30 PESQUISA | DIVERSIDADE MARCA ESTUDOS JAPONESES

Os vários livros publicados sobre a  área de Estudos Japoneses no Brasil são marcados pela diversidade de temas. Roland Barthes considerava  o Japão um sistema de signos, que deveria ser interpretado com luz própria. Essa, também, a opinião do antropólogo Claude Levi-strauss , que  definia o país como sendo  uma “cultura do avesso”, sendo o avesso o lado complementar do que é visto como o direito.

Ao contrário, porém, de Barthes e Levi-strauss, que não conheciam a língua japonesa,  conhecê-la e dominá-la, para os   pesquisadores de Estudos Japoneses, é fundamental.  Assim  se livram de generalizações e leituras de segunda mão,  embora mesmo por  leituras intermediárias,  japonólogos  tenham conseguido realizar ensaios brilhantes.

Curioso, perceber, num ensaio sobre orientalismos no cinema, assinado por Marcela Canizo, em  Tokyogaqui, que a miscelânea, a colagem de  fragmentos e a transversalidade fazem parte da cultura japonesa no Ocidente. Não há como fugir do orientalismo ou do Japonismo. Mesmo no território sagrado da Arte, o Japão puro escapa pelas bordas. E talvez daqui, do Brasil, onde todas as tendências culturais e étnicas confluem, seja possível observar a carnavalização de uma “tradição  milenar” – em verdade, miscigenada desde o início de sua formação.

A seguir, uma relação de livros que trazem artigos sobre Estudos Japoneses no Brasil. A lista é incompleta, e os livros são alguns dos últimos lançamentos na área, excluindo anais de seminários científicos.

30pesquisaimagem02Reflexões sobre a cultura japonesa à luz do século XXI – Tradição x Modernidade. (Apaex, 2013).  Organização Mário Sato.  Publicação da  Associação Paranaense de Ex-Bolsistas Brasil-Japão (Apaex), reunindo apresentações de 7 seminários , sob forma de artigos científicos, versando sobre os temas  Diferenças Culturais, Direito, Dekasseguis. Meio Ambiente, Educação, Aspectos Estéticos e Aspectos Religiosos. Mais informações aqui.

30pesquisaimagem01Em busca do Japão Contemporâneo (Hedra, 2013). Organização Christine Greiner, Cecília Noriko Sato e Marco Souza. Além de artigos, traz entrevistas com pesquisadores, feitas por Cecília Noriko Sato. Reúne entrevistas e ensaios sobre a cultura e a sociedade japonesa contemporânea. Uno Kuniichi escreve sobre o Japão e alguns filósofos e artistas ocidentais; Kuriyama Shigehisa trata do reconhecimento de circuitos (ora visíveis, ora invisíveis) que conectam seres humanos, artefatos, alimentos, dinheiro e o universo; Igarashi Yoshikuni elabora cruzamentos entre narrativas diversas, da memória individual às experiências coletivas; e, finalmente, Mauro Neves põe em cena uma cultura em rede para pensar os novos circuitos da produção cultural na Ásia. As pesquisas foram feitas por Cecília Noriko Sato.

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 Imagens do Japão 2 – Experiências e Invenções (Annablume/Japan Foundation, 2012) Organização Christine Greiner30pesquisaimagem03, CecíliaNoriko Sato e Marco Souza. Imagens do Japão – Pesquisas, Intervenções Poéticas, Provocações (Annablume/Japan Foundation, 2011). Organização Christine Greiner e Marco Souza. Os dois volumes da série reúnem artigos de  pesquisadores do Brasil, Japão, Itália e Argentina sobre cinema, culinária, cultura pop, sociedade  e  artes, analisando como se dá a reinvenção de imagens tradicionais do Japão e como elas vêm sendo apropriadas pelo Ocidente. Algumas pesquisas partem de levantamentos bibliográficos e de filmografias específicas, outras nascem de experiências práticas e de depoimentos pessoais. Entre os pesquisadores estão aria Roberta Novielli, Marco Souza,  Marcela Canizo,  Mauro Neves,   Cecília Noriko Ito Saito, Michiko Okano,  Christine Greiner, Jo Takahashi,  Fernando Saiki, Gabriel Theodoro Soares,  Yuri Firmeza.

