47 SOCIEDADE – A MORTE PARA OS JAPONESES

Costumes japoneses no ritual de morte surpreendem ocidentais.

38e4d-747px-engaku-ji_ozu-yasujiro2527s-grave
Túmulo do cineasta Yasujiro Ozu.

No Brasil, no Dia dos Mortos, até há alguns anos, era comum  famílias de descendentes de japoneses deixar um prato de comida ou bebidas diante de túmulos dos antepassados. Os nikkei ofereciam refeições (comida e bebida) aos mortos, seguindo a tradição xintoísta. Embora a prática ainda se mantenha no Brasil, hoje é condenada no Japão, considerada anti-higiênica. O pratinho de comida continua a ser oferecido no Hotokesama, o santuário doméstico em reverência aos antepassados.

Nas Escrituras Budistas lê-se que um dia o monge Mokuren viu a mãe morta sofrendo de fome nas profundezas do inferno. A oferta de uma tigela de arroz ajudou a aliviar a dor dela. A tradição de oferecer comida e bebida aos mortos vem daí. A prática foi proibida pelo governo japonês, por atrair corvos aos cemitérios.
Aos imigrantes, o governo japonês recomendava não expor o hotokesama na sala de estar. A cautela era para que a diferença de crenças não chocasse os brasileiros. O santuário era colocado no quarto de dormir. A clandestinidade favoreceu o ecumenismo. Assim, a maioria dos descendentes de japoneses no Brasil, além de batizados com nomes cristãos, aderiu ao catolicismo, mas não esqueceu de prestar reverências aos ancestrais.
JAPÃO
O culto aos ancestrais é disseminado nas corporações japonesas. Grandes empresas mantêm mausoléus para homenagear funcionários. São os monumentos empresariais, construídos pela Panasonic, Mitsubishi e Sony, entre outras, para cultuar os “soldados da empresa”. Hirochika Nakamaki, antropólogo do Museu Nacional de Etnologia da Universidade de Osaka, que estudou estes monumentos, conta que as construções   fúnebres  começaram a ser erguiaos a partir dos anos 50 no Monte Koya, no sul de Osaka, onde estão sepultados daymios (senhores feudais) históricos.
Diante de memoriais empresariais, pede-se votos de prosperidade nos negócios, prevenção de acidentes de trabalho e reconhecimento da preferência do consumidor. As empresas japonesas mais conceituadas são as que criam e mantêm memoriais para funcionários.
Nakamaki diz que os memoriais são uma extensão de relações entre executivos e funcionários, que reproduzem laços entre daymios e samurais. Ele sustenta que as multinacionais nipônicas adotaram o modelo do clã feudal e adaptaram rituais religiosos nas organizações para sobreviver no mundo dos negócios.
“Trazendo os santuários xintoístas, símbolo dos laços territoriais e os templos, dos laços sanguíneos para as organizações, os daimiyos capitalistas transferiram os laços de sangue e territoriais para as empresas. Assim carregaram símbolos budistas e xintoístas com valores mercadológicos, inserindo aspectos religiosos no ambiente de trabalho para transferir sentimentos familiares aos funcionários”, diz Nakamaki.

Os orientais não têm a mesma visão da morte que os ocidentais. A morte, tanto para chineses, japoneses, tibetanos e indianos, influenciados pela cultura budista, é ocasião de júbilo. O budista chora quando nasce uma criança e ri quando se vai um morto. Acreditam que morte é renascimento. Em vez de preto, usa branco para celebrar o luto.

