45 LITERATURA – para onde aquela estação me leva

A poeta pernambucana Micheliny Verunschk escreve um poema em que faz referência aos trens do Japão

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Compartment C Car, 1938, Edward Hopper

Micheliny Verunschk

para onde aquela estação me leva
outra vida a mesma vida
um quadro de Hopper
onde estou sozinha lendo
o último best-seller do momento

para onde aquela estação me leva
um outro túnel um labirinto
o Japão do outro lado do buraco
que cavamos bem fundo baby
para empurrar o abismo daquilo que sentimos

para onde aquela estação nos leva meu bem
para um poema para outra cena
para os teus braços de desenho animado
que se alongam tanto mais eu me afasto
nós dois nesse trem intergaláctico, viajando pelos tubos coronários

não sei não sei
para onde aquela estação nos leva hein?
nem sei se estamos mesmo na plataforma certa
o mundo é um grande desengano meu bem
um estampido um grande desencontro assim a seco

na próxima estação desembarque por ambos os lados

Micheliny Verunschk é Doutora em Comunicação e Semiótica e Mestre em Literatura e Crítica Literária, ambos pela PUC-SP, autora do romance Nossa Teresa – vida e morte de uma santa suicida (Patuá, 2015), vencedor do Prêmio São Paulo de Literatura 2015 (melhor romance), Geografia íntima do deserto (Landy 2003), finalista do Portugal Telecom 2004, b de bruxa (Mariposa Cartonera, 2014), O observador e o nada (Edições Bagaço, 2003) e A cartografia da noite (Lumme Editor, 2010).

32 LITERATURA | ROMANCE DISCUTE IDENTIDADE NIKKEI NA GUERRA

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Capa de “Vento Leste!. Imagem: divulgação.

 

Vento Leste  é mais uma história japonesa sobre as consequências que a Segunda Guerra Mundial provocou em dramas individuais. Grande sucesso no Japão nos anos 80, conta a história de Saburo Kurushima,  diplomata japonês encarregado pelo Imperador  para negocar um tratado de não agressão com o presidente americano Franklin Roosevelt.  O romance de Otohiko Kaga acompanha as agruras dos Kurushimas no início dos anos 1940. Num clima de grande tensão, o protagonista é responsável por evitar a possibilidade de uma nova grande guerra.

Para complicar, o diplomata é casado com Alice, uma americana que adotou o Japão como sua pátria. Os conflitos socais intrincam-se com dramas familiares: o filho deles, Ken, é piloto da Aeronáutica japonesa. E, defronta-se com a ameaça de combater contra seu primo,  membro da força aérea americana. Por ter feições mestiças, Ken é agredido e vilipendiado na corporação, mas isso não o abala.  O personagem traz à tona o problema típico dos mestiços: o de ter de bradar pela própria identidade étnica.

O leitor acompanha as privações próprias decorrentes da guerra, como o racionamento de alimentos, do qual nem a abastada família  dos Kurushima passa impune. A família resiste e faz planos para “ quando a guerra acabar”, como o desejo de Alice de, um dia, poder viajar aos Estados Unidos com a família, viagem que jamais fizeram. Ken pensa em se casar com Margaret Hendersen, a linda filha do pastor da comunidade, o que gera um sentimento dúbio sobre Eri, a irmã caçula dele, que tem pelo irmão  admiração obsessiva quase incestuosa.

Mas a guerra se intensifica. Os bombardeios sobre Tóquio são detonados. Missões kamikazes são ordenadas contra os intimidantes B-29s ianques. E então a jornada dos Kurushima encaminha-se para seu clímax catártico e comovente.

O romance é baseado na vida real do diplomata japonês Saburo Kurusu, sua esposa americana Alice Jay Little e seu filho Ryu, que se tornou piloto n0 Centro de Testes da Força Aérea Americana em Fussa (agora Yokota). Fotografias de  Ryu e sua mãe americana apareceram na capa da edição americana do romance.  O autor também foi cadete júnior na Academia Militar.

