20 NOTÍCIA | EDITORA DE LEMINSKI PREMIA HAICAIS

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O escritor e jornalista Luiz Andrioli, de Curitiba,  é o autor de um dos cinco  haicais premiados no concurso relâmpago organizado pelo blogue da Companhia das Letras para promover o lançamento do livro “Toda poesia”, de Paulo Leminski. O concurso recebeu mais de mil poemas, julgados por Alice Ruiz, Sofia Mariutti e Leandro Sarmatz. Esses foram os cinco poemas selecionados, ganhadores do livro e da camiseta:

Dois cães na rua
O solto faz festa
O preso protesta
— Luiz Andrioli

Flor de maio
presa ao vestido
trancado no armário
— Ana Clara Noronha

a pipa
se alinha
ao voo da andorinha
— Amyr

à meia-luz
água apitando no bule
gaita de blues
— Lucas Puntel Carrasco

Faro de breu
Farol do vaga-lume
Acendeu
— Márcio Januário Pereira

NOTÍCIA | ZEN E ARTE DE NÃO FAZER NADA

Abril é o mês em que se comemora o nascimento de Buda. Além do Hana Matsuri,a festa das flores em homenagem a Xaquiamuni,   comemorado  em Florianópolis (6 e 7), São Paulo (13 e 14)  e  Curitiba (27 e 28), os adeptos do zen-budismo fazem retiros – sesshin. A associação Zendo Brasil, com sede em São Paulo,  faz, no próximo final de semana (5, 6 e 7), o Gotan-e Sesshin(Nascimento de Buda), destinado a iniciantes na prática. As inscrições podem ser feitas até o dia 03/04, pelo e-mail zendobrasil@gmail.com.

O Zendo fica no Templo Taikozan Tenzuizenji  (tempo Zen seguindo o céu). O nome do templo é o da Monja Coen, que dirige o templo. A Comunidade Zen Budista Zendo fica no bairro do Pacaembu. Veja aqui um vídeo com imagens do último sesshin.

A rotina do sesshin começa  madrugada. Os participantes acordam às 4h30 min e ficam horas sentado de pernas cruzadas. Depois começam as sessões de zazen – a meditação sentada praticada pela escola Soto, ramo do zen-budismo ao qual o Zendo é filiado. As sessões incluem, além do zazen, a meditação andando (kinhin),  a recitação de sutras. Durante os dias do retiro, os participantes  convivem com os monges, alimentando-se de acordo com o preceitos zen, cozinhando – a dieta é vegetariana – e lavando a própria louça, fazendo  a limpeza e tomando banho. Tudo sob estreita disciplina.

Outros retiros

Outro retiro muito concorrido, é o  do Morro da Vargem, fundado em 1974. O mosteiro,  localizado em Ibiraçu, cidade próxima a Vitória, capital do Espírito Santo,  é um dos mais famosos santuários zen-budistas do Brasil. E  já tem a programação de todos os sesshin  para  2013.

Este ano nem todos os interessados em participar do  retiro do Carnaval puderam ser atendidos no Morro da Vargem. As vagas  se encerraram com muita antecedência. A organização do mosteiro pede que os interessados se inscrevam pelo menos 2 meses antes das datas dos retiros.

As inscrições  devem ser feitas nos 60 dias antes do início do retiro, somente  pelo telefone (27) 3257-3030, das 8h às 16h.  Veja aqui as datas:

Próximos sesshin (Mosteiro Morro da Vargem)

Maio – (Dia do Trabalho) 01/05 a 05/05 Julho – 13/07 a 20/07 Setembro – 11/09 a 15/09 Novembro – 13/11 a 17/11

O mosteiro também pode ser visitado fora dos períodos de retiro, aos domingos.  Mais informações veja no  site. 

NOTÍCIA | UNESP APRIMORA PROFESSORES DE JAPONÊS

20noticiaimagem04Há onze anos, um convênio entre a Unesp Assis e a Universidade de Tenri, no Japão, proporciona aos alunos do curso de japonês a possibilidade de desenvolverem a proficiência na língua, além de aprimorar a formação de professores do idioma para diversas instituições de ensino pelo Brasil. Recentemente, os intercambistas também têm auxiliado, ainda que informalmente, o curso de português da universidade japonesa.

“Ao todo, 26 alunos estudantes já foram para o Japão desde que enviamos o primeiro bolsista do Curso de Japonês da Unesp Assis, em 2002. Mais da metade desse grupo já está dando aulas de japonês em instituições de ensino”, afirmou a coordenadora do curso, professora Cecília Jo Shioda, cujo programa é voltado principalmente para a formação de professores.

