VERTIGEM | Rakushisha

Rakushisha de (Adriana Lisboa, Editora Rocco, 2007) ou  “já cochicho” ? A palavra japonesa que significa “Cabana de Caquis Caídos”, remete ao ouvido de criança do norte do Paraná. O título do romance refere-se ao local onde Matsuo Bashô escreveu o Diário de Saga. Ao ler o livro, revisitei a Colônia Esperança* de minha infância, percorrendo o Caminho do Filósofo com Celina em Kyoto, ou indo a Tóquio com Haruki.

Haruki (Murakami? escritor que gosta de correr como Adriana) é ilustrador e viaja ao Japão para pesquisar a vida de Basho . O livro começa falando do andar, e do andar, que, num ritmo mais acelerado, pode ser: correr…ou parar. O que teria acontecido à Celina para que viajasse ao Japão com Haruki, a quem acabara de conhecer?

Celina escreve um diário, intercalado com a tradução do diário de Basho, e com a voz de um narrador. A alusão que a autora faz às fugas de Bach faz supor o mesmo movimento em forma de romance. Como se a história de Celina fosse um livro à parte que lemos durante a viagem ao Japão.A prosa de Adriana é delicada, em voz baixa, um quase cochicho ouvido por acaso sob a chuva miúda que cai no Rio, em Kyoto e em Tóquio. Irassahaimase Rakushisha!. (*Comunidade nipo-brasileira nos arredores de Arapongas, norte do Paraná.)

Maria do Rocio Novaes é psicóloga, com trânsito em psicanálise e sociologia. Poeta e escritora, publica na página www.recantodasletras.com.br/rocionovaes.

VIDA | Vertigens Vertiginosas

Existem sonhos capazes de nos transformar em versões melhores de nós. E esse caminho, apesar de difícil e tortuoso, pode nos conduzir ao encontro de pequenos pontos de luz disfarçados de amigos.

Este ano o JORNAL MEMAI  completou 1 ano. Ao pensar nisso, não consigo deixar de sorrir. É maravilhoso ver cada edição crescendo, tomando forma, criando identidade. Uma identidade rica e híbrida, que tem a cara de seus colaboradores e leitores. Somos um coletivo de autores, descendentes e não-descendentes de japoneses, unidos pelo ideal de difundir a cultura japonesa e, num plano mais amplo, a cultura do Extremo Oriente. Não por imaginar tal cultura superior a qualquer outra, mas por amá-la e por acreditar que o conhecimento e o reconhecimento do outro – japonês, italiano, polonês, alemão etc. – é um passo fundamental para o diálogo cultural.

Desde o início, quando o jornal era apenas uma idéia, pensamos num veículo voltado para um público maior (não somente para nipodescendentes), formado por  aqueles que manifestassem  afinidade com a cultura japonesa. Mais ainda, sonhamos poder, pelas letras e pelo afeto para com a cultura, despertar essa afinidade.

Queríamos tornar mais acessíveis a informação e a linguagem sobre algumas chaves de compreensão da cultura japonesa. Para isso, contamos com nossas próprias experiências e amizades. No JORNAL MEMAI, cada um, à sua maneira, vive a cultura japonesa em seu dia-a-dia. Na equipe fixa  temos a escritora Marília Kubota (que lançou há pouco o livro Retratos Japoneses no Brasil), a artista plástica Sandra Hiromoto (que foi expor obras sobre o tema no Japão), a jornalista Mylle Silva (que promove a cultura pop no Portal Tadaima) os ilustradores Guilherme Match (criador do personagem Chibi Seto) e Simonia Fukue Nakagawa (especialista em gravura japonesa e mangá), a atriz Patrícia Kaminagakura (que escreveu, dirigiu e encenou  uma peça sobre lendas japonesas), a pesquisadora Suzana Tamae Inokuchi (que estuda a obra do cineasta Akira Kurosawa). E temos outros,  como o  designer Raphael Faria Kruger, a haicaista Teruko Oda, o fotógrafo Gustavo Morita  e nossos anunciantes, que amam o suficiente a cultura japonesa para concretizar nosso sonho Não podemos esquecer os  grandes amigos que  se dispõem a escrever,  comentar, contar, ilustrar e fotografar., para que cada número seja mais que um.

