas por trás desse olhar singelo de uma personagem adolescente se encontram referências culturais de raízes mais profundas. A instituição família é   o tempo todo questionada ou mesmo desacreditada, os personagens são todos ‘deserdados’ e sem laços familiares. Vale lembrar aqui das observações de Takaaki Yoshimoto em “A Comunidade ilusória” (Kyozo Gensoron) feitas nos anos 1960 sobre família e nação.

Uma manhã, após beber seu suco de grapefruit Mikage Sakurai pensa consigo mesma:

Guardo comigo uma sensação indefinível, que as palavras poderiam dissolver. Há tanto caminho pela frente. Talvez na sucessão das noites e das manhãs que virão, até este momento se transforme num sonho.

É evidente a citação, do início de Sendas de Oku (Oku no Hosomichi), de Matsuo Bashô:

Os meses e os dias são viajantes da eternidade. O ano que se vai e o que vem também são viajantes. […] Pensei nos  três mil ri de viagem que me aguardavam e meu coração se oprimiu. Enquanto via o caminho que talvez ia nos separar para sempre nesta existência que é como um sonho […]

Em outro momento de reflexão, Mikage estendida no sofá, pensa nas pessoas que perdeu e em seguida observa o céu:

As pessoas verdadeiramente importantes emitem uma luz que aquece o coração de quem vive ao lado delas. […] Talvez a luz de Eriko fosse de pequena grandeza. […] No céu, na direção do ocidente, começavam a juntar-se nuvens escuras, levemente alaranjadas nas bordas pelo pôr-do-sol. Logo cairia a noite lenta e fria, penetrando fundo no coração.

A referência aqui é uma canção infantil (Yuhi, Makaka ka sora no kumo / Minna no kaomo makaka) e a evocação desta canção apenas ressalta o sentimento de completa solidão da personagem. Ao contrário da canção que compara as nuvens avermelhadas do anoitecer ao rosto das pessoas, aqui há apenas a solidão junto à personagem.

No Brasil, Kitchen é o único livro de Banana Yoshimoto publicado. A tradução foi feita não a partir do original japonês, mas da edição italiana.  Até a metade da história, os personagens sempre bebem “taças de chá”, só na segunda parte é que começam a usar xícaras. Isso não é mais um detalhe da  peculiaridade dos personagens. É a tradução apressada de um falso amigo: “tazza” em italiano é a palavra usada para designar xícara.

Kitchen foi o único livro de Banana Yoshimoto publicado no Brasil pela Editora Nova Fronteira, em 1988, traduzido por Julieta Leite. Em Portugal foram publicados A Última Amante de Hachiko, Adeus, Tsugumi, Arco-Iris e Lua de Mel, todos pela Cavalo de Ferro.

Ignácio Dotto Neto é mestre em Teoria da Literatura da Unicamp, pesquisador e tradutor.

LITERATURA | Considerações sobre Tradução de Literatura Japonesa

Durante bom tempo traduções de literatura japonesa chegavam ao público brasileiro através de versões intermediárias. Em alguns casos tratava-se de tradução de quarto ou quinto grau. A partir dos anos 90, com o pioneirismo de Leiko Gotoda, que traduziu o épico Musashi, tudo começou a mudar: melhor para os leitores e para a arte.

A publicação de escritores japoneses em português vive um momento de  efervescência no mercado editorial brasileiro, com a predominância de traduções diretamente do japonês. Até o início dos anos 90 a maioria das traduções era indireta, de idiomas como o inglês e o francês. Além disso, no caso principalmente das edições norte-americanas, o texto era cortado e apenas as partes consideradas mais adequadas para o público leitor desses países eram conservadas. Assim, o leitor brasileiro estava sujeito a receber uma obra incompleta e voltada para um leitor diverso.

Isso é coisa do passado e lá se vai pouco mais de uma década desde que ocorreu a virada nas traduções do japonês no Brasil, com o lançamento, em 1998 e 1999, do romance em dois volumes Musashi (Miyamoto Musashi em japonês). Este romance épico de Eiji Yoshikawa, narra a vida deste famoso samurai que viveu nos séculos 16 e 17. E foi traduzido diretamente do japonês por Leiko Gotoda que, inicialmente, destinou a obra apenas aos filhos. Esta edição lançada pela Estação Liberdade é um marco não apenas para o contexto literário brasileiro, por ser a primeira a conter o texto integral de Yoshikawa em uma tradução feita no Ocidente.

Nesses dez ou onze anos, muitos títulos apareceram no mercado, aproximando dos leitores brasileiros vários prosadores de origem japonesa, como Yasunari Kawabata (Prêmio Nobel de Literatura, 1968), Junichiro Tanizaki, Yukio Mishima, Ryu Murakami, Kenzaburo Oe (Prêmio Nobel de Literatura, 1994), Haruki Murakami e o contista Ryunosuke Akutagawa. Não é difícil, também, encontrar mais de um título por autor – Kawabata (7), Tanizaki (7), Yukio Mishima (3) e Oe (3 livros) – podendo-se perceber o estilo individual de cada escritor. Este momento editorial propício abre espaço também alguns escritores japoneses menos conhecidos no país, como Genichiro Takahashi (Sayonara, Gangsters, Ediouro), Hitomi Kanehara (Cobras e Piercings, Geração Editorial) e Soseki Natsume (Eu sou um gato, Estação Liberdade).

