40 LITERATURA – 'BOTCHAN' IRONIZA A MODERNIDADE

Botchan” é uma novela inspirada na própria experiência do autor como professor em uma escola no interior do país. Escrita em 1905, numa época em que o estilo de pensar ocidental pouco a pouco espalha-se pelo Japão, com a rápida modernização de Tóquio. A luta entre os valores da tradição cultural japonesa e a o intelectualismo europe é um dos temas centrais da novela e fonte de muito de sua ironia.

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Capa de "Botchan", Estação Liberdade, 2016.Tradução: Lica Hashimoto.
Capa de “Botchan”, Estação Liberdade, 2016.Tradução: Lica Hashimoto.

“Botchan” é uma novela inspirada na própria experiência do autor  como professor em uma escola no interior do Japão. A narrativa foi escrita em 1905, numa época em que o estilo de pensar ocidental pouco a pouco espalha-se pelo país,  com a rápida modernização de Tóquio. A luta entre os valores da tradição cultural japonesa e a o intelectualismo europeu é um dos temas centrais da novela e fonte de muito de sua ironia.

Quando um jovem de Tóquio é enviado para assumir um cargo de professor de matemática numa escola de uma lugarejo na ilha de Shikoku,  logo descobre que está em apuros.  Em vez de ser o caipira de calças curtas na metrópolis, é ele o alienígena na província. Habilidade social não é seu forte. Até aceitar seu primeiro emprego, Botchan tinha passado os últimos três anos vivendo recluso num cubículo de “quatro tatames e meio”.

Seus modos são rispidos, a paciência com os outros é limitada, a impetuosidade vive  causando problemas, sua fome é insaciável. Por isso, sob o olhar ferino de Soseki, o alvo da chachota e da maldade dos colegas não é o estudante desengonçado, mas sim esse professor cujo sotaque cosmopolita agride os ouvidos dos alunos da província.

Preso numa trama maquiavélica, é manipulado pelo pseudo-intelectual professor de Inglês, o Camisa Vermelha, que o instiga contra o professor veterano de Matemática,  Porco Espinho —  homem de espírito guerreiro e forte. Os apelidos  que Botchan dá aos colegas são um exemplo de sua natureza  desafiadora , e sua luta por conseguir um lugar ao sol  intensifica quando a imprudência que cultiva desde a infância se torna inconveniente. (MK)

Natsume Soseki (夏目 漱石 Natsume Sōseki, era o pseudônimo de Natsume Kinnosuke (夏目金之助 Natsume Kin’nosuke) (9 de fevereiro de 1867 – 9 de dezembro de 1916); escritor e filósofo japonês da era Meiji. Natsume nasceu numa família de samurais em Edo, atual Tóquio, Japão. Aos dois anos, foi entregue pelos pais aos cuidados de outra família, retornando à casa paterna aos nove. Perdeu a mãe aos catorze. Estudioso da literatura tradicional chinesa desde a infância, ingressa na Universidade Imperial (atual Universidade de Tóquio) aos 23 anos para cursar literatura inglesa. Começa, antes mesmo de se formar, a lecionar inglês na Escola Especializada de Tóquio (hoje, Universidade Waseda) e passa a assinar seus escritos com o nome “Soseki” – que, em chinês, significa “incômodo”. Crises nervosas o fazem abandonar Tóquio e o prestigioso cargo que possuía. Estabelece-se em Ehime (Shikoku), numa escola secundária. Em 1900, viaja à Inglaterra como bolsista do Ministério da Educação para estudar literatura e ensino da língua inglesa.

Em crise depressiva, regressa ao Japão em 1903, retomando o magistério. Estréia com Wagahai wa neko de aru [Eu sou um gato, São Paulo: Estação Liberdade, 2008] em 1905, obtendo notável recepção de crítica e público. Abandona o ensino dois anos depois, dedicando-se à literatura e tornando-se colaborador exclusivo do diário Asahi Shimbun. Em 1910 é acometido pela primeira crise de úlcera, esta seria uma das complicações que o levariam à morte em 09 de dezembro de 1916, na capital japonesa.