Rodrygo Tanaka é um desses egressos. Ele esteve na Universidade de Tenri entre 2008 e 2009 e hoje é coordenador do curso de japonês no Colégio Harmonia, em São Bernardo do Campo. “Aqui existe uma necessidade grande de professores com conhecimento pedagógico, devidamente licenciados, com experiência de vivência no Japão”, explica o ex-aluno da Unesp Assis. “Os estudos e experiências de vida que tive durante a minha estadia na Universidade de Tenri propiciaram não só este emprego, mas minha promoção para coordenador”.

A experiência do intercâmbio na graduação colabora para a formação do estudante, que ganha fluência e proficiência no idioma japonês, uma qualidade valorizada pelas instituições de ensino de idiomas. Entre as instituições que já receberamegressos do Curso de Japonês da Faculdade de Ciências e Letras de Assis estão a Universidade Federal do Paraná, a Aliança Cultural Brasil Japão, diversos Centros de Línguas no interior do Estado de São Paulo e a própria Unesp.

“Estudantes de outros cursos, o inglês, por exemplo, até conseguem adquirir uma boa fluência sem fazer intercâmbio, mas para línguas como o japonês os alunos não conseguem uma formação tão completa. No meu caso, a período no Japão deu uma fluência que eu não tinha”, explica Renan Andrada, intercambista da Unesp Assis que retornou ao Brasil em setembro do ano passado.

Durante sua passagem pela instituição nipônica, Renan resolveu conhecer o curso de português na Universidade de Tenri e, desde então, os intercambistas da Unesp têm colaborado com o programa. “Virou uma espécie de tradição. Fazemos algo parecido com uma monitoria e já tive a oportunidade de dar uma aula uma vez. Para os alunos japoneses que estão começando a estudar o idioma nossa presença ali faz diferença”, explica.

(Marcos Jorge/Divulgação Unesp)

20 ARTES | ARTISTAS NIPO-BRASILEIROS EM SP

Tomoo Handa.
Tomoo Handa.

Tradicionalmente, as artes visuais se tornaram um campo privilegiado para a atuação dos artistas nipo-brasileiros.  Alguns críticos encontram, entre os artistas nikkei, traços de peculiariedade: a sensibilidade e uma constante busca pela afirmação da identidade, de acordo com Ana Paula de Nascimento, do Núcleo de Pesquisa em Crítica e História da Arte, da Pinacoteca de São Paulo, que tem importante acervo sobre esse grupo.

“Sensíveis às novas poéticas de cada período, há uma necessidade vital de expressão, em que gestos mínimos e contidos podem representar o todo, ainda que de maneira extremamente pessoal, mas com característias comuns, com o sentimento na pintura”, afirma a pesquisadora, no ensaio “Nipo-brasileiros no acervo da Pinacoteca do Estado de São Paulo”.

O grupo de artistas nikkei guardam em comum a relação de proximidade com a natureza, também pelo fato de os artistas terem sido imigrantes e trabalhado na terra, como lavradores e artesãos.  Por causa do trabalho, muitos tiveram dificuldade em fazer cursos de arte,  seguindo  cursos livres ou profissionalizantes. As restrições sofridas pelos imigrantes japoneses na Segunda Guerra Mundial interceptou a formação de muitos deles.

Tikashi Fukushima
Tikashi Fukushima

Um dos primeiros imigrantes a ter destaque no Brasil foi Manabu Mabe, premiado na V Bienal do Museu de Arte Moderna de São Paulo, em 1959.  Nessa época, vários outros artistas, como Tomie Ohtake, Tikashi Fukushima e Flávio Shiró  também começaram a chamar a atenção da crítica.

O pioneiro das artes visuais nikkei no Brasil foi Tomoo Handa, gerente de pensão, professor de português e escritor (autor de “O imigrante japonês”, obra de referência para pesquisadores da história da imigração japonesa ao Brasil). Outros pintores pioneiros foram Kenjiro Masuda, Hajime Higaki, Takeshi Suzuki, Walter Shigeto Tanaka , Takaoka .

Em 1935, fundaram o primeiro grupo de artes visuais em São Paulo, o Zoo-kei Bijutsu Kenkyu-kai ou Seibi-kai. Seu objetivo era a pesquisa crítica e divulgação do trabalho dos artistas, ainda que num primeiro momento, apenas na comunidade nipo-brasileira.  Zoo-kei quer dizer “que dá forma”, “representação da forma”, Bijutsu “artes plásticas”  Kenkyu, “pesquisa” e “estudo”. Tomoo Handa traduz a expressão Seibi-kai como sei, abreviação de”Sáo Paulo”,  bi “artes plásticas” e kai, “agremiação”.

