16 POLÍTICA | ELEIÇÕES E VIOLÊNCIA

O primeiro período das eleições japonesas (1890 – 1904) foi marcado pelo uso da violência na obtenção de votos e no impedimento das votações. A política japonesa, composta por “facções” (ainda não havia partidos) e extremamente regionalizada, contava com a prevalência absoluta de determinados grupos políticos em cada vila. Assim, por exemplo, se o local de votação de um determinado distrito fosse uma vila dominada pelo Jiyuutou (Partido Liberal), seus partidários construíam barricadas nas estradas e entravam em conflito armado com os eleitores de outros partidos a caminho da votação.

Por conta dessa prática, na 2ª Eleição Geral do Japão (1892) foram contabilizados 25 mortos e 388 feridos. Só na província de Kouchi, os conflitos envolveram mais de 2.000 pessoas. Existem também casos que não compõe as estatísticas eleitorais, mas que são evidentemente conflitos relacionados às eleições, como aqueles decorrente da fusão e separação de vilas por motivação eleitoral, ou os confrontos pós-eleição decorrentes causados pela indignação dos partidos derrotados.

Tentou-se camuflar no Japão tal tipo de violência,  alegando que na verdade eram movimentos em busca de liberdade e direitos civis, mas tais disputas nunca foram permeadas por ideologias, e sim por questões existenciais e egoísticas de cada vila, especificamente: qual grupo político trará mais benefício para os habitantes de determinada região.

A primeira movimentação do governo na tutela das eleições foi combater a interferência eleitoral com foco nos casos de violência, o que abriu espaço para a compra de votos. Aqui, sim,  a engenhosidade japonesa se torna mais interessante.

Em primeiro lugar existiam pagamentos em dinheiro e ajudas de custo, no início pouco camufladas. Dessa forma, os candidatos ofereciam abertamente quantias em troca de votos, pagavam o transporte e hospedagem dos eleitores aos locais de votação, perdoavam dívidas e impostos. Conforme as autoridades se atentavam para o fato, foram adicionados intermediários no processo, em geral agiotas que recebiam uma comissão por voto obtido.

O procedimento era muito simples: K, que havia recebido dinheiro do candidato H, ia até seu conhecido Y e pedia seu voto. Era prometida a quantia de 50 ienes, por exemplo, caso o candidato fosse eleito, e feito um “depósito” de 20 como garantia.

Outra prática comum era o uso do entretenimento, com a apresentação de peças de teatro e oferta de festas, nomikai, doação gêneros alimentícios, banquetes, enfim, praticamente conquistavam o eleitorado pelo estômago.

A prática menos usual, mas não inexistente era a falsificação de documentos, votos de indivíduos sem direitos políticos e votos de pessoas já falecidas.

Claro que nem sempre a situação era tão simples, em geral um eleitor é abordado por vários candidatos, situação em que os crimes se multiplicavam. Por vezes os fatos eram documentados em diários dos eleitores, que relatavam bem o modus operandi dos candidatos, e também demonstrava que o eleitorado japonês não era exemplo de ética e honestidade, mas ponderavam bem antes de fazer sua escolha.

Aparentemente, o eleitor japonês decidia sua escolha especialmente pela sondagem das intenções da maioria. Logo, os candidatos ofereciam mais benefícios em caso de vitória, sempre enfatizando já ter conquistado os votos desta ou daquela região (sendo regiões relevantes, o retorno financeiro era mais garantido). A vitória nas eleições se dava pela condução material e psicológica dos voto dos eleitores.

Naturalmente, os custos de campanha se tornavam mais altos, o que favorecia o financiamento fraudulento ou politicamente interessado, corrompendo, portanto, não só o processo de escolha, mas o governo que o segue.

Tomemos um exemplo de Saitama do ano 25 da Era Meiji. “S” distribui presentes e comida, realiza banquetes no comitê de campanha. Entretanto, o rival M promove compra de votos no “curral” de S, cuja chance de vitória entra em um nível critico. S vai para vilas neutras e promove compra de voto nesses locais. O diferencial é que além da bebida e comida ele oferece também mulheres. O gasto que em um mês seria de 600 ienes (4.000.000 em valores atuais, mais ou menos R$ 100 mil), nesses cinco dias se torna 730 (4.000.000 ou R$ 122 mil ). Ou seja,  os gastos com compra de votos sobem substancialmente.

