09 | VIDA | O PARADOXO DOS CORAÇÕES PUROS

Boas intenções nem sempre são entendidas, especialmente quando se tratamde personalidades cheias de sutileza, como um jardineiro e um monge japoneses

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09 | LITERATURA | ARTE E AÇÃO NO BUNBURYODOU

Um retrato de Yukio Mishima, o mais conhecido escritor japonês contemporâneo, artista obsessivo, talentoso, superdotado, soberbo, apaixonado, intenso.

Por Francis Kurkievicz

Mishima defendia a tradição japonesa

Yukio Mishima acabara de finalizar sua última obra, a tetralogia “O Mar da Fertilidade (豊穣の海 Hōjō no Umi). Era 25 de novembro de 1970. Inverno, Tóquio, ano do Cão. Acompanhado de 4 membros fiéis da Sociedade da Armadura (Tatenokai), seu pequeno e excêntrico exército particular. Mishima é recebido como celebridade no quartel general das Forças de Autodefesa do Japão. Distribui sorrisos e autógrafos para a tietagem fardada. Discursa apaixonadamente para uma plateia de oficiais apáticos em favor do Imperador, solicitando que se restituam seus domínios e poderes. Uma bravata para o seu teatrinho particular, meticulosamente teatral. Sem aviso ou ensaio, saca a sua tantō[1] e rasga o próprio abdômen tendo a cabeça imediatamente decepada por seu companheiro Hiroyasu Koga. Desce o pano.

Esse poderia ser o mote de mais um romance ou peça teatral de sucesso de Yukio Mishima. Poderia. Toda a encenação fazia parte de um demorado e elaborado plano de suicídio digno da memória da história. O Bunburyodo – Viver a Arte através da Ação. Morria o homem, nascia o mito. Epílogo apoteótico de quem viveu a vida a partir de suas próprias entranhas!

Prólogo: Yukio Mishima nasceu Kimitake Hiraoka, em 14 de Janeiro de 1925, Tóquio. O ano do Rato, do elemento madeira. Teve um pai exigente e autoritário. Uma avó tirânica e soberba. Uma infância infeliz e isolada. Foi uma tempestade “domável” até os 24 anos, quando decidiu dessujeitar-se aos mandos e vontades do pai, quando decidiu abandonar os aborrecimentos de um promissor emprego de advogado no Ministério das Finanças, quando decidiu assassinar sua personalidade servil e frágil ao publicar em 1948 sua primeira e avassaladora novela “Confissões de uma Máscara” (仮面の告白 Kamen no Kokuhaku). Morria Kimitake Hiraoka, nascia Yukio Mishima.

Mishima foi novelista, romancista, contista, ensaista, poeta, dramaturgo, ator (cinema e teatro), modelo fotográfico. Foi também marido, amante, pai, irmão, polemista, homossexual, sadomasoquista, soberbo, hedonista, imperialista, halterofilista, esgrimista, operário, oportunista. Escreveu e compôs uma ópera, regeu uma orquestra, dirigiu um pequeno exército, foi indicado três vezes ao Prêmio Nobel de Literatura. Deixou uma obra com mais de 100 títulos, publicados em Obras Completas em 36 volumes. Deixou uma literatura medíocre, uma literatura genial. Visitou os EUA, a Europa, o Brasil, a Índia, a Grécia. Visitou a tradição e a modernidade. Experimentou homens e mulheres. Habitou a luz e a sombra. Mishima viveu para arte. Fez da arte a sua vida, da sua vida a arte, como já o fizeram antes Oscar Wilde e Henry Miller.

Se arte é ação, o shinju[2] com Masakatsu Morita foi sua coroação. The End – Créditos finais.

Clique aqui para conhecer suas principais obras  na literatura, no cinema e no teatro.

Clique aqui para conhecer um poema de Ydeo Oga em homenagem a Mishima.

Francis Kurkievicz é filósofo, escritor e roteirista, formado em   Filosofia pela UFPR, pós-graduado em Yoga pela UNIBEM, e MBA em Gestão e Produção de RTV pela UTP.


[1] Faca japonesa.

[2] Duplo suicídio.