Alguns nomes de tradutores se destacam nessa nova realidade. Além da precursora Gotoda (sobrinha de Junichiro Tanizaki), podemos destacar Meiko Shimon, Jefferson José Teixeira, Dirce Miyamura, Neide Hissae Nagae, Shintaro Hayashi, Madalena Hashimoto e Junko Ota. Vários deles relacionam-se com professores e/ou graduados em alguma das universidades com graduação de letras com habilitação em japonês ou do mestrado na área, existente na USP-SP. Cada um com seu estilo de tradução, mas com igual competência e conhecimento das duas línguas envolvidas, o japonês e o português.

Esse é um ponto crucial em uma tradução bem feita, não apenas o conhecimento da língua em que o texto foi escrito, mas um conhecimento igual ou superior da língua para a qual deve ser traduzido. Isso porque a tradução deve englobar duas realidades complexas: o conteúdo e o estilo do escritor, no caso em japonês e, também, uma forma de transmitir as informações também na língua para a qual o texto deve ser traduzido, ou seja, em português brasileiro. Sem isso, entende-se o significado, mas fica-se com a impressão de que o texto contém sentenças que não são usuais na nossa língua, e isso é bem desconfortável para o leitor.

Apesar da maioria desses títulos ser traduzido por um único tradutor, verifica-se, também, mas em menor número, a existência de traduções em conjunto. Há duas maneiras pelas quais isso pode ocorrer, a primeira é resultado do estudo conjunto de dois ou mais tradutores. Isso pode ser interessante, porque duas mentes se debruçam sobre o texto, em vez de apenas uma. A tradução do livro Rashômon e outras histórias, de Ryunosuke Akutagawa (de 1992 e, portanto, anterior ao boom da tradução japonesa), parece ter sido feita dessa maneira, porque os textos mantêm uma unidade textual.

Entretanto, há outra possibilidade, por uma necessidade de traduções em um curto espaço de tempo, os tradutores podem dividir o trabalho. O romance As irmãs Makioka (Estação Liberdade, 2005) foi traduzido por Leiko Gotoda, Kanami Hirai, Neide Hissae Nagae, Eliza Atsuko Tashiro. Esse formato de tradução foi exigência da editora. O que, a princípio, parece um grande esforço de vários profissionais no sentido de empreender uma tradução mais cuidada, tem o resultado contrário. Como cada tradutor ficou a cargo de aproximadamente um capítulo, a unidade do texto foi um pouco prejudicada. Assim, a tentativa de devolver um mesmo ritmo ao texto ficou a cargo da revisão de tradução.

É preciso equilibrar as questões de mercado com a qualidade da tradução. Por outro lado, esse dilema na adequação entre as exigências editoriais e a necessidade de boas traduções é uma discussão que permeia o processo com relação a outras línguas, como o inglês e o francês. Assim, o fato desta discussão surgir também no que se refere ao japonês apenas atesta que as traduções de títulos desse idioma alçaram o mesmo patamar ocupado pelas traduções em geral.

Dentro da nova realidade da literatura japonesa no Brasil, algumas editoras investiram entusiasticamente neste novo segmento. Além da já citada Estação Liberdade, que reserva a metade de seus lançamentos para a literatura japonesa, a Companhia da Letras é uma das que mais investiram nesse novo filão, tendo lançado vários títulos de escritores japoneses. Também a Editora Globo, a Geração Editorial e a Ediouro lançaram títulos de escritores japoneses.

Diferentemente da situação até meados da década de noventa, os lançamentos recentes são tantos que não podem ser encontrados na maioria das livrarias ou bibliotecas. Como a gama de títulos é bastante numerosa, funcionários especializados em literatura do extremo oriente, particularmente as literaturas japonesa e chinesa, foram contratados em alguns estabelecimentos. Um deles é a Livraria do Chain, atrás do prédio da Reitoria da Universidade Federal do Paraná. Lá, os livros de escritores desses dois países estão dispostos em prateleira separada e a atendente Amanda é a responsável por eles.

Além da intermediação direta feita por uma funcionária, outra maneira prática de escolher, dentre este leque de opções, é acessar a internet antes de se dirigir a uma loja. Duas indicações úteis são os sites das livrarias Cultura (www.livrariacultura.com.br) e Travessa (www.livrariatravessa.com.br), que possuem muitos destes volumes. Um recurso interessante no primeiro desses sites é o acesso ao primeiro capítulo de alguns livros, uma espécie de aperitivo que incita a continuidade da leitura e equivale a folheá-los diretamente na livraria, sem deixar o conforto de nossas casas.

ENTREVISTA 1| Fernanda Takai

Seu primeiro flerte com o Japão veio com a música “Made in Japan”, sátira à mania tecnológica japonesa. A partir daí Fernanda Takai começou a estreitar o relacionamento com a terra dos avós paternos : fez shows lá, gravou uma versão de “O Barquinho”, em japonês e agora está lançando um trabalho em parceria com a vocalista da banda japonesa Pizzicato Five.

