34 LITERATURA | O JARDIM DE HIDEKO

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Por Akira Yamasaki

no jardim de hideko/equilibram-se colibri / cuitelicópteros

motor de moto na rua /manhã de primavera /  no jardim de hideko / da haste de antena / benteviu-me / três vezes seguida

da porta da cozinha / hideko contempla / o inverno na cerejeira / os olhos distantes / xícara de chá fumegante / nas mãos esquecida / pesam sobre as flores / silêncios de bentevis / e solidões esmagadas

hideko, amanhã a morte virá ao seu jardim, tocará flores e folhagens, e, especialmente, as pedras consumidas pelo silêncio das nossas tristezas incineradas / e então ficaremos juntos à sua espera, com mãos inertes e abraços pendentes de submissão aos caramujos condenados a subir com suas ventosas de cola deslizante pelas nossas pernas, costas e faces nuas, para alimentar-se do adubo e da caspa dos nossos cabelos / hideko, amanhã o sol virá ao seu jardim, escorregará com generosa luminosidade pelas palavras abertas e pelos calos, juntas e cicatrizes das plantas podadas centenas de vezes pelos bisturis do tempo / e então ficaremos juntos à sua espera, com nossas mãos molhadas de igrejas e desapegos, de perfumes indecifrados e de sabedorias de mantas e portais milenares onde os peregrinos param para descansar à sua sombra antes de seguir viagem

Akira Yamasaki é poeta e ativista cultural e mora no Itaim Paulista, bairro da extremo leste da cidade de São Paulo, desde 1964. Natural de Osvaldo Cruz, do interior do estado, foi um dos idealizadores do MPA – Movimento Popular de Arte de São Miguel Paulista, movimento de resistência cultural que impulsionou as artes na região até 1986. Os poemas acima fazem parte do livro Bentevi, itaim, publicado em julho de 2012, dentro do projeto Memória Musical.

 

 

34 GASTRONOMIA | EXPERIÊNCIA ZEN COM DOCE DE LARANJA

Por Luiza Freire

Nestes tempos estou aplicada nos meus estudos de culinária japonesa e folheando as revistas da minha pequena e honesta coleção trazidas do Japão. Neste estudo, pensava como a maioria dos preparos japoneses é meticulosa e estritamente ligada às raízes religiosas (Budismo, Xintoísmo). Preparar, servir e saborear não deixa de ser um complexo processo de meditativo. Nestas reflexões, deparei-me com uma revista que ensina a fazer compotas e conservas japonesas agridoces, doces e salgadas. Um desafio a cozinheiros de primeira viagem neste setor, como eu. Poucas vezes arrisquei compotar algum alimento, não por receio e sim por saber do preparo atencioso e demorado das compotas. Desta vez, resolvi arriscar e preparar a compota de doce de laranja sanguínea. Juntei  potes de vidro, panela de fundo grosso, colher de pau e a faca bem afiada e iniciei o processo denominado  “pequeno manual de meditação gastronômica”. Uma clara referência da espera à paciência que parte de um preparo meticuloso e demorado, as horas que os bagos da laranja ficam de molho até chegar ao momento de cozinhar e posteriormente servir a compota pronta.

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Compotas em revistas japonesas. Foto: Luiza Freire.

Fazer este doce foi um exercício ocidental, mas de essência oriental dada a persistência no preparo e uma preocupação quase mínima com o resultado. Lembro das palavras da minha sensei logo que comecei a estudar japonês: ela dizia que o importante é o trajeto que você faz até o aprender e não só o ponto de partida ou o resultado. Evidentemente, um trecho de conto budista. Transportei esta lógica filosófica para o  doce. Logo de início um grande processo de desapego dos resultados  iniciou na lavagem do quilo de laranjinhas do quintal para depois retirar os cabinhos e secá-las bem. Não arrisque fazer com as do supermercado – e correr o risco de comer compota de agrotóxicos,  já dizia minha avó  –,Depois a parte do sacrifício, meu e das laranjas:  cortei cada uma delas em quatro partes, retirei as sementes e fatiei cada pedaço em outras fatias finas. Este processo exigiu duas horas de faca em punho e, claro, muita paciência. Mergulhadas as fatias em água as azedinhas descansaram em paz por 24 horas.

O doce na panela. Foto: Luiza Freire.
O doce na panela. Foto: Luiza Freire.