Autor de 14 romances, entre os quais se destacam Botchan (1906), Sanshiro [Sanshiro, São Paulo: Estação Liberdade, 2013] (1908), Sorekara [E depois, São Paulo: Estação Liberdade, 2011] (1909), Mon [Portão] (1910), Kokoro [Coração, São Paulo: Globo, 2008] (1914), e Michikusa [O capim ao lado do caminho] (1915).

40 ESPÍRITO – O BUDISMO TENDAI – DAS RAMIFICAÇÕES ATÉ O SURGIMENTO

Sandro Vasconcelos conta a história do Budismo Tendai, uma ramificação do Budismo, fundado na China no período Sui-Tang e posteriormente introduzida no Japão no período Heian.

Por Sandro Vasconcelos

40imagem01Depois da morte de Buda em meados de 500 AC, divergências entres os primeiros Budistas começaram a acontecer; este fato, intensificado pela expansão da religião pelos países asiáticos, cada qual com sua cultura bem característica, proporcionou, com o passar dos anos, uma intensa ramificação do Budismo em facções. Após a primeira grande divisão Mahayana e Hinayana, outras subdivisões foram ocorrendo, até termos atualmente centenas de denominações Budistas. Uma das linhagens que se destacou e muito influenciou o Budismo como um todo foi Tradição Tendai, fundada na China no período Sui-Tang e posteriormente introduzida no Japão no período Heian.

História

Mestre Zhiyi, fundador da tradição Tendai na China

A Tradição do Budismo Tendai iniciou-se na China, mais especificamente no Monte Tiantai (em japonês Tendai), ao sul do país, onde o monge Zhiyi (538-597 DC) buscou sintetizar os ensinamentos Mahayana do sul e do norte em um todo coerente. Para este fim, o sacerdote baseou-se em sutras e outras escrituras de mestres proeminentes, como o patriarca Nagarjuna (150-250 DC).

A Escola Tendai chegou ao Japão por meio do monge Saicho (767–822 DC), no período Heian. Saicho em 804 viajou para a China como estudante e permaneceu no monte Tiantai durante a dinastia Tang. Depois de receber autorização como mestre nesta linhagem, Saicho voltou para o Japão para propagar seus ensinamentos e obteve considerável êxito.

Saicho, introdutor dos ensinamentos Tendai no Japão.
Saicho, introdutor dos ensinamentos Tendai no Japão.

Infelizmente, a doutrina Tiantai perdeu muita força e degenerou-se no Japão após a morte de Saicho; na China, em 1949, enfraqueceu-se devido ao comunismo, sendo atualmente pouco difundida tanto nestes países, quanto em qualquer outra parte do mundo. Muitas das escolas contemporâneas, que se consideram de origem Tendai, ensinam na realidade doutrinas que pouco têm a ver com aquelas defendidas pelos fundadores, a exemplo das escolas Jodô-Shinshu (de Shinran) e as seitas de Nichiren (ou Nitiren), que mesmo diante de uma notória heterodoxia em comparação com a interpretação Tendai original, atribuem a esta Escola a descendência de seus ensinamentos.

A Doutrina

O Budismo defendido por Saicho, além de se fundamentar no studo aprofundado dos sutras e tratados dos patriarcas, procura enfatizar também a prática diária. Apenas a erudição, sem a aplicação destes conhecimentos no dia a dia é considerada como inócua. Por outro lado, somente a prática, sem um estudo razoável, tende a se tornar mera superstição e, assim, igualmente estéril. Logo, para a Escola, Prática e Estudo são dois remos de um mesmo barco. A práxis é essencial.

