59 LITERATURA – NAKASATO E A DUALIDADE NO BRASIL

Se você ler Dois (Tordesilhas, 2017), de Oscar Nakasato, apressadamente, vai concluir: mais um romance sobre dois irmãos em conflito. Mais um romance sobre memória.  Mais um romance sobre a ditadura militar do Brasil. Se ler e tiver o cuidado de refletir, verá que Dois,  não é mais um. O segundo romance do premiado autor de Nijonhin (Benvirá, 2012) é uma análise sobre o Brasil profundo contemporâneo.

As epígrafes guiam o leitor até Jorge Luis Borges, Milton Hatoum e Joubert de Carvalho – este, autor da canção “Maringá, Maringá”. E se poderia referenciar Machado de Assis (o conto “Esaú e Jacó”, que trata do confllito entre dois irmãos) ou os Irmãos Karamazov, de Dostoievski, embora, em entrevistas, Nakasato tenha preferido citar Rashômon, de Akira Kurosawa, que adaptou os contos “Rashômon” e “Dentro do bosque”, de Ueda Akinari. As obras japonesas discutem a questão do ponto de vista e da verdade objetiva e suas versões subjetivas.

Sob a máscara de Zé Paulo, o mais velho de quatro irmãos, Nakasato apresenta um personagem conservador, criado sob repressão e que acredita na opressão como instrumento pedagógico. E Zé Eduardo, o irmão sete anos mais novo, é o libertário, criado com amor pela mãe Cidinha e pela irmã Maria Luísa. As diferentes personalidades colidem não apenas num conflito familiar, por suas visões de mundo opostas. Também se confrontam no plano ideológico, representando as faces de uma nação rachada sob pólos ideológicos distintos.

Uma das virtudes de Nakasato é a de ser um narrador capcioso, tentando nos convencer que está contando a história de um conflito familiar. Mas o autor busca analisar, através de uma síntese, a esquizofrenia da identidade nacional. Sob a voz do relojoeiro Zé Paulo, a ordem, o progresso, a disciplina, a obediência  ecoam ideologias reacionárias, como o racismo:

Uma das virtudes de Nakasato é a de ser um narrador capcioso, tentando nos convencer que está contando a história de um conflito familiar.

“Eu conhecia aquela gente, era um povo de nariz empinado, eles achavam que eram melhores que nós, que não podiam se misturar. Eu ouvia a japonesada conversando na feira, aquela língua esquisita que ninguém entendia e riam, riam, como se estivessem rindo da gente. Não consigo entender, tantos anos no Brasil, e aqueles velhinhos, aquelas velhinhas, por que não aprendiam a falar português? E esta história de que são mais inteligentes do que nós, todo mundo falava, japonês é inteligente, mas isso não é verdade, a ciência já provou, você está na universidade e já deve saber disso melhor do que eu, não tem uma raça mais inteligente que outra.” (Página 26)

Interessante que o autor se desloque do ponto de vista étnico, adotado em Nihonjin para criar um narrador que vocaliza o estereótipo. E também revela que o racismo do filho foi adotado, já que o pai lhe dizia: “menino que toma café fica preto”. Embora a rememoração seja de Zé Eduardo, que graças ao seu pensamento divergente, adquirido pelo conhecimento sonegado nas salas de aula, encontrado em publicações clandestinas, como ele relata, conseguiu se libertar de uma ideologia que condena a diferença: não só os japoneses, como também os negros e as mulheres.

Através do contraponto dos narradores, o romance resgata a história do Brasil recente, agora contada não apenas por autores brancos descendentes de europeus, mas também pelas minorias. Vozes minoritárias, mas não menores, como as de Maria Valéria Rezende, Conceição Evaristo e Rosângela Vieira da Rocha compõem um panorama sobre a história do Brasil visto por olhares diversos.

Zé Eduardo é o retrato da miscigenação brasileira, casado com uma asiática e praticante do Budismo, depois de passar anos no exílio e ter sido prisioneiro político, acusado de subversão, por ter participado do Congresso de Estudantes em Ibiúna, em 1968. Eventos e personagens históricos, como o líder guerrilheiro Carlos Marighela e o estudante maringaense Antonio Três Reis, são resgatados e miscigenados à ficção.

Dois é menos profundo do que Lavoura Arcaica, de Raduan Nassar, o clássico que trata das fissuras e traumas da família brasileira, e menos político do que Dois Irmãos, de Milton Hatoum. Mas é uma narrativa que comprova a necessidade de contar a história do Brasil sob as mais diferentes perspectivas. Para a literatura, a objetividade é um fracasso e a subjetividade narra a tragédia do cotidiano, disfarçada sob os conceitos simplificadores de harmonia e felicidade.

Oscar Nakasato - DoisOscar Nakasato é um escritor brasileiro, neto de japoneses. É professor universitário e Doutor em Literatura Brasileira, autor da tese Imagens da integração e da dualidade: personagens nipo-brasileiros na ficção, publicada em 2010, e do romance Nihonjin (2012), vencedor dos prêmios Benvirá de Literatura (2011), Nikkei – Bunkyo de São Paulo (2011) e Jabuti (2012).