MUDANÇAS

A POLÍTICA MODERNA

16 POLÍTICA| A POLÍTICA MODERNA

Apenas em 1930 surgiu uma nova abordagem para resolver o problema: renovação da educação política a partir de instituições governamentais criadas direcionadas especificamente para esse fim (mas com mecanismos e métodos que impedissem a influência dos partidos do governo).

Com a extensão do voto a todos os homens maiores de 25 anos, existia um novo contingente de eleitores ignorantes politicamente, muitas vezes de classes sociais mais baixas, mais suscetíveis à compra de votos e que, portanto, precisavam de uma proteção especial das autoridades.

Hirotoka Kouki

No gabinete de Hirota Kouki foi criada a Comissão de Investigação do Sistema Eleitoral e no de Hayashi Senjuurou a Comissão de Discussão Do Sistema Parlamentar.

As comissões discutiram questões como o sistema de representação proporcional, a severidade das leis e punições, o sistema de recomendação dos candidatos entre outros temas relevantes. Fracassaram, entretanto, por ignorar que a educação política deve se dar próxima à população, e não imposta a partir das comissões parlamentares.

O chamado Movimento de Regulação Eleitoral,

Hayashi Senjuurou.

idealizador da proposta de conscientização política, atingiu seu objetivo quando, em 1935,  as Comissões instalaram subdivisões em todas as províncias do Japão e outras 30 subdivisões em diversas cidades. No mesmo ano a União em Prol da Regulação Eleitoral reuniu os representantes de diversas associações culturais e educacionais e formaram a associação civil Aliança Central de Regulação Eleitoral.

Os comitês e a aliança agiram de forma notável desde o início reunindo esforços de instituições públicas e privadas. A Aliança realizava a publicação de músicas de conteúdo político nas rádios, discursos impressos em jornais, livros, pôsteres e filmes de conteúdo política, levando todo o conteúdo diretamente à população, distribuindo matérias nas ruas das vilas e cidades. O próprio presidente da aliança, Saitou Makoto,  viajava e discursava pelo Japão.

Não por coincidência, as eleições seguintes à tal movimentação registraram os menores índices históricos de irregularidades, que só voltaram a subir após o fim da Ocupação Americana em 1952.

A investigação de irregularidades também foi mais rigorosa na época, mas o aumento do rigor só foi possível com a conscientização da população, o que não só facilitou a fiscalização, na medida em que os eleitores sabiam o que era e o que não era permitido, mas também gerou rejeição de candidatos que praticavam ilícitos. Assim, as punições estatais não eram tão necessárias se a própria população punia eleitoralmente os infratores.

Eleição limpa também na propaganda.

Novamente a história japonesa demonstra que, antes de atingir o atual estágio de lisura nas relações sociais e políticas, o país passou por momentos em que a desordem interna e o desrespeito às leis se igualavam aos países menos desenvolvidos em seu tempo. Mais uma vez não é possível falar de uma cultura e hábitos transcendentes entre os japoneses. O comportamento e as crenças dos indivíduos mudam com o tempo, mudam com a classe social, e com a própria ocupação do indivíduo, nada mais natural.

Ainda, vemos que não foram mudanças legislativas que modificaram o cenário do país, mas processos de educação da população. Educação essa que não implica necessariamente em educação formal (ensino básico, médio e etc.), mas em uma educação de temas socialmente relevantes, empreendida pelo governo e por associações civis, aproximando a população dos problemas e permitindo que ela mesma solucione as deficiências do sistema.

No Brasil,  observamos sempre o clamor para que o Estado tutele o indivíduo, para que os parlamentares e os tribunais substituam a consciência popular. Nada mais emblemático que a Lei da Ficha limpa, que proíbe com força de lei o que a população, se devidamente educada, poderia coibir moralmente com as próprias forças. Argumenta-se aqui que as populações de baixa renda e com menor educação formal não seriam capazes de fazer tal julgamento, o que justificaria a lei. Ora, o Japão enfrentou problemas semelhantes com abordagens distintas. O sucesso e o fracasso de um e de outro podem ser observados a qualquer momento.