Com a voz doce, afinada e com uma personalidade inconfundível, Fernanda Takai  tem conquistado fãs nas mais diversas faixas etárias. Suas canções infantis cativam e envolvem os pequenos com a melodia suave e cheia de afeto. Adolescentes, jovens e adultos se identificam com a banda multinstrumental Pato Fu, da qual Fernanda é vocalista. Takai-san começou a cantar em 1988 e em 1991 se reuniu com os músicos no que seria mais tarde o Pato Fu. A banda, caracterizada por um pop rock criativo e contundente, brinca com as diversas sonoridades em arranjos incríveis e alcançou merecido sucesso no cenário musical.

Em 2007, após convite do produtor e jornalista Nelson Motta, Fernanda se lança em carreira solo com o CD Onde Brilhem os Olhos Seus, um tributo a Nara Leão, que já fazia parte da sua memória musical. O CD foi bem recebido pelo público e pela crítica, sendo eleito um dos melhores lançamentos do ano.

É assim que essa artista tão versátil foi considerada uma das 10 melhores cantoras do mundo fora dos EUA, segundo a Revista Times. A banda Pato Fu também levou junto o mesmo prêmio. Dessa forma, vão-se acumulando os diversos prêmios, o mais recente da MTV, como melhor cantora de MPB e o melhor clipe para Kobune.

Mas o universo de Fernanda Takai não gira só em torno da música. Em 2008 lançou o Nunca Subestime uma Mulherzinha, coletânea de contos e crônicas publicados pela autora nos jornais CORREIO BRAZILIENSE e O ESTADO de MINAS, em Belo Horizonte.

Fernanda, de descendência japonesa, despertou para o idioma já adulta. Em férias com seu Oditchan e Obatchan, tinha um maior contato com a cultura, comida e costumes, mas sempre foi, segundo ela, de forma muito natural e o interesse no idioma aumentou depois de uma visita ao Japão em 2007. Agora, depois de lançar o CD e DVD ao vivo Luz Negra, Fernanda está produzindo um novo CD em parceria com Maki Nomiya (ex vocalista do Pizzicato Five).*

JORNAL MEMAI – Quando surgiu a idéia de gravar músicas em japonês?

FERNANDA TAKAI – A primeira vez foi em 1999. O Pato Fu já tinha feito músicas em inglês, italiano, espanhol, francês e justo eu que sou neta de japoneses não tinha tido essa idéia. Então surgiu Made In Japan. A letra foi feita em português e depois traduzida pro nihongo.

MEMAI – “Made in Japan”, um grande sucesso da banda teve alguma espécie de inspiração ou foi homenagem a alguém?

FERNANDAA letra fala da vingança tecnológica do Japão depois de sofrer com as guerras e especialmente com a bomba atômica. O assunto é muito sério, mas tocamos nele de uma forma mais leve, bem-humorada. Já no som, o arranjo é totalmente inspirado no Pizzicato Five.

MEMAI – Como foi a escolha da música “O Barquinho” para tradução em “Kobune”? Você acredita que a bossa nova também tem a cara do Japão?

FERNANDA -Essa era uma das canções que eu poderia ter gravado na edição brasileira do disco, mas como representantes da bossa nova já havia Insensatez e Estrada do Sol. Eu e Nelson escolhemos canções de todas as fases da Nara, não só essa pela qual ficou mais conhecida. Quando o disco ia sair no Japão, precisava ter uma faixa bônus, então pensamos em O Barquinho, porque é uma das mais famosas e não tinha uma versão em nihongo. A bossa nova ainda é muito querida em vários lugares do mundo e os japoneses talvez sejam um dos povos que mais gostam desse tipo de música. Acho que combina sim.

MEMAI – Por que você decidiu lançar um EP** e não um CD do Pato Fu com a banda japonesa de Maki Nomiya ?

FERNANDA -O EP saiu em outubro, pela Taiyo Record em parceria com a Road & Sky. É um projeto solo meu e da Maki, não é Pato Fu. O EP é um formato que dá certo comercialmente no Japão e para uma primeira experiência juntas, era mais viável em termos de produção, tempo e orçamento. Aqui no Brasil sairá apenas em formato digital.

MEMAI -Maki Nomiya citou vocês como uma banda estilo shibuyakei, Poderia nos explicar esse estilo e como o Pato Fu se insere neste contexto?

FERNANDA -Quando fizemos nosso arranjo de Made In Japan, usamos o máximo de elementos com referência ao Pizzicato Five que é considerada a banda mais famosa do estilo shibuyakei. Esse tipo de som se traduz numa banda que tem bastante estilo, é moderna, cuida muito da parte visual do trabalho (clipes, shows, capas) e transita entre um público um pouco mais sofisticado. Por algumas vezes o Pato Fu foi tido como uma banda assim, meio cultuada aqui no Brasil.

MEMAI -De que forma você  consegue conciliar ser escritora, vocalista do Pato Fu e sua carreira solo?

