49 – O ARREPIANTE MUSEU DO SILÊNCIO DE YOKO OGAWA

A escritora japonesa Yoko Ogawa foge de enredos convencionais, românticos. Em O Museu do Silêncio (Estação Liberdade, 2016, tradução de Rita Kohl), ela conta a história do sonho de uma velha ricaça em construir um museu bizarro. A ideia é preservar lembranças de pessoas que morreram no vilarejo em que  mora. Para levar tal tarefa adiante, ela contrata um museólogo.

Pouco a pouco o museólogo torna-se cúmplice da velha, sua filha adotiva e do jardineiro que construirá o edifício do museu. Também, gradativamente, o narrador familiariza-se com o mau humor e grosserias da velha e o cotidiano do lugar.

Como em outros museus, o Museu do Silêncio destina-se a abrigar uma coleção de objetos  que representa um patrimônio histórico ou cultural de uma época ou civilização. Mas estes objetos não podem ter uma simples conotação afetiva. Têm que representar fundamentalmente a vida das pessoas que morreram.

“— Sempre que alguém da vila morre, recolho um único objeto relacionado àquela pessoa. É uma vila pequena, como você sabe, então não é todo dia que morre alguém. Mas não é fácil reunir esses objetos, algo que descobri na prática.Talvez fosse pesado demais para uma criança de onze anos. Mas, mesmo assim, consegui fazê-lo por muitas décadas. A minha maior dificuldade é porque não me contento com uma recordação qualquer.Nunca me contentei com algo fácil, uma roupa que a pessoa vestiu uma ou duas vezes, uma jóia que viveu fechada no armário, uns óculos feitos três dias antes de morrer. O que eu quero são coisas que guardam, da forma mais vívida e fiel possível, a prova de que aqueles corpos realmente existiram, entende ? Algo sem o que os anos acumulados ao longo da vida desmoronariam desde a base, algo que possa eternamente impedir que a morte seja completa. Não são lembrancinhas sentimentais, não tem anda a ver com isso. É claro que o valor financeiro também está fora de questão.” (página 45)

Entre os objetos coletados, estão, por exemplo, um DIU, que pertenceu a uma prostituta assassinada há cinqüenta anos. Ou a capa de pele de bisão-do-rochedo-branco, que pertenceu a um “monge do silêncio”. O monge do silêncio e o bisão-do-rochedo-branco são referências imaginárias. Como em seu último romance publicado no Brasil,  nem um personagem é nomeado. Nem o lugar é identificado.

À parte o projeto da velha, o vilarejo é sacudido por acontecimentos estranhos. Uma bomba explode, matando o monge do silêncio e ferindo a filha adotiva da velha. E uma série de assassinatos de mulheres guarda relação com a morte da prostituta.

A homenagem a pessoas quaisquer provoca uma reflexão sobre morte e esquecimento, ou morte e silêncio. Os dois únicos objetos afetivos que o museólogo leva para o vilarejo, o livro Diário de Anne Frank, que pertenceu à sua mãe, e um microscópio, herança de seu irmão, tornam-se emblemáticos.

Anne Frank leva a pensar sobre os milhares de mortos na Segunda Guerra. As meninas judias, que como Anne Frank, se esconderam em apartamentos clandestinos para fugir dos nazistas. Mas cujas vidas não ficaram conhecidas, como a autora do diário, e foram esquecidas pela história. Paradoxalmente, os milhares de mortos anônimos em Hiroshima e Nagasaki são lembrados permanentemente como protagonistas da maior catástrofe provocada pelo homem nos tempos modernos.

Já o microscópio evoca olhar para a vida insignificante, olhar que tem paralelismo com o trabalho do escritor. Os personagens da literatura representam vidas quaisquer, que em verdade, somos nós, em dimensão universal. Através da ampliação de vidas minúsculas, percebemos a relação entre todos os seres humanos. Com o microscópio da literatura nos tornamos mais sensíveis à alteridade e ao conceito de universalidade. A morte é a equiparação da humanidade em comum, gênios ou medíocres, famosos ou anônimos, empresários ou trabalhadores.