Assim, o Japão não é apenas exemplo de um estágio civilizatório a ser atingido, mas sua história é exemplo dos meios pelos quais isso pode ser feito. Se o senso comum diz que não podemos nos espelhar no Japão para resolver nossos problemas pelas profundas diferenças culturais, que o histórico de corrupção do país sirva para provar o contrário.

16 POLÍTICA| MUDANÇAS

A evolução natural do problema foi a passagem da compra individual para compra coletiva. Com o sistema de voto único não transferível[2], um modelo individualista, exageradamente competitivo e prejudicial à representação territorial, pois composto por grandes distritos, os candidatos passam a comprar o apoio de prefeitos, por exemplo, como intermediários que utilizam sua influência para conquistar os votos em suas vilas em troca de mais dinheiro ou posições no governo.

Aqui é fácil observar que a corrupção era institucionalizada dentro do governo e dos partidos. Os candidatos negociavam a compra e venda de eleitores sem qualquer constrangimento, e todas as táticas eleitorais não eram baseadas na conquista por campanha, pois a população não era considerada suficientemente politizada para avaliar a qualidade das propostas.

Isso fica mais claro na 13ª Eleição,  em um incidente ocorrido em Fukuoka. O Seyuukai definiu em 8 o número de candidatos a serem lançados na Província e os 22 distritos foram distribuídos entre eles a partir da divisão em 3 regiões: Chikuzen, Buzen e Chikugo. Os candidatos só poderiam buscar votos nas regiões designadas, a partir de cálculos que distribuíam entre eles um número suficiente para ocupar uma das cadeiras da província.

Assim eram feitos acordos de distribuição de votos, em outras palavras, era permitido que o candidato comprasse um número pré-definido de votos na região de outro candidato para suprir a dificuldade de negociação na sua. Entretanto, conforme a data da eleição se aproximava e as compras não seguiam como o planejado, os candidatos quebravam seus acordos e passavam para táticas mais agressivas em todos os distritos possíveis.

Como se o acordo entre candidatos já não fosse suficientemente anti-democrático, e como a quebra do acordo não fosse absolutamente desleal e contrária às diretrizes da facção, toda a estimativa e toda a transferência de votos era feita a partir da possibilidade de compra em cada região, com o preço definido pelo partido (cuja existência ainda era informal) e muitas vezes emprestado de autoridades, líderes políticos e empresários.

Em suma, a disputa não se dava entre as propostas dos candidatos, e nem atraía pessoas competentes para a política. No Japão prevalecia, portanto, uma estrutura de poder semelhante ao Coronelismo no Brasil, e a inércia do governo era evidente, inclusive porque o voto distrital foi idealizado pelo governo hanbatsu, tendo em vista que sua proximidade com as lideranças locais garantiria a permanência de suas facções no poder. Além disso, o voto distrital naturalmente suprime as minorias, impedindo qualquer reação da oposição.

A formação dos primeiros partidos políticos no ano 33 da Era Meiji (1900) e a reforma da lei introduzindo o voto majoritário no lugar do distrital objetivou quebrar o poder de influência micro-regional ampliando as circunscrições eleitorais, já que, quanto maior a área menor a influência das pequenas fortunas e dos prefeitos e proprietários de terra.

O efeito acabou sendo negativo. Já que as áreas a serem conquistadas eram maiores, os gastos também cresceram. O dinheiro passou a ser acumulado pelos partidos, e não pelos candidatos isoladamente. Os empréstimos vinham das zaibatsu e dos grandes industriais diretamente para a central dos partidos. O poder financeiro dos dessas centrais partidarizou a política japonesa e acabou comprometendo os candidatos aos interesses do capital.