Otohiko Kaga  nasceu em Tóquio, em 1929. Aos 16 anos, testemunhou sua cidade natal em chamas em decorrência da guerra. Estudou na França e tornou-se  professor de psicologia criminal e conselheiro para prisioneiros condenados à morte. Passou a se dedicar à literatura a partir dos 30 anos de idade, estreando com Furandoru no fuyu (Um inverno em Flandres), seguido de Kaerazaru natsu (Um verão sem volta), novela baseada em suas experiências de guerra, Prêmio Tanizaki de Literatura em 1973. Alcançou o status de bestseller em 1979 com a publicação de Senkoku (A sentença), novela sobre prisioneiros japoneses, e de Vento Leste (Ikari no nai fune), três anos depois. Mais recentemente publicou Yubae no hito (Pessoas à luz do poente) e Aa chichi yo, aa haha yo (Oh, mãe! Oh, pai!).

30 LITERATURA | "A GANGUE ESCARLATE" E O MODERNISMO JAPONÊS

Capa de "A gangue escarlate de Asakusa". Foto: divulgação.
Capa de “A gangue escarlate de Asakusa”. Foto: divulgação.

A gangue escalarte de Asakusa (Estação Liberdade, tradução de Meiko Shimon), como outras obras do início da carreira de Yasunari Kawabata, tem algo de estranho. Contos da palma de mão e A Dançarina de Izu são  compostas por fragmentos . Não que não tragam histórias fechadas, mas compõem-se de narrativas ou capítulos curtos. O novo romance de Kawabata, traduzido por Meiko Shimon,  segue o estilo hesitante de suas primeiras experiências literárias. Embora o escritor trate de um tema tipicamente japonês  – um bairro da boemia de Tóquio – a influência da literatura ocidental é visível.

Em seus romances posteriores, Kawabata abandonaria a montagem em fragmentos, preferindo uma narrativa mais densa. Por ter como cenário o bairro de Asakuka, o Ocidente não poderia deixar de imiscuir-se na narrativa. Na virada do século, havia no bairro  um teatro kabuki, malabaristas, casas de gueixas, números circenses, fotógrafos lambe-lambes, dançarinos, comediantes, macacos amestrados, bares, restaurantes e galeria de arco e flecha cheias de garotas de programa. A zona foi destruída duas vezes: a primeira no terremoto (seguido de incêndio) de 1923, após o que foi reconstruída; e depois no bombardeio norte-americano de 1945, quando morreram entre 60 e 70 mil pessoas. Hoje, é uma área comercial como qualquer outra, cheia de edifícios.

As atrações noturnas, invariavelmente, eram de shows e performances franceses e americanos.  É nesse local que o escritor faz viver  a misteriosa Yumiko, Hakiko, Umikichi e outros pequenos anti-heróis, prostitutas e marginais.  Mas desde então, Kawabata faz a defesa das personagens femininas, que seguiria em outras obras. Yumiko, por exemplo,  se recusa a assumir o papel de subalternidade destinado às mulheres no Japão.

A narrativa foi  publicada de forma episódica num jornal de Tóquio entre 1929 e 1930, evocando experiências biográficas do autor. Um escritor americano, Joshua Cohen,  diz que o romance é o “Ulysses”  japonês, por ter introduzido a modernidade nessa literatura. Porém, os personagens de Asakusa não têm a profundidade Leopold Bloom e outros tipos  criados por James Joyce. O  que conta é a ousadia do pensamento de igualdade moderno e a tentativa de imitar a técnica da narrativa fragmentada.

Yasunari Kawabata, Nobel de 1968, é um dos escritores japoneses reconhecidos na literatura universal contemporânea.  Nascido em Osaka, em 1899,  interessou-se por literatura ainda muito jovem. Formou um grupo que defendia o “neossensorialismo”, uma nova estética na literatura japonesa, deixando o realismo em voga de lado em favor de uma escrita mais lírica e impressionista. Kawabata suicidou-se em 1972, dois anos depois do ato de seu amigo Yukio Mishima.

Leia aqui um capítulo do livro.

NOTÍCIA | USP COMEMORARÁ 50 ANOS DO CURSO DE JAPONÊS

Casa de Cultura Japonesa, que abriga o curso de Letras-Japonês, na USP, desde 1972.
Casa de Cultura Japonesa, que abriga o curso de Letras-Japonês, na USP, desde 1972.

O curso de Letras-Japonês da Universidade de São Paulo (USP) comemora 50 anos em agosto de 2013. E já anuncia a programação do evento comemorativo, o Simpósio Internacional de Estudos de Língua, Literatura e Cultura Japonesa: Evento em Comemoração aos 50 Anos da Habilitação em Japonês na FFLCH-USP, que acontece de 11 a 13 de setembro,  na Casa de Cultura Japonesa, na Cidade Universitária, em São Paulo.