O Dia dos Mortos no Japão é celebrado a 15 de agosto (O-bon). O-bon é uma festa budista em que é permitido aos espíritos mortos visitar as casas de familiares vivos para comemorar o encontro com eles. Acendem-se lanternas nas portas de entrada das casas para guiar os espíritos. No fim do festival (Tooro Nagashi) acendem-se lanternas nos rios, de onde os fantasmas retornariam ao mundo sobrenatural, após visitar os parentes durante vários dias.
O mais antigo registro sobre a comemoração do O-bon é de 657 e faz parte da história da Rota da Seda. Na época, a cidade de Asuka (hoje uma vila da cidade de Nara) era pólo da efervescência política e cultural, povoada por chineses, coreanos e persas que faziam a rota da seda, entre Pequim e arredores.
A origem da palavra vem de rituais persas de crença dos zoroastros: uruvan(urabon, em japonês): campo de energia ligando vida e morte. O zoroastrismo atingiu o Japão através da Rota da Seda fundiu-se com festivais budistas, que se tornaram populares a partir do ano 538.
Em Tóquio o Dia dos Mortos ainda é celebrado em julho, mas em outros lugares é em agosto – sétimo mês do calendário lunar, ainda considerado pela agricultura tradicional como época de plantio e colheita. As danças japonesas conhecidas em festivais japoneses como Bon-odori são originárias dos rituais fúnebres. Uma das funções das danças é espantar os maus espíritos, que também são reanimados na época.

47 SOCIEDADE – HAMAMATSU NO FUTSUU

Inspirado pelo texto do D Design Shizuoka (Shizuoka no Futsuu) sobre a vida cotidiana em Shizuoka, decidi apontar algumas das minhas impressões sobre Hamamatsu, considerada a Capital da Música do Japão e cidade que morei no passado. Retornando depois de 3 anos, fui tomado por um feixe de sensações que são difíceis de descrever para quem nunca esteve na cidade. Como me disse uma amiga, moradora na cidade há mais de 10 anos, é como se tivesse tirado férias e retornado para casa.

Yaramaika! Um dos motes mais famosos da cidade (e presente só nos guias turísticos), Yaramaika se refere ao estado de espírito livre de se tentar fazer as coisas sem a preocupação de algo dar errado ou o que seja. Dizem que esse espírito livre está presente em momentos específicos na cidade, como no famoso festival de Hamamatsu, cujo céu fica abarrotado de pipas. Mas hoje quero falar de música, algo que tempos atrás era algo tão entranhado no meu cotidiano nipônico que você acaba esquecendo, ignorando ou tratando como algo corriqueiro. Foi só mudar de cidades que, pronto, você percebe que está tudo lá. Mesmo.

Hamamatsu é a Capital da Música do Japão, sede da divisão de instrumentos musicais da Yamaha, da Roland, da Kawai e da Apolo, para listar as mais famosas. Lá se produz alguns dos instrumentos musicais mais famosos e cobiçados do mundo, graças a sua qualidade. Desde a adolescência sempre tive uma queda pelos pianos e sintetizadores da Roland e, quem diria, anos depois, moraria na cidade que é sede e participaria de grupos de jazz com músicos da empresa. Já a Yamaha foi minha casa por semanas sem fim…

O único arranha-céu de Hamamatsu foi construído no formato de uma Harmônica gigante, hoje um complexo comercial com vários escritórios e lojas. Lá tinha uma lojinha que vendia camisetas com os dizeres “Eu amo Hamamatsu” e coisas do tipo, algo que nunca me serviu por conta da minha altura. Em frente fica o Museu de Instrumentos Musicais de Hamamatsu, famoso por manter um acervo de instrumentos do mundo inteiro.

Yamaha, Hamamatsu

Contudo, Hamamatsu não precisa de monumentos para mostrar a música no cotidiano. Você sabe quando chegou em Hamamatsu quando consegue acompanhar orquestras e gruos de bukatsu em frente à Estação JR todos os fins de semana. Em outros horários, a Estação JR e os arredores do Entetsu se tornam palco para grupos amadores de cantores e outros musicistas, disputando na habilidade um público sempre cativo portando suas câmeras. Lá eu já peguei desde bandas de J-Pop almejando um lugar ao Sol, ao lado de violinistas de flamenco em transe no dedilhado, ou grupos de Taiko da Shizuoka Bunka Geijutsu Daigaku. Desta vez, Festival do Chá Verde no Entetsu. Com música, é claro.