Esse cenário prevaleceu até 1911, quando podemos observar a mobilização em busca de maior seriedade nas eleições. Naquele ano Inukai Tsuyoshi foi o primeiro candidato a conseguir demonstrar que do dinheiro gasto em campanha, nada foi utilizado em compra de votos, originando um movimento de conscientização da população. Como o exemplo foi seguido por outros políticos, a pressão atingiu os jornais, que passaram a criticar as práticas de irregularidades, Ministros e outros ocupantes de cargos públicos deixaram de participar financiando as decisões e passaram a se engajar politicamente apenas na recomendação dos candidatos.

Outro papel importante foi representado pelo progresso nos grandes centros, a mobilidade, a transmissão mais ágil de informação e o tamanho das populações reduziram a coesão social e dificultaram a formação de grupos fechados passíveis de compra de votos coletiva eficiente. Como a compra individual seria contra-produtiva, e, caso descoberta poderia gerar dano a imagem e a perda de votos para todo o grupo político, o custo beneficio da compra de votos nas áreas urbanas japonesas deixou de ser atrativo.

Evidente que com as novas táticas um novo tipo de candidato se destaca. Agora encontram vantagem aqueles candidatos talentosos na oratória em debates e apresentação em comícios. Nesse cenário em que “políticos de carreira” passam a ser os favoritos para a eleição, eles buscam meios institucionais para garantir sua vantagem. Como eram em geral pessoas sem muito dinheiro, buscaram modificar a legislação para limitar os gastos de campanha e o tamanho dos comitês. A nova lei veio em 1925, mas em nada modificou a quantidade de irregularidades.

A compra de votos ainda era comum no interior do país, e nos centros urbanos também ocorria, mas não como tática principal, e sim na última semana de eleição. Surgiu um novo tipo de irregularidade, o uso de terceiros que excediam os limites do tamanho do comitê eleitoral.

Esses terceiros eram utilizados para camuflar a compra de votos, as visitas não eram feitas pelos próprios membros da campanha, mas por pessoas insuspeitas, médicos, entregadores de leite, entregadores de jornal e etc.

O padrão da prática era o seguinte: a primeira visita era feita à tarde, quando o chefe da família, possivelmente mais politizado, estava ausente, o médico conversava de forma descompromissada sobre as eleições com a esposa do eleitor[3], apenas indicando sua preferência. A segunda visita seguia o mesmo molde. A terceira visita acontecia pela noite, quando o marido, cansado, retornando do trabalho ou de sua propriedade era convencido pelo visitante juntamente com a própria esposa.

Assim, a eleição não era definida só pelos homens que votavam, mas também por aqueles que não tinham direito de voto, como as mulheres, reforçando a ideia de que a educação política só é efetiva quando vai além do eleitor padrão.

Se as eleições japonesas até 1925 eram definidas apenas por práticas irregulares, com as novas restrições legais, se dividiam em dois momentos. Agora a acumulação de votos se dava em um primeiramente de forma legitima, pela formação de uma base regional, e só em um segundo momento se apela para a compra de votos. Ou seja, a lei modificou a prática, mas não a combateu em sua origem.

Além disso, a compra de votos deixa de ser “aleatória” e passa a ser estratégica, planejada por meio de estimativas de gastos e proporção de sucesso baseados nas eleições anteriores. Nos grandes centros o processo também se torna ainda mais complexo. Formavam-se associações insuspeitas para prática de serviços sociais, mas os reais operadores desses grupos eram candidatos que sob o pretexto de pagamentos dos associados, distribuíam dinheiro entre pessoas sem participação ativa no grupo, como verdadeira compra de apoio político.

É interessante que, diferente da antiga tática que visava a comunidade em geral, por meio de prefeitos e lideres regionais, agora os candidatos se utilizam e organizações privadas, cooperativas de turismo, mineração, cimento, associações militares, de transporte, industrias e etc.

Ou seja, não importavam as mudanças legislativas e o aumento das proibições quando feitas distantes da população. A modificação legislativa nesses moldes apenas permitia o refinamento na prático do ilícito, colaborando para o aumento na quantidade e “qualidade” da corrupção. Enfim, os japoneses também sabem exercitar bem a capacidade de burlar as leis.