FERNANDA -Eu administro bem o meu tempo, sou uma pessoa muito disciplinada e tenho bom-humor no dia a dia. Isso ajuda bastante nessas multitarefas. Ainda tenho uma filha de 6 anos e gosto de cuidar da casa!

MEMAI -Escrever um livro e crônicas para jornal foi um acaso ou a literatura sempre esteve presente em sua vida ?

FERNANDA -Comecei a escrever por causa do convite de outras pessoas. Não pensava em ter uma coluna em dois jornais ou escrever textos pra diversas publicações do Brasil. Foi tudo por acaso. O livro é uma compilação dos textos mais significativos entre 2005/2007. Já tenho o dobro deles agora. Sempre fui mais leitora do que escritora. E sinceramente, ainda continuo assim. Essa minha outra atividade tem só 4, 5 anos. Na música me sinto mais à vontade porque já são 17 anos de carreira.

MEMAI – Em seu livro você aborda com ternura as relações com seus avós japoneses. Como eles influenciaram sua formação como artista ?

FERNANDA -Acho que me influenciaram mais como pessoa mesmo e já que a música vem dessa nossa bagagem de sensibilidade, atenção, observação, recriação e rearranjo de elementos diversos, a presença da minha família, não só  do lado oriental, mas também a da minha mãe – que é de origem portuguesa – me faz ser o que sou.

MEMAI -Sabemos que você tem frequentado nihongakko, como surgiu essa necessidade?

FERNANDA -Frequentei a escola no primeiro ano e depois fiquei tomando aulas particulares. Tenho até  estado afastada das aulas desde o fim de maio porque minha agenda ficou bem complexa. Não gosto de ir à aula, sem estudar, é preciso fazer direitinho as lições. Então combinei com minha sensei que assim que tivesse mais disponibilidade, voltaria à ela. Daí eu faço uma revisão sozinha por uma semana e volto ao ritmo normal. Tive vontade de aprender o idioma quando estive pela primeira vez no Japão. Gostei demais do país e das pessoas e achei que sendo neta de japoneses tinha a obrigação de conhecer mais sobre a cultura. Nada como estudar a língua pra conhecer melhor um povo.

MEMAI – Você se considera uma nikkei? Como isso influencia no seu modo de vida?

FERNANDA -Sim, desde o uso do meu nome verdadeiro profissionalmente à admiração que tenho por minhas origens nipônicas. Gosto muito de pensar que tenho algumas das qualidades de um nikkei como a responsabilidade e dedicação verdadeira ao trabalho e à família. Agora os defeitos devo ter também, mas não precisamos listá-los, não é? Tento ser sempre uma pessoa correta e ao mesmo tempo me sinto feliz com tudo o que vou realizando aos poucos.

Discografia Pato FU

Rotomusic de Liquidificapum (1993)

Gol de Quem? (1995)

Tem Mas Acabou (1996)

Televisão de Cachorro (1998)

Isopor (1999)

Ruído Rosa (2001)

MTV Ao Vivo No Museu da Pampulha (2002)

Toda Cura Para Todo Mal (2005)

Daqui Pro Futuro (2007)


Discografia Fernanda Takai

Onde Brilhem os olhos seus (2007)

Luz Negra: ao Vivo ( 2009 )

Livro

Nunca Subestime uma Mulherzinha, Panda Books, 2008

* Pizzicato Five – banda pop japonesa ativa de 1985 a 2001. Propagou o estilo shibuya-kei. Maki Nomiya entrou na banda em 1991.

** EP: formato digital que comporta entre 4 e 8 faixas de gravação musicail, com duração média de 15 a 35 minutos.

POP | Mangá para Meninas

Enquanto no Japão as revistas Shoujo servem de vitrine de inúmeras propagandas para as adolescentes, no Brasil essas mesmas estórias fazem com que as meninas leiam mais quadrinhos.

* O artigo a seguir também foi publicado no Almanaque Shoujo Mangá – O Pode da Sedução Feminina (Editora Escala, 2009)

Apesar de boa parte das meninas ler A Turma da Mônica durante a infância, a maioria delas afasta-se dos quadrinhos na adolescência. Ou melhor, afastava-se. Com o boom dos mangás no Brasil, notou-se um fenômeno muito interessante e que nada tem a ver com samurais, ninjas ou violência: as adolescentes começaram a ler mangás. Isso porque o mercado de mangás é bastante segmentado, ou seja, são publicadas histórias para todos os gostos e idades. O estilo Shoujo, voltado para meninas entre 10 e 18 anos, é capaz de prender a atenção de qualquer adolescente no mundo, por contar romances cheios de magia e dramas psicológicos – bem ao gosto da idade.

O primeiro contato com o estilo Shoujo que as meninas tiveram foi através dos animês. Séries como Guerreiras Mágicas de Rayearth e Sailor Moon, exibidas em canais abertos na década de 90, foram bem recebidas pelo público. É interessante observar que essas histórias possuem em seu enredo elementos mágicos, bastante fantasiosos, como Dragon Ball e Cavaleiros do Zodíaco, por exemplo. Apesar de voltadas para meninas, havia uma preocupação em apostar em animações além de meros dramas psicológicos.