30pesquisaimagem04O Japão não é longe daqui (Fundação Japão, 2011). Organização Antônio Motta. Esta obra trata da imigração japonesa no Nordeste, das trocas de conhecimentos e criatividades entre as duas culturas, incluindo o universo da globalização, do transnacionalismo e do consumo. Traz artigos sobre saúde,  economia, história,  cultura pop , música, religião e gastronomia.

30pesquisaimagem05 Japonesidades Multiplicadas (Edufscar, 2011). Organização Igor José de Renó Machado. Traz artigos que resumem pesquisas do  Laboratório de Estudos Migratórios  da Universidade Federal  de São Carlos UFSCar.  As pesquisas trazem uma abordagem alternativa à questão da  etnicidade japonesa no Brasil, com colaborações de Victor Hugo Kebbe, Gil Vicente Lourenção, Nádia Luna Kubota, Erica Rosa Hatugai e Fábio Ricardo Ribeira.

30pesquisaimagem06Tokyogaqui – Um Japão imaginado (Edições SescSP, 2008) . Organização Christine Greiner e Ricardo Muniz Fernandes. Tokyogaqui é uma iniciativa de pensar o Japão como um local de partilha daquilo que permanece na memória de cada não-japonês, brasileiro e especificamente paulistano. No Japão ora revelado coexistem duas realidades – a da memória e a da dispersão, um espaço templo e outro shopping, um lado emoção e outro automação. Mais do que uma comemoração de centenário, mais do que documentos, os textos reunidos em Tokyogaqui são caminhos para a compreensão de um Japão real, um Japão recriado no reino do descartável e também na resistência da tradição.

30 ARTES | O OUTRO TEMPO DE HARUO OHARA

Foto: Haruo Ohara.
Foto: Haruo Ohara.

Que outro tempo é esse de Haruo Ohara ?  Mais uma exposição de fotografias, aberta no Museu da Fotografia, em Curitiba, faz pensar na relação entre tempo e fotografia, tempo e arte. Assistindo o documentário Haruo Ohara, de Rodrigo Grota, o espectador percebe que para o fotógrafo japonês,  o tempo era fundamental para compor suas obras. Ohara passava horas pensando na composição, visitava os cenários das fotos, estudava ângulos. Difícil pensar que um lavrador poderia ter essa relação de contemplação com a vida.  A associação imediata, para os ocidentais, é com o haicai. Eis porque muitos dos admiradores da obra de Ohara comparam suas fotos ao haicai.

Mas a relação dos japoneses com a natureza não advêm apenas do exercício  do haiku.  Para o japonês, a observação dos ciclos da natureza é fundamental para realizar qualquer trabalho, seja esse labutar na lavoura, escrever poemas ou tirar fotografias.  Por ter conseguido concretizar o pensamento japonês para as suas fotografias, Haruo Ohara é o artista nipo-brasileiro que escolhemos para representar o espírito aqui-agora nesse Natal.  Meri Kurisumasu !

30 HAICAI O REFINAMENTO DO HAICAI LIVRE

30haicaiimagem01O estilo do ” haicai livre”  (free haiku) teve grande repercussão no Ocidente. Disseminado principalmente pelo poetas beatniks como Jack Kerouac e Gary Snyder.  Para o tradutor dos haicais de Kerouac (O Livro de haicais, LPM, 2013), o poeta brasileiro Claudio Willer, “haicai é poesia do objeto, registro do enxergar” .  Nesta véspera de Natal, fizemos uma seleção de alguns livros e blogues de haicai para festejar a contemplação do sublime no cotidiano. Até amanhã continuamos festejando: meri kurisumasu !

O trem veloz
     através do vazio
– Eu fui um ferroviário

Poças d’água ao crepúsculo
      – uma gota
caiu

Violetas ao crepúsculo
     – uma pétala
caiu

(O Livro de haicais, Jack Kerouac, LPM, 2013.)

O gato se agacha
Um bote certeiro
no rato de borracha

Ponteiros de hashi
costuram a renda das horas –
O tempo é aqui

Tudo faz sentido –
Nessa vida estou salvo
por estar perdido

( Um lugar chamado instante,  Alvaro Posselt, Editora Blanche, 2013).

o ronco já avisa
que quase não é possível
cruzar o riacho

tarde da noite
a cachorra aparece
toda enlameada

a casa silencia
besouros batem na vidraça
zazen da noite

 
( Do monge Koun, do blogue Cultivando Nuvens )

 

30 HQ | MAKI, UMA FAMÍLIA MUITO MALUCA

Capa de "Maki". Foto: divulgação.
Capa de “Maki”. Foto: divulgação.