Você sabe quando está em Hamamatsu quando se depara com protestos contra a energia nuclear feitos por senhores de sabe lá quantos anos tocando Acordeon.

Nas proximidades ficam as salas de concerto do Act City, agora em novembro sendo palco do Festival de Ópera de Shizuoka. Agora. No próximo mês será a casa de outros concertos. E por aí vai. Bancos, esculturas e tudo mais lembram a todo momento que você está na capital da música. Não sei se o Crown Hotel, que fica em frente, ainda tem aquele piano de acrílico transparente…

Caminhando para o centro e, já perto do Yamaha Kajimachi Center e do ZaZa City, são comuns os festivais de música num espaço que eu pessoalmente lembrava como “pracinha do ZaZa”. Desta última vez, dois festivais ocorriam ao mesmo tempo, o Festival de Blues e o Festival de Artes de Outono, com músicos profissionais de toda a Província de Shizuoka e, o mais importante, dando espaço para os músicos locais totalmente desconhecidos. Bandas marciais, orquestras de metais, grupos de hip hop, salsa, bandas de rock e grupelhos saídos dos bukatsu escolares estão por ali. Os músicos participantes apareceram não para “ficarem famosos”, mas sim para garantir a existência e continuidade do evento. Era bastante comum os grupos subirem ao palco e pedirem desculpas por “estarem tentando”, que “se esforçariam ao máximo” na execução das músicas.

DSCF0162

Em Itayamachi estava ocorrendo outro festival, assim como embaixo da Estação Daiichidori. Tudo com música. Sempre tem coisa embaixo da Estação Daiichidori, a estação do Akaden, o “Trem Vermelho”.

Você sabe quando está em Hamamatsu quando os semáforos das ruas não tocam apenas “pin pon” como em outras cidades nipônicas, mas sim melodias inteiras naqueles timbres de MIDI como aviso sonoro. Dá pra ouvir o tema do Totoro atravessando a rua.

Você sabe quando está em Hamamatsu quando encontra música em situações inesperadas. Desta vez, no restaurante Mein Schloss, um quarteto de jazz de mulheres na casa dos 20 anos como forma de manter os estudos, apavoradas pelo início de carreira, todas de terno como que à espera de uma entrevista de emprego, todas com livros de Jazz Standards abarrotados de Post Its coloridos marcando as páginas de partituras.

Hamamatsu

Hamamatsu tem uma população de brasileiros tão expressiva que eles têm uma escola de samba própria. Batucada de Hamamatsu. Com direito a carnaval e tudo. E, é lógico, tem grupos de japoneses fazendo samba por lá também.

Tempos atrás vi o Festival de Decoração Natalina de Hamamatsu. Você sabe quando está em Hamamatsu quando topa com um grupo de rock ‘n roll meloso de senhores com seus 60 anos, todos trajando terno branco e cachecóis, cantando num frio de 5 graus, para serem substituídos por corais de música gospel à la japonesa, com uma platéia empolgada mesmo diante do frio. Haja Caramelo Machiatto pra esquentar!

Victor Hugo Kebbe

Publicado originalmente aqui

47 HAICAI – O JAPÃO NO FEMININO – HAIKU

47haicaiimagem03
Kitagawa Utamaro. “Três belezas de nossos dias”, 1793.

No ocidente, só conhecemos Bashô, Buson, Issa e Shiki, os quatro grandes mestres do haicai. Mas as mulheres também escreveram haicai, e algumas foram contemporâneas dos mestres.  Nas mais antigas antologias japonesas, raramente está registrada qualquer obra feminina ou, quando aparece, é omitido o nome da autora aparecendo como única identificação a do marido – “esposa de Nitsusada”, como acontece em 1663.

