45 LITERATURA – para onde aquela estação me leva

A poeta pernambucana Micheliny Verunschk escreve um poema em que faz referência aos trens do Japão

45literaturaimagem01
Compartment C Car, 1938, Edward Hopper

Micheliny Verunschk

para onde aquela estação me leva
outra vida a mesma vida
um quadro de Hopper
onde estou sozinha lendo
o último best-seller do momento

para onde aquela estação me leva
um outro túnel um labirinto
o Japão do outro lado do buraco
que cavamos bem fundo baby
para empurrar o abismo daquilo que sentimos

para onde aquela estação nos leva meu bem
para um poema para outra cena
para os teus braços de desenho animado
que se alongam tanto mais eu me afasto
nós dois nesse trem intergaláctico, viajando pelos tubos coronários

não sei não sei
para onde aquela estação nos leva hein?
nem sei se estamos mesmo na plataforma certa
o mundo é um grande desengano meu bem
um estampido um grande desencontro assim a seco

na próxima estação desembarque por ambos os lados

Micheliny Verunschk é Doutora em Comunicação e Semiótica e Mestre em Literatura e Crítica Literária, ambos pela PUC-SP, autora do romance Nossa Teresa – vida e morte de uma santa suicida (Patuá, 2015), vencedor do Prêmio São Paulo de Literatura 2015 (melhor romance), Geografia íntima do deserto (Landy 2003), finalista do Portugal Telecom 2004, b de bruxa (Mariposa Cartonera, 2014), O observador e o nada (Edições Bagaço, 2003) e A cartografia da noite (Lumme Editor, 2010).

45 POLÍTICA – PRESENÇA NIPO-BRASILEIRA NA SEMANA DA ANISTIA

Mario-Jun-Okuhara
Mario Jun Okuhara,  um dos organizardores dos eventos da comunidade nipo na Semana da Anistia

De  22 a 28 de agosto, vários grupos que lutam contra o racismo contra a etnia amarela realizam eventos dentro da  “Semana da Anistia”, do Ministério da Justiça. Nesta quarta-feira (24), às 19h, acontece uma roda de conversa, no Sindicato dos Metalúrgicos, em Santos.  Na quinta (25), cine debate com a exibição dos curtas “Pique Esconde e Raul Soares: Histórias que não se apagam”, no Museu da Imagem e do Som, em Santos. Na mesma cidade, na sexta (26),  a partir das 19 h, há a exibição do filme “Em nome da Segurança Nacional”, no Museu da Imagem e do Som. 

Em São Paulo, a progamação começa na terça (23), às 17h30min,  com o lançamento do site e documentário sobre violações dos direitos do povo Krenak pelo Estado Brasileiro.no Saguão da Procuradoria Regional da República da 3a. Região, na sexta (26), às 13 h, Audiência Pública Perseguição, Homofobia e Ativismo LGBT na Ditadura Militar, no Espaço Transcidadania, no Largo do Arouche. No  sábado (27), há duas atividades, a primeira, às 9 h,no Centro Pastoral São José, no Belenzinho, com lançamento do livro “Quando os trabalhadores se tornaram classe: a construção da riqueza no estado de São Paulo”, e  às 15 h, Sarau e Roda de Conversa acerca da Identidade Asiática no Brasil, Memórias, Repressão e Resistência, no Centro Cultural São Paulo, organizada pelo coletivo Perigo Amarelo. No domingo (28), às 9h30min, na Igreja São Gonçalo,  missa em memória dos 6.500 imigrantes japoneses expulsos de Santos, no litoral paulista,  durante o governo de Getúlio Vargas .

Um dos organizadores da Semana é o  cineasta Mário Jun Okuhara, autor do filme “Yami no ichi nichi –  O crime que abalou a colônia japonesa” , que mostra a história de Tokuichi Hidaka, que aos 19 anos, foi um dos autores do assassinato do Coronel Jinsaku Wakiyama, em crime atribuído à organização ultranacionalista Shindo Renmei.  Okuhara milita pela retratação pelo Estado Brasileiro pelas  violações de direitos dos imigrantes japoneses durante o Estado Novo. O cineasta quer seguir o exemplo da  National Association of Japanese Canadians, que obteve  êxito no movimento de reparação em 1988.