DOIS | Oscar Nakasato

Editora: Tordesilhas;
Tamanho: 184 págs.;
Lançamento: Novembro, 2017.

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58 LITERATURA – Em ‘Kitchen’, Banana Yoshimoto usa culinária e fantasia para falar de luto

Banana Yoshimoto - KitchenQuando a novela Kitchen, de Banana Yoshimoto, foi lançada no Japão, em 1988, tornou-se um fenômeno. Vencedor do prêmio da Revista Kaien em 1987, o primeiro livro da escritora japonesa foi publicado em 1988 e traduzido em mais de 20 idiomas desde seu lançamento. A tradução brasileira é de 1995, feita por Julieta Leite, da tradução italiana, e publicado pela Nova Fronteira.

O livro reúne duas novelas: Kitchen, dividida em duas partes, e Moonlight Shadow. Ambas têm como tema lutos múltiplos e solidão. Na primeira novela, a jovem Mikage Sakurai acaba de perder a avó, que a criou depois de seus pais morrerem. Ela é acolhida por um conhecido, Yuichi Tanabe, criado pela mãe – e depois Mikage descobre que a mãe, Eriko é, na verdade, o pai.

A morte e a solidão são os temas principais de Kitchen. Mas, há também, contrapontos de vitalidade, como a gastronomia japonesa e a transexualidade. A cozinha moderna de Yuichi é o lugar de sua casa em que Mikage mais se sente à vontade. A cozinha é o lugar em que Mikage estende seu futon (edredom), no grande apartamento da avó, depois da morte dela. É um lugar de acolhimento familiar e reconhecimento para enfrentar a solidão.

“Tive um sonho. Eu estava lavando a pia da cozinha da casa que tinha deixado naquele dia. O que eu mais me lamentava era me separar da cor verde clara do piso. Era uma cor que eu odiava quando morava ali, mas agora que precisava ir embora eu gostava muito dela. A casa estava vazia, as prateleiras e o carrinho estavam vazios. Eu já tinha empacotado tudo. Em dado momento, percebi que Yuichi estava atrás de mim, esfregando o chão com um pano. Fiquei animada ao vê-lo.” (página 43)

E também é a cozinha um ponto de passagem, não só da morte para vida, como tanto o espaço de fusão entre o tradicional e o moderno. É na gastronomia que se rastreia uma “cultura japonesa” na novela, com as referências culinárias mais conhecidas no ocidente: o ramen (lámen, macarrão frito), tempura,tofushoyu. Curiosamente, quando Eriko morre, Mikage resolve preparar um enorme banquete, com pratos de de vários países. À medida que o luto de Yuichi se aprofunda, são apresentados os pratos japoneses menos conhecidos: torta de enguia, nikuman (pães chineses), tanuki sobakatsudon.

Para resgatar seu protetor, Mikage leva a ele um prato de katsudon (tigela com costeleta de porco e arroz), numa aventura noturna em que arrisca a própria pele. Através deste gesto, que também é o resgate de uma expressão cultural – para os japoneses, comida é afeto -, ela consegue revelar o vínculo que foi se formando com Yuichi, iniciado pelo primeiro ato de compaixão dele.

Moonlight shadow

A morte e a solidão são os temas principais de Kitchen. Mas, há também, contrapontos de vitalidade, como a gastronomia japonesa e a transexualidade.

A segunda narrativa do livro, Moonlight Shadow, tem o título retirado de uma obra da cantora Momoko Kikuchi, citada na primeira novela. Também aborda um luto múltiplo, o de Satsuki, que perde o namorado, Hitoshi, num acidente de automóvel. O irmão do namorado, Hiiragi, perde a namorada, Yumiko, no mesmo acidente.

Para enfrentar o luto, Satsuki resolve correr à noite, ao longo de um rio. Uma noite, conhece uma misteriosa jovem, Urara, que a conduzirá à cerimônia de adeus de seu amado. Uma história da tradição japonesa, a lenda de Tanabata, que narra o reencontro de um casal separado em pontos distantes da Via Láctea, uma vez por ano, é que inspira a narrativa de Banana.

Como na primeira novela, há a citação do travestismo. Hiiragi busca reconstruir a presença de sua amada vestindo seu uniforme escolar. Também para ele, é o elemento fantástico que o reconduzirá à vida.

As duas novelas são extremamente banais. A linguagem delicada e a estratégia de inserir referências culturais japonesas de modo acidental na trama as salva do melodrama. É esta miscelânea, aliada ao tempero forte da transsexualidade, o fator do sucesso de Kitchen no mundo todo.

Além de Kitchen, Banana Yoshimoto tem apenas mais um livro traduzido no Brasil, Tsugumi. Em Portugal, foram publicados A Última Amante de HachikoAdeusArco-Íris e Lua de Mel, todos pela Cavalo de Ferro.

KITCHEN | Banana YoshimotoEditora: Nova Fronteira;
Tradução: Julieta Leite;
Tamanho: 168 págs.;
Lançamento: Maio, 2007.