Yoko Ogawa é uma autora japonesa nascida em 1962. Natural de Okayama, já ganhou praticamente todas as honrarias literárias de seu país natal (prêmios Kaien, Akutagawa, Yomiuri, Izumi Kyoka e Tanizaki), publicando mais de 20 obras de ficção e não ficção. O Nobel Kenzaburo Oe disse que ela “é capaz de dar expressão às maquinações mais sutis da psique humana, em uma prosa que é delicada, mas penetrante”. No Brasil, a autora tem publicado os títulos Hotel Iris (Leya Editora, 2011), O museu do silêncio (Estação Liberdade, 2016) e A fórmula preferida do Professor (Estação Liberdade, 2017).

O MUSEU DO SILÊNCIO | Yoko Ogawa

Editora: Estação Liberdade;
Tradução: Rita Kohl;
Quanto: R$ 37,84 (304 págs);
Lançamento: Outubro, 2016.

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49 – O HAICAI TROPICAL DE ADRIANA CALCANHOTO

A antologia Haicai do Brasil (Edições de Janeiro, 2014), organizada e ilustrada por Adriana Calcanhotto, é um apanhado de vários autores sobre a poesia japonesa no Brasil. Traz desde haicais históricos (de Monteiro Lobato e Afrânio Peixoto) a poemas síntese criados por Oswald de Andrade, Manuel Bandeira, Carlos Drummond de Andrade, Mário Quintana. A ideia geral da antologia, de acordo com o posfácio assinado por Eduardo Leite, é aproximar o haicai da poesia brasileira, mais especificamente, da poesia modernista.

O haicai é uma forma poética japonesa e seus fundamentos foram criados por Matsuo Bashô, no século XVII. Apesar de ser uma forma japonesa, o haicai tem muitos pontos de contato com o ocidente. Seu ritmo é familiar aos ritmos populares ocidentais. Usa versos com cinco ou sete sílabas, como a nossa poesia popular. A preferência pelo vocabulário simplificado, temas cotidianos, síntese de imagens contrastantes e registro do imediato conflui com os ideais do movimento modernista brasileiro. O papa do modernismo, Oswald de Andrade, criou o poema-pílula, espécie de epigrama que tem como base o humor. Diferente do haicai, que é o registro de instantâneos da natureza, os poemas modernistas buscam o testemunho da modernidade. Incorporam a paisagem das cidades no início do século XX, recriando cenas em que as novas tecnologias de então – o automóvel, bonde, o trem e o cinema – são protagonistas.

O haicai não entrou na ordem do dia com os modernistas. Um dos primeiros poetas brasileiros a publicar a poesia japonesa foi Monteiro Lobato, num artigo escrito em 1906. Afrânio Peixoto, em 1919, ampliou a divulgação, em outro artigo. Uma diferença gritante da poesia ocidental é que o haicai não usa rimas. Afrânio foi fiel a esta regra. Outros poetas brasileiros, como Guilherme de Almeida, não puderam se abster de usá-las. Além de rima, Guilherme também usava título, outro recurso inexistente no haicai:

Caridade
Desfolha-se a rosa:
Parece até que floresce
O chão cor-de-rosa.

Tanto o uso de rimas quanto de título enfraquecem o tom coloquial do haicai. O título reduz o efeito surpresa, direcionando o sentido do poema. Uma das forças do haicai é a ambigüidade, em que interpretação pode caminhar para vários sentidos. O haicai tem como tema não só a natureza, mas a transformação que o ambiente sofre durante as mudanças de estação.

A antologia de Calcanhotto lista vários poemas originalmente não escritos na forma de haicai. É o caso desta anotação de Manuel Bandeira:

Água de rosas
Ácido bórico
Essência de mel da Inglaterra

Ao encontrar a anotação no diário de sua mãe, o poeta logo descobriu ali um poema. Embora seja um terceto, não é nem haicai livre, o haicai adaptado no Ocidente, com título, rima, sem referência à estação do ano.

Outro exemplo de não haicai incluído na antologia é Drummond:

O pintor ao meu lado
Reclama:
Quando serei falsificado?

O terceto de Erico Veríssimo guarda alguma aproximação com o haicai, por citar um tema relacionado à natureza:

Gota de orvalho
Na carola de um lírio:
Joia do tempo.

Mais autênticos, os poemas de Jorge Fonseca Júnior, convencido pelo poeta japonês Masuda Goga a seguir as regras do haicai tradicional:

Escurece rápido:
Insistente, a corruíra
Cisca no quintal.