A primeira exposição foi em 1938, no Clube Nippon, restrita à comunidade nipo-brasileira. Os pintores do grupo saíam juntos nos finais de semana para retratar a natureza. Entre sua produção, a paisagem, o retrato e o auto-retrato têm destaque. Fizeram intercâmbios com outros grupos artísticos, como o Santa Helena.

Masao Okinaka
Masao Okinaka

Com as restrições de liberdade impostas aos imigrantes japoneses durante o período da Segunda Guerra Mundial, o grupo se recolheu. Faziam pinturas em ambientes internos, proliferando naturezas-mortas, retratos e autorretratos. O grupo voltou a se reunir publicamente em 1947, depois da queda das restrições. Todos os artistas que se reuniam anteriormente voltam a se encontrar. Ainda se agregam Flávio Shiró, Masao Okinaka, Mitsuo Toda e Kenjiro Masuda. Depois, ainda vêm Tomie Ohtake, Alina Okinaka, Jorge Mori, Manabu Mabe, Kazuo Wakabayashi, Tikashi Fukushima, Teiti Suzuki , Bin Kondo, Tsukika Okayama, Sachiko Koshikoku, Hisao Sakakibara, Yukata Toyota, Hisao Ohara, Ken’ ichi Kaneko, Masumi Tsuchimoto, Mari Yoshimoto e Tomoshigue Kusuno.

O primeiro Salão Nipo-brasileiro de Artes do Grupo Seibi-kai acontece em 1952. Ao todo, foram realizados 14 salões. Nos seus 18 anos de existência, o Sei-kai consagrou nipo-brasileiros, marcando uma convivência de artistas de diversos estilos.  Há o figurativo Tomoo Handa, as aquarelas modernistas de Takaoka, o expressionismo de Shiró, as paisagens quase metafísicas de Mori, as sínteses de Okinaka.

Os artistas passam,também, a expor individualmente, fora do circuito da comunidade nikkei. É  fundado  outros grupos: o  Grupo dos 15 de o Guanabara. O Grupo dos 15 também era chamado  Jacaré, referência ao jogo do bicho, disseminado entre os imigrantes, como conta Tomoo Handa em “O imigrante japonês”.  E o Guanabara forma-se nos anos 50, em torno de Fukushima.

Tomie Ohtake, 1961.
Tomie Ohtake, 1961.

O abstracionismo passa a influenciar a obra dos imigrantes japoneses. A premiação de Mabe na V Bienal  chama a atenção para os abstratos japoneses.  Mabe faz parte da linha do abstracionismo gestual. Fukushima, por sua vez, segue o construtivismo. Shiró, o expressionismo. Wakabayashi  faz pesquisas materiais e tonais.  Toyota, formas tridimensionais e em aço. E Tomie Ohtake explora diferentes suportes, técnicas e questões, dentro do construtivismo. A explosão dos abstratos se dá na década de 1960.

Começam a se destacar os artistas que dedicam à escultura e à cerâmica. A premiação de Victor Brecheret na bienal revigora essas categorias artísticas. Entre os nipo-brasileiros, revelam-se Hisao Ohara, Tomoshigue Kusuno e Mari Yoshimoto. Essa, como Toyota, começou na pintura e mudou para a escultura. Outros ceramistas japoneses renomados são Megumi Yuasa, Akimori Natakani, Kimi Nii e Shoko Suzuki.

Os artistas nikkei do pós-guerra têm formação mais sofisticada. Boa parte deles têm formação universitária em cursos de artes plásticas e arquitetura, como  Hiro Kai, Lydia Okumura, Mário Ishikawa, Ayao Okamoto,  Roberto Okinawa e Takashi Fukushima. Com a valorização dos abstratos, os artistas nikkei também passaram a ser valorizados pelas galerias.

A partir de 1990, os artistas nikkei passam a não se diferenciar dos demais artistas brasileiros.  Mas surgem nomes que se destacam, como Futoshi Yoshizawa, Herman Tacasey, James Kudo, Naoto Kondo e Yasushi Taniguchi.

São realizadas grandes exposições de artistas nipo-brasileiros.  A primeira é a mostra de parte das obras apresentadas no salão Seibi-kai de 1964, no Museu de Arte Moderna. A exposição no Museu de Arte Contemporânea da Universidade de São Paulo, em 1966. E a exposição Grupo Seibi- Grupo Santa Helena: década de 35-45, apresentada no Museu de Arte Brasileira da Fundação Armando Álvares Penteado, em São Paulo, em 1977.