A POLÍTICA MODERNA

[2] O sistema de voto único não transferível (utilizada da 7ª até a 13ª) é um sistema no qual, excluídos os distritos eleitorais independentes (em geral áreas urbanas), toda a província passa a representar um só distrito eleitoral, e para cada 130000 habitantes há uma cadeira a ser preenchida. No caso de Mie eram sete cadeiras.

[3] Importante lembrar que o voto era muito restrito na época, restrito aos homens com rendas anuais bastante altas.

16 POLÍTICA | O LADO "B" DAS ELEIÇÕES NIPÔNICAS

Por Eduardo Mesquita Pereira Alves

Eleições: cidadania se consegue com educação.

Esse é um tema surgido nas aulas de história que cursei na Universidade Soka. A premissa do professor era simples. Se dizem que o crime (ou criminoso) é um espelho da sociedade, estudar um crime que era praticado pela esmagadora maioria dos cidadãos pode explicar muito das características da sociedade japonesa. Esse é o caso das fraudes eleitorais.

Em geral, todos os países têm um histórico de irregularidades no processo eleitoral, mas a maioria das nações de desenvolvimento precoce, como a Inglaterra, coibiram tais condutas por meio de leis rigorosas muito cedo, fomentando a consciência do ilícito na população antes que a situação escapasse do controle do governo. Comparado a tais países, o histórico de ilegalidades do Japão é, para o Professor Suetake Yoshiya [1] (com o qual tive aula), vergonhoso.

O país conviveu, desde a modernização e introdução de modelos ocidentais de governo, com uma diversidade enorme de condutas ilícitas nas eleições que partiam da compra de votos explícita a sistemas extremamente elaborados de captação e influência do eleitorado, de tal sorte que estima-se que mais da metade, senão quase totalidade dos votos eram obtidos de forma irregular antes da 2ª Guerra Mundial.

Como em quase todos os temas que envolvem o Japão, sempre se pressupõe teoricamente a honestidade como regra e o respeito às leis como natural, entretanto, o comum é que os fatos contradigam esse estereótipo em boa parte das situações.

No caso da corrupção eleitoral, os problemas enfrentados pelo Japão são, em certa medida, justificáveis. As condutas consideradas ilegais pela Lei de Eleições eram muitas vezes costumes arraigados na população e considerados sinal de polidez e respeito. Aqui,  a noção de gratidão e práticas de troca de presentes exerce um papel relevante.

Um exemplo ilustra bem o problema. No Japão, é usual que ao visitar a residência de outra pessoa se leve um pequeno presente. Dessa forma, quando os políticos ou seus partidários visitam alguém, o cidadão comum teria dificuldade em considerar a oferta de um presente como algo ilícito, apesar de caracterizar a mais evidente compra de voto. A solução legislativa foi proibir a chamada “visita de porta em porta”, em lugar de tentar modificar um costume, o que seria de fato pouco razoável. Entretanto, a proibição não atinge terceiros, que poderiam estar a mando dos políticos. Logo, mais do que a proibição da conduta, o reconhecimento popular dos danos por ela causada seria mais eficiente.

O foco desse artigo não é, portanto, a análise das questões teóricas ou morais que envolvem o tema, mas, sim, ilustrar algumas das formas engenhosas pelas quais os japoneses violavam as leis, e como a solução não partiu das sucessivas modificações da legislação, mas da educação política da população.

ELEIÇÕES E VIOLÊNCIA

MUDANÇAS

A POLÍTICA MODERNA

Eduardo Mesquita Pereira Alves é advogado, graduado em Direito pela UFPR, sócio da Sunye, Pereira Alves e Oliveira Viana – Sociedade de Advogados, e estudou na Soka University, de abril de 2010 a fevereiro de 2011. É autor do blog Nihon Go! (http://eduardompa.wordpress.com/)”

 

 

[1] SUETAKE, Yoshiya. Senkyouihan No Rekishi:Ura Kara Mita Nihon no Hyakunen, Japão: Editora Yoshikawakoubunkan, 2007, pg.4 – Tendo em vista que grande parte do texto se baseia em anotações realizadas em sala de aula, bem como no próprio livro do professor SUETAKE, e levando em consideração a natureza não acadêmica do mesmo, deixarei de realizar ao longo do artigo a inserção de notas de rodapé, utilizando a obra indicada como fonte para remissão geral.