Millôr Fernandes retornou à trilha dos modernistas, reintroduzindo a rima e o humor:

Na poça da lua
O vira-lata
Lambe a lua

Ledo Ivo é pouco conhecido por ter se aventurado nas sendas do haicai, mas sua elegância e sobriedade seria acolhida pelos japoneses:

O lago habitado

Na água trêmula
Freme a pálida
anêmona

O poema japonês muito encantou aos concretistas, que retomam as ideias modernistas: valorização da fragmentação, da montagem, da síntese e da visualidade. Décio Pignatari aproxima o clássico haicai da rã, de Bashô, do poema visual concretista:

VELHA
LAGOA

UMA RÃ
MERG ULHA
UMA RÃ
ÁGUAÁGUA

Eunice Arruda e Teruko Oda são duas poetas excepcionais a seguirem a trilha do haicai tradicional. Pena que a antologia traga apenas uma amostra de cada. Subentende-se que a organização privilegiou os autores mais conhecidos:

Por entre as flores
Procurando pela mãe
Dia de Finados
(Eunice Arruda)

Sequência de clics –
Um turista japonês
Ao redor do ipê.
(Teruko Oda)

Seguindo a trilha dos concretos, Leminski teria sido o mais influente poeta a divulgar o haicai no Brasil. Como Milllôr Fernandes, Leminski opta, na maior parte de suas composições, pelo humor:

A noite – enorme
Tudo dorme
Menos teu nome

Os insights de Alice Ruiz também merecem destaque na antologia:

Varal vazio
Um só fio
Lua ao meio

Outro poeta, ou personagem, Satori Uso (na verdade, criação do poeta Rodrigo Garcia Lopes) merece destaque por incluir nos poemas a justaposição de imagens (os poemas são diagramados na vertical, simulando a escrita ideogramática):

Um saco de pães
Alguém remexendo
Primeiros ruídos da chuva

A antologia, como um todo, representa a corrente do haicai livre, entremeando tercetos de poetas brasileiros famosos como haicai. Vale como amostra do haicai praticado no Brasil, e menos como fonte de estudo. Mas é um exemplo típico da literatura brasileira dos últimos anos, que graças ao efeito Flip equipara arte a entretenimento.

HAICAI DO BRASIL | Adriana Calcanhotto (org.)

Editora: Edições de Janeiro;
Quanto: R$ 33,66 (168 páginas);
Lançamento: Julho, 2014.

48 LITERATURA – YOKO OGAWA E O LADO AFETIVO DA MATEMÁTICA

A Fórmula Preferida do Professor (traduzido por Shintaro HayashiEstação Liberdade, 2017), de Yoko Ogawa, é um romance que assusta, a princípio. Não vamos encontrar uma intriga clássica, narrando a história de amantes apaixonados ou desencontros familiares. Há, sim, um encontro, mas entre um trio inusitado: um velho professor de matemática, uma empregada doméstica e seu filho de dez anos.  Toda a narração, feita pela empregada, concentra-se, pasme, em fórmulas matemáticas.

Professor –  nem um personagem na trama tem nome – sofreu um acidente em 1975 e acabou tendo problemas de memória. Só consegue ter lembranças até o ano do desastre e a cada 80 minutos a memória volta à estaca zero. Ele passa a maior parte do tempo em casa, resolvendo problemas de matemática para revistas. Por ter gênio difícil, entra em conflito com as empregadas contratadas pela cunhada, sua tutora legal. Ao conhecer o filho da narradora, o Professor resgata uma outra paixão, a de ensinar. A curiosidade do menino – a quem apelida de Raiz  – e sua mãe alimentam uma amizade que durará até o fim de sua vida. A partir desse estranho encontro de gerações, Raiz irá absorver não só o amor por contas e equações, como também valores sobre respeito às diferenças, amizade e tolerância.

A narrativa, que começa em março de 1992, acontece na pequena residência do Professor. A paixão do docente pela matemática acaba contagiando não só o filho, mas também a empregada doméstica. E a paixão de Raiz, o beisebol, é compartilhada pelo Professor, fascinado pelo jogador canhoto Yutaka Enatsu, detentor da camisa de número 28 do time Hanshin Tigers.

O romance, publicado originalmente em 2003, fez decolar a carreira internacional da escritora japonesa, de quem a Estação Liberdade também publicou O Museu do Silêncio (2016). Best-seller instantâneo no Japão quando de seu lançamento, em 2003, A Fórmula Preferida do Professor acumula mais de quatro milhões de exemplares vendidos. Ganhou uma adaptação cinematográfica, em 2006, dirigida por Takashi Koizumi. Quem faz o papel do Professor é o ator Akira Terao, conhecida figura dos filmes de Akira Kurosawa e protagonista do primeiro filme dirigido por Koizumi, Depois da Chuva (1999).