Mangás como Sakura Card Captors e Guerreiras Mágicas de Rayearth foram alguns dos primeiros voltados para as adolescentes, ambos recheados de magia e estórias de fácil compreensão. Os animês sempre foram o termômetro para a publicação ou não de um mangá por aqui. No entanto, atualmente muitos dos títulos de Shoujo lançados no Brasil nunca tiveram as versões animadas exibidas.

Ao todo foram publicados cerca de 30 títulos. Esse número tende a aumentar ainda mais. Muitos, como Nana, Kare Kano, Ouran High School Host Club, nunca foram exibidos nem em canais pagos nem em TVs abertas. Mesmo assim, esses e outros mangás chegaram aqui e fizeram sucesso entre as meninas, atraindo-as para o universo dos quadrinhos, já que algumas delas acabam descobrindo novas possibilidades de leitura através dos mangás.

Assim como os espectadores de telenovela, as adolescentes esperam ansiosamente pelos próximos capítulos da estória – cuja publicação pode ser mensal ou bimestral. No mangá Sunadokei, a heroína, An Uekusa, passa por uma série de traumas na infância (separação dos pais, suicídio da mãe) e não sabe bem como lidar com as situações que vão aparecendo na vida. Para ajudar, é obrigada a mudar de cidade, separando-se do namorado. Também descobre que seu melhor amigo é apaixonado por ela, o que a faz sentir-se dividida. Qualquer semelhança com folhetins televisivos não é mera coincidência, os elementos para se contar uma estória de sucesso são universais, o que muda é a mídia.

Outro exemplo é Kare Kano, que começa com a história da divertida Miyazawa Yukino, uma menina que se finge de perfeita só para inflar o próprio ego e não admite que ninguém seja mais popular que ela. A situação muda quando encontra Arima Souichiro, um rapaz que aparentemente não faz nenhum esforço para se destacar e ainda por cima declara-se para ela. Depois de alguns desencontros eles ficam juntos e os dramas psicológicos ganham mais destaque, criando mistérios e histórias paralelas, assim como numa novela.

Alguns desses títulos, como Colégio Feminino Bijinzaka e Galism podem não agradar as fãs de Sunadokei ou Kare Kano, mas estão conquistando novas leitoras: as mesmas  que lêem revistas de horóscopo, por exemplo. A heroína de Colégio Feminino Bijinzaka, En Nomomiya, é atrevida, revoltada e se mete em confusões, fazendo contraste interessante com o que é mostrado sobre as jovens em outros mangás Shoujo – comportadas, apaixonadas e sofredoras.

Uma personagem como En Nomomiya é mais parecida com uma adolescente brasileira do que An Uekusa, que mais se parece com uma jovem japonesa. A imagem de uma mulher decidida e independente está mais próxima de nossa realidade que a da moça submissa e indefesa, motivo pelo qual algumas leitoras deixarem de gostar do estilo Shoujo ao atingirem certa maturidade. Portanto é provável que mais títulos como Colégio Feminino Bijinzaka apareçam nas prateleiras tupiniquins.

Em contrapartida às estórias em que o enredo é mais próximo da nossa realidade, não faltam títulos mais fantasiosos e cheios de magia para embalar os sonhos das adolescentes. Vampire Knight, por exemplo, tem como heroína Yuuki Cross, adotada pelo diretor de uma escola para vampiros e não tem outra opção senão conviver com eles. A garota faz parte de um triângulo amoroso, uma vez que dois vampiros parecem ser apaixonados por ela, e muitos outros querem beber seu sangue.

Com as facilidades da Internet, as fãs de Shoujo reúnem-se e trocam idéias em  comunidades de sites de redes de amigos, blogs, fóruns, mensagens instantâneas ou quaisquer outros meios de comunicação online. A comunidade do Orkut CLAMP Brasil conta com mais de 15 mil membros – uma das maiores na rede sobre o assunto.

Por ser um nicho vasto é quase impossível enumerar todas as estórias e estilos relevantes. Independente da proximidade com o universo real, é importante ressaltar que os Shoujos são estórias capazes de gerar certa reflexão por parte das leitoras, por conter tramas carregadas de temas comuns a todos: amor, família, separação, sexualidade, futuro, etc. A experiência da leitura é rica e prazerosa, além de ter o dinamismo característico dos mangás. Portanto, se você ainda não conhece o estilo Shoujo é só ir até a banca mais próxima e procurar por um dos vários mangás do gênero já publicados no Brasil. E tenha uma boa leitura!

HAICAI | Haicai no Paraná

O haicai no Brasil teve duas escolas, uma vinda da Europa, introduzida por Afrânio Peixoto e outra, do Japão, trazida por Nenpuku Sato. A via francesa, seguida por Afrânio Peixoto, ganhou muitos adeptos e o mais famoso discípulo é Guilherme de Almeida. As duas escolas geraram vários outros estilos. Neste artigo, o poeta José Marins situa o haicai no Paraná e mapeia os estilos da forma poética japonesa que se tornou expressão nacional.