16 KINEMA | OS FALSOS ASIÁTICOS NO CINEMA AMERICANO

Por Itiro Takahashi

Dia desses, depois de 50 anos, revi na tevê a linda e elegantíssima Audrey Hepburn no filme “Bonequinha de Luxo” (Breakfast at Tiffany´s, 1961). Eu me lembro que todos os que viram o filme se apaixonaram pela Audrey Hepburn, uma precursora da revolução sexual que aconteceria poucos anos mais tarde. Ela é Holly Golightly, uma moça do interior, divorciada, independente, que gosta de festinhas e está de olho na grana de um rico fazendeiro brasileiro, feito por um ator espanhol. A música do filme, Moon River de Henry Mancini ganhou o Oscar de melhor música. É um bonito registro da cidade de Nova York. A Quinta Avenida, a Biblioteca Municipal, Central Park foram alguns locais escolhidos para o filme. Bonequinha de Luxo é também o exemplo do pior estereótipo racista produzido por Hollywood.

Mickey Rooney faz um papel caricato e ofensivo, mesmo para aquela época, de um japonês, o senhor Yunioshi, vizinho da Holly, personagem totalmente descartável. Essa prática do cinema ocidental de utilizar atores cara pálidas para fazerem papéis de asiáticos com ajuda de maquiagem foi batizado de yellowface. Hollywood tem feito isso desde os tempos do cinema mudo. Os pretos eram feitos por brancos, os chamados blackfaces. O mais famoso deles, provalmente é Al Jolson que fez o primeiro filme falado, o Jazz Singer. Hollywood abandonou o uso de blackfaces quando os negros se organizaram em defesa dos direitos civis.

Os Fu Manchus, os Charlie Chan e um grande número de asiáticos em filmes até os anos 60, foram feitos por atores brancos. A principal razão para isso é que a utilização de atores asiáticos desconhecidos seria um desastre em termos de bilheteria de acordo com os produtores.

Marlon Brando em “A casa de chá do luar em agosto”.

Muita gente famosa foram peles amarelas em filmes. Marlon Brando, fez o papel do intérprete Sakini no filme A Casa de Chá do Luar de Agosto, Peter Lorre era o detetive Kentaro Moto, Katharine Hepburn, uma chinesa em A Estirpe do Dragão – Dragon Seed, baseado num livro de Pearl S.

Ricardo Montalban era Nakamura-san

Buck, John Wayne foi um Gengis Khan grandão, Ricardo Montalban foi Nakamura-sam em Sayonara, Shirley Maclaine, se passa por uma japonesa em Minha Doce Gueixa, Alec Guiness foi Koichi Asano, um homem de negócios japonês em Do Outro Lado da Ponte – A Majority of One, , David David Carradine incorporou tanto o Caine, um mestiço chinês na série de tevê   tevê Kung Fu, que ele deve ter acreditado que era mesmo de descendência chinesa, e a lista vai embora…

Katherine Hepburn já foi chinesa

Era de se esperar que hoje em dia a prática do yellowface fosse uma coisa do passado. Mas sabe de uma coisa?

Você não deve subestimar a capacidade infinita do cinema americano de baixar o nível. Quer ver? Eddie Murphy fez um chinês em Norbit – Uma Comédia de Peso, Nicolas Cage é o Fu Manchu dessa geração, Keanu Reeves, vai ser um samurai em 47 Ronin, mas não sei se ele deveria ser mencionado aqui, pois afinal, ele é mestiço, filho de um hawaiano-chinês. Em pleno 2012 ainda vemos filmes ofensivos às minorias e não falo só da gente, os asiáticos.

Jim Sturgess, mais um yellowface

Acabei de sair de um filme baseado num best-seller, o Cloud Atlas escrito pelo britânico David Mitchell. O filme se chama A Viagem no Brasil. Ele conta com atores  Jim Sturgges em Yellowface, no filme “Cloud Atlas” como Tom Hanks, Susan Sarandon, Hale Berry, Jim Sturgess, Keith Davis, Doona Bae atuando em seis episódios que atravessam 500 anos, interconectados de uma forma ou outra. A fórmula de se utilizar os mesmos atores para fazerem papéis múltiplos deve-se, provavelmente, ao fato de que os personagens renascem em locais e grupos étnicos variados e até mesmo sexualmente diferentes. Virou uma festa de maquiagem e um jogo para saber quem é quem.