No dia seguinte, a segunda parte da meditação, com açúcar na medida e uma ideia fixa na cabeça: Servir a compota com moti grelhado na chapa. Pensamento repleto de deleite nipo-gastronômico. Caros leitores, apesar de todo o trabalho posso afirmar que compotar alimentos é algo como atingir o nirvana na gastronomia. Do Japão ao Brasil, um pedacinho de determinação e açúcar em potes.

ITADAKIMASU (いただきます)!

RECEITA

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Luiza  Freire nutre desde a infância a paixão pela cultura e a gastronomia japonesas. Quando não está cozinhando, é pesquisadora na área de educação e políticas educacionais brasileiras.

34 RECEITA | COMPOTA DE LARANJA

Moti com calda de doce de laranja. Foto: Luiza Freire.

Moti com calda de doce de laranja. Foto: Luiza Freire.

 INGREDIENTES

  • 1 Kg de laranja sanguínea
  • 1 ½ a 2 litros de água
  • ½ limão siciliano fatiado sem sementes
  • ½ Kg de açúcar refinado

MODO DE PREPARO

Lave todas as laranjas em água morna com sabão. Escorra bem, enxague e retire os cabinhos. Corte cada uma delas em quatro partes, retire as sementes e fatie os pedaços. Acomode as fatias em uma travessa e cubra com a água. Neste ponto,  é preciso deixar as fatias descansando por 24 horas ou mais, para que o amargor da casca seja reduzido. No outro dia, passe as fatias da laranja para uma panela alta e de fundo grosso e cozinhe em fogo baixo por aproximadamente 45  minutos ou até as fatias ficarem amolecidas. Adicione o açúcar e mexa bem,por pelo menos 10 minutos para que o açúcar derreta bem. Mantenha o fogo baixo e cozinhe por aproximadamente 1, 5 hora, quando a calda engrossar e estar com aspecto de doce em calda. Não se espante, porque a receita reduz muito no cozimento. Para armazenar o preparo, separei vidros de outros doces que acabaram e reaproveitei para guardar esta compota. Depois de bem lavados esterilizei os vidros e as tampas em água fervente por vinte minutos. Este processo garante que o doce fique conservado por mais tempo e reduz os riscos de contaminação por bactérias. Espere o doce amornar um pouco e acomode nos vidros aguarde esfriar e leve à geladeira, bem fechados eles podem ser consumidos em seis meses.

34 ENTREVISTA | TEIKA ITOH, UMA ARTISTA DE IKEBANA CONTEMPORÂNEO

Tekka Itoh.
A floresta artificial de Teika Itoh.

Nessa edição, entrevistamos a artista de ikebana contemporâneo  Teika Itoh. Mestre da escola Ohara Ryu, uma dass “três grandes” escolas de ikebana clássico no Japão, Teika já expôs em Londres ( 2001 Crossover /Instalação de ikebana – Mile End Park),  Nova Iorque, ( 2003 Perfection/Impermanence: contemporary Ikebana  – Wave Hill Glyndor Gallery) e em exposições relevantes no Japão, como Echigo Tsumari Art Triennial 2006 e 2009, em Niigata,  Exposición Internacional Zaragoza, no Instituto Cervantes de Tóquio, em 2008.  A artista parte dos conceitos da ikebana para criar suas instalações, usando elementos da natureza, como flores, folhas,  ramos e troncos de árvores junto com elementos artificiais, compondo uma obra singular.

Por Marilia Kubota (com apoio de Elia Kitamura)

34entrevistaimagem01O que você ensina a suas alunas nas aulas de ikebana ?

 

Na maior parte, ensino ikebana tradicional a meus alunos. Penso que o arranjo floral não é algo que se pode pensar senão que  brota a partir de um sentimento pessoal. Não obstante, para produzir ou criar minhas obras, há um trabalho muito minucioso a realizar, para o qual peço ajuda de meus alunos, com a intenção de que, com o  processo, aprendam a arte floral.

O que o ikebana pode transmitir para uma pessoa leiga?

O ikebana supõe uma nova vida para uma planta que perdeu sua raíz. Supõe um diálogo com la flor, enquanto se desfruta do momento, e como consequência,  se decora e se aporta frescura ao recinto ou espaço onde onde se cria.  A origem do  ikebana são as oferendas florais  ligadas ao shintoismo, as quais  começaram no século  .