Cada um de nós luta para concretizar  esse  sonho que é o jornal: uma vertigem de sonhos.  Em japonês, “vertigem” é “memai” (眩暈) – e tornou-se a nossa vertigem, prenhe de “frios na barriga”.

Ao reler o segundo ideograma de memai (暈) me ocorre que ele é formado pelo ideograma de sol 日e de veículo, automóvel -車, realizando o sentido de órbita, anel, coroa (em sentido astronômico)? Chego à conclusão de que orbitar o astro-rei provoca uma dose mínima de vertigem, e de que só um sol é capaz de atrair e reter tanta gente boa em sua órbita.

Sempre digo a meus alunos que a grande pergunta a se fazer diante de um projeto não é se vai alcançá-lo, mas se vale a pena lutar. Existem sonhos poderosos capazes de nos transformar em versões melhores de nós. E esse caminho, apesar de difícil e tortuoso, pode nos conduzir ao encontro de pequenos pontos de luz disfarçados de amigos.

Assim, ao lado de vários novos-velhos-amigos,  nosso pequeno grande jornal vai se formando, semeando sonhos e contando um pouco de nossas experiências. Quem sabe, afinal, aonde  poderão ecoar? Que  novas historias e trajetórias vão  somar em seu segundo ano? Nós, certamente, não sabemos, apenas estamos siderados. E vivemos a vertigem.

VERTIGEM | Pequeno Tratado de Brinquedos

Pequeno Tratado de Brinquedos (Iluminuras, 1996, 74 páginas) de Wilson Bueno, é um livro de tankas, poesia breve oriental, ainda anterior ao haicai e composta por 31 sílabas divididas em cinco versos, de 5/7/5 e 7/7. Este extraordinário escritor paranaense, que recentemente partiu, nos deixou uma obra inventiva e preciosa, em especial, estes 58 tankas ou  sonhos, mas só de brinquedo, como ele mesmo definiu em uma dedicatória na noite do lançamento. Na epígrafe do livro, nos revela o mesmo desejo compartilhado com Guimarães Rosa um dia hei de escrever/um pequeno tratado de brinquedos/para meninos quietos. Só com a leitura de um título tão instigante e bonito, o leitor já ficará inspirado para se deparar com: o coração da montanha, a lua na vidraça, o aprendiz da flor de lótus e tantas outras imagens clássicas, criadas e recriadas, com maestria, humor e atualidade. Para Wilson, com o seu total domínio da métrica e manejo criativo de tantas linguagens literárias, o efeito produzido pela palavra pode nos atingir irreversivelmente, como o último verso do poema  o buscador: exato feito uma lança. Uma obra indispensável para se conhecer e sempre revisitar.

Jane Sprenger Bodnar orienta oficinas literárias infantojuvenis e trabalha no Instituto de Educação do Paraná. Tem poemas publicados no site www.escritorassuicidas.com.br e outras antologias.

HISTÓRIA | Ieyasu Tokugawa o unificador do Japão

por Yuri Sócrates Saleh Hichmeh

Para pacificar as guerras que assolavam o Japão, o shogun Ieyasu Tokugawa valeu-se de perserverança,  astúcia e da nova tecnologia trazida pelos primeiros  ocidentais que chegaram ao arquipélago.

A era em que nasceu Ieyasu Tokugawa, o unificador do Japão, foi um dos momentos mais conturbados da História do Japão: o  século 16, conhecido como o período dos estados em guerra (Sengoku-Jidai). Nesta época, o Japão encontrava-se dividido entre diversos senhores que disputavam através das armas o domínio e a conquista de novos territórios. Neste momento, a figura do Imperador encontrava-se desgastada, sendo respeitado mais como líder religioso que como detentor de poder político. Tal situação estimulou as guerras entre os senhores feudais do Japão, que buscavam obter o título de líder político e militar do arquipélago: Shogun.