Durante muito tempo se pensou que o haiku era uma prática exclusivamente masculina. Nos séculos IX a XI, o  tanka tornou-se uma forma feminina por questões ideológicas. Como os homens escreviam poemas chineses, as mulheres dominaram o tanka. Assim, esta forma poética passou a ser conhecida como  feminina. Contrastava por ser  uma escrita solitária e individual, enquanto o haiku era parte de uma atividade em grupo. A partir do século XVII, mais mulheres começaram a compor haiku.

Os poemas a seguir foram traduzidos para o português lusitano por Luísa Freire, a partir de um antologia organizada por Makoto Ueda, Far Beyond the Field: Haiku by Japanese Women.

ao romper do dia,
à conversa com as flores,
uma mulher só

enomoto seifu [1732-1815]

na sombra das flores
um besouro a rastejar –
súbita chuvarada

takeshita shizunojo [1890-1946]

cachos de glicinia –
retém em si a chuva
até onde podem

hashimoto takako [1899-1963]

suas vidas duram
só enquanto estão a arder –
mulher e pimenta

mitsuhashi takajo [1899-1972]

o japão no feminino – haiku – séculos xvii a xx  – organização e tradução, luísa freire.assírio e alvim, 2007.

47 HAICAI – O JAPÃO NO FEMININO – TANKA

47haicaiimagem01
Ono no Komachi,  Utagawa Toyokuni, 1810. Fonte: Museum of Fine Arts.

O  período Heian  (794 a 1185) começou quando a capital japonesa foi instalada em Quioto, e é marcado por um florescimento ímpar na  literatura japonesa. As mulheres da corte, que tinham como ofício entreter a imperatriz, são as principais responsáveis por este florescimento. Os homens  estavam ocupados em dominar conhecimentos sobre a língua chinesa e estudavam temas nobres, como a história e filosofia.  As mulheres, impedidas de aprender os ideogramas chineses, propagaram a escrita silábica (hiragana), escrevendo sobre  literatura e poesia, explorando temas como o amor, a natureza e a religiosidade.

Assim surgiu o romance O conto de Genji (Genji monogatari), escrito por Lady Murasaki Shikibu e O livro do travesseiro (Makura no sôushi), escrito por Sei Shônagon, considerados os dois maiores clássicos da literatura japonesa.

Também neste período surgem  as duas maiores poetas clássicas: Ono no Komachi  (834 – ?) e Izumi Shikibu (974-1034). As duas escreveram numa época em que as mulheres cultivavam grande independência. Embora os privilégios fossem masculinos,  às solteiras era permitido ter vários namorados, inclusive com homens casados, desde que usassem a discrição. As casadas só podiam ter um marido, enquanto estes poderiam ter vários casos extraconjugais. A mulher podia ser proprietária de terras e usufruir de renda própria. Também podia divorciar-se e separar-se, independente da opinião familiar.

O domínio da escrita e da poesia era um fator de ascensão social. A arte  não era confinada aos aristas, mas partilhada por todos os membros da corte. Qualquer acontecimento público ou privado era acompanhado de versos. A poesia era o veículo essencial para ativar os relacionamentos amorosos. A forma poética usada nesta época era o tanka, com 31 sílabas. O haiku ainda era uma forma usada só pelos homens.

A pesquisadora Luísa Freire publicou, em 2007, versões para o português lusitano de uma tradução em inglês,  de Jane Hirshfield e Mariko Aratami – The Ink Dark Moon: love poems by Ono no Komachi and Izumi Shikibu .

ono no komachi

Quando o meu desejo
se torna intenso demais,
visto a roupa de dormir
virada pelo avesso,
escura casca da noite.

*

Pescador não deixa

a baía plena de algas…

Vais abandonar

este corpo flutuante

à espera das tuas mãos ?

*

O vento que enreda

É tal qual as derradeiras

Rajadas de Outono.

Só um orvalho de lágrimas

É novo na minha manga.