Pode falar brevemente sobre o estilo Ohara Ryu?

Entre os séculos  XVI e XVIII se desenvolvem distintas formas de ikebana e se estabelecem distintas escolas associadas a “dichas formas”. A origem de Ohara Ryu  remonta a 1894, quando introduziu o novo conceito de “Moribana” ao ikebana. Ohara Ryu ampliou a base onde se criava o  ikebana, (que até então se limitava a uma só) a uma forma triangular, pelo que se deu começo a una ikebana no qual se decora pondo uns elementos em cima de outros. A introdução deste conceito supôs o  inicio da renovação do  ikebana.  Na atualidade, há numerosas escolas de ikebana,  mas “as três grandes” são Ikenobo, Sogetsu e Ohara ryu.

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Como você teve a idéia de projetar ikebanas em instalações ?

 A capacidade de reprodução das plantas é muito alta.  Considero que limitar a expressão desta força  vital a um  suporte  (maceta) não  aproveita seu potencial. É por isso que converto a estancia ou a galería num suporte  de minha obra,  sobre la que desenvolvo a instalação de ikebana.

Quais os mais famosos artistas de ikebana no Japão e no mundo? .

Matsuda Ryusaku (estilo livre), Haa Keisen (Ryuseiha), Otsubo Kosen (Ryuseiha), Nagai Rihito (Koryu Shotokai), Senba Riho (Koryu Sotokai), Hinata Yoichi (Sogetsuryu), Katagiri Atsunobu (Kadomisasagiryu). As pessoas que nomeei são artistas contemporâneos de ikebana,  que na atualidade estão ativos na atualidade no Japão.  Quanto à escola Ikenobo, há mestres famosos, mas não se pode  considerar parte do ikebana contemporáneo e sim do clássico.

 
WaveHill in New York '03
WaveHill in New York ‘

Numa de suas obras, a sala de chá é “profanada” por instalações de ikebana . Para mim, essa obra  remete a uma cena de um filme brasileiro baseado num romance de Gabriel Garcia Marquez, chamado Erêndira. A idéia é essa, desmistificar o Chado,  origem da ikebana ?

Me vem à cabeça a obra que realizei para Echigo Tsumari Art Triennale, mas nesse evento não se tratava de uma sala de chá, mas de uma habitação em estilo japonês. É uma obra de ikebana em uma  casa tradicional japonesa, por isso não buscava romper com a etiqueta do Chado. Simplesmente quería expressar como a flora causa a erosão de um edifício tradicional japonês de madeira.

O conceito wabi sabi é bastante divulgado no Brasil quando se fala em arte japonesa. Como você explica o que é wabi sabi para um leigo?

“Wabi sabi” é um conceito japonês da beleza. Para dizer de maneira sincera, se refere à beleza simples e tranquila. É como a beleza que surge e permeia do  interior de algo antigo, incluindo o declínio.  Considero que este conceito é especialmente evidente no  Chado ou no  Haiku. No  caso de ikebana, criar uma obra num recipiente de antigo, assim como o uso de ramos mortos e folhas secas e posterior apreciacão desse tipo de beleza, supõe uma interpretacão muito japonesa do conceito de “wabi sabi”. O feito de que se use esse tipo de plantas de uma beleza repousada, junto a outros tipos mais chamativos, faz que não se possa considerar o  ikebana como uma arte totalmente imbuida do conceito “wabi sabi”.

エスパスOHARA in 青山 ’03
エスパスOHARA in 青山 ’03

Por que você usa uma flor brasileira (esponja de ouro) em suas ikebanas ? Que outras flores/plantas brasileiras você conhece e poderia usar em suas obras?

 A esponja de ouro é uma planta que poucos cultivadores japoneses oferecem. Dela me encanta, em primeiro lugar, a beleza vaporosa da cor amarela, assim como o broto, ainda que também como flor seca mantém sua beleza. Quando o ano passado fui a Brasil, pude conhecer numerosas flores que não existem no Japão. Me interessaram especialmente as sementes e  as leguminosas. Elas são a raíz e origem da vida e de agora em diante também quero incluir em minha obra essas novas sementes e classes de plantas.

34 KOTOBA | A NOVA CARA DOS NIKKEI NO BRASIL

Erica Kaminishi.
Erica Kaminishi.