Vale lembrar que depois de A Fórmula Preferida do Professor, Ogawa publicou, em 2006, An Introduction to the World’s Most Elegant Mathematics, obra em coautoria com o matemático Masahiko Fujiwara, um diálogo sobre a extraordinária beleza dos números.

Yoko Ogawa nasceu em Okayama, Japão, em 1962. Estreou em 1988 com Agehacho ga kowareru toki (A decomposição da borboleta), pelo qual obteve o prestigioso Prêmio Kaien, voltado a novos escritores. Já publicou mais de 20 obras de ficção e não ficção. Prêmios, aliás, não faltam em sua carreira, valendo menção o Akutagawa pela novela Ninshin karenda (Diário da gravidez), o Izumi Kyoka por Burafuman no maiso (O enterro de Brahman), e o Tanizaki por Mina no koshin (A marcha de Mina). Por A Fórmula Preferida do Professor, ela ainda arrebatou os prêmios Yomiuri e o da Sociedade Nacional de Matemáticas. Yoko Ogawa vive em Ashiya, província de Hyogo — nas proximidades de Kyoto — com o marido e o filho.

A FÓRMULA PREFERIDA DO PROFESSOR | Yoko Ogawa

Editora: Estação Liberdade;
Tradução: Shintaro Hayashi;
Quanto: R$ 32,63 (232 págs);
Ano: Março, 2017.

47 SOCIEDADE – A MORTE PARA OS JAPONESES

Costumes japoneses no ritual de morte surpreendem ocidentais.

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Túmulo do cineasta Yasujiro Ozu.

No Brasil, no Dia dos Mortos, até há alguns anos, era comum  famílias de descendentes de japoneses deixar um prato de comida ou bebidas diante de túmulos dos antepassados. Os nikkei ofereciam refeições (comida e bebida) aos mortos, seguindo a tradição xintoísta. Embora a prática ainda se mantenha no Brasil, hoje é condenada no Japão, considerada anti-higiênica. O pratinho de comida continua a ser oferecido no Hotokesama, o santuário doméstico em reverência aos antepassados.

Nas Escrituras Budistas lê-se que um dia o monge Mokuren viu a mãe morta sofrendo de fome nas profundezas do inferno. A oferta de uma tigela de arroz ajudou a aliviar a dor dela. A tradição de oferecer comida e bebida aos mortos vem daí. A prática foi proibida pelo governo japonês, por atrair corvos aos cemitérios.
Aos imigrantes, o governo japonês recomendava não expor o hotokesama na sala de estar. A cautela era para que a diferença de crenças não chocasse os brasileiros. O santuário era colocado no quarto de dormir. A clandestinidade favoreceu o ecumenismo. Assim, a maioria dos descendentes de japoneses no Brasil, além de batizados com nomes cristãos, aderiu ao catolicismo, mas não esqueceu de prestar reverências aos ancestrais.
JAPÃO
O culto aos ancestrais é disseminado nas corporações japonesas. Grandes empresas mantêm mausoléus para homenagear funcionários. São os monumentos empresariais, construídos pela Panasonic, Mitsubishi e Sony, entre outras, para cultuar os “soldados da empresa”. Hirochika Nakamaki, antropólogo do Museu Nacional de Etnologia da Universidade de Osaka, que estudou estes monumentos, conta que as construções   fúnebres  começaram a ser erguiaos a partir dos anos 50 no Monte Koya, no sul de Osaka, onde estão sepultados daymios (senhores feudais) históricos.
Diante de memoriais empresariais, pede-se votos de prosperidade nos negócios, prevenção de acidentes de trabalho e reconhecimento da preferência do consumidor. As empresas japonesas mais conceituadas são as que criam e mantêm memoriais para funcionários.
Nakamaki diz que os memoriais são uma extensão de relações entre executivos e funcionários, que reproduzem laços entre daymios e samurais. Ele sustenta que as multinacionais nipônicas adotaram o modelo do clã feudal e adaptaram rituais religiosos nas organizações para sobreviver no mundo dos negócios.
“Trazendo os santuários xintoístas, símbolo dos laços territoriais e os templos, dos laços sanguíneos para as organizações, os daimiyos capitalistas transferiram os laços de sangue e territoriais para as empresas. Assim carregaram símbolos budistas e xintoístas com valores mercadológicos, inserindo aspectos religiosos no ambiente de trabalho para transferir sentimentos familiares aos funcionários”, diz Nakamaki.