Na Pinacoteca, a primeira exposição aconteceu em 1983, comemorando os 75 anos da imigração japonesa ao Brasil.  Era uma mostra composta por 90 obras de 44 artistas, abrangendo desde os pioneiros até os contemporâneos.  Nos 100 anos da imigração, em 2008, foi realizada a exposição Nipo-brasileiros no acervo da Pinacoteca do Estado de São Paulo.  A exposição gerou um catálogo. As  informações desse artigo foram extraídas desse livro. (MK)

20 PALCO | PRÊMIO DO BUNKYO ESTÁ NO FTC

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Foto: Vanessa Vzorek

 

O monólogo Corrente fria, corrente quente,  peça a ser apresentada no Fringe, a mostra alternativa do Festival de Teatro de Curitba,  é uma adaptação de um conto escrito pela atriz e dramaturga Fernanda Fuchs, que recebeu o terceiro lugar no I Concurso de Contos do Bunkyo de SP, realizado em 2012.  A narrativa é a história de  uma menina de Okinawa (província localizada no Sul do Japão),  que perde o pai, um pescador que saiu para trabalhar em alto-mar e nunca mais voltou. A montagem busca transmitir impressões sobre como era o cotidiano da garota. O peso da rotina e do trabalho árduo ligado à pesca é evocado indiretamente, através da manipulação de sacos de juta. Os sacos são usados como adereços, objetos de cena e cenário, criando um universo de sonho, a poucos metros do público.

De acordo com a autora, o  texto foi pensado para ser adaptado para o teatro. No ano passado, foi apresentado no Seto Matsuri. A seguir, uma pequena entrevista de Fernanda Fuchs à jornalista Mylle Silva sobre a peça e  seu interesse sobre cultura japonesa:

De onde surgiu o seu interesse pelo Japão e pela cultura japonesa?
No ensino fundamental fiz amizade com uma menina de origem japonesa, que me ensinou a fazer tsurus. Fiquei maravilhada e comecei a fazer vários outros tipos de origamis. Foi meu primeiro contato com o Japão. O interesse maior veio depois, com o teatro. Quando comecei a fazer aulas com o Hermison Nogueira, meu primeiro professor e hoje um dos diretores da peça Corrente fria, Corrente Quente,  ele trazia várias referências de Butô, Teatro Nô e filmes do Kurosawa para assistirmos.

Por que você decidiu transformar o conto em um monólogo teatral? Como foi o processo de transformação?

Em 2012, eu voltei a fazer aulas de teatro e a proposta  era que cada ator fizesse um monólogo contando uma pequena história. A sugestão foi trabalhar a temática japonesa, com   vários materiais: músicas, imagens e filmes sobre a cultura nipônica.  Fui ao Consulado do Japão em Curitiba e fiz pesquisas sobre a geografia e a história do país.  Juntando tudo, sentei  e escrevi, de uma só vez, Corrente Fria, Corrente Quente.
Essa história não é somente japonesa, mas universal. Fala sobre perda, espera e ausência. Na montagem, a intenção não é me caracterizar como japonesa, mas fugir dos clichês,  deixar em aberto para que cada espectador traga significados. A peça tem esse clima intimista, quase confidencial com o público. Buscamos um trabalho bastante focado no corpo, em cena estou somente eu e vários sacos de juta,   manipulados ao longo da peça.

Na entrevista publicada no blog da peça você diz que tem um pouco de medo do Japão. Por quê?

Não sei explicar ao certo. Não sou descendente de japoneses e ainda estou aprendendo sobre a cultura nipônica. Talvez o fato de me sentir tão diferente deles me cause certo medo.  Os filmes do Kurosawa também me passam essa impressão sombria. São lindos, poéticos, mas têm uma aura, um tempo e um ritmo tão diferente do nosso.  Enfim, são  impressões e o medo do desconhecido. Espero conhecer logo o Japão para tirar ou confirmar essas impressões. Mas acho curioso os  dois lados do Japão: seriedade, tradicionalismo, tranquilidade, paz X cultura pop, explosão de cor, de som, tecnologia. O  cosplay, os mangas e animes me assustam um pouco.  Alguns personagens são bem assustadores. Não deixa de ser um grande teatro, mas são imagens que causam certo medo.

Como foi ganhar o 3º lugar no concurso de contos do Bunkyo? Qual a sensação de participar de uma cerimônia japonesa de premiação?

Foi  importante,  meu primeiro grande prêmio. Esse texto tem valor enorme, estou desde julho do ano passado em cima dele, pensando em como transformá-lo em espetáculo teatral. Em setembro de 2012 enviei para o  Bunkyo e em fevereiro de 2013, recebi a notícia sobre a premiação. Isso deu um gás ainda maior para a produção do espetáculo.