Eventos fora da programação

Uma das raras fotos de Suely Kanayama.
Uma das raras fotos de Suely Kanayama.

Também haverá uma palestra e exibição do documentário “Perigo Amarelo” na Universidade de Mogi das Cruzes e uma missa no Rio de Janeiro, mas não foram inseridas na programação da Semana da Anistia. Em Curitiba, o Espaço Memória, Mulher e Trabalho homenageia as mulheres que lutaram contra as ditaduras no Brasil, no Estado Novo (como a poeta e feminista Patrícia Galvão e Olga Benares, companheira do fundador do Partido Comunista do Brasil,  Luís Carlos Prestes) e no Golpe de 1964, com a exposição “Onde está Suely? – Mulheres que não se calaram na ditadura”. O destaque da mostra é para Suely Yumiko Kanayama, que militou no Partido Comunista do Brasil  e lutou na Guerrilha do Araguaia.  O vídeo contando sua história, produzido para a Comissão da Verdade, também será exibido, com outros vídeos de guerrilheiras e mulheres torturadas pela ditadur. A guerrilheira Suely, de codinome Chica, foi assassinada com mais de cem tiros pelo exército, quando a guerrilha vivia seus últimos dias. Seu corpo não foi encontrado. Um militar afirma que teria sido queimado na Serra das Andorinhas, junto com o de vários outros guerrilheiros, para evitar posterior identificação. Haverá exibição de filmes e debates nos dias 25, 26 e 27. O Espaço Memória, Mulher e Trabalho fica na Livraria Vertov, Avenida Visconde de Rio Branco, 835, sobreloja 02.


45 KINEMA -YO BAN BOO, UM CANAL PARA VER ASIÁTICOS NO BRASIL

45kinemaimagem04Desde maio deste ano, youtubers têm um canal alternativo para assistir vídeos bem-humorados. Mas ao contrário dos canais que costumam bombar,  Yo Ban Boo não tem protagonistas adolescentes: seus personagens são vividos por atores descendentes de orientais e as histórias giram em torno de seu cotidiano. Cansados de ver  os homens asiáticos interpretando  nerds ou  lutadores de kung fu,  em geral assexualizados, em contraponto com mulheres asiática em papéis de “mulher fatal”, o  produtor de vídeos Leonardo Hwan e seus parceiros Beatriz Diaféria e Kiko Morente criaram o  Yo Ban Boo, com a  proposta de ressaltar preconceitos vividos cotidianamente por descendentes de  asiáticos no Brasil.

Num dos vídeos, por exemplo, a mãe dominadora tenta convencer a filha “inteligente” a não desistir da faculdade. Em outro, o  tio “descolado”  dá conselhos amorosos ao sobrinho homossexual. Há também vídeos que se referem claramente aos preconceitos, como “Coisas que os orientais sempre ouvem”, um dos mais vistos do canal, com mais de 22  mil visualizações. Em geral, as histórias vêm carregadas de humor, que facilita a interatividade com o público.

45kinemaimagem03Leonardo acha que o canal pode incentivar atores e equipes de trabalho audiovisual a buscar espaços em que possam atuar em papeis não estereotipados. Ele acredita que este trabalho de conscientização da representatividade do ator étnico oriental pode vir daqui a alguns anos.Seu trabalho é inspirado em canais étnicos que existem em outros países, como o americano Wong Fu Productions.

Para o produtor, o  Yo Ban Boo  pode ser um trabalho bacana para os atores, e uma vitrine para eles, mas a ideia é que o canal seja objeto de desejo deles tanto quanto é fazer algo na TV ou cinema. Leonardo  acha que o pequeno trabalho do canal, somado a outras iniciativas – como os coletivos que discutem questões sobre racismo na internet e associações de atores, como o Coletivo Oriente-se (cujo canal será lançado em setembro) – podem provocar um “abalo” nos bastidores da produção audiovisual. “Precisamos de roteiristas asiáticos, diretores asiáticos, produtores asiáticos, investidores asiáticos. Só assim teremos papéis asiáticos e não-estereotipados. Um cara branco pode ser muito bem intencionado e querer incluir um asiático em seu filme, e ir atrás de formas para não estereotipá-lo, mas não é a mesma coisa que um asiático escrevendo sobre um asiático. E isso vale para outras minorias marginalizadas no audiovisual também. Precisamos de mais produtores, roteiristas e diretores mulheres, negros, LGBTs”, opina ele.