Os orientais não têm a mesma visão da morte que os ocidentais. A morte, tanto para chineses, japoneses, tibetanos e indianos, influenciados pela cultura budista, é ocasião de júbilo. O budista chora quando nasce uma criança e ri quando se vai um morto. Acreditam que morte é renascimento. Em vez de preto, usa branco para celebrar o luto.

O Dia dos Mortos no Japão é celebrado a 15 de agosto (O-bon). O-bon é uma festa budista em que é permitido aos espíritos mortos visitar as casas de familiares vivos para comemorar o encontro com eles. Acendem-se lanternas nas portas de entrada das casas para guiar os espíritos. No fim do festival (Tooro Nagashi) acendem-se lanternas nos rios, de onde os fantasmas retornariam ao mundo sobrenatural, após visitar os parentes durante vários dias.
O mais antigo registro sobre a comemoração do O-bon é de 657 e faz parte da história da Rota da Seda. Na época, a cidade de Asuka (hoje uma vila da cidade de Nara) era pólo da efervescência política e cultural, povoada por chineses, coreanos e persas que faziam a rota da seda, entre Pequim e arredores.
A origem da palavra vem de rituais persas de crença dos zoroastros: uruvan(urabon, em japonês): campo de energia ligando vida e morte. O zoroastrismo atingiu o Japão através da Rota da Seda fundiu-se com festivais budistas, que se tornaram populares a partir do ano 538.
Em Tóquio o Dia dos Mortos ainda é celebrado em julho, mas em outros lugares é em agosto – sétimo mês do calendário lunar, ainda considerado pela agricultura tradicional como época de plantio e colheita. As danças japonesas conhecidas em festivais japoneses como Bon-odori são originárias dos rituais fúnebres. Uma das funções das danças é espantar os maus espíritos, que também são reanimados na época.

47 SOCIEDADE – HAMAMATSU NO FUTSUU

Inspirado pelo texto do D Design Shizuoka (Shizuoka no Futsuu) sobre a vida cotidiana em Shizuoka, decidi apontar algumas das minhas impressões sobre Hamamatsu, considerada a Capital da Música do Japão e cidade que morei no passado. Retornando depois de 3 anos, fui tomado por um feixe de sensações que são difíceis de descrever para quem nunca esteve na cidade. Como me disse uma amiga, moradora na cidade há mais de 10 anos, é como se tivesse tirado férias e retornado para casa.

Yaramaika! Um dos motes mais famosos da cidade (e presente só nos guias turísticos), Yaramaika se refere ao estado de espírito livre de se tentar fazer as coisas sem a preocupação de algo dar errado ou o que seja. Dizem que esse espírito livre está presente em momentos específicos na cidade, como no famoso festival de Hamamatsu, cujo céu fica abarrotado de pipas. Mas hoje quero falar de música, algo que tempos atrás era algo tão entranhado no meu cotidiano nipônico que você acaba esquecendo, ignorando ou tratando como algo corriqueiro. Foi só mudar de cidades que, pronto, você percebe que está tudo lá. Mesmo.

Hamamatsu é a Capital da Música do Japão, sede da divisão de instrumentos musicais da Yamaha, da Roland, da Kawai e da Apolo, para listar as mais famosas. Lá se produz alguns dos instrumentos musicais mais famosos e cobiçados do mundo, graças a sua qualidade. Desde a adolescência sempre tive uma queda pelos pianos e sintetizadores da Roland e, quem diria, anos depois, moraria na cidade que é sede e participaria de grupos de jazz com músicos da empresa. Já a Yamaha foi minha casa por semanas sem fim…

O único arranha-céu de Hamamatsu foi construído no formato de uma Harmônica gigante, hoje um complexo comercial com vários escritórios e lojas. Lá tinha uma lojinha que vendia camisetas com os dizeres “Eu amo Hamamatsu” e coisas do tipo, algo que nunca me serviu por conta da minha altura. Em frente fica o Museu de Instrumentos Musicais de Hamamatsu, famoso por manter um acervo de instrumentos do mundo inteiro.