A cerimônia de premiação foi ótima, havia um clima sério no ar, um respeito grande por parte da equipe organizadora. Na hora de agradecer não me contive e fiz a “brasileira”, chorei. Apesar de uma aparência mais fechada, o pessoal foi acolhedor. Pude conversar com várias pessoas e divulguei a minha peça. A premiação foi na sede do Bunkyo, no bairro da Liberdade em São Paulo. Em breve, pretendo apresentar a peça também em São Paulo. (Mylle Silva).

O monólogo será apresentado no dia 29 às 17 horas e no dia 30 às 19 horas, na Casa Hoffmann (Largo da Ordem), em Curitiba.  A entrada é gratuita. 

20myllesilvafotoMylle Silva é jornalista e escritora. Publicou o livroDevaneios de Amor e Um Vintém (E-book, 2011 – download gratuito) e está organizando seu primeiro livro impresso. Mantém o blog Tadaima Curitiba sobre cultura japonesa e é editora-assistente do JORNAL MEMAI.

20 GASTRONOMIA | O PAÍS DOS FRUTOS DO MAR

 Por Lu Noguchi Freire

Escrever sobre gastronomia e cultura à mesa nipônica sem falar dos pratos à base de peixe é praticamente uma heresia. Esta é uma das mais importantes faces da gastronomia japonesa, se não a mais conhecida em todo o mundo. Dedico as próximas linhas a este insumo saboroso e nutricionalmente completo.Concentrado em proteínas, vitaminas e minerais, o peixe compõe a base da comida japonesa e é sinônimo mundial de bem-estar à mesa. Além dele, os japoneses têm por hábito consumir utilizar diversos outros ingredientes marinhos – de algas à tubarões – na elaboração dos pratos.

O Japão importa aproximadamente 70% dos gêneros alimentícios e é autossuficiente somente em 30% da produção nacional, desta forma foi preciso obter o soluções em aproveitamento durante os períodos mais duros e restritivos da sua história, aproveitando praticamente tudo de comestível do oceano. Tarefa nada difícil para uma ilha abundante em seu entorno de fauna marinha. Apesar da pressão de entidades ambientalistas para a extinção ou a diminuição em massa da caça e do consumo de determinadas espécies (peixes em extinção, baleias, etc),  o Japão figura como um dos maiores consumidores mundiais destes alimentos. Não é difícil encontrar pelas cidades japonesas mercados e bancas especializados em produtos marinhos, especialmente em peixes.

Em Tóquio situa-se o famoso mercado de peixes chamado Tsukiji (築地市場 / Tsukiji shijoo). Ali encontram-se à venda mais de 400 tipos de produtos marinhos. As atividades iniciam as 5h com um leilão e se estendem até as 10h. O produto mais procurado pelos compradores japoneses é o atum azul, um dos peixes mais caros do mundo. E é possível afirmar que em Tsukiji o visitante come o sashimi mais fresco de todo mundo. Nos arredores do mercadão é possível escolher entre diversos restaurantes e quiosques que servem o sashimi entre outros pratos a base de frutos do mar. Para quem está de malas prontas para conhecer o Japão esta é uma dica gastronômica imperdível!

Os atuns do Mercado de Tsukuji, em Tóquio
Os atuns do Mercado de Tsukuji, em Tóquio. Crédito: Lu Noguchi.

Nesta edição ofereço aos leitores uma das minhas receitas favoritas japonesas com o peixe como peça fundamental do prato. Sair do lugar comum do sashimi e mostrar outras possibilidades deste universo. Neste sentido de explorar o preparo do peixe apresento a receita do peixe grelhado ou yakizakana (焼き魚) tem preparo descomplicado e é muito saboroso. Sugiro a utilização da anchova ou salmão, porém já testei com sardinha e não deixou nada a desejar uma vez que o preparo é simples. Uma dica muito importante é manter a pele da anchova para que ao grelhar ela fique crocante e o peixe não se desmanche na grelha ou panela.

Itadakimasu (いただきます)!

 

RECEITA

 

Lu Noguchi nutre desde a infância a paixão pela cultura e a gastronomia japonesas. Quando não está cozinhando, é pesquisadora na área de educação e políticas educacionais brasileiras

 

20 RECEITA | YAKIZAKANA (焼き魚)

Pescados em banca em Q
Yakizakana / Fonte: http:// http://www.gourmet-ishikawa.jp)

Ingredientes:

  • 1 peixe (anchova, salmão) de mais ou menos 1Kg.
  • 1 colher (sopa) de sal grosso (*)
  • 4 colheres (sopa) de saquê mirin

Guarnições:

  • 1 cenoura ralada
  • 1 nabo ralado
  • Gengibre ralado a gosto
  • Shoyu a gosto

Preparo:

No momento da compra,  peço que limpem o peixe para facilitar o preparo. Antes de iniciar o tempero,  retire a espinha central do peixe. Se for anchova pode retirar a cabeça e utilizá-la em outra preparação (pirão, caldos,etc). Deixe marinando na mistura de peixe e saquê por mais ou menos 20 minutos. Após este tempo grelhe em  frigideira ou em  chapa de ferro com pouco óleo. Vire o peixe com cuidado, após grelhar por 10 minutos de cada lado, para não desmanchar o filé.