Neste cenário conturbado nasceu Ieyasu Tokugawa, que viria a ser o unificador deste Japão descentralizado do século 16, posicionando-se como uma figura forte inclusive frente às potências ocidentais da época, como Portugal e Holanda.

O ano de seu nascimento, 1543, foi marcante para o Japão dos estados em guerra, pois desembarcaram, ao sul do arquipélago, os primeiros portugueses que viriam a estabelecer contato com a Terra do Sol Nascente. Estes viajantes, de acordo com o historiador John Whitney Hall, traziam novidades e tecnologias desconhecidas aos japoneses da época, como as armas de fogo, que revolucionariam a arte da guerra nipônica.

Nascido na província de Mikawa, sob o nome de Takechiyo Matsudaira, Ieyasu Tokugawa perdeu o pai, Hirotada Matsudaira, com apenas seis anos de idade. Ainda criança, aquele que viria a ser o shogun unificador do Japão viveu intensas guerras e disputas no interior do próprio clã, Matsudaira. Tais disputas definiriam a qual família os Matsudaira jurariam lealdade: os Oda ou os Imagawa. Aos nove anos foi feito refém dos Imagawa, assim permanecendo até seus quinze anos, quando foi permitido retornar à província de Mikawa como guerreiro, devendo reunir forças para combater, ao lado dos Imagawa, o clã Oda.

O clã Oda, sob a liderança de Nobunaga, suprimiu os Imagawa, matando seu comandante na batalha de Okehazama. Com a morte do chefe dos Imagawa, os laços de fidelidade que ligavam Ieyasu a este clã deixaram de existir. Desta forma, Ieyasu jurou fidelidade a Nobunaga Oda.

Mantendo-se leal a Nobunaga, Ieyasu retornou à província de Mikawa, pacificando-a e agregando mais terras a ela, destacando-se como principal representante daquela região do Japão naquele período. Ieyasu abandonou o nome Matsudaira, que o ligava ao seu clã de origem, adotando o nome Ieyasu Tokugawa, fundando uma nova linhagem que viria a ser reconhecida como descendente do clã Minamoto (clã fundador do xogunato, no século 12). A estratégia de Ieyasu foi a de se fortalecer como um líder político primeiramente em sua província de origem, submetendo populações vizinhas e pequenos senhores feudais que almejavam maiores poderes, mas não detinham armas e potencial para tanto.

Ascensão

Nos próximos quinze anos (1567-1582) Ieyasu consolidou seu poder, submetendo, ao lado de Nobunaga Oda, fortes rivais como o clã Takeda. Nobunaga. Como perspicaz estrategista, adotou as armas de fogo com o tradicional armamento, de  forma que seus exércitos foram capazes de unificar grandes porções do território nipônico, levando-o a ser reconhecido como principal líder político e detentor do poder de fato sobre o Japão.

Com o assassinato de Nobunaga por Akechi Mitsuide, o novo nome ligado ao controle político e militar do Japão foi o de Toyotomi Hideyoshi, talentoso estrategista, que após derrotar Mitsuide em Yamazaki, realizou campanhas militares até mesmo fora do arquipélago, alcançando a região das Coréias. Para Ieyasu, a ascensão de Hideyoshi significava um entrave em sua rota rumo ao controle do Japão, o que o fez observar o novo grande líder de perto, aprendendo com ele importantes posturas e atitudes políticas que favoreciam à centralização do poder e ao controle militar sobre as ilhas.

Antes de morrer, Hideyoshi estabeleceu que, com a sua partida, o Japão seria governado por uma regência de cinco grandes senhores, dentre os quais encontrava-se Ieyasu, que articulou a política de forma a colocar os regentes em grupos distintos: seus apoiadores e seus opositores.

Em 1600, Ieyasu e seus aliados enfrentaram em Sekigahara a forte oposição dos clãs que eram favoráveis à manutenção do poder nas mãos da família Toyotomi. Ieyasu, contando com a superioridade militar, esmagou sua oposição, colocando-se, após a batalha, como a nova autoridade político-militar do Japão. Sendo reconhecido pelo Imperador como descendente da família Minamoto, foi aclamado como Shogun, unificando as províncias do arquipélago japonês, suprimindo oposições e centralizando em si a autoridade política e militar, o que marcou o início de uma nova Era para o povo nipônico: a Era Tokugawa, conhecida também por Era Edo, por ter a cidade de Edo (atual Tóquio) como centro político, militar e administrativo.