*

 

Hoje de manhã

Até as minhas campainhas

Estão escondidas

Para evitarem mostrar

O cabelo em desalinho

*

47haicaiimagem02
Izumi Shikibu

Deitada e sozinha
de cabelo negro solto
e emaranhado,
sinto desejo daquele
que primeiro veio me tocar.

 *

Desperta pelo cheiro
duma ameixeira florida…
A escuridão
da noite primaveril
vem encher-me de saudade

*

Não fiques corado!
Todos adivinharão
Que dormimos juntos
Sob as pregas enrugadas
deste manto avermelhado

o japão no feminino – tanka  – séculos ix a xi e o japão no feminino – organização e tradução, luísa freire.assírio e alvim, 2007.

46 HQ – CONCURSO DE MANGÁ AINDA ABERTO

46hqimagem01
Ilustração: Mangá Rosári Vampire.

Até o dia 10 de outubro, interessados podem enviar obras para , o 7º Concurso Literário do Bunkyo – Categoria Mangá, promovido  pela Comissão de Atividades Literárias. Nesta edição o tema é  livre. Cada autor poderá inscrever uma única história de texto estilo Mangá, em língua portuguesa ou em língua japonesa. A história deve ter obrigatoriamente um título e um mínimo de dez páginas (máximo 50), já com arte finalizada.

Também são aceitas obras criadas por grupos e há na ficha campo específico para inscrição.

Os interessados deverão encaminhar o formulário preenchido juntamente com sua obra física (não será aceito envio eletrônico) e caso desejem receber o material de volta ao final do concurso devem se manifestar no campo específico.

– baixe aqui o regulamento completo
– formulário de inscrição

ENDEREÇO PARA CORRESPONDÊNCIA
BUNKYO – Sociedade Brasileira de Cultura Japonesa e de Assistência Social
Comissão de Atividades Literárias – Mangá
Rua São Joaquim, 381 – Liberdade – 01508-900 – São Paulo – SP
Informações: (11) 3208-1755

A última edição do evento premiou Audrey Phei Chi Chuang, Diego de Oliveira Castro e Lucas dos Santos Martins, respectivamente. O resultado da seleção 2016 será divulgado no dia 5 de novembro no site www.bunkyo.org.br

46 HAICAI -TANKA, UMA FORMA FEMININA

46haicaiimagem04No Japão existem formas poéticas distintas, que funcionam para determinados temas. A forma poética mais conhecida fora do Japão, o haicai (ou haikai ou haiku) tem como eixo temático uma das estações do ano, ou algum evento ou fenômeno natural que aconteça numa determinada estação do ano. Cerejeiras, por exemplo, estão relacionadas à primavera, crisântemos, ao outono, neve ao inverno e calor ao verão. Os eventos ou fenômenos naturais são pontos de partida para refletir sobre a efemeridade da vida. Assim, o estado wabi sabi (que vem das palavras wabishi = ermo, solitário e sabishi= triste) é a prerrogativa do poeta que se retira do tumulto das cidades para comungar com a natureza e nela encontrar a resposta para o sentido mais profundo da existência.

O tanka é a forma poética mais antiga no Japão, que deu origem ao haicai. O haicai ficou conhecido como uma forma que privilegia o olhar objetivo da vida . Já o tanka está relacionado a um olhar mais subjetivo. Duas grandes poetas japonesas da Era Heian, Ono no Komachi (834?-?) e Izumi Shikibu (974?-1034?) representam esta forma poética. Tanto as poetas quantos o tanka são poucos conhecidos no Ocidente. A razão talvez seja o fato de que o tanka privilegia o olhar feminino.

Os maiores poetas japoneses do tanka contemporâneo são Masaoka Shiki (também mestre de haiku), Akiko Yosano e Takuboku Ishikawa, estes dois últimos com pelo menos uma obra traduzida no Brasil. Ono Komachi, Izumi Shikibu e   o monge Saygio são os autores clássicos mais conhecidos. Uma curiosidade:  o hino nacional japonês Kimigayo também está vazado na forma poética do tanka. No Brasil, tivemos poetas que já se aventuraram a recriar tankas, como Pedro Xisto, Helena Kolody e Wilson Bueno, em molduras mais ou menos carnavalizadas.