Rale a cenoura, o nabo e o gengibre e sirva junto.

(*)Prefiro o sal grosso que concentra o sabor melhor e em tempo menor que utilizar o sal refinado.

Rendimento: 4 porções.

NOTÍCIA | DANÇARINOS FAZEM RELEITURA DO BUTÔ

Emile Lunaris. Foto: Joel Pizzini.
Emilie Sugai, em Lunaris. Foto: Joel Pizzini.

Nesta terça e quarta-feira (26 e 27),  a  Fundação Japão realiza o evento dedicado à dança “Percursos do Butô: legados e perspectivas”,  sempre às 21h, no Teatro GEO, no complexo Ohtake Cultural, em Pinheiros, em São Paulo. Um workshop, destinado a dançarinos, também será ministrado no dia 28 de março.

Com quatro peças distintas no programa, a Fundação Japão, neste evento, visa pincelar um panorama do cenário atual do Butô, que foi conhecido pelo mundo como a dança das trevas (Ankoku Butoh) nos anos 60. Dois dias, quatro propostas. E os artistas que se apresentam são: o mexicano Diego Piñón que foi discípulo de Kazuo Ohno, o japonês Kota Yamazakique conheceu o Butô com Akira Kasai, e os brasileiros Emilie Sugai e José Maria Carvalho, ambos fortemente influenciados pelo diretor coreógrafo Takao Kusuno (1945-2001), o precursor do Butô no Brasil. Foi Kusuno quem concretizou a primeira turnê do Kazuo Ohno no País, em 1986, e também deixou sua marca através da Cia Tamanduá de Dança Teatro, com obras como a lendária obra “O Olho do Tamanduá”, em que explorou o encontro da expressão da cultura brasileira com o universo Butô, e que contou com Emilie Sugai e José Maria Carvalho no elenco, entre outros.

Kota Yamazaki em Adayo Africa. Foto de Hideyo Tanaka.
Kota Yamazaki em Adayo Africa. Foto de Hideyo Tanaka.

Na terça-feira,  Emilie Sugai apresenta a peça “Lunaris” (50 min.) e japonês Kota Yamazaki, “Iruka” (30min.). Na quarta, José Maria Carvalho apresenta “Ciclo da Terra: Memória do Amanhecer e Vaqueiro” ( 30 min.) e o mexixano  Diego Piñón , “N’TANTUKU-ICHI – Buscando la huella amorosa/Looking for the trace of love”, (52 min.)

Na quinta-feira, Diego Piñón e Kota Yamazaki darão um workshop gratuito de dança Butô , das 11 às 13h, somente para dançarinos. Local do workshop: Vila Mariana, São Paulo-SP.

O espetáculo tem entrada gratuita, mas é preciso retirar ingressos na bilheteria do Teatro GEO no dia de cada espetáculo.

Local: Teatro GEO – Rua Coropés, 88. Complexo Ohtake Cultural: altura do 201 da av. Faria Lima, próximo ao metrô Faria Lima (Linha Amarela). Pinheiros – São Paulo – 05426-010. Tel: (11) 3728-4925 / 4003-9949

 O evento faz parte do Mês da Cultura Japonesa em São Paulo, “Tradição é Vanguarda: Encontro com um Japão Reerguido”, organizado pelo Consulado Geral do Japão em São Paulo e a Fundação Japão.

 

20 POLÍTICA | NO JAPÃO TAMBÉM DURA LEX SED LEX

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Por Eduardo Mesquita Pereira Alves

A primeira resistência ao estudar o Direito Japonês é a resistência decorrente da visão do Oriente como exótico e absolutamente distante de nossa realidade. No caso do Direito, não existe equívoco maior. O Japão tradicionalmente sempre se se baseou em legislação estrangeira para conformar seu próprio sistema jurídico. Foi assim quando sua fonte de inspiração era a China, do século VI ao século XIV, e foi assim quando no século XIX o país se viu obrigado a se modernizar e “ocidentalizar” suas instituições.

A primeira Constituição Japonesa tinha influências declaradamente prussianas. Com relação a legislação infraconstitucional, sua produção se iniciou com a tradução dos cinco códigos napoleônicos realizada por Mitsukuri Rinsho, que se encarregou não só de traduzir como também de criar neologismos que comportassem os complexos conceitos jurídicos europeus como direitos subjetivos, dever e etc.