A postura da Yo Ban Boo se contrapõe ao yellowface praticado pela Rede Gobo, que traz um ator branco (Luís Mello) no papel de um imigrante japonês, na próxima novela das seis.O humor usado nas histórias do Yo Ban Boo é também antagonista ao humor da grande mídia,  que em geral reforça o imaginário popular contra as minorias sociais, étnicas e sexuais, como orientais, negros, mulheres  e homossexuais.

A Strada Filmes, produtora do Yo Ban Boo, já realizou trabalhos de audiovisual para empresas e outras produtoras, e atua  em vários setores do audiovisual. A produtora investe  boa parte do que arrecada em histórias que querem  contar,  como o Yo Ban Boo, “A Vida \o/ de Lucas Batista”, e outras produções que ainda virão como uma série para TV que se chamará “Sobreamor”. A produtora pretende realizar e apoiar filmes e produções que concedem espaço para minorias, como a websérie “Copan”, com temática LGBT, da qual foram parceiros.

45kinemaimagem02
Leonardo Hwan (à frente, à esquerda),  Beatriz Diaféria (à direita), Kiko Morente (ao lado de Beatriz)  e equipe do Canal Yo Ban Boo

45 LITERATURA – NAGAI KAFU APRESENTA A “GUERRA DAS GUEIXAS”

Publicada originalmente entre 1916 e 1917 no jornal literário Bunmei, Guerra de gueixas foi uma obra bastante ousada para a época – desde sua primeira edição em livro, ainda em 1918, até os anos 1960, só circulou a edição “censurada”, em que as passagens tidas como eróticas tiveram de ser removidas. Nada que hoje causasse maior furor, mas as pequenas historietas que compõem a trama central, notadamente os relacionamentos entre as gueixas e seus clientes, carregam de fato muito de uma promiscuidade comum na sociedade japonesa, mas sobre a qual não se falava – ou se escrevia. Ambientada em Shinbashi, Tóquio, tido como o bairro da luxúria, acompanhamos a jornada de Komayo, uma gueixa que, depois de se casar, deixou para trás a vida libertina. Mas, por se tornar viúva ainda jovem, acaba retornando ao antigo ofício. Um reencontro ao acaso com um amante do passado irá bagunçar os sentimentos de Komayo, sobretudo porque sua teia de relações afetivas não é pequena, incluindo um velho rico a quem ela abomina, e um jovem ator onnagata – aquele que encarna papéis femininos –, por quem Komayo nutre certa obsessão. Longe de propor uma visão romântica das gueixas – essa figura ao mesmo tempo hipnótica e misteriosa da cultura japonesa que tanto deslumbra o imaginário ocidental –, Nagai Kafu envereda por uma perspectiva bem mais realista, ele que foi um autor notoriamente influenciado pelo naturalismo francês. A gueixa de Kafu não é meramente a criatura de coque, maquiagem e quimono fadada a ser apenas a companhia submissa para o deleite masculino: é a mulher capaz de amar, sofrer e se ressentir, evocando assim uma falibilidade humana que a faz ainda mais sedutora. Recorrendo a uma série de personagens secundários, entre escritores, atores, criadas e outros tipos, o autor compõe um painel instigante da Tóquio boêmia do início do século XX, reconstituindo com grande vivacidade a engrenagem de costumes e mecanismos das relações sociais de uma época.
Guerra das gueixas – Nagai Kafu
Editora Estação Liberdade
Tradução: Andrei Cunha

45 PESQUISA – ESTUDOS SOBRE LITERATURA JAPONESA NA UFPR

O Nero (Núcleo de Estudos do Romance da UFPR) começa um ciclo de estudos sobre literatura japonesa, todas as terceiras terças-feiras do mês, até novembro.