Serão realizadas conferências, mesas-redondas e workshops com pesquisadores nacionais e estrangeiros. Ao mesmo tempo, acontece o II Encontro de Pós-Graduandos em Estudos Japoneses , já anunciado no MEMAI, aqui.

Participam do simpósio especialistas em  Estudos Japoneses, vindos do Japão, como os professores  Tetsuji Okamoto, da Universidade de Hiroshima, que fará a conferência de abertura – “Os Problemas Sociais e Psicológico-emocionais dos Acidentes por Radiação Nuclear”. As mesas de discussão abrangem temas tão amplos como a questão dos decasséguis brasileiros no Japão, literatura japonesa no Brasil, identidade Nikkei e o teatro Nô. .

Personalidades de Estudos Japoneses, como  professora  Sakae Murakami Giroux,  que atua em Estrasburgo , Tae Suzuki , da Universidade Brasília,  Geny Wakisaka , criadora do curso da USP, Luiza Nana Yoshida, coordenadora do curso, e  o jurista Masato Ninomiya serão homenageados numa mesa comemorativa.

Participam também professores de outras instituições convidadas, como Fundação Japão – SP, Aliança Cultural Brasil-Japão e outras universidades brasileiros com cursos de língua e literatura japonesa. Veja a programação completa aqui.
As   inscrições abrem apenas no dia 16 de agosto, mas quem quiser saber mais informações para participar do evento é só falar com a  Kátia Muller, no Centro de Estudos Japoneses da USP, pelo telefone 3091-2426 ou escrever para o e-mail: cejap@usp.br.

NOTÍCIA | MURAKAMI CONTINUA MOVENDO MENTES

Capa da edição brasileira do segundo volume de 1Q84 .
Capa da edição brasileira do segundo volume de 1Q84 .

O mais novo livro de Haruki Murakami, O Descolorido Tsukuru Tasaki e o Ano de Sua Peregrinação já tem 10 mil reservas no Japão. O lançamento  está anunciado para esse mês. No Brasil, ainda estamos digerindo a trilogia 1q84. O  segundo volume foi lançado em março,  com tradução da professora de Literatura Japonesa Lica Hashimoto.

O fenômeno Murakami continua conquistando corações e mentes. Para a sua tradutora brasileira, o maior mérito do autor é estabelecer um pacto com um leitor, que o conduz ao universo da ficção:  “universo em que ‘a mentira possui o seu grau de veracidade’, no dizer de Mario Vargas-Lhosa em seu ensaio ‘La verdad de las mentiras’ (1996). A descrição cuidadosa do cotidiano e a maestria com que Murakami desenvolve o fluxo de consciência de seus personagens criam laços entre o leitor e o narrador de modo a aguçar a nossa curiosidade intelectual através do conhecimento da música, história, literatura, moda, culinária etc. Nesse sentido, pode-se dizer que o leitor compartilha a conscientização de que somos cidadãos do mundo, possibilitando o diálogo entre os homens aproximando-os num todo orgânico sem desmerecer suas particularidades.”

Sobre a obra que traduziu, Lica diz que “é uma narrativa que espontaneamente prepara o leitor a adentrar nas possíveis interpretações simbólicas – políticas, econômicas, sociais, metafísicas e psicanalíticas – que permeiam as relações entre o mundo objetivo e subjetivo. Há uma clara alusão de que a interdependência de todos os fenômenos é um dos ensinamentos mais úteis que a experiência e a observação da realidade nos têm ensinado. 1Q84 não é, portanto, um livro de leitura apressada e desatenta. Trata-se de uma obra em que o leitor será gradativamente conduzido a ver — com os olhos físicos, da mente e da alma — um ou mais significados, iluminados por sucessivas camadas de entendimento e denunciar o desencanto e a impotência do ser humano diante das injustiças do mundo contemporâneo. Uma reflexão sobre o poder da intangível ficção que se apropria da linguagem para transformar o mundo.”