57 LITERATURA – HARUKI MURAKAMI SE REVELA EM “ROMANCISTA COMO VOCAÇÃO”

Romancista como vocação (Alfaguara, 2017, tradução de Eunice Suenaga), de Haruki Murakami, é um ensaio sobre o processo criativo do escritor japonês. Vários aspectos das  criação literária, como os prêmios, originalidade, temas, personagens, o público são abordados em linguagem coloquial.

Um aspecto central do relato de Murakami é a determinação em se tornar escritor. Ele não frequentou cursos, nem teve preparo. Apenas, quando decidiu escrever, ao assistir um jogo de beisebol, foi em frente. O fato de sempre ter gostado de ler literatura facilitou sua decisão. O culto à individualidade  é o que levou à paixão pela literatura, pelo cinema e pela música.

Como um “bom japonês”, Murakami não deixa transparecer rebeldia. Pequenos desvios, como não ter sido aluno brilhante, ter se casado e buscado trabalho antes de se formar são o suficiente para torná-lo anomalia na sociedade japonesa. Ter trabalhado em Kabukichô,  zona de boemia de Tóquio, onde perambulam figuras marginais, foi, para ele, grande experiência:

Foi nesse lugar animado, diversificado, às vezes duvidoso e violento, que aprendi muito sobre a vida, e não nas salas de aula das universidades nem nos clubes universitários onde se reúnem pessoas idênticas umas às outras.  Eu me considerava streetwise, palavra inglesa que significa ‘portador da sabedoria prática para sobreviver na cidade’: eu me dava melhor com essas coisas mais pé no chão do que com estudos acadêmicos. Para ser sincero, as aulas na faculdade não me despertavam praticamente nenhum interesse.(página 23)

Outra experiência foi ter sido dono do bar de jazz por oito anos, em Kokubunji. O insight para se tornar escritor veio em 1978. Escreveu o romance Ouça a canção do vento, em 6 meses. Inventou um estilo próprio, uma linguagem objetiva e sintética. Ao ser premiado pela Revista Gunzô, publicada pela editora Kôdansha, o escritor teve o aval para deslanchar sua carreira.

Murakami recebeu vários prêmios literários no Japão. Curiosamente, em Romancista como vocação, lamenta mais por nunca ter sido distinguido com o  Prêmio Akutagawa (o mais prestigiado em sua terra) do que por ter recebido  o Tanizaki e o Yomiuri ou ter sido indicado ao Nobel. As recusas por não participar de juri de prêmios literários ou programas de tevê o distinguem da maioria dos escritores e  aspirante a escritores. Depois do sucesso do segundo livro, Norwegian Wood,  Murakami fechou seu bar e preferiu usar todo o tempo disponível para criar narrativas.

Com as indicações do escritor, escrever parece fácil e simples. A criatividade é despertada com o processo de guardar cenas ou personagens do cotidiano na memória para usá-los mais tarde. Mas,  além de observar o seu redor, como recomenda, outros estímulos – no caso dele, o jazz, a literatura e o cinema popular – parecem necessários para ativar a criação. Murakami cita aleatoriamente Beatles, Beach Boys, Thelonious Monk, Raymond Chandler, Kafka, ET, não se importando em classificá-los em categorias como alta cultura ou cultura popular.

Além da determinação, a disciplina é mais elemento imprescindível na carreira do escritor, de acordo com ele. Murakami diz escrever durante quatro ou cinco horas por dia, resultando em 300 páginas por mês. Um componente essencial de sua disciplina é o cuidado com o físico –  ele se exercita com corrida durante uma hora, todos os dias. Um ritual que o difere da imagem do escritor como “um antissocial que cria literatura em meio à ruína e ao caos, levando uma vida desregrada”.

E toda a disciplina é necessária para encontrar o caos criativo: “Acho que o caos existe na mente de todas as pessoas. Dentro de mim e de você também. Não é algo que precisa ser mostrado na vida prática: “olhe o caos que eu carrego, vejo como ele é grande””, Se você quer encontrar com o seu caos interno, basta fechar a boca e descer sozinho ao fundo do inconsciente. É aí que se encontra o caos que você precisa enfrentar, aquele que vale a pena ser enfrentado. Ele está no seu ponto mais íntimo.” (Página 103)

Um ponto decisivo para a sua escolha em direção à literatura foi o conflito que teve com a educação formal. O ensino formal é, para Murakami, um treinamento para condicionar espíritos conformados: “…com base na minha experiência, digo que o objetivo do sistema educacional do Japão é criar  pessoas da categoria dos ‘cães’, úteis à comunidade, e, indo além , diria até que o seu objetivo é criar pessoas da categoria dos ‘carneiros” que se deixam ser levadas com as demais.” (Página 114)

O escritor demonstra não ser uma pessoa de “mente aguçada”, mas alguém que tem disciplina suficiente para não seguir a maioria. É ele, com a mente lenta da imaginação,  quem faz a maioria segui-lo. O ensaio parece menos um manual para escritores e mais um diário aberto para os leitores. A maior vocação de Murakami é, sim, cativar seus leitores.