Yamaha, Hamamatsu

Contudo, Hamamatsu não precisa de monumentos para mostrar a música no cotidiano. Você sabe quando chegou em Hamamatsu quando consegue acompanhar orquestras e gruos de bukatsu em frente à Estação JR todos os fins de semana. Em outros horários, a Estação JR e os arredores do Entetsu se tornam palco para grupos amadores de cantores e outros musicistas, disputando na habilidade um público sempre cativo portando suas câmeras. Lá eu já peguei desde bandas de J-Pop almejando um lugar ao Sol, ao lado de violinistas de flamenco em transe no dedilhado, ou grupos de Taiko da Shizuoka Bunka Geijutsu Daigaku. Desta vez, Festival do Chá Verde no Entetsu. Com música, é claro.

Você sabe quando está em Hamamatsu quando se depara com protestos contra a energia nuclear feitos por senhores de sabe lá quantos anos tocando Acordeon.

Nas proximidades ficam as salas de concerto do Act City, agora em novembro sendo palco do Festival de Ópera de Shizuoka. Agora. No próximo mês será a casa de outros concertos. E por aí vai. Bancos, esculturas e tudo mais lembram a todo momento que você está na capital da música. Não sei se o Crown Hotel, que fica em frente, ainda tem aquele piano de acrílico transparente…

Caminhando para o centro e, já perto do Yamaha Kajimachi Center e do ZaZa City, são comuns os festivais de música num espaço que eu pessoalmente lembrava como “pracinha do ZaZa”. Desta última vez, dois festivais ocorriam ao mesmo tempo, o Festival de Blues e o Festival de Artes de Outono, com músicos profissionais de toda a Província de Shizuoka e, o mais importante, dando espaço para os músicos locais totalmente desconhecidos. Bandas marciais, orquestras de metais, grupos de hip hop, salsa, bandas de rock e grupelhos saídos dos bukatsu escolares estão por ali. Os músicos participantes apareceram não para “ficarem famosos”, mas sim para garantir a existência e continuidade do evento. Era bastante comum os grupos subirem ao palco e pedirem desculpas por “estarem tentando”, que “se esforçariam ao máximo” na execução das músicas.

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Em Itayamachi estava ocorrendo outro festival, assim como embaixo da Estação Daiichidori. Tudo com música. Sempre tem coisa embaixo da Estação Daiichidori, a estação do Akaden, o “Trem Vermelho”.

Você sabe quando está em Hamamatsu quando os semáforos das ruas não tocam apenas “pin pon” como em outras cidades nipônicas, mas sim melodias inteiras naqueles timbres de MIDI como aviso sonoro. Dá pra ouvir o tema do Totoro atravessando a rua.

Você sabe quando está em Hamamatsu quando encontra música em situações inesperadas. Desta vez, no restaurante Mein Schloss, um quarteto de jazz de mulheres na casa dos 20 anos como forma de manter os estudos, apavoradas pelo início de carreira, todas de terno como que à espera de uma entrevista de emprego, todas com livros de Jazz Standards abarrotados de Post Its coloridos marcando as páginas de partituras.

Hamamatsu

Hamamatsu tem uma população de brasileiros tão expressiva que eles têm uma escola de samba própria. Batucada de Hamamatsu. Com direito a carnaval e tudo. E, é lógico, tem grupos de japoneses fazendo samba por lá também.

Tempos atrás vi o Festival de Decoração Natalina de Hamamatsu. Você sabe quando está em Hamamatsu quando topa com um grupo de rock ‘n roll meloso de senhores com seus 60 anos, todos trajando terno branco e cachecóis, cantando num frio de 5 graus, para serem substituídos por corais de música gospel à la japonesa, com uma platéia empolgada mesmo diante do frio. Haja Caramelo Machiatto pra esquentar!

Victor Hugo Kebbe

Publicado originalmente aqui

47 HAICAI – O JAPÃO NO FEMININO – HAIKU

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Kitagawa Utamaro. “Três belezas de nossos dias”, 1793.

No ocidente, só conhecemos Bashô, Buson, Issa e Shiki, os quatro grandes mestres do haicai. Mas as mulheres também escreveram haicai, e algumas foram contemporâneas dos mestres.  Nas mais antigas antologias japonesas, raramente está registrada qualquer obra feminina ou, quando aparece, é omitido o nome da autora aparecendo como única identificação a do marido – “esposa de Nitsusada”, como acontece em 1663.