O volume 2 de 1Q84 aprofunda a trama anunciada no  volume 1.  A assassina Aomame segue a missão de vingar mulheres que sofreram por abuso ou violência por seus companheiros e o ghost writer Tengo tem que lidar com as marcas de seu passado, que tem afinidades com Aomame.  Nesse livro, ambos se desligam de seus coadjuvantes – Aomame de Ayumi, que morre assassinada e Tengo, de sua namorada. Ficam, portanto, mais solitários. A  solidão é crucial para quase os levar a se encontrar. Mas o encontro esperado não acontece e fisicamente, surgem ou ressurgem outros parceiros/antagonistas  como misterioso Líder do Povo Pequenino e Fukaeri, a adolescente disléxica que escreveu a história do Povo Pequenino.

No fim do livro, fica a dúvida: Aomame é uma personagem criada por Tengo ? A pergunta só pode ser respondida no terceiro volume.

No Brasil, foram traduzidas as seguintes obras:

  • Do que eu falo quando eu falo de corrida [Hashiru koto ni tsuite kataru toki ni boku no kataru koto]. Rio de Janeiro: Alfaguara , 2010.  Tradução Cassio de Arantes Leite.
  • Após o anoitecer [Afutā Dāku, 2004]. Rio de Janeiro: Alfaguara, 2009. Tradução do japonês Lica Hashimoto .
  • Minha querida Sputnik [スプートニクの恋人, Supūtoniku no koibito, 1999]. Rio de Janeiro: Alfaguara, 2008. Tradução Ana Luiza Dantas Borges.  OBS: já esgotada, a primeira tiragem deste livro saiu em 2003, pela Objetiva.
  • Kafka à beira-mar [海辺のカフカ, Umibe no Kafuka, 2002]. Rio de Janeiro: Alfaguara, 2008. Tradução do japonês Leiko Gotoda.
  • Norwegian Wood [ノルウェイの森, Noruwei no mori, 1987]. Rio de Janeiro: Alfaguara, 2008. Tradução do japonês Jefferson José Teixeira.  OBS: a primeira tiragem, também esgotada, saiu em 2005,  pelo selo Objetiva
  • Dance Dance Dance [ダンス・ダンス・ダンス, Dansu dansu dansu, 1988]. São Paulo: Estação Liberdade, 2005. Tradução do japonês Lica Hashimoto e Neide Hissae Nagae.
  • Caçando carneiros [羊をめぐる冒険, Hitsuji o meguru bōken, 1982]. São Paulo: Estação Liberdade, 2001. Tradução do japonês Leiko Gotoda. (MK)

Declarações de Lica Hashimoto extraídas do blogue Livros Abertos, de Camila Kehl.

 

FICÇÃO | FAÇA UM BUDA

Fernando Chammas

Passaram-se muitos séculos, como tudo irá passar, mas ainda podemos reconhecer a imagem de uma pessoa meditando. Pode ser uma estatueta numa vitrine de uma loja qualquer. Se for bem feita, na fisionomia e na postura, ela vai chamar a atenção de um público específico que busca algo mais, e a mensagem dessa imagem é bem clara: medite! Essa é a mensagem da arte budista. A arte clássica budista é a arte da iluminação. Pode ser que seja um Buda de origem indiana, como um iogue, contemplando seu microcosmos, ou de um Buda chinês, gordinho e sorridente, compartilhando a alegria da sabedoria Zen, ou ainda, um Buda japonês, meio Kami meio Buda. Há muitos outros modelos dentro dessa tradição milenar de fazer estátuas budistas, pois também se deve a sua arte muito da sua popularização. Nas imagens mais complexas, há uma infinidade de símbolos de culturas de meio mundo que nos costumamos, de um modo geral, a diferenciá-lo como “oriental”. Porém, quando despido de todas as convenções mundanas, inclusive roupa e cabelo, resta apenas uma figura quase desinteressante se sua expressão geral não explicitasse completamente sua interiorização. No que ele estará pensando? O que ele tem a nos dizer? Bem, para isso, há muitos ensinamentos escritos, mas como todo ensinamento, mesmo decorado, se não interiorizado, não passa de um boneco de barro.

Fonte imagem: http://www.thebuddhasface.co.uk/complete-buddhas-face-blog-index--november-2010-185-c.asp
Fonte imagem: http://www.thebuddhasface.co.uk/complete-buddhas-face-blog-index–november-2010-185-c.asp

Então, tente fazer um Buda de barro e pense como mostrar plasticamente a fisionomia dessa interiorização. Por um lado, você pode acessar milênios de tentativas históricas mais ou menos bem sucedidas. Por outro lado há toda a sua concepção pessoal e cultural. Qual o grau de realismo de um estado metafísico como a iluminação? Porém, você não pode perder de vista que esta interiorização é totalmente lúcida. Esta imagem deve ser a máxima expressão da ilusão da realidade. Buda está acordado e você está sonhando com ele e é por isso que ele tem uma forma.