Romancista como vocação | Haruki Murakami
Tradução: Eunice Suenaga
Editora: Alfaguara
Lançamento: abril 2017
Preço: R$ 28, 40

56 LITERATURA – SÔBÔ É O OLHAR JAPONÊS DA IMIGRAÇÃO

Tatsuzo Ishikawa é o último a direita da primeira fila,  nos anos 30

Sôbô (Ateliê Editorial, 2008, tradução Maria Fusako Tomimatsu, Monica Setuyo Okamoto e Takao Namekata), de Tatsuzô Ishikawa, é um romance sobre a imigração japonesa ao Brasil do ponto de vista japonês. Muitas são as narrativas sobre o tema do ponto de vista do imigrante que veio ao nosso pais. Esta mudança de perspectiva influencia também a mudança do espaço narrativo.

Sôbô é dividido em três partes. A primeira descreve a hospedagem dos imigrantes no porto de Kobe. A segunda, a viagem. A terceira, a chegada. A primeira e segunda partes são mais extensas tomando 80% da narrativa. Nos relatos fictícios de imigrantes japoneses, como o filme Gaijin, de Tizuka Yamazaki, e no O imigrante japonês, diário do artista plástico Tomoo Handa, as tramas se passam exclusivamente em território brasileiro.

Tatsuzo Ishikawa imigrou para o Brasil nos anos 30 e ficou durante 6 meses por aqui. Fez um acordo com a revista em que trabalhava para escrever artigos sobre a imigração. Ao chegar à hospedaria de imigrantes no porto de Kobe, ponto de partida dos navios “Maru”, ficou espantado com a pobreza dos viajantes. Decidiu escrever um romance. Em 1933, lançou a obra Sôbô. O romance recebeu o Prêmio Akutagawa, em 1935.

O título, Sôbô, é composto por dois ideogramas. Sô remete a Sôsei, “povo”, ou “cor de capim”, “apressar-se”, “envelhecer”. Bô, a “imigrante”, “povo subjugado”. O imigrante é comparado ao capim ou erva daninha, como algo desprezível.

O escritor projeta uma lente de aumento sobre a vida dos trabalhadores rurais, ao contrário de narrativas que enfocam o individualismo da classe média urbana. A trama gira em torno das aflições e expectativas de um casal de irmãos, Magoichi e Onatsu. Eles vêm como agregados da família Monma. Ela é casada, apenas por conveniência às regras, como um dos irmãos Monma.

O título, Sôbô, é composto por dois ideogramas. Sô remete a Sôsei, “povo”, ou “cor de capim”, “apressar-se”, “envelhecer”. Bô, a “imigrante”, “povo subjugado”. O imigrante é comparado ao capim ou erva daninha, como algo desprezível.

“Magoichi, ao passar em frente ao funcionário que estava chamando os nomes, ficou com medo de ser repreendido. Na verdade, a irmã Onatsu e Katsuji não eram marido e mulher. Katsuji Monma era amigo da família e fora, apenas formalmente, registrado como sendo da família Sat, na qualidade de genro. Estavam sendo obrigados a simular serem um casal, visto que não estavam dentro das normas exigidas pelo governo para receber o auxílio-viagem a imigrantes. Uma das exigências era de que o ‘o casal deve ter idade abaixo de cinquenta anos e os membros da família terem acima de doze anos’. A senhora Monma e seus dois filhos, juntamente com Magoichi e sua irmã, eram dois grupos que se uniram formando, temporariamente, uma única família. Porém, essa ideia astuta não fora de Magoichi: ele havia sido instruído pelo senhor Yamada, um representante regional de uma agência de recrutamento de imigrantes. Portanto, não havia motivos para serem repreendidos: aliás, para os encarregados, era uma situação extremamente normal. Eles deveriam, na verdade, incentivar esse tipo de conduta, pois assim aumentariam o desenvolvimento dos países estrangeiros e contribuíram para a diminuição dos problemas de aumento populacional do Japão. Vendo sob esta ótica das empresas de empreendimento internacional, a imigração, mesmo de uma única pessoa, era um negócio bastante lucrativo. Para o representante regional, o senhor Yamada, os imigrantes por ele negociados já lhe haviam rendido um bom dinheiro.” (Páginas 24 e  25)

Magoichi e Onatsu são bastante ingênuos e se deixam enganar por todos. Eles sintetizam o espírito dos camponeses, ao mesmo tempo com disposição física e limitados na defesa de interesses individualistas. Grande parcela do romanceiro da imigração japonesa ao Brasil versa sobre a burguesia, mas o proletariado rural era o perfil da maioria absoluta dos imigrantes.

Nem todos os imigrantes são ingênuos. Há os mais abastados, que conseguem burlar as leis de imigração. E há os que descobrem, só na viagem, que também no navio as diferenças entre as classes sociais serão mantidas.