A família Maki é bizarra. Um inventor maluco, seu irmão  super-esperto, filhos de um escritor já falecido. Haru Maki vive tentando vender projetos inúteis. Ten Maki tenta driblar a falta de dinheiro passando a perna em todo mundo. O roubo de um invento maluco de Haru os leva para longe de casa, a cidadezinha de Westerno.  Na vila vivem o ninja Jaggah, o ciborgue Tchanpom e seu robô Zed, É com esses personagens que os Maki vão interagir.

As cinco historinhas de Maki estão interligadas e recriam personagens e cenários clichês do cinema e dos quadrinhos. A sacada dos quadrinistas do Lobo Limão, seus criadores, é misturar elementos da cultura japonesa e da cultura americana. Culinária japonesa, mangá, clichês  de comédias de ficção científica e de faroeste, está tudo lá.  A graça é que  a publicação é bem produzida, o traço é profissional, e o Lobo Limão é curitibano.

Ou seja, Yoshi Itice, Marcel Mori e Kendy Saito se posicionam ao lado dos veteranos  André Caliman, José Aguiar, Tako-x e Tadao Miayaqui para fazer de Curitiba um polo nacional de Quadrinhos. Maki é o segundo projeto produzido através de financiamento coletivo pelo Lobo Limão. O primeiro foi Last Final RPG . E através dessa estratégia, das vendas diretas em eventos, da divulgação em sites e nas redes sociais os Quadrinhos se tornam profissão ” de gente grande”  para muitos jovens talentos.

30 ARTES | A HERANÇA DE MASANORI FUKUSHIMA

Entrada para o ateliê de Masanori Fukushima. Foto: Macaxeira.
Entrada para o ateliê de Masanori Fukushima. Foto: Macaxeira.

O que acontece com o acervo de um artista quando ele morre ? Muitas famílias acabam vendendo as obras, ou a doando os livros de sua biblioteca.  Outras  o guardam apenas para si, não permitindo exposições, divulgação  ou distribuição.   É o que acontece com as obras de Hélio Oiticica, nas artes, e com os livros de Jamil Snege, na literatura. Outras transformam o acervo em museu particular, ou fazendo doações a instituições. Foi o que aconteceu com as fotos de Haruo Ohara, doadas ao Instituto Moreira Sales.

A família do pintor Manabu Mabe resolveu essa questão criando a Fundação Manabu Mabe, que mantém uma galeria, a Joh Mabe. Ali, de tempos em tempos, são feitas exposições do artista.  Já o acervo de pinturas, desenhos, ilustrações e esboços de Masanori Fukushima , continua em seu ateliê, em Curitiba. Há mais de 100 pinturas, e também o  obras inacabadas, além de uma biblioteca, formada por títulos em japonês, a maioria das áreas de história e política. Fukushima, além de artista plástico, foi professor universitário no Japão e no Brasil. 

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Empilhadas em um canto, as obras precisam de mais espaço para serem conservadas, além de ventilação e iluminação adequadas. No acervo, pode-se notar as várias fases criativas pelas quais passou o artista:  figurativo,  oriental, abstrato.  De acordo com sua esposa Maria Cristina Wiechmann Fukushima,  o processo criativo de Masanori era muito espontâneo. “Ele iniciava suas pinturas sem esboço prévio.  As cores iam brotando e impregnando a tela, num processo e criação contínua. Um quadro poderia se transformar em outro, as imagens  desenhadas e redesenhadas, viradas de ponta-cabeça, pintadas de outras cores, desdobradas . “

 

Biblioteca do artista. Foto: Macaxeira.
Biblioteca do artista. Foto: Macaxeira.

Masanori nasceu em Kobe e chegou ao Brasil em 1963, como bolsista da província de Hyogo. Fez mestrado em sociologia na Universidade Estadual de São Paulo. Aí, conheceu a que seria a futura esposa, Cristina, com quem se casou em 1967. Nesse mesmo ano voltou para o Japão e começou a dar aulas de Português na Universidade de Takushoku, em Tóquio. Depois, formou-se em Política e começou a dar aulas na pós-graduação. Ao lado da vida acadêmica, frequenta grupos de pinturas. Faleceu em 2008.

