56 LITERATURA – SÔBÔ É O OLHAR JAPONÊS DA IMIGRAÇÃO

Tatsuzo Ishikawa é o último a direita da primeira fila,  nos anos 30

Sôbô (Ateliê Editorial, 2008, tradução Maria Fusako Tomimatsu, Monica Setuyo Okamoto e Takao Namekata), de Tatsuzô Ishikawa, é um romance sobre a imigração japonesa ao Brasil do ponto de vista japonês. Muitas são as narrativas sobre o tema do ponto de vista do imigrante que veio ao nosso pais. Esta mudança de perspectiva influencia também a mudança do espaço narrativo.

Sôbô é dividido em três partes. A primeira descreve a hospedagem dos imigrantes no porto de Kobe. A segunda, a viagem. A terceira, a chegada. A primeira e segunda partes são mais extensas tomando 80% da narrativa. Nos relatos fictícios de imigrantes japoneses, como o filme Gaijin, de Tizuka Yamazaki, e no O imigrante japonês, diário do artista plástico Tomoo Handa, as tramas se passam exclusivamente em território brasileiro.

Tatsuzo Ishikawa imigrou para o Brasil nos anos 30 e ficou durante 6 meses por aqui. Fez um acordo com a revista em que trabalhava para escrever artigos sobre a imigração. Ao chegar à hospedaria de imigrantes no porto de Kobe, ponto de partida dos navios “Maru”, ficou espantado com a pobreza dos viajantes. Decidiu escrever um romance. Em 1933, lançou a obra Sôbô. O romance recebeu o Prêmio Akutagawa, em 1935.

O título, Sôbô, é composto por dois ideogramas. Sô remete a Sôsei, “povo”, ou “cor de capim”, “apressar-se”, “envelhecer”. Bô, a “imigrante”, “povo subjugado”. O imigrante é comparado ao capim ou erva daninha, como algo desprezível.

O escritor projeta uma lente de aumento sobre a vida dos trabalhadores rurais, ao contrário de narrativas que enfocam o individualismo da classe média urbana. A trama gira em torno das aflições e expectativas de um casal de irmãos, Magoichi e Onatsu. Eles vêm como agregados da família Monma. Ela é casada, apenas por conveniência às regras, como um dos irmãos Monma.

O título, Sôbô, é composto por dois ideogramas. Sô remete a Sôsei, “povo”, ou “cor de capim”, “apressar-se”, “envelhecer”. Bô, a “imigrante”, “povo subjugado”. O imigrante é comparado ao capim ou erva daninha, como algo desprezível.

“Magoichi, ao passar em frente ao funcionário que estava chamando os nomes, ficou com medo de ser repreendido. Na verdade, a irmã Onatsu e Katsuji não eram marido e mulher. Katsuji Monma era amigo da família e fora, apenas formalmente, registrado como sendo da família Sat, na qualidade de genro. Estavam sendo obrigados a simular serem um casal, visto que não estavam dentro das normas exigidas pelo governo para receber o auxílio-viagem a imigrantes. Uma das exigências era de que o ‘o casal deve ter idade abaixo de cinquenta anos e os membros da família terem acima de doze anos’. A senhora Monma e seus dois filhos, juntamente com Magoichi e sua irmã, eram dois grupos que se uniram formando, temporariamente, uma única família. Porém, essa ideia astuta não fora de Magoichi: ele havia sido instruído pelo senhor Yamada, um representante regional de uma agência de recrutamento de imigrantes. Portanto, não havia motivos para serem repreendidos: aliás, para os encarregados, era uma situação extremamente normal. Eles deveriam, na verdade, incentivar esse tipo de conduta, pois assim aumentariam o desenvolvimento dos países estrangeiros e contribuíram para a diminuição dos problemas de aumento populacional do Japão. Vendo sob esta ótica das empresas de empreendimento internacional, a imigração, mesmo de uma única pessoa, era um negócio bastante lucrativo. Para o representante regional, o senhor Yamada, os imigrantes por ele negociados já lhe haviam rendido um bom dinheiro.” (Páginas 24 e  25)

Magoichi e Onatsu são bastante ingênuos e se deixam enganar por todos. Eles sintetizam o espírito dos camponeses, ao mesmo tempo com disposição física e limitados na defesa de interesses individualistas. Grande parcela do romanceiro da imigração japonesa ao Brasil versa sobre a burguesia, mas o proletariado rural era o perfil da maioria absoluta dos imigrantes.

Nem todos os imigrantes são ingênuos. Há os mais abastados, que conseguem burlar as leis de imigração. E há os que descobrem, só na viagem, que também no navio as diferenças entre as classes sociais serão mantidas.