“O cotidiano no navio já passava dos vinte dias. Se ainda estivesse em sua terra natal, continuaria sendo um trabalhador rural honesto e virtuoso, que não tinha consciência de nada. Mas, ao embarcar no navio e começar a ajudar na cozinha, tomou conhecimento de algo chamado ‘classe social’. O senhor Oizumi, um sujeito tão pacato em Kobe, ao tomar ciência de um outro mundo, passou a se comparar com os passageiros de primeira classe. Não só isso, mas ele vira também, no porto, o navio adquirir grandes quantidades de laranjas e bananas. Ele sabia também que, todos os dias, às três da tarde, os marujos levavam um lanche da tarde aos passageiros da primeira classe e aos altos funcionários do navio. Testemunhou também que os passageiros da primeira classe tinham suas roupas lavadas e passadas e, toda noite, os estrangeiros bebiam uísque e se divertiam ouvindo vitrola na varanda-café.” (Página 167)

Tatsuzo Ishikawa nasceu em 1905, na região norte do Japão, na província de Akita. Ingressou na Universidade Waseda, em Tóquio, mas por problemas financeiros, desistiu do curso. Desde estudante queria ser escritor. Em 1928, embarcou para o Brasil no navio La Plata Maru. Trabalhou por aqui e voltou ao Japão. Escreveu o romance, premiado anos depois. Os temas sociais eram o seu forte.

SÔBÔ | Tatsuzô Ishikawa

Editora: Ateliê Editorial;
Tradução: Maria Fusako Tomimatsu, Monica Setuyo Okamoto e Takao Namekata;
Tamanho: 264 págs.;
Lançamento: 2008.[/box]

 

55 – HISTÓRIA- O FEMINISMO QUE VEM DA ÁSIA

Qiu Jin

O feminismo asiático não é fenômeno recente. Desde fins de século 19 temos notícia de mulheres que lutam por libertar-se da sociedade patriarcal na Ásia. A chinesa Qiu Jin e as japonesas Kanno Sugako e Fumiko Kaneko são algumas precursoras. Mas há muitas, mulheres coreanas, indianas, árabes, brasileiras, americanas e europeias que unem suas vozes na defesa dos direitos das mulheres de etnias amarelas, marrons e brancas da Ásia.  

No Brasil, há coletivos, como o Lótus – Feminismo Asiático –  e Perigo Amarelo, que reúnem jovens pesquisadoras, artistas e ativistas na internet. Pesquisadoras, como Caroline Ricca Lee, Ingrid Sá Lee,  Laís Miwa Higa e Kemi vêm promovendo discussões sobre identidade feminina asiática, não só em universidades, também em outros espaços públicos. Elas lutam pela visibilidade da identidade brasileira de etnias asiáticas, combatendo a fetichização do corpo feminino e estereótipos, como rótulos de boneca ou gueixa.

Há que se lembrar de Suely Kanayama, Yoko Kayano  e Nair Kobayashi, militantes do Partido Comunista do Brasil e guerrilheiras do Araguaia, nos anos 70. A guerrilheira Suely, de codinome Chica, foi morta com mais de cem tiros pelo exército, quando a guerrilha vivia seus últimos dias. Seu corpo não foi encontrado. Um militar afirma que teria sido queimado na Serra das Andorinhas, com o de outros guerrilheiros, para evitar posterior identificação.

Na história do feminismo asiático temos poetas, como a chinesa Qiu Jin, que lutou contra a famigerada prática de pés de lótus, a tradição de amarrar pés de mulheres para reduzi-los.  Qiu Jin e as japonesas  Kanno Sugako e Fumiko Kaneko têm em comum o fato de ter despertado o ódio dos governos locais., terem sido presas e torturadas. 

Qiu Jin  viveu de 1875 a 1907. Um  casamento extremamente infeliz  a fez gerar novas ideias consideradas subversivas. Logo  se tornaria membro de um grupo que advogava a queda da dinastia vigente no poder. Em 1903, decidiu viajar e estudar no Japão. Em Tóquio, foi  editora de um jornal, para o qual  escreveu o manifesto “Uma respeitosa proclamação aos 200 milhões de camaradas chineses”, em que lamenta problemas causados pelos pés de lótus e casamentos opressivos.  

O manifesto corroborava a visão de que um futuro melhor para as mulheres na China aconteceria com um governo baseado no modelo ocidental. Oradora eloquente, defendia o direito de escolher casamento, liberdade de educação e abolição da prática do pés de lótus. Em 1907,  se tornou diretora de uma escola para meninas, oficialmente  escola de professores de educação física, mas secretamente um centro de treinamento para  revolucionários.

Em 12 de julho de 1907, Qiu Jin foi presa. Torturada,  recusou a admitir o envolvimento na conspiração para derrubar a dinastia Qing. Poucos dias depois, foi decapitada, aos 31 anos de idade. Qiu foi considerada heroína e mártir pelos revolucionários, tornando-se símbolo de independência feminina. Por ser sempre lembrada como mártir, líder feminista e heroína do povo chinês, seus trabalhos literários costumam ser esquecidos ou postos de lado.  

O sol e a lua não têm luz, a terra é escura;
O mundo de nossas mulheres está tão profundamente afundado, quem pode nos ajudar?
Jóias vendidas para pagar esta viagem através dos mares,
Separada da minha família, deixo minha terra natal.
Desenfaixando meus pés, limpo mil anos de veneno,
Com o coração aquecido despertarão todos os espíritos das mulheres.
Infelizmente, este lenço delicado aqui
Está metade manchado de sangue e metade com lágrimas.