O líder político e militar Ieyasu Tokugawa entrou para a História do Japão como o pacificador e unificador de um território que vivera, por mais de um século, um período de guerras e conflitos internos. Para seus aliados, um herói; para os partidários de Hideyoshi, um usurpador. É interessante ressaltar neste breve artigo que enquanto o Brasil encontrava-se em sua infância, passando por seu período de Capitanias Hereditárias e Governo Geral, o Japão passava por um período de guerras e extrema descentralização do poder. As conseqüências da política unificadora imprimida por Ieyasu após 1600 não refletiram apenas sobre o Japão, uma vez que este governante proibiu práticas religiosas católicas ao longo do arquipélago, expulsando padres, navegadores e militares portugueses de seu território.

Ieyasu morreu em 1616, deixando seu filho no poder, como o novo Shogun, que continuou a supressão de possíveis forças de oposição ao governo, abafando quaisquer práticas católicas e colocando um fim às relações luso-nipônicas em 1640.

Referências bibliográficas:

BOXER, C. R. A Igreja Militante e a Expansão Ibérica 1440-1770. São Paulo, Companhia das Letras, 2007.

BRYANT, Anthony J. Sekigahara 1600: The final struggle for power. Nova Iorque, Osprey Publishing, 2003.

HALL, John Whitney. The Cambridge History of Japan Volume 4. Nova Iorque, Cambridge University Press, 1999.

MORTON, W. Scott. Japan Its History and Culture. Nova Iorque, McGraw-Hill, 1994.

SUBRAHMANYAM, Sanjay. O Império Asiático Português 1500-1700. Lisboa, Difel, 1995.

Yuri Sócrates Saleh Hichmeh é historiador (UFPR),  professor de História e consultor empresarial de Gestão da Qualidade. É um dos coautores da coletânea de ensaios O Túnel do Tempo (Juruá, 2010).

ENTREVISTA 5 | Mari Kanegae

Se hoje uma das surpresas tecnológicas são impressoras que reproduzem objetos tridimensionais, o origami pode ser chamado de tradição que se renova. A partir de um plano bidimensional, dobrando de forma engenhosa, cria qualquer forma com volume: assim é o origami. Mari Kanegae, escritora, artista plástica e apaixonada divulgadora de uma das mais conhecidas artes do Japão, participa da emocionante aventura de descobrir novas possibilidades poéticas com a dobra do papel. Constantemente solicitada para cursos, oficinas e palestras; viajou para o Japão para aprofundar estudos, Mantém constante intercâmbio com os mestres nipônicos; mas sua modéstia e conhecimento a torna uma mestra muito próxima de nos.

JORNAL MEMAI: (LM): Como você foi iniciada no origami, a prendeu com familiares, ainda criança; ou foi pesquisar já adulta?

MARI KANEGAE :O primeiro contato foi quando fui conhecer meus avós no Japão, tinha 3 anos de idade. Quando cheguei lá, só falava em português e eles não entendiam o que eu falava e vice-versa. Aí a minha avó encontrou uma maneira de se comunicar comigo, foi através do origami. Ela fez uma porção de origami para mim. Depois já no Brasil, tive aulas em escola japonesa e comecei a aprender a partir de livros que meus pais compravam. Só retomei o origami no último ano da ECA-USP. Como o curso era Licenciatura em Educação Artística com habilitação em Artes Plásticas, fiz estágios em vários lugares. A maioria , locais onde o poder aquisitivo era muito baixo.Em Santo Amaro, a Prefeitura dava tinta, pincéis, papéis, argila,etc.Quando os alunos voltavam pra casa não tinham estes materiais. Fiquei pensando em algo que pudessem fazer e não tivesse custo.Aí lembrei , quando criança eu fazia origami com papéis de embrulho, revistas e jornais. Pedi para as crianças trazerem de casa qualquer tipo de papel. Elas aprenderam a cortar os papéis e passei a ensinar origami. Percebi que ficavam super motivadas e começaram a juntar as técnicas. Por exemplo, faziam um boneco de argila e depois um chapéu de origami pra colocar no boneco. Usavam os origamis para trabalhos de colagem e até para contar histórias. Voltavam para casa felizes. No dia seguinte as mães vinham pedir pra eu ensinar alguma coisa, elas também queriam aprender. E assim conheci, além das crianças, os irmãos, as mães. Percebi o quanto o origami era importante não só como atividade, também como elo de ligação entre pessoas. Aprendi que o origami era algo muito sério e resolvi pesquisar e estudar mais. Depois de formada, fui trabalhar em escola de educação infantil e procurei desenvolver atividades de origami junto com outras técnicas artísticas. Os resultados foram surpreendentes.