A poeta Rose Mendes pesquisou sobre a poesia feminina no Japão e buscando aperfeiçoar a aprendizagem iniciada em seu primeiro livro “Nas ondas do haicai”,  lança agora, “Travessia” (Editora Inhouse, 2016). O que se vê neste seu mais novo rebento são exercícios livres em cinco versos . Aponta-se a ousadia desta “Travessia” do ocidente ao oriente. Porém, falta à autora iniciante  maior conhecimento sobre a linguagem poética, o que tornariam seus poemas menos superficiais.  Já experiências de vida não lhe faltam, tocando temas da maturidade:

mora às escuras / na árvore centenária / um ninho vazio / ah, não é um pirilampo / que tranquilamente surge

muito de repente / duas andorinhas entram/ na capela antiga / que saudades estou sentindo / dos sonhos divididos

névoa da manhã / o mar e a gaivota / brincam com o tempo / o barquinho que balança / parece acenar um adeus

notícias do mundo / trazem espanto e tristeza  -/ incerto futuro//meu pai falava da guerra / e quase sempre chorava

Para que seus tankas saiam do chão, resta à Rose apenas prestar mais atenção nas palavras. As experiências, a sensibilidade, a acuidade para observar os dramas psicológicos retratados na paisagem da vida ela já tem.

(Marilia Kubota)

46 PESQUISA – UFAM SEDIA CONGRESSO DE ESTUDOS JAPONESES

46pesquisaimagem01

A partir desta quarta-feira (21) a Universidade Federal de Amazonas (UFAM) sedia o XI Congresso de Estudos Japoneses no Brasil/XXIV Encontro Nacional de Professores Universitários de Língua, Literatura e Cultura Japonesa, cuja edição tem como tema “Tessituras: encontro dos povos nos encontros das águas”. O evento se estende até a sexta-feira e conta com conferências sobre literatura japonesa, exposições de arte, mesas redonda, apresentações de alunos .

No primeiro dia do congresso haverá uma conferência sobre literatura, com Satoshi Udo, da Universidade de Kagoshima, uma mesa-redonda sobre cultura e ensino com Hiroki Okada (Kobe), Nobuhiro Ito (Nagoya) e Kentaro Azuma (Nagoya), outra sobre imigração japonesa para o Amazonas, com Michelle Eduarda de Sá, José Camilo Ramos e Sachio Negawa (Doshisha) e mais uma mesa sobre Tradução e tempo, com Lica Hashimoto, Kanji Nobutomo (Kanagawa) e Kyoko Sekino. Na programação das miniconferências, a professora Madalena Hashimoto Cordaro fala sobre atores e seus mundos, detalhando as estampas que retratam o teatro japonês (yakusha-e e shibai-e), Yuki Mukai fala  sobre tendências e perspectivas futuras sobre as pesquisas em língua japonesa e ensino  no Brasil, Makoto Hayashi (Aichi Gakuin) sobre budismo e cristianismo e Valdir Sato sobre Imigração ao Amazonas.

No segundo dia, há conferência de Koji Oikawa (Pequim) e miniconferências de Seiji Fukushima, Yusuke Sakai (Kagoshima), Rei Kufikihara (Aichi Kenritsu). No dia 23, haverá mesas-redonda sobre tradução, com Neide Hissae Nagae, Eliza Atsuko Tashiro Perez, Tomoko Gaudioso, Japão moderno, com Ernani Oda, Orion Klautau (Tohoku), Makoto Hayashi, Literatura moderna e contemporânea, com Kinya Suguiyama (Kanazawa), Joy Nascimento Afonso, Satoshi Udo. As miniconferências são de Nobuhiro Ito, Akira Chinen e Alexandre Takara, Rossieli Soares de Souza e Keiko Kanai.

A programação completa está aqui.