JAPONESAS
Outra feminista revolucionária é Kanno Sugako , também chamada  Suga (1881–1911). Jornalista anarco-feminista, foi autora de uma série de artigos sobre opressão de gênero e defendeu a liberdade e direitos iguais para homens e mulheres. Em 1910, foi acusada de traição pelo governo japonês por ter alegado envolvimento em conspiração para assassinar o Imperador. Foi a primeira mulher prisioneira política a ser executada na história política do Japão.

Nascida em Osaka, perdeu a mãe com 10 anos.  Kanno foi estuprada aos 15 anos, com estupro tramado pela madrasta. Culpabilizada pela família e pela sociedade, seu estuprador foi inocentado. Teve o primeiro contato com o socialismo quando lia artigos sobre vítimas de abuso sexual. Aos 17, casou com um homem que pertencia a uma família de comerciantes em Tóquio.  

Separou do marido dois anos depois e tornou-se amante de um escritor de Osaka, Udagawa Bunkai. Kanno começou a escrever em jornal e tornou-se engajada no movimento de mulheres cristãs contra o sistema de legalização de bordéis. Com o início da guerra russo- japonesa, se juntou ao movimento pacifista socialista-cristão e em 1906 tornou-se líder de um jornal na província de Wakayama e começou um relacionamento com o líder socialista Arahata Hanson (1887–1981). Começou a escrever artigos sobre emancipação feminina, contra a domesticação das mulheres , o valor da leitura e do conhecimento e questionando a castidade para o casamento.

Depois de retornar a Tóquio, envolveu-se num manifesto anarquista, pelo qual líderes foram presos, em junho de 1908. Enquanto visitava amigos na prisão, foi presa. Depois de ser liberada, dois meses mais tarde,  encontrou o anarquista  Shūsui Kōtoku (1871–1911). Juntos, começaram a publicar um jornal anarquista, banido pelas autoridades.  Kanno foi presa mais uma vez.

Em seu diário na prisão, Suga percebe que a mudança poderia não acontecer através de meios pacíficos. Concluiu que a revolução violenta era necessária. Então, ela, seu amante e dois outros anarquistas tramaram o  assassinato do Imperador Meiji. Construíram uma bomba, mas foram traídos. Com outras 23 pessoas, Kanno foi sentenciada à morte e enforcada em 24 de janeiro de 1911.

Fumiko Kaneko (25 de janeiro de 1903 – 23 de julho de 1926) foi anarquista japonesa, companheira de Bak Yeol, anarquista coreano, ativista pela libertação da Coreia. Presa e condenada sob acusação de conspiração contra o Imperador e apoiar o Movimento de Libertação da Coreia, se suicidou na prisão após três anos.

Kaneko nasceu em Yokohama, em família pobre. Em meio à fom, a mãe decidiu vendê-la para um prostíbulo, mas foi  recusada. Aos nove anos foi enviada para a avó materna, que morava na Coreia. Na escola, Kaneko se mostrou extremamente interessada em seguir estudos além da educação básica. A avó de Kaneko reprovava a atitude da neta de continuar os estudos e passou a maltratá-la. Cansada de maus tratos, Kaneko é mandada de volta ao Japão.

Quando  chegou em Tóquio, em  1920, conseguiu empregar-se em jornal. Começou dois cursos, Matemática e Inglês.  Conheceu  reformistas cristãos e socialistas, aceitando a doutrina durante um tempo.  Mas tinha dificuldades em manter o emprego, porque era explorada e o patrão era imoral na vida pessoal. Mal tinha tempo de acompanhar as atividades escolares, então as abandonou.

Aproximou-se de niilistas: Max Stirner, Mikhail Artsybashev e Friedrich Nietzsche. Passa a se relacionar com o anarquista Bak Yeol, um dos líderes do coletivo Futeisha (Sociedade dos Descontentes), formado por anarquistas e niilistas, japoneses e coreanos.

Fumiko e  Bak publicaram duas revistas que questionavam problemas da Coréia sob o Imperialismo Japonês. Após o sismo de Kanto em  1923,  o governo japonês passa a prender e assassinar imigrantes chineses e coreanos, e grupos de dissidentes, anarquistas e republicanos. Aí  são presos membros da Futeisha, incluindo Kaneko e Bak.

Acusados de conspirar o assassinato da família real japonesa, Kaneko e Bak foram condenados à morte. As sentenças seriam comutadas para prisão perpétua. Quando o diretor da prisão de Ichigaya entregou a Kaneko a comutação, Kaneko rasgou o certificado  lhe dizendo que o governo não tinha nada a dizer em relação a sua vida ou morte.

Transferida para Utsunomiya, recusou todo tipo de trabalho forçado, indo parar em confinamento em solitária. Três meses depois, requisitou fazer cordas com fibras de cannabis. Em 23 de julho de 1926, foi encontrada morta, por enforcamento, com a corda que ela mesmo fizera.

54 LITERATURA – HIRO ARIKAWA CRIA MELODRAMA COM GATO NARRADOR

Histórias com animais costumam atrair multidões. Por isto, muitos escritores criaram personagens felinos. Na literatura japonesa, temos Eu sou um gato, de Natsume Soseki, em que o narrador é um gato irônico, que ri das trapalhadas de seu dono. Relatos de um gato viajante (Alfaguara,  tradução Rita Kohl, 2017), de Hiro Arikawa, começa citando o famoso felino porque seu narrador é também um gato, Nana (em japonês, sete). O bichano tenta ser irônico como o gato de Soseki. Mas o universo que ele habita é mais doméstico.