Por Marilia Kubota

Saia na rua e pergunte, se você é descendente de japonês, para um conterrâneo: você acha que eu sou japonês ou brasileiro ? A resposta,  salvo exceções,  será: japonês. Se você é nikkei de primeira, segunda e terceira geração acostumou-se a ser o “japonês” do grupo. Mas daqui para frente, a identidade do descendente de japonês pode sofrer transformações profundas na comunidade brasileira.  Isto se deve à presença cada vez maior de jornalistas e artistas  nikkei em destaque na mídia brasileira. E também à consciência dessas personalidades, sobre sua responsabilidade pela  disseminação de estereótipos e preconceitos em relação aos nikkei brasileiros.

Um artigo do jornalista Leonardo Sakamoto, publicado em seu blogue, no site UOL, no dia 30 de junho e uma reportagem , escrita pelo jornalista e fotógrafo freelance Henrique Minatogawa  publicada no Discovery Nikkei, no último dia 14 de jullho são exemplos desse tipo de consciência. Sakamoto comenta, com seu  estilo irônico, as expressões mais usuais em relação à etnia japonesa no Brasil. De apelidos a cliclês, como: Você deveria ter vergonha. O japonês é um povo honrado e trabalhador, que conquista as coisa do próprio suor. Não fica defendendo invasão como você.”
A reportagem do Discovery Nikkei analisa como as novelas de tevê e o cinema projetam a imagem do nikkei no Brasil. A análise se fundamenta no depoimento de atores nikkei, usualmente chamados a representar personagens estereotipados, marcados pela imagem dos imigrantes japoneses do inicio do século, Em novelas e filmes, personagens japoneses usualmente são retratados como agricultores, tintureiros ou donos de mercearia. Ou professores,  lutadores de artes marciais e chefs de sushi. E quase sempre são cômicos ou ingênuos –  usualmente dizendo “ne” no fim de cada frase e com  um sotaque depreciativo.
O esteréotipo e discriminação são persistentes porque, para fazer sucesso na tevê, são incorporados por celebridades É o que acontece com a apresentadora Sabrina Sato, que faz o tipo japonesa sexy e ingênua. Mas atores como  Marcos Miura, Camila Chiba, Érica Suzuki, Cristina Sano, Henrique Kimura e Ricardo Oshiro, defendem uma representação mais realista. De acordo com Miura, o campo de trabalho para asiáticos é ainda limitado. “A imagem padrão imposta no Brasil é de personagens com atores brancos. Negros já administram bem para superar o obstáculo, conquistando papéis de protagonismo na TV e no cinema. Infelizmente, para nós asiáticos, há ainda uma visão turva, e nossos papéis, geralmente são estereotipados.”

Os atores têm se recusado não só a atuar em papéis estereotipados, mas também rejeitam anúncios que veiculam imagens preconceituosas. Sakamoto argumenta que “quem não se adequa ao modelo “Ilha de Caras” (mais ricos), “Família Margarina” (classe média) e “Núcleo Suburbano da Novela das 21h” (mais pobres) não raro é excluído do rol de “brasileiros possíveis” na cabeça de certas pessoas que não foram educadas para a diferença e procuram te encaixar em algum modelo para justificar a sua existência.” Mas para os atores , a percepção dentro da própria comunidade nikkei está mudando.  A esperança é que na quarta geração no Brasil as generalizações e preconceitos hajam sido eliminados na indústria cultural brasileira.

O MEMAI trabalha para eliminar a disseminação dessas generalizações sobre a cultura e arte japonesas. Não aprovamos a propaganda do exotismo da “feijoada com sushi”. Defendemos que há  lugar para a cultura japonesa no Brasil, assim como para os descendentes. E a miscigenação que vem sendo feita com  mais de 100 anos de presença japonesa no Brasil torna natural o aumento de chefs de culinária japonesa vindos do Nordeste;  de mestres de artes marciais ou língua japonesa não descendentes; ou  de uma quantidade crescente de pesquisadores não descendentes interessados em aprofundar seus conhecimentos científicos no campo Estudos Japoneses. E  artistas que conseguem entender o espírito das artes japoneses, incorporando seus conceitos estéticos em suas obras. Essa incorporação pode ser feita  por um ocidental, como o pintor o Gustave Klimt. Prova de que a arte e a cultura são patrimônios universais .

"Mulher em pé com kimono. Gustav Klimt, 1918.
“Mulher em pé com kimono. Gustav Klimt, 1918.