“O cotidiano no navio já passava dos vinte dias. Se ainda estivesse em sua terra natal, continuaria sendo um trabalhador rural honesto e virtuoso, que não tinha consciência de nada. Mas, ao embarcar no navio e começar a ajudar na cozinha, tomou conhecimento de algo chamado ‘classe social’. O senhor Oizumi, um sujeito tão pacato em Kobe, ao tomar ciência de um outro mundo, passou a se comparar com os passageiros de primeira classe. Não só isso, mas ele vira também, no porto, o navio adquirir grandes quantidades de laranjas e bananas. Ele sabia também que, todos os dias, às três da tarde, os marujos levavam um lanche da tarde aos passageiros da primeira classe e aos altos funcionários do navio. Testemunhou também que os passageiros da primeira classe tinham suas roupas lavadas e passadas e, toda noite, os estrangeiros bebiam uísque e se divertiam ouvindo vitrola na varanda-café.” (Página 167)

Tatsuzo Ishikawa nasceu em 1905, na região norte do Japão, na província de Akita. Ingressou na Universidade Waseda, em Tóquio, mas por problemas financeiros, desistiu do curso. Desde estudante queria ser escritor. Em 1928, embarcou para o Brasil no navio La Plata Maru. Trabalhou por aqui e voltou ao Japão. Escreveu o romance, premiado anos depois. Os temas sociais eram o seu forte.

SÔBÔ | Tatsuzô Ishikawa

Editora: Ateliê Editorial;
Tradução: Maria Fusako Tomimatsu, Monica Setuyo Okamoto e Takao Namekata;
Tamanho: 264 págs.;
Lançamento: 2008.[/box]

 

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55 – HISTÓRIA- O FEMINISMO QUE VEM DA ÁSIA

Qiu Jin

O feminismo asiático não é fenômeno recente. Desde fins de século 19 temos notícia de mulheres que lutam por libertar-se da sociedade patriarcal na Ásia. A chinesa Qiu Jin e as japonesas Kanno Sugako e Fumiko Kaneko são algumas precursoras. Mas há muitas, mulheres coreanas, indianas, árabes, brasileiras, americanas e europeias que unem suas vozes na defesa dos direitos das mulheres de etnias amarelas, marrons e brancas da Ásia.  

No Brasil, há coletivos, como o Lótus – Feminismo Asiático –  e Perigo Amarelo, que reúnem jovens pesquisadoras, artistas e ativistas na internet. Pesquisadoras, como Caroline Ricca Lee, Ingrid Sá Lee,  Laís Miwa Higa e Kemi vêm promovendo discussões sobre identidade feminina asiática, não só em universidades, também em outros espaços públicos. Elas lutam pela visibilidade da identidade brasileira de etnias asiáticas, combatendo a fetichização do corpo feminino e estereótipos, como rótulos de boneca ou gueixa.

Há que se lembrar de Suely Kanayama, Yoko Kayano  e Nair Kobayashi, militantes do Partido Comunista do Brasil e guerrilheiras do Araguaia, nos anos 70. A guerrilheira Suely, de codinome Chica, foi morta com mais de cem tiros pelo exército, quando a guerrilha vivia seus últimos dias. Seu corpo não foi encontrado. Um militar afirma que teria sido queimado na Serra das Andorinhas, com o de outros guerrilheiros, para evitar posterior identificação.

Na história do feminismo asiático temos poetas, como a chinesa Qiu Jin, que lutou contra a famigerada prática de pés de lótus, a tradição de amarrar pés de mulheres para reduzi-los.  Qiu Jin e as japonesas  Kanno Sugako e Fumiko Kaneko têm em comum o fato de ter despertado o ódio dos governos locais., terem sido presas e torturadas. 

Qiu Jin  viveu de 1875 a 1907. Um  casamento extremamente infeliz  a fez gerar novas ideias consideradas subversivas. Logo  se tornaria membro de um grupo que advogava a queda da dinastia vigente no poder. Em 1903, decidiu viajar e estudar no Japão. Em Tóquio, foi  editora de um jornal, para o qual  escreveu o manifesto “Uma respeitosa proclamação aos 200 milhões de camaradas chineses”, em que lamenta problemas causados pelos pés de lótus e casamentos opressivos.  

O manifesto corroborava a visão de que um futuro melhor para as mulheres na China aconteceria com um governo baseado no modelo ocidental. Oradora eloquente, defendia o direito de escolher casamento, liberdade de educação e abolição da prática do pés de lótus. Em 1907,  se tornou diretora de uma escola para meninas, oficialmente  escola de professores de educação física, mas secretamente um centro de treinamento para  revolucionários.

Em 12 de julho de 1907, Qiu Jin foi presa. Torturada,  recusou a admitir o envolvimento na conspiração para derrubar a dinastia Qing. Poucos dias depois, foi decapitada, aos 31 anos de idade. Qiu foi considerada heroína e mártir pelos revolucionários, tornando-se símbolo de independência feminina. Por ser sempre lembrada como mártir, líder feminista e heroína do povo chinês, seus trabalhos literários costumam ser esquecidos ou postos de lado.  

O sol e a lua não têm luz, a terra é escura;
O mundo de nossas mulheres está tão profundamente afundado, quem pode nos ajudar?
Jóias vendidas para pagar esta viagem através dos mares,
Separada da minha família, deixo minha terra natal.
Desenfaixando meus pés, limpo mil anos de veneno,
Com o coração aquecido despertarão todos os espíritos das mulheres.
Infelizmente, este lenço delicado aqui
Está metade manchado de sangue e metade com lágrimas.