Ao fazê-lo, coloque-o ao tempo e deixe o tempo passar sem mais nenhuma interferência racional ou emocional dramática de preservação da sua obra e sua assinatura. Deixe-o ficar verde de musgo, e talvez, deixe-o desintegrar-se. De modo algum, deixe de observá-lo com nossa misteriosa memória e abstração das coisas. Então e só assim, sua arte estará completa, e o ensinamento interiorizado.

20 ENTREVISTA | MAIS DE 400 TONS NO TRAVESSEIRO

Xilovravura de Tsukioka Settei (1710-1786). (Imagem de capa da tradução brasileira).
Xilogravura de Tsukioka Settei (1710-1786). (Imagem de capa da tradução brasileira).

Por Marilia Kubota

O Livro do Travesseiro (Makura no Sôshi), escrito por Sei Shônagon,  é  a obra japonesa clássica mais conhecida no Ocidente, comparável apenas à As Narrativas de Genji (Genji Monogatari), escrito por Shikibu Murasaki. Mas a obra de  Shônagon é anterior à de Murasaki, ambas damas da corte do período Heian (794-1192). O Livro do Travesseiro  foi escrito no ano 1001, e Genji, em 1010. Shônagon inaugura o gênero zuishitsu, traduzido por “ao correr  do pincel”, o equivalente à técnica do fluxo de consciência na literatura modernista ocidental.

“É surpreendente para os pesquisadores de literatura no Ocidente saber que nessa época, no Japão, já existiam uma literatura de alto nível escrita por mulheres”, afirma Madalena Hashimoto Cordaro, organizadora da tradução da edição brasileira. O estilo sintético da linguagem, a fragmentação narrativa,   o apurado senso de humor fizeram a notoriedade de Shônagon. Sua obra inspirou outros escritores  no Japão da época e atravessou os séculos e  as fronteiras do  país. Intelectuais e artistas, como o escritor argentino Jorge Luis Borges e o cineasta inglês Peter Greenaway, tornaram-se seus admiradores. Borges chegou a traduzir, para o espanhol, 126 trechos de O Livro do Travesseiro. E Greenaway fez uma livre adaptação da obra: O Livro de Cabeceira (Pillowbook).

O título Travesseiro (em japonês, makura), de acordo com os críticos, não tem conotação erótica. Deve-se a um episódio em que Shônagon recebe da Consorte Imperial alguns papéis para escrever. Em vez de copiar os Registros Históricos da China, como toda a corte japonesa, a escritora propôs fazer um travesseiro. A sugestão pode ser um trocadilho com a palavra shiki, que significa “Registros Históricos” e também, “ato de estender ou forrar”, expressão usada quando a superfície a ser coberta é o chão ou o leito.

Shônagon, assistente da Consorte Imperial Teishi, não pretendia que seus escritos atingissem a posteridade. Embora muitas mulheres da corte fossem letradas, não era permitido que escrevessem em kanji – ideogramas chineses – considerado uma prática de domínio dos homens.  Enquanto a elite masculina escrevia e discutia temas nobres, como filosofia e política, às mulheres era permitido escrever em kana (alfabeto fonético, derivado das transcrições simplificadas dos kanji ) e discutir temas domésticos – a natureza, a poesia,  preferências  – ,  como se lê nos forros do Travesseiro.

O zuishitsu, gênero que Shônagon inaugura, foi seguido por escritores famosos, como Kamono Chômei (1153-1216), em Hôjoki (Relatos da cabana de nove metros quadrados) e Yoshida Kenkô (1283-1351), em Tsurezuzuregusa (Escritos do Ócio).  Mas o estilo da autora, o okashi,  é mais divertido.  Os críticos conceituam okashi em dois sentidos: um sorriso ou um chiste, ou para sugerir algo alegre, perspicaz e engenhoso, mas elegante. Em O Livro do Travesseiro a palavra okashi ocorre 466 vezes e pode ser associada a variações como beleza “clara”, “alegre”, “discreta”, “sutil” e “elegante”. A tradução brasileira avançou e expandiu seu significado para ” interessante”, “gratificante”, “prazeroso”, “excitante”, “fascinante” e, até, “sublime”.