JORNAL MEMAI: (LM):: Você estudou origami no Japão?

MARI KANEGAE :: Depois destes resultados, resolvi ir ao Japão para me aprimorar, em 1984. Tive o privilégio de estudar com o sensei Toyoaki Kawai que ensinou que antes de tudo um origamista tem que ser bom observador. Olhar o que está à volta, principalmente a natureza. A partir daí, interpretá-la através do papel. Conheci o sensei Akira Yoshizawa, cujos trabalhos são verdadeiras obras de arte. Com ele aprendi a respeitar o papel. Minha história não tem fim. Continuo aprendendo, ensinando e aprendendo.

JORNAL MEMAI: (JM): O tsuru é uma forma intrigante; simples ao mesmo tempo complexa. Qualquer pessoa interessada em cultura nipônica conhece o tsuru, sabe o que representa. Uma criança aprende a dobrar o tsuru, habilidade que muitos adultos não tem. Você acredita que essa seja uma característica do origami, fácil para alguns, espetacular para outros?

MARI KANEGAE :: O tsuru é uma das figuras clássicas do origami, não só do Japão, conhecida em todo o mundo. Mesmo hoje, há criações novas que partem desta figura milenar. O origami é igual a outras artes. Tem gente que tem facilidade para dobrar, assim como tem pessoas com dom para a música. Seja qual for a dificuldade, para dobrar ou tocar um instrumento, seja ela criança ou adulto, com força de vontade, paciência e treinamento, são capazes de superar estas barreiras.


JORNAL MEMAI: (LM) : Por que o origami é visto como atividade para crianças, se existem tantos adultos praticantes? Isto acontece só no Brasil?

MARI KANEGAE :: Não ocorre só no Brasil. Acontece o mesmo no Japão e em outros países. Acredito que aconteça por falta de informações. Por isso, nos cursos mais adiantados, procuro citar nomes dos artistas que criaram as obras. Se na música existe autoria, no origami também temos que dar créditos. É uma forma de respeito ao artista e de dar mais seriedade ao origami.

JORNAL MEMAI: (JM): É preciso ser especialista para reconhecer o autor deste ou aquele origami? Tem que estar informado sobre o que ha de novo, existe congresso, publicações que tornem documento, registro para esses artistas criadores?

MARI KANEGAE : Existem trabalhos que aprendi quando criança, ou com alunos, que desconheço a autoria. Aí pesquiso nos livros, revistas das associações (japonesa, inglesa, americana, alemã, italiana) para descobrir. Algumas figuras não consegui descobrir e quando ensino digo que desconheço o autor, se alguém souber, peço que me comunique. Existem encontros anuais e convenções em todos os países. Os mais conhecidos são da BOS (British Origami Society), da Origami USA, da NOA (Nippon Origami Association), Origami Tanteidan, além dos encontros na Itália e Espanha. Nestas convenções há exposições de trabalhos novos e publicações. A publicação de um livro já é um registro. Como não sou usuária regular da internet, não tenho informações se há publicações de criações de origami neste veículo.

JORNAL MEMAI: (LM): Ainda sobre autoria, você acha que as revistas vendidas em banca de jornais que não citam os dos autores deveriam pedir autorização ao autor?