Artigo de José Marins, haicaísta e escritor, autor de Poezen (haicai); Quiçaça (romance inédito); O Dia do Porco (romance inédito)

O primeiro haicai feito no Brasil tem raízes japonesas. Foi realizado a bordo do Kasato-maru, navio que trouxe a primeira leva de imigrantes do Japão. Em 18 de junho de 1908, o poeta Hyokotsu (Shuhei Uetsuka, chefe dos imigrantes), escreveu:

karetaki o / miagete tsukinu / iminsen  

A nau imigrante
chegando: vê-se lá no alto
a cascata seca.

(Tradução Masuda Goga)

O ESTILO JAPONÊS

O estilo japonês de fazer haicai chega ao Paraná com os primeiro migrantes que saíram do estado de São Paulo e se fixaram no Norte (Londrina, Assai, Urai). O haicai continuará sendo escrito em japonês nas aulas de um mestre da arte haicaística: Nenpuku Sato.

As características do estilo japonês são: ser vivencial (o poeta registra as sensações junto à natureza), sempre em língua japonesa, mantém na estrutura 17 sons, contém o termo de estação (kigo), não trazem rimas e uso de uma linguagem simples.

Alguns haicais de NENPUKU :

A lua se insinua
na alvura perfumada
do cafezal florido

Sementes de algodão.
Minhas mãos agora
são as do vento

Mudou a moça
que tira a água do poço –
uma borboleta.

Haicais de alunos de Sato:

Depois dos sessenta
minha voz está tranqüila.
Mesma voz do outono.

Mitio Suguimoto (Londrina)

Outra primavera
Com novo anel de guizo
cobra sai da toca

Shinshiti Minowa (Londrina)

Hoje é Carnaval
O quimono também serve
como fantasia.

Shigeo Watanabe (Assai)

Parada de trem.
com o vendedor de flores
Vêm as borboletas

Sôshi Nakajima (Assai)

Estalos no alto,
Ouço o som de pinhões caindo
na tarde de sol.

Seizo Watanabe, (Curitiba)

 

O ESTILO KOLODYANO

 

Em 1941 a poeta Helena Kolody se torna a primeira mulher a publicar haicai no Brasil, ao lançar o livro Paisagem Interior, no qual havia três haicais. Destaco um deles, famoso:

Arco-íris

Arco-íris no céu.
Está sorrindo o menino
que há pouco chorou.

Helena Kolody (Curitiba)

Características do haicai kolodyano:

Usa: título (elemento que não existe no estilo japonês); às vezes a métrica; noutras a rima; a personificação (antropomorfismo); e a linguagem poética (uso da metáfora).

A maneira marcante de Kolody realizar seus haicais teve grande influência em alguns poetas.

Geada

Nas manhãs de frio
a paisagem, tiritando,
se veste de branco

Delores Pires (Curitiba):

Renovação

Pessegueiro em flor
Prenúncio de primavera
Reprise de amor.

Diva Ferreira Gomes (Curitiba):

Noite

No quadro-negro
vou soletrando
um alfabeto de estrelas

João Manuel Simões (Curitiba):

O ESTILO GUILHERMINO

 

Guilherme de Almeida foi um dos poetas que mais auxiliou na divulgação do haicai no país. Porém, sua maneira de fazer haicai distanciou-se muito da origem do poema. (O que não quer dizer que isso fosse ruim. Os japoneses adoram os haicais guilherminos, um deles era o mestre Masuda Goga, amigo pessoal de Almeida).

Guilherme de Almeida criou um modelo para se fazer o haicai, no qual entrava a métrica perfeita e quatro rimas. Duas combinavam-se no final do primeiro verso, com o final do terceiro. E duas, internas, rimavam-se a segunda sílaba com a sétima no segundo verso.

GUILHERME DE ALMEIDA:

O “haicai”                                                                             O esquema:

Lava, escorre, agita                                                         – – – –  A

a areia. E, enfim, na bateia                                            –  B – – – –  B

fica uma pepita.                                                               – – – –  A

Pescaria

Cochilo. Na linha
Eu ponho a isca de um sonho.
Pesco uma estrelinha.

História de algumas vidas

Noite. Um silvo no ar.
Ninguém na estação.E o trem
passa sem parar.

Características do estilo guilhermino:

Coloca acima do terceto um título; usa métrica exata; inclui quatro rimas elaboradas; sua linguagem é a do poema (personificação, metáfora).

Alguns poetas que praticam o haicai Guilhermino no Paraná:

Temendo o negrume
da mata ao som da cascata,
sigo um vaga-lume.

Leonilda Hilgenberg Justus (Ponta Grossa)

Fraternidade

Chuva de verão.
Na luz, a jovem conduz
o avô pela mão.

Shyrlei Queiroz (Curitiba)

Maresia

O dia fugindo
No ar um cheiro de mar.
A noite vem vindo.

Delores Pires (Curitiba)

O ESTILO HAICAI-LIVRE (Free-haiku)

Paulo Leminski é quem encarna o principal líder desta forma, que nos anos 80 dominou a cena poética paranaense (curitibana, principalmente). Leminski tinha grande admiração pela cultura e literatura japonesas. Porém, quando praticava o haicai preferia um estilo livre, sempre portador de “haimi” (sabor do haicai).