Nana foi recolhido das ruas por Satoru Miyawaki. O dono é aficcionado por felinos. Quando criança, teve outro gato, Hachi (em japonês, oito). Separou-se dele quando os pais morreram. Nana vive cinco anos com Satoru e depois, por algum motivo misterioso, o dono precisa que outra pessoa o adote. Satoru contata antigos amigos de infância para adotar o bichano. Para encontrá-los, viaja pelo Japão. Nestas viagens, vai reencontrar não apenas os amigos, como também relembrar a infância e adolescência.

Satoru é um ser humano idealizado, que ama os animais e se torna excepcional depois da morte dos pais. Sempre solícito e gentil, é invejado pelos amigos, e este é motivo secreto pelo qual Nana se recusa a ser adotado por eles. Os amigos de infância têm relacionamentos conturbados, como é comum nas famílias: um tem conflitos com o pai autoritário desde criança, o outro não tem paciência com animais, o terceiro tem ciúmes da mulher, que já teve uma paixonite pelo protagonista. A tia de Satoru, a quem ele foi entregue depois que os pais morreram, é desenhada como socialmente inábil, apesar de ser uma juíza. Assim, Satoru se torna um ser angelical: parte desta visão romântica pode ser influência de Nana.

Relatos de um gato viajante é uma história do tipo kawaii – em japonês: fofo, adorável, amável. Kawaii designa produtos da indústria cultural, como animes ou canções J-Pop (o pop japonês), cuja personificação máxima é a gatinha Hello Kitty e os mutantes Pokemon. Embora Nana cite Soseki, a historinha do gato de Satoru nada tem a ver com o clássico. Eu sou um gato é uma crítica ácida sobre a sociedade japonesa. Relatos de um gato viajante é uma história melodramática sobre a relação entre um gato e seu dono. Mas é a fórmula certa para o mercado: no Japão, já foram mais de 400 mil exemplares vendidos.

Hiro Arikawa nasceu em 1972, em Kochi. Ganhou o Prêmio Dengeki para novos escritores, por Shio no Machi: Wish on My Precious em 2003, e o livro foi publicado no outro ano, no Japão. Seus romances são best-sellers e muitos deles foram adaptados para a TV e o cinema

.”Quando ele me encontrava por ali, eu o recompensava deixando que brincasse um pouco comigo, mas, mesmo que eu não estivesse, ele deixava, respeitosamente, sua oferenda. Às vezes outro gato encontrava a comida antes de mim, ou acontecia de o homem sair para algum lugar, e aí, por mais que eu esperasse, o croc-croc não aparecia. Mesmo assim, passei a ter uma refeição garantida praticamente todos os dias. Só que os humanos são criaturas muito caprichosas, então é melhor nunca depender totalmente deles. Um gato de rua esperto tem seus esquemas e se garante em vários lugares. E foi assim que começou minha relação com aquele homem — éramos apenas conhecidos, mantendo uma distância segura um do outro. Entretanto, logo quis o destino que essa relação se transformasse completamente. E esse destino doeu horrores. Eu estava atravessando a rua, de madrugada, quando o farol de um carro veio em cheio na minha cara. Tentei correr, mas uma buzina gritou nos meus ouvidos. Aí, já era. Levei um susto com a buzina, o que me fez demorar um segundo a mais para correr. Não fosse por isso, eu teria conseguido escapar fácil, mas a meio passo da calçada o carro me atingiu, com uma força espantosa — bam! Depois disso, eu não vi mais nada. Quando dei por mim, estava caído no meio dos arbustos da calçada. Meu corpo doía de um jeito que eu nunca tinha sentido na vida. Ah, mas eu estava vivo! Puxa vida, que situação. Tentei ficar em pé… só para despencar, com um grito. Ai, ai, ai, que dor! Era a minha pata traseira direita que doía absurdamente. Voltei a me deitar, sem forças, e lá fui eu lamber a ferida. Ah, não! Tinha um osso espetado. E agora? O que eu faço? Alguém me ajude!! Onde já se viu, um gato de rua pedir socorro? Não temos ninguém para nos acudir… Mas naquela hora eu me lembrei do homem, o que me dava a comida croc-croc toda noite. Talvez ele me socorresse. Não sei por que pensei isso, afinal, era só um conhecido que às vezes me levava uns agrados, e de vez em quando eu permitia um cafuné em troca. (Página 12)

RELATOS DE UM GATO VIAJANTE | Hiro Arikawa

Editora: Alfaguara
Tradução: Rita Kohl;
Quanto: R$ 29,90 (256 págs.);
Lançamento: Agosto, 2017.

 

 

53 LITERATURA – “SONO”, DE HARUKI MURAKAMI É UMA FÁBULA SOBRE TERRORES FEMININOS

No conto Sono (Alfaguara, 2015, tradução de Lica Hashimoto), de Haruki Murakami, a protagonista está há 17 dias sem dormir. Ela é uma dona-de-casa japonesa com 30 anos, com marido dentista e filho pequeno. A insônia começa quando tem um pesadelo, e logo após, a visão de um velho magro de cabelos brancos ao pé de sua cama. O susto provoca o despertar contínuo.