MARI KANEGAE :Com certeza. É normal pedir autorização para publicar. Num encontro sobre direitos autorais, no Japão, em 2009, verificamos que um dos países em que havia este problema era o Brasil. Neste encontro participaram artistas de vários países cujos trabalhos ou livros foram pirateados ou publicados sem autorização.


JORNAL MEMAI: (LM) – Para cada figura existe um tipo de papel mais adequado, como escolher o melhor ? O japonês é o melhor ?

MARI KANEGAE :Para determinadas caixas , por exemplo, é melhor usar papel mais firme de gramatura maior. Para dobrar uma flor delicada, papel mais maleável dá resultado melhor. No curso usamos só o papel espelho e aí faço os alunos perceberem que para a caixa fica muito mole e para a flor de lotus por exemplo fica difícil de dobrar. O importante é experimentar todo tipo de papel e ver o resultado, mesmo que os papéis não sejam para origami. Durante o processo a gente percebe se o papel é adequado ou não. Não existe receita, tem que dobrar para sentir.

JORNAL MEMAI: (JM): No Japão o papel tem significados determinantes. envelopes para cada ocasião, para depositar a contribuição nos funerais, o Mizu-Hique para enfeites de presentes nos casamentos tradicionais. O origami participa de algum desses rituais ?

MARI KANEGAE :Sim. um dos mais antigos origamis é o que representa um casal de borboletas (macho e fêmea) usadas nas garrafas de sakê,usadas em cerimônia de casamento. Algumas figuras eram dobradas para serem colocadas nos altares religiosos.Também existem envelopes que são dobrados e não colados.

JORNAL MEMAI: (JM) – Além do origami, você lida com o kiri-e. Conte mais sobre , como você trabalha ?


MARI KANEGAE – Dou aula de kiri-e e origami. Meu interesse pelo kiri-e surgiu quando fui ver uma exposição de Masayuki Miyata, no MASP, em 1975. Só em 1984, quando fui ao Japão estudar e pesquisar sobre origami, fiz um curso de kiri-ê. Assim como no origami, ainda me considero aprendiz. A técnica veio da China, e no Japão, usada para fazer moldes de estampas de kimono. Foi e ainda é usada em ilustrações de poesias e contos.

JORNAL MEMAI: (LM)::Você acha que o origami deveria ser implantado com atividade do currículo das escolas brasileiras ?

MARI KANEGAE :Não adianta impor o origami nas escolas. É preciso mostrar sua importância para os professores através de vivências. Só assim vão poder passar aos alunos algo positivo.

JORNAL MEMAI: (LM):: O origami não é só usado na Educação…

MARI KANEGAE : O origami foi usado em diversas áreas, para demonstrar conceitos matemáticos, noções de cores, formas e tamanhos, além de exercitar a coordenação motora fina, a atenção, a concentração e a criatividade.

JORNAL MEMAI: (LM):: Você é coordenadora do Grupo de Estudos de Origami(GEO) em São Paulo, com o qual faz exposições. Como surgiu o grupo, e a ideia de exposições?

MARI KANEGAE :O grupo é formado por ex-alunos da Aliança Cultural Brasil-Japão. Após concluírem todos os cursos, alguns queriam continuar se encontrando  para estudar e divulgara arte. A princípio, fizemos boletins, distribuindo cópias aos interessados. No Japão, visitei uma exposição da National Origami Association (NOA) sobre a história do arquipélago contada através de cenários e fiquei encantada com os detalhes. Imaginei algo parecido quando retornasse ao Brasil. Sugeri ao GEO fazer exposição sobre a história da imigração japonesa no Brasil. Todos concordaram e partimos para a pesquisa. Visitamos o Museu da Imigração, lemos o livro de Tomoo Handa (“Memórias de um Imigrante Japonês”), assistimos o filme da Tizuka (Yamasaki), resgatamos fotos antigas e juntando tudo, partimos para a criação das peças. A exposição percorreu várias cidades no Brasil e foi até o Japão, em Hamamatsu e na Embaixada Brasileira em Toquio. Visitaram a exposição grandes nomes do origami, como Makoto Yamaguchi, Jun Maekawa, Isamu Asahi, Saburo Kase, Kunihiko Kasahara entre outros. Muitos imigrantes se identificaram com os cenários, e os japoneses ficaram sensibilizados com a história que muitos não conheciam.