A leitura da obra revela a espirituosidade da autora, e razão por ela ter sido cultuada através do tempo. Shônagon, além do conhecimento da cultura chinesa, como era de se esperar dos nobres, tinha um espírito livre. Quando a Consorte Imperial ou as damas da corte propunham jogos poéticos, inventava saídas anticonvencionais, como se lê no trecho a seguir:

280.  A NEVE HAVIA SE ACUMULADO BEM ALTO

A neve havia se acumulado bem alto e, excepcionalmente, a janela de treliça estava abaixada; acendemos o braseiro quadrado e conversávamos reunidas, quando Sua Consorte Imperial dirigiu-me a palavra: “Dama Shônagon, como estaria a neve do pico Kôro?” Mandei subir a janela de treliça e pus-me a enrolar para o alto a persiana, o que fez Sua Consorte sorrir. As damas também reconheceram a alusão, pois já a havia utilizado em seus poemas, e disseram: “Nem tínhamos percebido que a situação do poema era a mesma. De fato, Sei Shônagon realmente faz jus a servir nesta Corte”.

O gesto de Shônagon alude a um famoso poema chinês, de autoria de Po Chu-i (722-846).  No poema, o autor, já idoso, diz ser um simples funcionário de una província longe da capital. Acomodado em sua modéstia e paz de espírito, certa manhã de inverno, deitado na cama com as persianas do aposento erguidas, deleita-se ouvindo o sino do templo e apreciando a neve do pico Kôro.

Em várias passagens do Travesseiro Shônagon faz alusões como essa, revelando erudição, humor e elegância. Como até então a corte japonesa era fortemente influenciada pela cultura chinesa, Shônagon, ao lado de Shikibu Murasaki, com sua espirituosidade pode ser considerada responsável por lançar  raízes de  uma literatura genuinamente japonesa. A obsessão por listas, distribuídas em composições   que começam por “Quanto a…”(wa-dan) e “Coisas que…” (mono-dan), indicam que, além dos jogos poéticos,  as damas da corte se divertiam  em elaborar listas de  preferências em relação a todos os assuntos. Para os críticos, essas listas acabam se tornando uma espécie de estudos lúdicos sobre a vida japonesa da época.

A tradução brasileira feita pelo  Centro de Estudos Japoneses  baseou-se numa cópia chamada Sankanbon (livro dos três volumes) , da editora Iwanami, com notas críticas de Minoru Watanabe, que esteve no Brasil em 1998. Também foram consultadas a versão de Hagitani Boku (1978), além de traduções em inglês (Ivan Morris, 1991) e em francês (André Beaujard, 1966).

A equipe de tradutoras é formada por cinco pesquisadoras do Centro de Estudos Japoneses, todas  doutoras em Teoria Literária, Linguística ou Filsofofia. Geny Wakisaka,  organizadora de traduções de Contos da era Meiji (1993), Contos modernos japoneses (1994), Contos de Ôe Kenzaburô (1995) e Contos da chuva e da lua (1996), de Ueda Akinari. Recebeu prêmio do governo japonês pelo estudo Man’ Yôshu: Vereda do poema clássico japonês (1992). Junko Ota, cotradutora de O anticinema de Yasujiro Ozu (2003), Coração, de Natsume Sôseki (2008) e Rashômon e outras histórias, de Ryunosuke Akutagawa (2008). Lica Hashitomo, tradutora de Após o anoitecer (2009), e 1Q84 (2012), de Haruki Murakami, E depois, de Natsume Sôseki (2011) e Um grito de amor do centro do mundo, de Kyoichi Katayama (2011). Também fez cotraduções de Murakami e Kenji Miyazawa. Madalena Hashimoto,  autora dos livros Pintura e escritura do mundo flutuante (2002), Ukiyo-e- Pinturas do mundo flutuante: a coleção do Instituto Moreira Salles (2008) e Madalena Hashimoto: Das dez mil faces (2008).  Cotraduziu também O anticinema de Yasujiro Ozu, e O florescer das cores: a arte do período Edo (2008). Luiza Nana Yoshida, especialista em narrativas setsuwa e literatura dos retirados.