Moleskine com anotações. Foto: Macaxeira.
Moleskine com anotações. Foto: Macaxeira.

Parte do processo do artista pode ser entendido através de anotações feitas em seus cadernos (moleskines) , nos quais registrava tudo o que via: exposições, espetáculos, salões de arte, aeroportos, cafés, restaurantes.  Tudo minuciosamente anotado e numerado. No caderno 2, por exemplo, há uma lista de exposições que visitou no ano de 1998. Há  curiosos desenhos para lembrar as obras que mais chamaram a atenção. No caderno 5, há um esboço de obras do escultor Francisco Brennad, em 1999, em Pernambuco. E no caderno 12, há mapa de um pé, indicando pontos de shiatsu, desenhado em 2005. 

20131217220227333_0001Masa, como é chamado  pela família, teve fases de influência marcante da natureza brasileira à persistência do traço oriental. Na fase brasileira, a paisagem, a natureza, entre plantas e animais,  é que o retratava, em cores muito vivas. Na fase oriental, destaca-se a influência da caligrafia, tanto no uso de ideogramas como na técnica gestual. Gradativamente, foi eliminando o figurativo e  optou, – quase uma sina entre artistas nipo-brasileiros – pelo abstrato. 

20131217220426578_0001E  o que fazer com o seu acervo ? A viúva quer fazer doação dos livros de sua biblioteca.  Além dos quadros empilhados em seu ateliê,  também há obras no Japão.  A família pretende fazer exposições, que  devem ser viabilizadas  através de projetos com incentivo cultural. Haverá um mecenas para preservar esse acervo  ?

30 LITERATURA | "A GANGUE ESCARLATE" E O MODERNISMO JAPONÊS

Capa de "A gangue escarlate de Asakusa". Foto: divulgação.
Capa de “A gangue escarlate de Asakusa”. Foto: divulgação.

A gangue escalarte de Asakusa (Estação Liberdade, tradução de Meiko Shimon), como outras obras do início da carreira de Yasunari Kawabata, tem algo de estranho. Contos da palma de mão e A Dançarina de Izu são  compostas por fragmentos . Não que não tragam histórias fechadas, mas compõem-se de narrativas ou capítulos curtos. O novo romance de Kawabata, traduzido por Meiko Shimon,  segue o estilo hesitante de suas primeiras experiências literárias. Embora o escritor trate de um tema tipicamente japonês  – um bairro da boemia de Tóquio – a influência da literatura ocidental é visível.

Em seus romances posteriores, Kawabata abandonaria a montagem em fragmentos, preferindo uma narrativa mais densa. Por ter como cenário o bairro de Asakuka, o Ocidente não poderia deixar de imiscuir-se na narrativa. Na virada do século, havia no bairro  um teatro kabuki, malabaristas, casas de gueixas, números circenses, fotógrafos lambe-lambes, dançarinos, comediantes, macacos amestrados, bares, restaurantes e galeria de arco e flecha cheias de garotas de programa. A zona foi destruída duas vezes: a primeira no terremoto (seguido de incêndio) de 1923, após o que foi reconstruída; e depois no bombardeio norte-americano de 1945, quando morreram entre 60 e 70 mil pessoas. Hoje, é uma área comercial como qualquer outra, cheia de edifícios.

As atrações noturnas, invariavelmente, eram de shows e performances franceses e americanos.  É nesse local que o escritor faz viver  a misteriosa Yumiko, Hakiko, Umikichi e outros pequenos anti-heróis, prostitutas e marginais.  Mas desde então, Kawabata faz a defesa das personagens femininas, que seguiria em outras obras. Yumiko, por exemplo,  se recusa a assumir o papel de subalternidade destinado às mulheres no Japão.

A narrativa foi  publicada de forma episódica num jornal de Tóquio entre 1929 e 1930, evocando experiências biográficas do autor. Um escritor americano, Joshua Cohen,  diz que o romance é o “Ulysses”  japonês, por ter introduzido a modernidade nessa literatura. Porém, os personagens de Asakusa não têm a profundidade Leopold Bloom e outros tipos  criados por James Joyce. O  que conta é a ousadia do pensamento de igualdade moderno e a tentativa de imitar a técnica da narrativa fragmentada.