Os primeiros Códigos aprovados foram o Penal e de Processo penal em 1880, entrando em vigor em 1882, com influência francesa, e revisados em 1907 passando a se inspirar no Código Penal Alemão. O Código Comercial, elaborado por Roesler, entrou em vigor em 1891, sendo reformado posteriormente em 1899 e 1911, o código de Processo Civil entrou em vigor em 1890 e o Código Civil em 1894. Relevante também a Lei Orgânica dos Tribunais de 1890 elaborado por Otto Rudorff, nos moldes da alemã de 1877, concretizando as promessas japonesas de um sistema de cinco códigos, organizando ainda o Judiciário por meio de lei orgânica, todos submetidos a uma Constituição.

A Influência Europeia permaneceu mesmo após a Ocupação Norte-Americana no pós Segunda Guerra Mundial. Apesar da elaboração da Constituição ter sido comandada pelos Estados Unidos da América, seu molde é Europeu, com muita influência do próprio pensamento jurídico japonês. Além disso, em que pese a tentativa de aproximar o sistema legal infraconstitucional do modelo common law, prevaleceu a tradição europeia, com a manutenção dos antigos códigos e do método de interpretação alemão das leis.

Nessa medida, a fonte de inspiração japonesa foi, assim como ocorreu no Brasil, os sistemas codificados Europeus, o que permanece até hoje. Assim, o sistema japonês é o mesmo civil law adotado em terras brasileiras, muito diferente do common lawutilizado nos Estados Unidos, Grã Bretanha e etc.

A verdade é que essa exotização do oriente acaba gerando um preconceito social e acadêmico em diversas áreas. No campo do Direito, o sistema americano é para o jurista brasileiro algo legitimamente exótico, com foco no costume e precedentes e não em legislação formalmente estabelecida.

Tudo aquilo que vemos em filmes e séries é uma realidade absolutamente distante da nossa. Mas ainda assim não se questiona (corretamente) em qualquer momento que um estudante ou profissional busque nos EUA pós-graduações, cursos, inspirações. Também pouco se questiona que como opção de política pública importemos legislação de países do common law.

No entanto, quando o estudioso cria interesse pelo Japão enfrenta profunda descrença por se tratar de um país culturalmente tão diferente, geograficamente tão distante, ainda que tenha lá um sistema semelhante e muito comparável. Claro que a descrença começa pois poucos sequer sabem que o civil law é adotado no Japão (e China e tantos outros países asiáticos), mas me pergunto, porque assumimos de forma automática que esses países teriam instituições tão diferentes das nossas?

No caso japonês se pode imaginar que muitos acreditem que seu Direito seja próximo do Americano por conta da ocupação. Mas por experiência própria digo que não, acredita-se que eles simplesmente adotam alguma sistemática peculiar e… exótica.

É natural que a cultura influencie a aplicação da lei, o nível de litigiosidade da população, a eficácia da legislação, mas todas essas ressalvas são aplicáveis a qualquer país quando se fala em direito comparado. Porque o Japão deveria ter diferenças mais acentuadas com relação ao Brasil quando tem fontes tão próximas das nossas?

Colhemos os frutos desse preconceito ao temer nos inspirar em instituições do país que são extremamente eficientes. Imitamos, especialmente no campo do Direito Administrativos, estruturas muito distantes de nosso sistema que exigem grande esforço de adaptação que por vezes é ignorado (afinal, os EUA são logo alí), resultando na criação de aparatos longe da eficiência esperada.

Por outro lado, temos o Japão, que tem mais experiência em adaptar estruturas distantes de seu sistema com sucesso, mas, se não buscamos aprender com suas lições primárias, é claro que estamos perdendo a muito tempo as lições de adaptabilidade ensinadas pelo país.

No caso da comparação com o Japão, haveria ainda a vantagem de manter sempre em mente junto à existência das semelhanças, a consciência de diferenças fundamentais, e, a partir da busca dessas diferenças apreendemos melhor nossa própria realidade jurídica.

Dentro da minha pesquisa em Direito Constitucional encontro alguns exemplos. Temos no Brasil e no Japão Constituições rígidas no que diz respeito ao processo de emenda, entretanto enquanto em 25 anos tivemos mais de 70 emendas, o Japão não deve nenhuma em 65 anos. Isso levanta uma série de discussões sobre a adoção de Constituições sintéticas ou analíticas, sobre as práticas políticas, sobre as posturas dos parlamentares diante da opinião popular.

O próprio papel das instituições ganha nova cor na comparação de sistemas semelhantes com aplicações culturalmente distintas. No Brasil o Poder Judiciário é protagonista na análise da compatibilidade das leis e constituição, no Japão o Judiciário é um poder de 3ª categoria que faz de tudo para não se pronunciar sobre inconstitucionalidade de leis sob o argumento de, com uma atuação temerária, usurpar a competência do poder legislativo.