A protagonista, sem nome, tem uma rotina monótona: vai ao mercado, cozinha, limpa a casa, lava a roupa e à tarde faz natação ou vai ao shopping. Eventualmente faz sexo mecanicamente com o marido. Durante o período insone, passa a desfrutar de prazeres clandestinos, como a leitura do livro Anna Karenina, de Leon Tolstoi, beber conhaque e tomar chocolate. Note-se que estas eram atividades corriqueiras em sua juventude, que ela deixou de fazer quando casou. Mais adiante, ela rodará de carro a esmo pela cidade.

É sintomático que o livro que a insone escolhe para ler seja Anna Karenina. O romance narra a história de uma aristocrata casada que tem um caso extra-conjugal. Assim como a personagem russa, a mulher precisa de algo que a tire da rotina. A leitura do romance a desloca para outro tempo e espaço, afastando-a da realidade prática.

“Após verificar que meu marido dormia, fui me sentar no sofá da sala e, sozinha, tomei o meu conhaque e abri o livro. Durante a primeira semana reli três vezes Anna Karenina. Quanto mais eu lia, mais eu descobria coisas novas. Esse longo romance possuía muitos segredos e estava repleto de respostas. E nas respostas descortinava-se um novo segredo. Era como uma caixa artesanal em que dentro de um mundo havia outro mundo pequenino e, no interior deste, outro mundo ainda menor. Todos esses mundos formavam um universo complexo. Um universo que sempre existiu e que aguardava ser descoberto pelo leitor. O meu eu de antigamente só conseguia desvendar uma pequena fração desse universo. Mas o meu eu atual era capaz de enxergar um mundo imensamente maior. Conseguia entender o que o grande Tolstoi quis dizer, ler nas entrelinhas, entender como estas mensagens estavam organicamente cristalizadas em forma de romance, e o que nele de fato superava o próprio autor. Eu conseguia enxergar isso tudo como se estivesse em pé no topo de uma colina e contemplasse a paisagem.” (Páginas 86 e 87)

Segundo Ricardo Piglia (O último leitor, Companhia das Letras, 2006), “a leitura de um romance (no romance) é um exercício de construção da passagem e do cruzamento entre ficção e realidade”). Murakami é especialista neste cruzamento, construindo túneis, bibliotecas, corredores escuros e poços em suas histórias. A leitura  é um ponto de passagem que permite ao leitor ser um outro. É a detecção de algo falta na vida. A saída do mal-estar existencial de Anna Karenina é o adultério e o suicídio.Anna Karenina é também leitora de romances (em uma cena, é retratada num trem, lendo um romance inglês) e representa a modernidade. No século XIX, a leitura de romances era considerada adequada ao universo feminino. As mulheres eram vistas como criaturas de capacidade intelectual limitada, imaginativas, frívolas e emotivas. A leitura de jornais era oposta à leitura de romances. Como relatavam acontecimentos públicos, estavam reservados ao público masculino.

A mulher insone de Murakami identifica-se com a angústia da personagem russa. A insônia a conduz à leitura e outras pequenas transgressões a um cotidiano sem sobressaltos. Ela não chega a concretizar o adultério, embora os passeios noturnos indiquem o desejo latente.

Além de Tólstoi, outra personagem leitora famosa na literatura é Madame Bovary. Para muitos escritores, tais personagens eram o signo da mulher oprimida que deseja emancipação. Murakami já investiu no tema feminino, na trilogia 1Q84 (Alfaguara, 2009/2010) e no livro de contos Homens sem mulheres (Alfaguara, 2015). O conto Sono aponta para um aprofundamento da discussão. O melancólico é que o desfecho da história continua seguindo o padrão do século XIX de Anna Karenina.

Haruki Murakami (村上春樹 , nascido em 12 de Janeiro de 1949), em Quioto, Japão. Em 1986, partiu para a Europa e depois para os EUA, onde acabaria por se fixar. Escreveu o primeiro romance Hear the Wind Swing em 1979, livro ainda não traduzido para português, mas seria em 1987, com Norwegian Wood, que o seu nome se tornaria famoso no Japão. Sua obra foi traduzida para 42 idiomas e recebeu importantes prêmios. Livros traduzidos no Brasil: Caçando carneiros (2001, relançado em 2014), Norwegian Wood (2005, relançado em 2008), Dance, dance, dance (2005, relançado em 2015), Minha querida Sputnik (2003, relançado em 2008), Kafka à beira-mar (2008), Após o anoitecer (2009), Do que eu falo quando eu falo de corrida (2010), 1Q84 (3 volumes – 2012, 2013), O Incolor Tsukuro Tazaki (2014), Romancista como vocação (2017).

SONO | Haruki Murakami

Editora: Alfagura;
Tradução: Lica Hashimoto;
Ilustrações: Kat Menschik;
Quanto: R$ 29,90 (120 págs.);
Lançamento: Março, 2015