A atriz coreana Doona Bae com whiteface

No segmento que se passa numa sociedade totalitária em Neo Seoul, Coréia do Sul de 2144, a principal protagonista é a linda atriz coreana Doona Bae, mas os personagens masculinos coreanos são feitos por atores brancos, por um negro – o ator Keith Davis – e até pela Hale Berry. O trabalho dos maquiadores foi péssimo quando se fez os brancos passarem por asiáticos. Pensei comigo que o personagem feito por Hugo Weaving (Matrix) deveria processar o seu cirurgião plástico por uma operação desastrosa por deixar o rosto naquele estado. Foi um pouco melhor quando os asiáticos e negros são transformados em brancos. Ou assim me pareceu.

Desde 1992 MANAA (Media Action Network for Asian Americans) tem se dedicado a combater o racismo e estereótipos da mídia retratando os asiáticos de forma ofensiva aqui nos Estados Unidos. A respeito do filme A Viagem – Cloud Atlas, o mais recente alvo da organização, a vice presidente Miriam Nakamura-Quan disse numa entrevista que é inconcebível que com o avanço das técnicas de maquiagem, ver trabalhos tão mal feitos em atores brancos para parecerem asiáticos, atrapalha totalmente o ritmo do filme. Os personagens do passado, como Fu Manchu e Charlie Chan parecem mais realísticos do que os personagens de A Viagem – Cloud Atlas. Porque não colocaram alguns atores asiáticos americanos ? Faria com que o filme fluisse normalmente, completou Nakamura-Quan.

Será tão difícil encontrar atores asiáticos hoje em dia? Existem aos montes! A exclusão é um problema a ser resolvido, mas o pior mesmo é o impacto social e cultural dessa nova geração de filmes, que através do uso do yellowface, continuam refletindo e perpetuando a visão distorcida e preconceituosa do poder que controla a indústria de entretenimento. Ainda somos vistos como um senhor Yunioshi do Bonequinha de Luxo. Há muito a ser feito nessa suposta era pós-racial para educar os americanos sobre sensitividade cultural e respeito a todas etnias.

Itiro Takahashi é escritor,   mora em Casper, Wyoming e escreve em seu blogue  Gaijin4ever.

 

16 LITERATURA | MAIS UM BEST-SELLER DE MURAKAMI

Capa do mais novo livro de Murakami.

Depois de um grande suspense, chega ao Brasil a primeira parte da trilogia 1Q84 (Alfaguara, tradução de Lica Hashimoto), o romance mais ambicioso de Haruki Murakami. No Japão, a  obra superou os 4 milhões de exemplares vendidos. Inspirado na obra-prima de George Orwell, a história se passa no  ano de 1984.

Neste primeiro livro, o leitor conhece Aomame, que numa tarde de abril, descobre um “mundo paralelo”   ao tentar se livrar do congestionamento de trânsito em Tóquio. Neste mundo, por exemplo, as armas usadas pelos policiais não são pistolas e as manchetes nos jornais são diferentes.

Ao mesmo tempo a primeira trama é alternada com outra. O professor de matemática e aspirante a escritor Tengo se envolve em um misterioso projeto de refazer o romance “Crisálida no ar”, escrito por uma menina de 17 anos.  Mas, para isso, deve conhecer antes a autora, a  jovem Fukaeri.

Um jogo de fantasia e realidade se alterna entre as duas tramas. Aomame se dá conta que passou a habitar um mundo distinto, que acaba batizando de 1Q84. Já Tengo, aos poucos, passa a reparar em estranhas semelhanças entre a ficção de Fukaeri e a realidade, além de perceber que parece correr algum tipo de perigo quando se vê envolvido com uma misteriosa seita.