As principais características do estilo livre:

Não usa métrica; pode usar rimas; busca o haimi; faz jogo de palavras; e, usa linguagem poética (metáforas, especialmente).

soprando esse bambu
só tiro
o que lhe deu o vento

jardim da minha amiga
todo mundo feliz
até a formiga

lua na água
alguma lua
lua alguma

Paulo Leminski (Curitiba)

amigo grilo
sua vida foi curta
minha noite vai ser longa

entre a espuma do mar
e a nuvem toda branca
o voo da garça

Alice Ruiz (Curitiba)

tempo de jaboticaba
nem bem começa
já acaba

Domingos Pelegrini (Londrina)

cheguei amargo
minha flauta doce
nem se toca

Eduardo Hoffman (Curitiba)

O ESTILO CLÁSSICO (tradicional)

Em 1987, Masuda Goga, juntamente com um grupo de haicaístas, funda em São Paulo o Grêmio Haicai Ipê, com o propósito de estudar e difundir o haicai clássico (com forte ligação com o haikai originário japonês).

Alguns haicais de mestre Masuda Goga:

Libélula voando
Pára num instante e lança
a sombra no chão

Inúmeras flores
nos túmulos de Finados –
Na alma só saudade.

No ar pétalas dançam
Qual flocos de neve a cair
Pereira em flor.

Características do haicai clássico (haiku):

É vivencial (experiência do poeta junto à natureza); sem título; usa métrica 17 sílabas; contém o kigo (termo designativo de estação); sem rimas; e, usa linguagem simples.

tal a brevidade
daquela estrela cadente
fugiu-me o pedido

semente de ipê
amadurecem nas vagens
só o vento as leva

José Marins (Curitiba)

Um salto no abismo
e o mergulho na mata.
Cascata na serra.

Sérgio Francisco Pichorim (São José dos Pinhais)

Na folha de amora
nutre-se o bicho-da-seda.
A quem vestirá?

A. A. de ASSIS (Maringá)

Entre os bóias-frias
um casal já bem grisalho
colhendo algodão.

Neide Rocha Portugal (Bandeirantes)

*Em itálico: kigos

LITERATURA | O Polaco Negro ZEN

Distante do lugar-comum, Paulo Leminski uniu genialidade a influências de toda sorte e, vinte anos após sua morte, segue como um dos principais difusores do haicaísmo em terras brasileiras

O escritor, poeta, tradutor, filósofo, publicitário e etcétera Paulo Leminski foi tudo, menos o óbvio. Fugiu das regras desde o início, quando, em 24 de agosto de 1944 veio ao mundo: apesar de nascer em Curitiba, deslanchou e teve seu trabalho reconhecido a partir da capital paranaense, numa época em que poucos nomes de fora do eixo Rio-São Paulo despontavam nacionalmente. Filho de pai polonês e mãe negra, foi um dos principais difusores brasileiros da hoje mais conhecida forma de poesia japonesa: o haicai.

Duas décadas após a morte, ainda é estudado e cultuado como o núcleo de um movimento cultural único que passou pelo país. Nasceu como Paulo Leminski Filho, filho de Paulo Leminski e Áurea Mendes Campos. Ainda criança, morou em Itapetininga, São Paulo, e em Itaiópolis, Santa Catarina, antes de retornar à capital das araucárias. Entre os 13 e os 14 anos viveu no mosteiro de São Bento, em São Paulo, onde estudou, entre uma aula de ensino religioso e outra, latim, francês e hebraico. E no mesmo reduto beneditino, por meio de D. João Mehlmann, teve os primeiros contatos com as chamadas “filosofias orientais”, segundo relata o jornalista e amigo Toninho Vaz, biógrafo do escritor.

Poliglota, estudava japonês na década de 1960 quando começou a se interessar pela poesia de Helena Kolody, que desde os anos 40 trabalhava com o haicai. Gostou da distinta forma de literatura  e dedicou-se aos estudos e sua produção, embora não tenha se tornado fluente no idioma japonês, como muitos acreditam até hoje. “Ele identificava alguns ideogramas, apenas”, afirma a poeta Alice Ruiz,  casada com Leminski durante 20 anos.

Aos 18 anos participou da Semana Nacional de Poesia de Vanguarda, em Belo Horizonte, e conheceu os irmãos poetas Augusto e Haroldo de Campos e o professor Décio Pignatari, representantes do movimento concretista e que, de imediato, fascinaram-se pela precocidade do jovem curitibano. Dali, foi apenas um ano para Leminski publicar seus primeiros poemas na revista concretista Invenção. Até sua morte, foram 13 livros, de prosa, poesia, biografia e fotografia.

Chegou a cursar Direito na Universidade Federal do Paraná (UFPR), mas desistiu e direcionou sua formação para a área de Filosofia, curso que concluiu em 1965 pela Pontifícia Universidade Católica do Paraná (PUCPR). Em 1968 casou com Alice Ruiz, com quem teve três filhos – Miguel Ângelo, Áurea e Estrela – antes de se separarem. Além de poeta e escritor, trabalhou como professor de história e redação em cursos pré-vestibulares, diretor de criação e redator em agências de publicidade, jornalista, crítico literário e tradutor. Fez até roteiros de histórias em quadrinhos para a extinta editora curitibana Grafipar.