Os pilares doutrinários da Escola Tendai são a Transitoriedade, Insubstancialidade, Sofrimento e Iluminação. A Transitoriedade diz respeito à máxima de que nada nesse mundo é perpétuo. A Insubstancialidade refere-se ao vazio, ou seja, de que as coisas são carentes de substância, desta forma, a “coisa em si” não existe, tampouco, entes metafísicos como alma ou deus. Já o Sofrimento relaciona-se às Quatro Nobres Verdades que enunciam, basicamente, que a dor permeia toda a existência – fato que é percebido em um simples bater de olhos em qualquer telejornal. As Nobres Verdades também declaram que é com o proceder ético que se faz possível minimizar o sofrimento próprio e dos demais. A Iluminação, por sua vez, é a meta última do Budista, é o estado de plena compaixão pelos seres e de percepção “nua e crua” da realidade, sem as ilusões conformistas que tanto seduzem o ser humano; em suma, é a aceitação da Verdade mesmo que esta venha a dilacerar o EGO e seus preconceitos.

A prática pode ser sintetizada em uma série de ações capazes de transformar toda a erudição em atitudes reais. O vegetarianismo, por exemplo, é uma forma de compaixão que visa beneficiar os seres sencientes; já a meditação e as recitações funcionam como ferramentas de auto análise com o objetivo de coibir vícios, destacar virtudes e catalisar a Iluminação.

Enquanto as outras linhagens ressaltavam um único método de Iluminação, seja este devocional, pela recitação de mantras ou pela meditação, a Escola fundada por Zhiyi admitia a coexistência de todas estas práticas; assim, o próprio fiel, orientado por um mestre, “escolhia” suas práticas conforme suas características físicas e comportamentais. Por exemplo, nem todo mundo consegue ficar meia hora na posição de Lótus meditando, seja por ansiedade ou por problemas posturais ou nem todos se agradam dos devocionais “mais barulhentos” dos mantras; desta forma, havia abertura para pessoas de diversas características distintas. Esta flexibilização se baseia no conceito de Meios Hábeis, descrito no Sutra do Lótus, texto que, juntamente com o Sutra Mahayana do Nirvana são considerados os principais dessa Tradição. É preciso ressaltar ainda que esta abertura não implica, de nenhum modo, que a prática poderia ser realizada com lassidão; um genuíno mestre Tendai exigia de seu discípulo uma intensa disciplina, independentemente do método adotado. O esforço, tanto nos estudos dos textos sagrados quanto na prática, sempre foi considerado pela Tradição como uma condição essencial para se atingir a Iluminação.

O Budismo Tendai no Brasil

O Budismo Tendai é um Caminho de autodisciplina, reflexão e introspecção que objetiva elevar os seres humanos ao grau máximo da consciência, através do incentivo ao proceder ético e de um vigoroso regime de domínio e observação da mente. Como dito anteriormente, não são muitos os templos ou núcleos no Brasil que ainda são fiéis aos princípios supracitados. Em nosso núcleo, tento, como monge Budista, manter esta Tradição de maneira mais próxima possível à que foi transmitida pelos patriarcas desta Escola (para maiores informações acesse o site. Além do nosso núcleo em Curitiba, também indico uma séria instituição Tendai em São Paulo, neste  site.

Budismo Tendai Brasileiro – contato@rodadalei.com.br

Bibliografia:

  • POCESKI, Mario. Introdução às religiões chinesas. Tradução de Márcia Epstein. São Paulo: Editora Unesp, 2013.
  • YOSHINORI, Takeushi (org.). A Espiritualidade Budista, vol.1. Ed. Perspectiva. São Paulo, 2006.
  • MUNIZ, A. O. ASSIS. Declaração sobre a legitimação da Organização Religiosa Budista Tendai Hokke Ichijo Ryu do Brasil.

40imagem03Sandro Vasconcelos é metrologista no Instituto de Tecnologia do Paraná (TECPAR), físico formado pela UFPR em 2006 e monge budista. Bacharel em Teologia Budista e ex-clérigo na instituição Tendai Hokkê Ichijô do Brasil; em 2015 fundou seu próprio Núcleo de Estudos do Dharma em Curitiba, denominado “Budismo Tendai Brasileiro”.