São duas situações que demonstram que atuações que temos como normais e pouco questionáveis por aqui encontram resistência no Japão. No momento em que uma situação familiar passa a ser vista com estranhamento, estamos aptos a evoluir, e esse é o tipo de exercício teórico que a comparação com o Direito Japonês levanta incessantemente.

Enfim, me parece que, o Direito Japonês é um campo fértil para estudos no Brasil e plenamente compatível com nossa mentalidade jurídica. As diferenças culturais, colocadas a parte quando necessário, e levadas em consideração quando possível são, ao contrário do que muitos pensam, uma vantagem para o exercício comparado, e não uma barreira.

É inegável que o idioma geralmente representa o maior obstáculo para que seja realizado um estudo aprofundado do sistema legal japonês, mas antes mesmo das limitações de ordem técnica, falta um esforço por parte dos juristas e não juristas em aceitar que o Japão não é tão exótico quanto parece, e que pontos de exotismo muitas vezes nada mais são que oportunidades de aprendizado. Fica claro que nosso sistema pode ser melhorado pela experiência estrangeira, e que o Japão, por todo o sucesso e estabilidade de suas instituições deveria representar uma fonte muito mais central no Direito Comparado.

Eduardo Mesquita Pereira Alves é advogado, graduado em Direito pela UFPR, sócio da Sunye, Pereira Alves e Oliveira Viana – Sociedade de Advogados, e estudou na Soka University, de abril de 2010 a fevereiro de 2011. É autor do blog Nihon Go! (http://eduardompa.wordpress.com/)”

 

 

 

20 LITERATURA | USP LANÇA O CLÁSSICO "O LIVRO DO TRAVESSEIRO"

 

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Um trabalho realizado em conjunto por cinco professoras e pesquisadoras do Centro de Estudos Japoneses da Universidade de São Paulo (USP), durante onze anos resultou na monumental tradução de “O Livro do Travesseiro”, obra seminal  de Sei Shônagon  (c. 966-1020),  uma das primeiras mulheres a escrever narrativas na literatura japonesa, no século X. A obra, que teve orrganização de Madalena Hashimoto Cordaro , foi traduzida por  Geny Wakisaka (pesquisadora de Man’ Yõshu, o livro das Mil Folhas, outro clássico a poesia japonesa), Junko Ota, Lica Hashimoto, Luiza Nana Yoshida e Madalena Hashimoto Cordaro, todas professoras e pesquisadoras com larga experiência na tradução direta de originais da literatura japonesa. O livro é uma publicação da  editora 34 Letras, em parceria com a USP, e será lançado nesse sábado (23), na Livraria Martins Fontes, em São Paulo, das 11 às 14 horas.

“O Livro do Travesseiro” é considerado a porta de entrada mais certeira para o universo de costumes, valores e atitudes mentais que moldam, até hoje, a base de vida no Japão. Com cerca de trezentos textos curtos, que podem ir de algumas páginas a uma única linha, e que podem ser lidos em sequência ou com a liberdade do acaso, o livro compõe um belo inventário da cultura do Japão da corte, vista pelo olhar poético de uma grande escritora. Com a capacidade de produzir insights inesperados, Sei Shônagon ilumina tanto os pequenos fatos do cotidiano no Palácio Imperial, como os fenômenos da natureza, as sutis interações da vida social e a refinada trama de valores estéticos que enlaça e organiza praticamente todas as esferas da cultura.

Verdadeiro recenseamento dos costumes e práticas do período Heian — aquele em que se forma e sistematiza a estética propriamente japonesa, O Livro do Travesseiro compõe um registro dos afetos, da sensibilidade e do conhecimento de uma época. Sei Shônagon narra e descreve grandes acontecimentos festivos (como os festivais religiosos e musicais) e os complexos códigos de conduta, que se estendem desde as relações entre a Imperatriz e suas damas, entre pessoas de diferentes sexos, gerações e distintos graus na hierarquia do poder, até os mínimos e surpreendentes detalhes da etiqueta e do vestuário.

A obra de Shonagon inspirou diversos escritores, Jorge Luis Borges, Victoria Ocampo, Alberto Manguel, Peter Greenaway (que dirigiu o premiado The Pillow Book – O livro de cabeceira, 1996) . Seu estilo fragmentário, a princípio rejeitado e considerado obra menor, mudou de  estatuto a partir do século XIX e criou a “literatura feminina” no Japão. Com Shikibu Murasaki, autora de “Genji monogatari”, Shonagon é considerada a maior escritora do Japão.