JAPONESAS
Outra feminista revolucionária é Kanno Sugako , também chamada  Suga (1881–1911). Jornalista anarco-feminista, foi autora de uma série de artigos sobre opressão de gênero e defendeu a liberdade e direitos iguais para homens e mulheres. Em 1910, foi acusada de traição pelo governo japonês por ter alegado envolvimento em conspiração para assassinar o Imperador. Foi a primeira mulher prisioneira política a ser executada na história política do Japão.

Nascida em Osaka, perdeu a mãe com 10 anos.  Kanno foi estuprada aos 15 anos, com estupro tramado pela madrasta. Culpabilizada pela família e pela sociedade, seu estuprador foi inocentado. Teve o primeiro contato com o socialismo quando lia artigos sobre vítimas de abuso sexual. Aos 17, casou com um homem que pertencia a uma família de comerciantes em Tóquio.  

Separou do marido dois anos depois e tornou-se amante de um escritor de Osaka, Udagawa Bunkai. Kanno começou a escrever em jornal e tornou-se engajada no movimento de mulheres cristãs contra o sistema de legalização de bordéis. Com o início da guerra russo- japonesa, se juntou ao movimento pacifista socialista-cristão e em 1906 tornou-se líder de um jornal na província de Wakayama e começou um relacionamento com o líder socialista Arahata Hanson (1887–1981). Começou a escrever artigos sobre emancipação feminina, contra a domesticação das mulheres , o valor da leitura e do conhecimento e questionando a castidade para o casamento.

Depois de retornar a Tóquio, envolveu-se num manifesto anarquista, pelo qual líderes foram presos, em junho de 1908. Enquanto visitava amigos na prisão, foi presa. Depois de ser liberada, dois meses mais tarde,  encontrou o anarquista  Shūsui Kōtoku (1871–1911). Juntos, começaram a publicar um jornal anarquista, banido pelas autoridades.  Kanno foi presa mais uma vez.

Em seu diário na prisão, Suga percebe que a mudança poderia não acontecer através de meios pacíficos. Concluiu que a revolução violenta era necessária. Então, ela, seu amante e dois outros anarquistas tramaram o  assassinato do Imperador Meiji. Construíram uma bomba, mas foram traídos. Com outras 23 pessoas, Kanno foi sentenciada à morte e enforcada em 24 de janeiro de 1911.

Fumiko Kaneko (25 de janeiro de 1903 – 23 de julho de 1926) foi anarquista japonesa, companheira de Bak Yeol, anarquista coreano, ativista pela libertação da Coreia. Presa e condenada sob acusação de conspiração contra o Imperador e apoiar o Movimento de Libertação da Coreia, se suicidou na prisão após três anos.

Kaneko nasceu em Yokohama, em família pobre. Em meio à fom, a mãe decidiu vendê-la para um prostíbulo, mas foi  recusada. Aos nove anos foi enviada para a avó materna, que morava na Coreia. Na escola, Kaneko se mostrou extremamente interessada em seguir estudos além da educação básica. A avó de Kaneko reprovava a atitude da neta de continuar os estudos e passou a maltratá-la. Cansada de maus tratos, Kaneko é mandada de volta ao Japão.

Quando  chegou em Tóquio, em  1920, conseguiu empregar-se em jornal. Começou dois cursos, Matemática e Inglês.  Conheceu  reformistas cristãos e socialistas, aceitando a doutrina durante um tempo.  Mas tinha dificuldades em manter o emprego, porque era explorada e o patrão era imoral na vida pessoal. Mal tinha tempo de acompanhar as atividades escolares, então as abandonou.

Aproximou-se de niilistas: Max Stirner, Mikhail Artsybashev e Friedrich Nietzsche. Passa a se relacionar com o anarquista Bak Yeol, um dos líderes do coletivo Futeisha (Sociedade dos Descontentes), formado por anarquistas e niilistas, japoneses e coreanos.

Fumiko e  Bak publicaram duas revistas que questionavam problemas da Coréia sob o Imperialismo Japonês. Após o sismo de Kanto em  1923,  o governo japonês passa a prender e assassinar imigrantes chineses e coreanos, e grupos de dissidentes, anarquistas e republicanos. Aí  são presos membros da Futeisha, incluindo Kaneko e Bak.

Acusados de conspirar o assassinato da família real japonesa, Kaneko e Bak foram condenados à morte. As sentenças seriam comutadas para prisão perpétua. Quando o diretor da prisão de Ichigaya entregou a Kaneko a comutação, Kaneko rasgou o certificado  lhe dizendo que o governo não tinha nada a dizer em relação a sua vida ou morte.

Transferida para Utsunomiya, recusou todo tipo de trabalho forçado, indo parar em confinamento em solitária. Três meses depois, requisitou fazer cordas com fibras de cannabis. Em 23 de julho de 1926, foi encontrada morta, por enforcamento, com a corda que ela mesmo fizera.