35 HAICAI – HAICAIS TRAZEM LIRISMO E HUMOR

36haicaiimagem01Nas ondas do haicai, Rose Mendes, Editora inHouse, 2014.

Primeiro livro de haicais de Rose Mendes (Rosemary Ruas Mendes), é um diário onde a autora faz breves anotações sobre a natureza. Muitos dos haicais, como já revela o título,  têm como tema o mar. O assunto é clássico na poesia, especialmente em Portugal. Na poesia brasileira,  foi explorado no romantismo  de Fagundes Varella e Gonçalves Dias. chegando até o século 20 na voz de  Cecilia Meirelles. Embora o Japão seja um arquipélago, o “mar” não é comum na  tradição poética do haicai.  Mais comumente,  os clássicos exploram o tema das águas :  tanques, lagos, chuva, rios, orvalho, sob forma de kigo – uma palavra-chave que designa a estação do ano. De Bashô, temos esses exemplos célebres:

Mar agitado —/ Estende-se até a ilha de Sado / A Via-láctea

O polvo num pote – / Sob a lua de verão / É tão breve o sonho

Lágrima no olho do peixe / choram as aves / primavera não nos deixe

Na poesia portuguesa, de Camões a Fernando Pessoa e Sophia de Mello Breyner Andresen é que abundam as citações. Não por acaso, em 2010, foi lançada uma antologia específica em Portugal.  O haicai, nessa vertente, traz a melancolia lusitana:

Lágrimas salgadas / o mar permanece nos olhos / desde o princípio (Casimiro de Brito)

Diferente da alegria tão brasileira:

E saber que um dia / serei onda  rindo / no teu mar de alegria (Hamilton Faria, Haikuazes, 2006).

Nas ondas do haicai traz um pretexto para refletir sobre a relação entre o mar e a linguagem. Além daquela trazida pela influência portuguesa, em que o mar é a imensidão e a aventura, há também o mar miúdo onde se pescam os  insights da poesia japonesa. Rose parece beber nessa segunda fonte, vislumbrando a imensidão em pequenos detalhes, como uma flanêur  passeando pela beira da praia.

Tarde de verão  / conchinha dupla-aurora / o mar leva e traz

Manhã de outono / Vão e vêm com as ondas / sonhos de juventude

Causos caiçaras / no casarão de avós  / Que saudade!

Nuvens escuras / Flutua pelo canal / círculo de gaivotas

Pedras espalhadas / apinhadas de mariscos  / Lembro de meu pai

Lufada de vento ? O cheiro do peixe frito / pela rua afora

Ah! Flutua / sobre o mar / a lua de maio

36haicaimagem02Entre arranhões e lambidas, Alvaro Posselt, Blanche, 2014.  O terceiro livro de Alvaro Posselt (Tão breve quanto o agora, 2012, Um lugar chamado instante, 2013) segue a linha do senryu,  o haicai humorístico da poesia japonesa. Ao contrário do haiku, no qual predomina o registro lírico e o aspecto sublime da vida, o senryu inclina-se a comentar o aspecto mais prosaico e popular do cotidiano.  O nome senryū vem do poeta Senryū Karai (柄井川柳, 1718-1790), que viveu no período Edo. Uma amostra de sua verve poética:

泥棒を dorobō wo / o ladrão
捕えてみれば toraete mireba / quando o pego
我が子なり wagako nari / meu próprio filho
No Brasil,  tivemos um humorista que usou a forma do haicai para praticar o  senryu : Millôr Fernandes. Eis uns de seus tercetos caústicos: 
Eis o meu mal /A vida para mim / Já não é vital.
Gatos também estão presentes nos haicais japoneses e brasileiros:
Um gato sem dono / Dormindo sobre o telhado — /Chuva de primavera.(Taigi)
As folhas caindo / Na roça em frente ao portão / Divertem o gato. (Issa)
janela que se abre /o gato não sabe / se vai ou voa (Alice Ruiz)
Uma característica do haicai livre praticado no Brasil é o uso de rimas.  A rima é consagrada na tradição poética brasilleira, por isso o haicai praticado aqui não pode prescindir desse efeito sonoro, como mostram os poemas de Alvaro:

Deus, dai-me um par de asas / com tanto gato esparramado / não há como andar pela casa 

Só come e dorme / em cima do sofá / um gato enorme

Em cima da fronha / um som no meio do sono / gato também sonha

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