JORNAL MEMAI: (LM): A exposição levada para o Japão contou com apoio de órgãos públicos ou privados?

MARI KANEGAE :Conseguimos patrocínio de empresas e pessoas para levar a exposição, mas não o suficiente para trazê-la de volta. A exposição sobre a História da Imigração Japonesa no Brasil foi doada ao Museu da JICA em Yokohama (Kaigai Iju Center). Houve tentativa de se trazer a exposição emprestada para os eventos da comemoração do centenário. A JICA contratou professoras de origami no Japão para consertar cenários deteriorados com o tempo. Uma empresária brasileira devia trazer a exposição, mas não deu certo.

JORNAL MEMAI: (LM): : Outras exposições foram produzidas?

MARI KANEGAE :: Fizemos uma exposição em comemoração aos 500 anos do descobrimento do Brasil. O último trabalho foi sobre o carnaval, levou cerca de 10 anos para ser concluída e ainda está sem patrocinio. Apesar das dificuldades de produzir uma exposição, o que vale é o público sente e comentam. É uma comunicação não verbal, envolve sentimento e sensibilidade.

JORNAL MEMAI: (LM ): De que forma o origami influencia sua vida?

MARI KANEGAE – Para mim é uma filosofia. Tudo que se aplica ao origami, pode ser levado ao nosso dia a dia. Paciência, perserverança, enfrentar desafios. É um meio de comunicação, de expressão e valorização da Vida.

PALCO | Murmúrios de uma Dança

Um depoimento sensível sobre Kazuo Ohno, o mestre do Butô – a dança japonesa que encena a morte e celebra o corpo e o renascimento

Janeiro de 2004. Estou perdida em Yokohama. Tento encontrar um endereço e convencer minha família a não desistir desta minha vontade. Enfim, abandonamos o carro e parte da família que não compartilha a ideia de seguir a pé. Deparamo-nos com uma escada íngreme, montanha acima, que, para quem já foi tão longe, é encarada com coragem. Pelo lado esquerdo desta subida, éramos acompanhados por um imponente bambuzal que murmurava algo, até então, incompreensível. Ao término da subida, encontramos um caminho de pedras no chão, enfeitada com mosaicos coloridos. Um grande peixe, um pequeno sol e outras imagens abstratas nos guiavam para uma casa. Tocamos a campainha e somos amavelmente recepcionados por uma assistente que nos conduz até os fundos da casa e abre, especialmente para nós, a porta do estúdio de dança de Kazuo Ohno.

A assistente pede para ficarmos à vontade e nos deixa por um momento. Um silencioso momento em que aprecio o singelo lugar de criação de um artista incomum. Logo na entrada, vê-se muitos livros, cds, fitas-cassete, uma mesa de som, alguns instrumentos musicais. Do lado direito, uma pequena cozinha improvisada, mais livros, uma tevê e um armário repleto de quadros, bonecos, máscaras e lembranças do mundo todo (incluindo uma imagem de Nossa-Senhora). Encostada na parede, uma mesa vermelha, em formato circular, contrasta com a parede branca e o piso marrom-escuro, lembrando o sol japonês surgindo da terra. O fundo da sala comporta uma arara com figurinos, um velho piano e um quadro, com a foto de Antonia Mercé, artisticamente conhecida como “La Argentina”. Foi por causa de sua apresentação de flamenco, em 1929, que Ohno, impressionado com Mercé, decidiu seguir o caminho da dança. A inspiração e motivo primeiro da sua opção de vida fixada no ponto mais alto da parede. Compondo o cenário do estúdio, falta apenas mencionar que, à frente do espaço vazio, destinado às aulas semanais, estavam uma mesa baixa e a cadeira do mestre. Meu sobrinho, então com 2 anos e meio, estava nos acompanhando nesta visita e nos surpreendeu quando alegremente sentou nesta cadeira e nos lançou um olhar sapeca, com uma liberdade só permitida à infância.