Yasunari Kawabata, Nobel de 1968, é um dos escritores japoneses reconhecidos na literatura universal contemporânea.  Nascido em Osaka, em 1899,  interessou-se por literatura ainda muito jovem. Formou um grupo que defendia o “neossensorialismo”, uma nova estética na literatura japonesa, deixando o realismo em voga de lado em favor de uma escrita mais lírica e impressionista. Kawabata suicidou-se em 1972, dois anos depois do ato de seu amigo Yukio Mishima.

Leia aqui um capítulo do livro.

30 HAICAI | MAIS VIDA PARA BASHÔ

Capa do livro "Vida". Foto: divulgação.
Capa do livro “Vida”. Foto: divulgação.

Há pouco tempo, o nome do poeta Paulo Leminski esteve envolvido na polêmica sobre a chamada “lei das biografias”.  Personagem de uma biografia escrita pelo jornalista Toninho Vaz, seu nome foi, mais uma vez, estampado nas manchetes de jornais. De um lado, a viúva Alice Ruiz e suas filhas defendiam a manutenção dos itens do Código Civil que garantem a preservação da privacidade do biografado. De outro, o biógrafo defendia a queda da necessidade de autorização para escrever sua obra.  A discussão  ainda pega fogo na Câmara e no Senado.

Leminski, porém, escreveu biografias. Não como quem emite um relatório de datas e fatos sobre seu personagem. Mas como quem o ama.  Vida  traz a biografia de quatro de seus ídolos: dois revolucionários, o  russo León Trotski e o galileu Jesus e dois poetas, o  japonês Matsuo Bashô e o brasileiro Cruz e Sousa. O volume, reunindo o quarteto, foi lançado já alguns meses pela Companhia das Letras, a mesma  editora que publicou a antologia Toda Poesia, que atingiu 65 mil exemplares vendidos.

O poeta  não era biógrafo profissional. Suas incursões pelo gênero são poéticas. O estilo se assemelha mais à colagem de fatos (pouquíssimos), fotos, poemas (muitos), alicerçados por seu poder de pensamento crítico.  As pseudobiografias são, na verdade, ensaios.  A de Bashô, por exemplo, é  um tratado seriisimo sobre a poesia japonesa, o haiku e a declaração de sua paixão pelas artes japonesas, incluindo as marciais. Paixão transversal, a ponto de os conceitos invadirem as histórias de outros biografados, como Cruz e Sousa. Isso para explicar o sentimento que une os quatro biografados: sabishisha, spleen, banzo e blues. Quatro palavras que têm a melancolia como denominador comum.

Até o século XIX, a filosofia relacionava o sentimento de melancolia à poesia. Talvez o poeta cultivasse esse sentimento atávico de tristeza.  E na arte japonesa, além do sabishisha,  de onde vem o conceito de wabi sabi –  o cultivo da beleza imperfeita – há também o mononoaware, o sentido do efêmero. Há quem veja na escolha desses personagens influência da personalidade de Leminski.  Teriam sido todos suicidas, afirmam os críticos. A tese da personalidade suicida, da tendência kamikaze é o que permeia uma ou duas biografias sobre o poeta. Antes, porém, de cultivar sentimentos mórbidos, Leminski exaltava a alegria.  

A biografia de Bashô é dividida em quatro estações. Essa divisão funciona para lembrar a relação do haicai com as estações do ano. Leminski explica detalhadamente o sistema de escrita japonês. E também que o haiku é um caminho, um dô, para atingir a perfeição.  Depois, escreve com entusiasmo sobre o zen-budismo. Além de citar  poemas  japoneses,  no fim,  lista   haicais de Ezra Pound, Guilherme de Almeida, Octavio Paz,   Juan Tablada , Millôr Fernandes,e, natural, dele , e de Alice Ruiz.

Se Leminski não segue o conceito estrito de biografia, tanto melhor para seus leitores. Esses podem saborear mais uma obra com o estilo do polaco, pleno de paixão e inteligência. Bom seria se o livrinho convencesse os parlamentares de que biografias não precisam invadir a vida privada de ninguém. Quem é cheio de vida não precisa de autorização para escrever o que quer que seja.  A  poesia, as artes e a literatura só são feitas de textos não-autorizados.  Mas a indústria cultural, o  jornalismo  e a política insistem que todo o abuso, desde que rentável,  deva ser legalizado.  Assim caminha a humanidade. E os poetas seguem,  como uns bons  foras-da-lei.