A seguir, leia entrevista feita com elas  sobre os percalços da tradução do livro:

Da esquerda para a direita: Nana, Madalena, Geny, Lica e Junko.
Da esquerda para a direita: Nana, Madalena, Geny, Lica e Junko. Foto: Gustavo Morita.

Como começou o projeto de tradução de Makura no Sôshi  ?

Geny: Há mais de dez anos resolvemos traduzir uma obra da literatura clássica japonesa. Na ocasião ainda não tínhamos ideia de como seria feito. Eu e a equipe inicial optamos pela tradução da obra de Sei Shônagon. O trabalho foi caminhando  lentamente, era uma obra difícil, da literatura clássica, precisava muita pesquisa. Mas o projeto não foi interrompido. No começo as reuniões eram esporádicas, não seguiam ritmo regular. A equipe de tradução agregava mais tradutoras, que mudaram de local de trabalho, por isso não puderam continuar no projeto.

Como foi organizado o trabalho ? Cada uma traduziu uma parte da obra ?

Madalena: Quando pegamos o ritmo de trabalho, fizemos a divisão por número de páginas, o que calhava com determinados trechos. Alguns trechos são longos, como se nota na tradução. Às vezes o mesmo trecho era dividido em duas ou três pessoas. A  meta era distribuir três ou quatro páginas para cada uma. Uma pessoa preparava as páginas, distribuía para as outras e aí a gente discutia em reunião, todas as semanas. Por causa desse processo, a tradução foi demorada. Mas também tivemos que fazer pesquisas. Fizemos fichários com os termos da linguagem arcaica, estudamos o sistema político do período Heian, a fauna e a flora local e da época.  E anotamos cada vez que um termo aparecia com determinada acepção – porque a língua arcaica era  econômica, tinha menos vocábulos do que hoje. Um vocábulo como okashi,  por exemplo, que é o mesmo kanji no texto clássico, achamos mais possibilidades na língua portuguesa, dependendo do contexto. Geny: Okashi é um termo central na estética do livro. Atualmente podemos traduzir okashi como engraçado, cômico. Na época de Shônagon tinha significado de “acenar com  interesse para a estética aristocrática”.  Madalena: Uma estética da leveza, da fluidez, da sutileza, da alusão.

Em que gênero literário se enquadra O Livro do Travesseiro ?

Geny:  Sei Shônagon introduziu um  gênero literário no Japão chamado zuishitsu – ao correr do pincel.  Poderia ser traduzido como crônicas literárias. Na época dela as obras literárias consistiam em escritos sobre poemas (shu), narrativas (monogatari) e história do Japão (Kojiki e Nihonjiki). Shônagon criou esse novo estilo de literatura dentro da língua japonesa que persiste até hoje. Essas “crônicas”  estão  baseadas  na realidade e ela vai escrevendo o pensamento dela: crítica, apreciação e avaliações pessoais do mundo ao seu redor. Madalena: Vendo pelos olhos de hoje, podemos dizer que há partes que parecem diários. Há partes que parecem julgamentos estéticos (ensaios). E há partes mistas, de ambas as coisas. E a poesia está sempre presente, assim como as alusões às obras literárias, poemas chineses ou japoneses. Uma coisa que nos surpreendeu muito foi refazer esses textos historicamente., porque eles estão organizados numa ordem, que se o leitor for seguir a história, não consegue entender. Nós mesmos tivemos que estabelecer uma organização cronológica. È um estudo muito rico da história da corte japonesa.

Quem foram os leitores de Sei Shônagon na época em que ela escreveu o Travesseiro?

Madalena: As damas da corte e os cortesãos, a gente letrada,  a elite da corte. Eram os que tinham acesso ao papel, produto caríssimo para a época e a literatura circulava entre os cortesãos. O  Livro do Travesseiro teve tanta repercussão entre esses leitores que foi copiado por séculos e séculos. E o que a gente tem hoje é uma cópia, não é original, que se perdeu. Cópia de famílias de textos, como a gente costuma nomear entre os tradutores.  Nessas cópias há diferenças sutis entre uma e outra, como a organização de textos. Algumas cópias organizam só os julgamentos críticos de um lado, só as páginas de diário, de outro. E essas partes que parecem crônicas literárias, você pode tentar colocar numa certa ordem histórica. Aí você tem um outro livro. O que é interessante da versão que nós traduzimos é o aspecto randômico, que é da vida.

