57 LITERATURA – HARUKI MURAKAMI SE REVELA EM “ROMANCISTA COMO VOCAÇÃO”

Romancista como vocação (Alfaguara, 2017, tradução de Eunice Suenaga), de Haruki Murakami, é um ensaio sobre o processo criativo do escritor japonês. Vários aspectos das  criação literária, como os prêmios, originalidade, temas, personagens, o público são abordados em linguagem coloquial.

Um aspecto central do relato de Murakami é a determinação em se tornar escritor. Ele não frequentou cursos, nem teve preparo. Apenas, quando decidiu escrever, ao assistir um jogo de beisebol, foi em frente. O fato de sempre ter gostado de ler literatura facilitou sua decisão. O culto à individualidade  é o que levou à paixão pela literatura, pelo cinema e pela música.

Como um “bom japonês”, Murakami não deixa transparecer rebeldia. Pequenos desvios, como não ter sido aluno brilhante, ter se casado e buscado trabalho antes de se formar são o suficiente para torná-lo anomalia na sociedade japonesa. Ter trabalhado em Kabukichô,  zona de boemia de Tóquio, onde perambulam figuras marginais, foi, para ele, grande experiência:

Foi nesse lugar animado, diversificado, às vezes duvidoso e violento, que aprendi muito sobre a vida, e não nas salas de aula das universidades nem nos clubes universitários onde se reúnem pessoas idênticas umas às outras.  Eu me considerava streetwise, palavra inglesa que significa ‘portador da sabedoria prática para sobreviver na cidade’: eu me dava melhor com essas coisas mais pé no chão do que com estudos acadêmicos. Para ser sincero, as aulas na faculdade não me despertavam praticamente nenhum interesse.(página 23)

Outra experiência foi ter sido dono do bar de jazz por oito anos, em Kokubunji. O insight para se tornar escritor veio em 1978. Escreveu o romance Ouça a canção do vento, em 6 meses. Inventou um estilo próprio, uma linguagem objetiva e sintética. Ao ser premiado pela Revista Gunzô, publicada pela editora Kôdansha, o escritor teve o aval para deslanchar sua carreira.

Murakami recebeu vários prêmios literários no Japão. Curiosamente, em Romancista como vocação, lamenta mais por nunca ter sido distinguido com o  Prêmio Akutagawa (o mais prestigiado em sua terra) do que por ter recebido  o Tanizaki e o Yomiuri ou ter sido indicado ao Nobel. As recusas por não participar de juri de prêmios literários ou programas de tevê o distinguem da maioria dos escritores e  aspirante a escritores. Depois do sucesso do segundo livro, Norwegian Wood,  Murakami fechou seu bar e preferiu usar todo o tempo disponível para criar narrativas.

Com as indicações do escritor, escrever parece fácil e simples. A criatividade é despertada com o processo de guardar cenas ou personagens do cotidiano na memória para usá-los mais tarde. Mas,  além de observar o seu redor, como recomenda, outros estímulos – no caso dele, o jazz, a literatura e o cinema popular – parecem necessários para ativar a criação. Murakami cita aleatoriamente Beatles, Beach Boys, Thelonious Monk, Raymond Chandler, Kafka, ET, não se importando em classificá-los em categorias como alta cultura ou cultura popular.

Além da determinação, a disciplina é mais elemento imprescindível na carreira do escritor, de acordo com ele. Murakami diz escrever durante quatro ou cinco horas por dia, resultando em 300 páginas por mês. Um componente essencial de sua disciplina é o cuidado com o físico –  ele se exercita com corrida durante uma hora, todos os dias. Um ritual que o difere da imagem do escritor como “um antissocial que cria literatura em meio à ruína e ao caos, levando uma vida desregrada”.

E toda a disciplina é necessária para encontrar o caos criativo: “Acho que o caos existe na mente de todas as pessoas. Dentro de mim e de você também. Não é algo que precisa ser mostrado na vida prática: “olhe o caos que eu carrego, vejo como ele é grande””, Se você quer encontrar com o seu caos interno, basta fechar a boca e descer sozinho ao fundo do inconsciente. É aí que se encontra o caos que você precisa enfrentar, aquele que vale a pena ser enfrentado. Ele está no seu ponto mais íntimo.” (Página 103)

Um ponto decisivo para a sua escolha em direção à literatura foi o conflito que teve com a educação formal. O ensino formal é, para Murakami, um treinamento para condicionar espíritos conformados: “…com base na minha experiência, digo que o objetivo do sistema educacional do Japão é criar  pessoas da categoria dos ‘cães’, úteis à comunidade, e, indo além , diria até que o seu objetivo é criar pessoas da categoria dos ‘carneiros” que se deixam ser levadas com as demais.” (Página 114)

O escritor demonstra não ser uma pessoa de “mente aguçada”, mas alguém que tem disciplina suficiente para não seguir a maioria. É ele, com a mente lenta da imaginação,  quem faz a maioria segui-lo. O ensaio parece menos um manual para escritores e mais um diário aberto para os leitores. A maior vocação de Murakami é, sim, cativar seus leitores.

Romancista como vocação | Haruki Murakami
Tradução: Eunice Suenaga
Editora: Alfaguara
Lançamento: abril 2017
Preço: R$ 28, 40

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