Ao final, o autor constrói uma trilogia que fala de amor, abandono e mistérios que desafiam os limites do real, misturando relógios que levitam, cães que explodem, uma entidade chamada “PovO Pequenino” , que emerge pela boca de uma cabra morta. O segundo livro será lançado em março e o terceiro, no fim de 2013.

Leia, aqui, um trecho do romance e aqui, uma leitura crítica.

O autor

Em entrevista ao jornal britânico “The Guardian”, em outubro de 2011, Murakami (63), revela que o romance levou três anos para ser escrito. O escritor seguiu a rotina de acordar às 4h , escrever até o meio-dia, passar a tarde treinando para maratonas e vasculhando lojas de discos antigos e  dormir, com a mulher, às 21h. Uma disciplina bem diferente de seus 20 anos, quando foi proprietário de um bar de jazz. Ele diz que precisa da rotina das corridas para enfrentar a maratona de escrever um romance todos os dias. Ao mesmo tempo em que precisa lidar com o caos (do subsconsciente), também tem que lidar com a linguagem, de maneira muito prática.

Murakami  fechou o bar quando o romance “Norwegian Wood” vendeu 3 milhões de exemplares. Ele começou a escrever, de repente, em 1978, enquanto assistia a uma partida de beisebol, e sem nunca ter tido a menor pendor nessa direção.

Ele revela que seu grande risco foi se casar com Yoko Takahashi assim que terminou a universidade, aos 20 anos. E, ao invés de seguir estudando, rebelou-se e  emprestou dinheiro para abrir o bar de jazz e dar vazão a seu amor pela música. À sua volta, seus amigos também se rebelaram. Alguns se mataram, coisa sobre a qual Murakami escreve com frequência.

Mas. em geral, suas histórias tem uma sombra de melancolia, entremeado a romantismo e suspense. Essa é a fórmula que conseguiu cativar milhares de leitores no mundo todo, mais do que leitores, fãs que reuniram em torno de mesas de bar , na torcida  para que ele ganhasse o Prêmio Nobel de Literatura de 2012. Não ganhou, mas segue como ídolo das multidões. (MK)

16 RECEITA: SHOOGAA NO KEEKI (ジンジャー の ケーキ)

Foto: Lu Noguchi

Ingredientes

  • 3 xícaras (chá) de farinha de trigo
  • 1 ½ xícara (chá) de açúcar
  • 1 gengibre médio moído(*)
  • 3 ovos
  • 1 xícara de óleo vegetal (milho, canola,girassol)
  • 1 colher (sopa) de fermento em pó
  • 24 formas de papel para cupcake (tamanho padrão)
  • açúcar de confeiteiro para polvilhar
  • gengibre desidratado doce

Preparo

Inicie a receita processando o gengibre com um pouco do óleo (2 colheres de sopa) para que ele fique bem moído. Coloque em um liquidificador os ovos, o gengibre moído e o óleo. Bata por 5 minutos. Em uma travessa peneire a farinha de trigo e o açúcar, adicione aos poucos a mistura líquida e mexa bem até formar uma massa homogênea. Acrescente o fermento e incorpore bem, um segredo para a massa ficar fofa é a quantidade de bolhas após a incorporação do fermento. Se tiver poucas bolhas mexa mais um pouco. Pré aquecer o forno em temperatura média (180ºC) por 10 minutos.

Neste tempo disponha as formas para cupcakes em uma forma com furos própria para assar estes bolinhos (metal ou silicone). Coloque em cada forminha uma colher de sopa cheia da massa. Não ultrapasse a metade para a massa não transbordar das forminhas. Asse em forno médio por 20 minutos ou até a superfície estar dourada.

Retire da forma de metal/ silicone e deixe esfriar. Polvilhe o açúcar de confeiteiro sobre a superfície do cupcake e decore com o gengibre desidratado.

(*)Sugiro a utilização de gengibres novos para o preparo do bolo, as raízes mais velhas são fibrosas e quando moídas não se desfazem deixando uma sensação desagradável no paladar. É possível adicionar mais gengibre sem alterar o resultado final, porém o sabor picante ficará mais pronunciado na massa.

Rendimento: 24 cupcakes