Samurai zen-budista

Em abril de 1977, época em que escrevia para o Diário Popular, confirmava sua paixão pela cultura oriental ao publicar oito koans em uma edição especial do suplemento Anexo. O tema do caderno era ‘Zen e as artes marciais japonesas’. Seis anos mais tarde, lançou Matsuo Bashô, biografia do poeta japonês que codificou e estabeleceu a forma clássica do haicai.

Abra-se um parêntese. Eclético no sentido amplo da palavra, Leminski não se deixava influenciar apenas pelos japoneses. A prosa poética Metamorfose, por exemplo, surgiu a partir de seu interesse pelos mitos gregos. Como tradutor, verteu para a língua portuguesa obras, do francês, como Supermacho, de Alfred Jarry, do inglês, como Pergunte ao Pó, de John Fante, e Um atrapalho no trabalho de John Lennon, e até do latim, como Satyricon, de Petrônio.

Em 1985, com assessoria de Elza Taeko Doi e Darci Yasuko Kusano, traduziu Sol e Aço (‘Taiyo to Tetsu’), que Yukio Mishima escrevera em 1968. No ensaio, o japonês, que cometeria o harakiri em 1970, faz um tratado sobre o corpo e fala sobre a morte prematura. Ciente ou não de que o esgotamento precoce seria seu próprio destino, Leminski nunca deixava de se envolver pelas obras por que passava.

Que  motivos o levaram ao interesse pelo arquipélago do outro lado do mundo, ninguém sabe. Mas a ligação com o Japão do samurai zen-budista, como se autointitulava, não se restringia à literatura. “Tudo começou com o ingresso dele no judô, aos 22 anos”, conta Alice Ruiz, que lembra que culinária japonesa estava entre as preferências do ex-companheiro. E, de fato, até os últimos anos de sua vida, contam os amigos, orgulhou-se de ser faixa preta na arte marcial.

É na década de 1980 que surge a definição samurai zen-budista, que soma-se a outros epítetos, como a besta dos pinheirais e cachorro louco. Por Haroldo de Campos o denominava  Rimbaud curitibano, e o cineasta Júlio Bressane, caipira cabotino. Para Toninho Vaz foi o bandido que sabia latim.

O Rio que Vai

Letrista e músico foram outras atribuições que o poeta kamikaze cumpriu com habilidade, em parcerias que fez com Caetano Veloso, Moraes Moreira, Zeca Barreto, Carlos Careqa, Ivo Rodrigues, Arnaldo Antunes, entre outros. A mais ouvida canção é provável que tenha sido Promessas Demais, que era reproduzida diariamente na Rede Globo, na abertura da novela Paraíso, de 1982.

Alternativo ao extremo, teve por diversas vezes o nome ligado à cultura pop. Com Guilherme Arantes assinou a trilha sonora de Pirlimpimpim 2, programa infantil exibido na emissora de Roberto Marinho. Se entre os jovens de hoje poucos leram o Catatau, sua obra-prima lançada em 1975, é difícil encontrar alguém que desconheça a Pedreira Paulo Leminski, que desde 1990 acolhe espetáculos do clássico ao rock, do sertanejo ao religioso. E até as crianças devem se lembrar de ao menos um dos poemas do cachorro louco que eram lidas no Castelo Rá-Tim-Bum, da TV Cultura.

Dor Elegante

Personagem de uma vida tão ou mais interessante que a própria obra, deu um final típico de romance europeu do século 19 para sua biografia. Entusiasta do budismo apesar de polaco, era boêmio apesar de erudito, e desde cedo trilhou um caminho sem volta pelas vias do alcoolismo. O gatilho para a aventura derradeira foi a morte prematura do filho primogênito, Miguel Ângelo Leminski, que, em 1979, aos 10 anos de idade, deixou o pai órfão em consequência de um câncer.

Amigos tentavam de todas as formas demovê-lo das pás etílicas que cavavam seu túmulo, mas Leminski parecia ter a mais plena consciência de seu destino. Em seus últimos anos gostava de enaltecer a figura de Mishima, como forma de justificar atentados contra a própria vida, ainda que involuntários. Morreria em uma fria noite do inverno de 1989, vítima de cirrose hepática e possivelmente tranquilo como vivia. “Quanto à morte, eu sou nipônico. Eu nunca me confrontei com situações limites mas não tenho medo da morte”, disse certa vez.

se
nem
for
terra
se
trans
for
mar

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ameixas
ame-as
ou deixe-as

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aqui jaz um grande poeta.
nada deixou escrito.
este silêncio, acredito,
são suas obras completas.

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Tudo dito,
nada feito,
fito e deito

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Essa idéia
ninguém me tira
matéria é mentira

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aqui
nesta pedra
alguém sentou
olhando o mar
O mar
não parou
para ser olhado
foi mar
pra tudo que é lado