Durante muito tempo se pensou que o haiku era uma prática exclusivamente masculina. Nos séculos IX a XI, o  tanka tornou-se uma forma feminina por questões ideológicas. Como os homens escreviam poemas chineses, as mulheres dominaram o tanka. Assim, esta forma poética passou a ser conhecida como  feminina. Contrastava por ser  uma escrita solitária e individual, enquanto o haiku era parte de uma atividade em grupo. A partir do século XVII, mais mulheres começaram a compor haiku.

Os poemas a seguir foram traduzidos para o português lusitano por Luísa Freire, a partir de um antologia organizada por Makoto Ueda, Far Beyond the Field: Haiku by Japanese Women.

ao romper do dia,
à conversa com as flores,
uma mulher só

enomoto seifu [1732-1815]

na sombra das flores
um besouro a rastejar –
súbita chuvarada

takeshita shizunojo [1890-1946]

cachos de glicinia –
retém em si a chuva
até onde podem

hashimoto takako [1899-1963]

suas vidas duram
só enquanto estão a arder –
mulher e pimenta

mitsuhashi takajo [1899-1972]

o japão no feminino – haiku – séculos xvii a xx  – organização e tradução, luísa freire.assírio e alvim, 2007.

47 HAICAI – O JAPÃO NO FEMININO – TANKA

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Ono no Komachi,  Utagawa Toyokuni, 1810. Fonte: Museum of Fine Arts.

O  período Heian  (794 a 1185) começou quando a capital japonesa foi instalada em Quioto, e é marcado por um florescimento ímpar na  literatura japonesa. As mulheres da corte, que tinham como ofício entreter a imperatriz, são as principais responsáveis por este florescimento. Os homens  estavam ocupados em dominar conhecimentos sobre a língua chinesa e estudavam temas nobres, como a história e filosofia.  As mulheres, impedidas de aprender os ideogramas chineses, propagaram a escrita silábica (hiragana), escrevendo sobre  literatura e poesia, explorando temas como o amor, a natureza e a religiosidade.

Assim surgiu o romance O conto de Genji (Genji monogatari), escrito por Lady Murasaki Shikibu e O livro do travesseiro (Makura no sôushi), escrito por Sei Shônagon, considerados os dois maiores clássicos da literatura japonesa.

Também neste período surgem  as duas maiores poetas clássicas: Ono no Komachi  (834 – ?) e Izumi Shikibu (974-1034). As duas escreveram numa época em que as mulheres cultivavam grande independência. Embora os privilégios fossem masculinos,  às solteiras era permitido ter vários namorados, inclusive com homens casados, desde que usassem a discrição. As casadas só podiam ter um marido, enquanto estes poderiam ter vários casos extraconjugais. A mulher podia ser proprietária de terras e usufruir de renda própria. Também podia divorciar-se e separar-se, independente da opinião familiar.

O domínio da escrita e da poesia era um fator de ascensão social. A arte  não era confinada aos aristas, mas partilhada por todos os membros da corte. Qualquer acontecimento público ou privado era acompanhado de versos. A poesia era o veículo essencial para ativar os relacionamentos amorosos. A forma poética usada nesta época era o tanka, com 31 sílabas. O haiku ainda era uma forma usada só pelos homens.

A pesquisadora Luísa Freire publicou, em 2007, versões para o português lusitano de uma tradução em inglês,  de Jane Hirshfield e Mariko Aratami – The Ink Dark Moon: love poems by Ono no Komachi and Izumi Shikibu .

ono no komachi

Quando o meu desejo
se torna intenso demais,
visto a roupa de dormir
virada pelo avesso,
escura casca da noite.

*

Pescador não deixa

a baía plena de algas…

Vais abandonar

este corpo flutuante

à espera das tuas mãos ?

*

O vento que enreda

É tal qual as derradeiras

Rajadas de Outono.

Só um orvalho de lágrimas

É novo na minha manga.

*

 

Hoje de manhã

Até as minhas campainhas

Estão escondidas

Para evitarem mostrar

O cabelo em desalinho

*

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Izumi Shikibu

Deitada e sozinha
de cabelo negro solto
e emaranhado,
sinto desejo daquele
que primeiro veio me tocar.

 *

Desperta pelo cheiro
duma ameixeira florida…
A escuridão
da noite primaveril
vem encher-me de saudade

*

Não fiques corado!
Todos adivinharão
Que dormimos juntos
Sob as pregas enrugadas
deste manto avermelhado

o japão no feminino – tanka  – séculos ix a xi e o japão no feminino – organização e tradução, luísa freire.assírio e alvim, 2007.