Quando a assistente retorna, ela nos convida para entrar na casa e tomar um chá. Lá, somos recebidos pelo filho de Kazuo, Yoshito Ohno. E, mais uma vez, sinto vergonha por não dominar ainda o idioma japonês. Por ironia, uma vergonha tipicamente japonesa. Minha mãe assume o papel de tradutora e explica que somos brasileiros e que eu, por ser artista, tinha insistido muito em conhecer o estúdio do mestre Ohno. No meio da conversa, todos se calam, pois a assistente trazia o próprio Kazuo Ohno para nos conhecer. Ele, quase sem enxergar, vem se apoiando em barras de ferro instaladas em toda a casa, para facilitar sua locomoção. Honrados e, no entanto, envergonhados pelo incômodo, nos reverenciamos a esse monstruoso mestre da dança de vanguarda japonesa, o Butô. Embora este não seja o momento de me estender no conceito, posso dizer, sucintamente, que o Ankoku butô (Butô das Trevas) teve seu marco inicial em 1959, no Japão do pós – II Guerra Mundial, em uma performance de Tatsumi Hijikata. Questões como o colapso do corpo, o enfrentamento da morte, a busca de outras formas de percepção, eram investigados pelos dançarinos de butô, a dança de um corpo morto.

Kazuo acompanhou o resto da conversa, calado, de olhos fechados, com a cabeça inclinada para o alto, como a perscrutar nossa presença. E não me fazia falta seu olhar ou suas palavras. Sua disposição em nos receber e sua impactante grandeza fortemente perceptível, ainda que num corpo já tão frágil, tecia entre nós um elo especial.

Enquanto eu descia a escada, acompanhada pelo bambuzal, começava a entender esses murmúrios vindos da natureza. Eram murmúrios de uma presença humilde e amável que recebe estrangeiros desconhecidos em sua casa; de um corpo estático que perdura no tempo, e que contém todo o movimento do universo; de uma busca incessante pelo entendimento humano, a cada contato; e de uma eterna gratidão pela vida que ainda sopra. Aquele pequeno corpo continha tudo isso. E dançava. E como era linda sua dança. E, mesmo depois de sua morte, que ocorreu em junho deste ano, ele continua a dançar insaciavelmente. Porque vida e morte são apenas coreografias no espetáculo da existência que ele nos apresentou.

A DANÇA DA VIDA

Kazuo Ohno nasceu em Hakodate, província de Hokkaido, no Japão, em 27 de outubro de 1906. Em 1928 inicia seus estudos em dança e, no ano seguinte, assiste a uma apresentação da bailarina espanhola Antonia Mercé (também conhecida como La Argentina ou A Rainha das Castanholas), no Teatro Imperial, em Tóquio. Estréia como dançarino em 1949 e, de 1960 a 1966 trabalha em parceria com Tatsumi Hijikata, que o inspirou a desenvolver o Butô, originalmente chamado ankoku butô (dança das trevas). O Butô evoluiu na tumultuosa paisagem do Japão do pós II Guerra, rejeitando as formas tradicionais da dança ocidental tão popular na época. Em 1977, Ohno funda sua escola de dança nos arredores de Yokohama. Neste mesmo ano, dirigido por Hijikata, ele estreia o solo Admirando La Argentina, uma homenagem à Mercé. Este espetáculo recebe o prêmio Dance Critic’s Circle Award e é considerada a obra-prima de Ohno e do próprio Butô. Em 1980, Ohno faz uma turnê pela Europa, causando grande impacto com seu trabalho singular. Com Hijikata na direção, Ohno criou outras importantes performances, como Minha Mãe e Mar Morto, o qual atuou com seu filho, Yoshito Ohno. Mesmo após completar 90 anos, Ohno ainda atuava como dançarino de butô. Falece em 01 de junho de 2010, mas o estúdio de dança Kazuo Ohno continua ativo, agora dirigido por Yoshito Ohno.