O que representa para a comunidade brasileira a tradução para a língua portuguesa ?

Madalena: Temos notado que não existem traduções brasileiras de obras da literatura clássica japonesa. A USP é a única universidade que ensina a língua clássica japonesa na graduação e faz pesquisa na língua clássica. As traduções diretas da língua japonesa, atualmente, são da língua moderna. Os escritores, Kawabata, Junichiro Tanizaki, Haruki Murakami, são modernos. E se a gente não lê os clássicos, fica com uma lacuna muito grande. O primeiro movimento de estudos japoneses no mundo todo, não só em língua inglesa, mas também em alemão, italiano, francês é traduzir seus clássicos, fundamentais em qualquer literatura. Mas é uma tarefa muito árdua.Antes, a professora Geny havia organizado uma seleção de contos,  Ugetsu monogatari , que é do século XVIII, ainda considerada língua clássica, mas mais próxima de nós. Makura no Sôshi é muito antigo, e quanto mais antigo é o texto literário, mais difícil é a sua leitura e tradução. Nesse sentido, a tradução de Makura no Sôshi é um marco. Agora estão sugerindo que traduzamos o Genji monogatari.

Seriam mais dez anos de trabalho ?

Madalena: não, acho que mais cem…(risos), porque é mais longo, são 54 livros. É um projeto que pode ficar para a próxima geração de tradutores (risos).  Ou se a  gente se animar, tentar traduzir um desses volumes, né, professora Nana?  (risos). A professora Nana fez um trabalho sobre o Konjaku monogatari, poderia ser o nosso próximo projeto.

Para Nana: Você traduziu o Konjaku monogatari ?

Nana Yoshida: pouquíssimas narrativas. No total são mais de mil narrativas, não tenho fôlego para esse trabalho, embora sejam contos curtos. As narrativas não são tão conhecidas como o Makura no Sôshi e o Genji monogatari, mas algumas temas estão presentes no mangá e no anime, por exemplo. O conto Dentro do bosque, de Ryunosuke Akutagawa, é uma adaptação de um dos contos do Konjaku.

Por que vocês escolheram traduzir Makura no Sôshi ?

Nana: Um dos critérios foi porque foi escrito no período Heian, quando se desenvolveu o silabário japonês, o Kana e se começou a escrever em japonês. Antigamente as obras no Japão eram escritas em chinês. Madalena: Makura no sôshi apresenta uma estética que se mantém presente na vida japonesa hoje.

Por que O livro do travesseiro foi capaz de entusiasmar intelectuais como Borges e Greenaway?

Madalena: Acho que o tempo de hoje vai buscar no passado as obras que tocam, que expressam o que esse tempo presente está passando. Tanto Borges como Greenaway viram no “Travesseiro” aspectos da atualidade, uma imaginação que às vezes beira a surrealidade, um modo de escrita livre, sem muita estruturação, uma liberdade contemporânea.  Eu acho que com as Narrativas de Genji, que é uma obra difícil de ser lida, não tão popular, embora seja conhecida. Já Sei Shônagon é uma leitura leve, airosa e profunda, sem ser depressiva. Nela, o humor é tratado de maneira grandiosa, em oposição ao humor como sendo uma coisa menor.

E o fato de uma mulher ter escrito essa obra no século XI no Japão tem importância na história da literatura japonesa?

Geny: a criação do silabário fonético japonês simplificou a escrita. Antes, tudo era escrito em kanji. Com a criação do kana, a escrita foi mais divulgada entre as mulheres e aí elas tiveram acesso à literatura chinesa. Com a aprendizagem do hiragana e do katakana, as mulheres ligadas à aristocracia começaram a escrever. Madalena: em termos de literatura comparada, literatura universal, todos os estudiosos se espantam com uma produção de tão alto nível feita por mulheres num Japão tão antigo. Não só a Sei Shônagon escrevia. Também a Murasaki Shikibu, Mitsunawa Haha (autora de nikki). A gente vê que o periodo Heian é um momento muito singular para a expressão feminina na cultura japonesa.  Depois isso desaparece e só reaparece na idade moderna, com tanta força.  Elas conseguiam escrever, por conta de oportunidades políticas.  As mulheres letradas eram importantes para os homens que desejavam ascender à Casa Imperial. Por isso, elas eram educadas nas letras, na música, na dançam na poesia.

Marilia Kubota é editora do MEMAI.