45pesquisaimagem01A partir deste semestre, o Nero (Núcleo de Estudos do Romance da UFPR)  começa um ciclo de estudos sobre literatura japonesa.  Os encontros acontecem todas as terceiras terças-feiras do mês, até novembro.  A professora de Literatura Japonesa, Márcia Namekata, é a convidada do ciclo, que tem como  mediadores os professores Caetano Galindo, Luís Bueno e Pedro Dolabela Chagas. O bate-papo será  no Edifício D. Pedro I • Reitoria UFPR • 11º andar, Sala 1.100.

O primeiro encontro é nesta terça-feira (16), das 16 às 18 horas, quando será discutido o romance  “Tale of the Lady Ochikubo”, de autoria desconhecida. Cópias do texto estão disponíveis na Copiadora Reitoria | Rua Amintas de Barros, 270. A participação é  livre e gratuita.  Não há nenhum tipo de pré-requisito. Nem mesmo ter lido a obra.

Programação

27 de Setembro
Genji Monogatari, de Murasaki Shikibu

25 de Outubro
The Pillow Book, Sei Shōnagon
Versão traduzida em português

22 de Novembro
The Life of an Amorous Man, de Saikaku Ihara

45 ARTES – CALIGRAFIA JAPONESA EM CURITIBA

45artesimagem01

O caligrafista japonês Tairiku Teshima abrirá a exposição ” A dinâmica arte do Shosho – Caligrafia Simbólica do Japão”, nesta quarta-feira (17), a partir das 16 h, no Espaço Cultural BRDE ( Palacete dos Leões), em Curitiba. O Espaço Cultural BRDE fica na Avenida João Gualberto, 530/570, no bairro Alto da Glória.

Embora a  caligrafia tenha uma longa tradição no Japão, foi só a partir do uso oficial da escrita chinesa (kanji) que se tornou uma arte, não variando até a Segunda Guerra Mundial. A partir de então, é desenvolvida a arte do Shosho, a caligrafia artística, muitas vezes usando apenas um ideograma, em vez de vários. Esta arte influenciou outros campos e escolas artísticas, como a pintura do Expressionismo Abstrato.

Esta exposição tem o apoio do Consulado Geral do Japão em Curitiba, Museu Hikaru, Câmara do Comércio Brasil-Japão, Instituto Cultural e Científico Brasil-Japão, Emadel Engenharia e Obras.

45artesimagem02.jpg

Tairiku Teshima nasceu em 1947, em Tóquio, Japão. Tairiku criou e aperfeiçoou seu estilo singular no Shosho. Ele já fez  demostrações da caligrafia no Japão e em outros países, em concursos e outros eventos. Ele já veio ao Brasil por ocasião da Comemoração dos 100 anos da Imigração Japonesa, e também se apresentou na Venezuela, México, Peru, Bolivia, Chile e Argentina, além da China (Universidade de Shangai), em Londres e Paris. Na França, recebeu a Medalha Dourada por Influência  Cultural (Médaille du Rayonnement culturel) pela Renaissance Francaise. A obra “Kan” é agora parte do acervo do Museu Guimet, em Paris.

45 ARTES – LEILÃO DE OBRAS DE ARTISTAS NIPO-BRASILEIROS

Artistas da mostra “Olhar Incomum” participam de leilão na internet para produzir catálogo

 

saikiimagem02
Gravuras  de Fernando Saiki na exposição “Olhar InComum”: a primeira obra está no leilão.Foto: Tatewaki Nio.

De 15 a 21 de agosto acontece um leilão virtual com obras de artistas nipo-brasileiros. O leilão estará aberto o dia todo, até as 23h59, aqui.  O lance inicial é de 50% do valor das obras. Estarão à venda duas obras de Takako Nakayama (gravura em metal), duas de Marta Matsushita (fotografia), uma de Fernando Saiki (xilogravura) e outra de Alline Nakamura (fotografia).

O leilão tem como objetivo ajudar a arrecadar fundos para produção do catálogo da mostra “Olhar InComum – Japão Revisitado”, que está aberta no Museu Oscar Niemeyer, em Curitiba, até o dia 11 de setembro. Com vistas a este objetivo, também está em curso um projeto de financiamento coletivo no Catarse, no valor de R$ 14 mil. Até agora foram arrecadados R$ 4850,00.