59 LITERATURA – NAKASATO E A DUALIDADE NO BRASIL

Se você ler Dois (Tordesilhas, 2017), de Oscar Nakasato, apressadamente, vai concluir: mais um romance sobre dois irmãos em conflito. Mais um romance sobre memória.  Mais um romance sobre a ditadura militar do Brasil. Se ler e tiver o cuidado de refletir, verá que Dois,  não é mais um. O segundo romance do premiado autor de Nijonhin (Benvirá, 2012) é uma análise sobre o Brasil profundo contemporâneo.

As epígrafes guiam o leitor até Jorge Luis Borges, Milton Hatoum e Joubert de Carvalho – este, autor da canção “Maringá, Maringá”. E se poderia referenciar Machado de Assis (o conto “Esaú e Jacó”, que trata do confllito entre dois irmãos) ou os Irmãos Karamazov, de Dostoievski, embora, em entrevistas, Nakasato tenha preferido citar Rashômon, de Akira Kurosawa, que adaptou os contos “Rashômon” e “Dentro do bosque”, de Ueda Akinari. As obras japonesas discutem a questão do ponto de vista e da verdade objetiva e suas versões subjetivas.

Sob a máscara de Zé Paulo, o mais velho de quatro irmãos, Nakasato apresenta um personagem conservador, criado sob repressão e que acredita na opressão como instrumento pedagógico. E Zé Eduardo, o irmão sete anos mais novo, é o libertário, criado com amor pela mãe Cidinha e pela irmã Maria Luísa. As diferentes personalidades colidem não apenas num conflito familiar, por suas visões de mundo opostas. Também se confrontam no plano ideológico, representando as faces de uma nação rachada sob pólos ideológicos distintos.

Uma das virtudes de Nakasato é a de ser um narrador capcioso, tentando nos convencer que está contando a história de um conflito familiar. Mas o autor busca analisar, através de uma síntese, a esquizofrenia da identidade nacional. Sob a voz do relojoeiro Zé Paulo, a ordem, o progresso, a disciplina, a obediência  ecoam ideologias reacionárias, como o racismo:

Uma das virtudes de Nakasato é a de ser um narrador capcioso, tentando nos convencer que está contando a história de um conflito familiar.

“Eu conhecia aquela gente, era um povo de nariz empinado, eles achavam que eram melhores que nós, que não podiam se misturar. Eu ouvia a japonesada conversando na feira, aquela língua esquisita que ninguém entendia e riam, riam, como se estivessem rindo da gente. Não consigo entender, tantos anos no Brasil, e aqueles velhinhos, aquelas velhinhas, por que não aprendiam a falar português? E esta história de que são mais inteligentes do que nós, todo mundo falava, japonês é inteligente, mas isso não é verdade, a ciência já provou, você está na universidade e já deve saber disso melhor do que eu, não tem uma raça mais inteligente que outra.” (Página 26)

Interessante que o autor se desloque do ponto de vista étnico, adotado em Nihonjin para criar um narrador que vocaliza o estereótipo. E também revela que o racismo do filho foi adotado, já que o pai lhe dizia: “menino que toma café fica preto”. Embora a rememoração seja de Zé Eduardo, que graças ao seu pensamento divergente, adquirido pelo conhecimento sonegado nas salas de aula, encontrado em publicações clandestinas, como ele relata, conseguiu se libertar de uma ideologia que condena a diferença: não só os japoneses, como também os negros e as mulheres.

Através do contraponto dos narradores, o romance resgata a história do Brasil recente, agora contada não apenas por autores brancos descendentes de europeus, mas também pelas minorias. Vozes minoritárias, mas não menores, como as de Maria Valéria Rezende, Conceição Evaristo e Rosângela Vieira da Rocha compõem um panorama sobre a história do Brasil visto por olhares diversos.

Zé Eduardo é o retrato da miscigenação brasileira, casado com uma asiática e praticante do Budismo, depois de passar anos no exílio e ter sido prisioneiro político, acusado de subversão, por ter participado do Congresso de Estudantes em Ibiúna, em 1968. Eventos e personagens históricos, como o líder guerrilheiro Carlos Marighela e o estudante maringaense Antonio Três Reis, são resgatados e miscigenados à ficção.

Dois é menos profundo do que Lavoura Arcaica, de Raduan Nassar, o clássico que trata das fissuras e traumas da família brasileira, e menos político do que Dois Irmãos, de Milton Hatoum. Mas é uma narrativa que comprova a necessidade de contar a história do Brasil sob as mais diferentes perspectivas. Para a literatura, a objetividade é um fracasso e a subjetividade narra a tragédia do cotidiano, disfarçada sob os conceitos simplificadores de harmonia e felicidade.

Oscar Nakasato - DoisOscar Nakasato é um escritor brasileiro, neto de japoneses. É professor universitário e Doutor em Literatura Brasileira, autor da tese Imagens da integração e da dualidade: personagens nipo-brasileiros na ficção, publicada em 2010, e do romance Nihonjin (2012), vencedor dos prêmios Benvirá de Literatura (2011), Nikkei – Bunkyo de São Paulo (2011) e Jabuti (2012).

DOIS | Oscar Nakasato

Editora: Tordesilhas;
Tamanho: 184 págs.;
Lançamento: Novembro, 2017.

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42 LITERATURA – BUNKYO SP PROMOVE LITERATURA

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Capa da antologia II Concurso Bunkyo de Contos.

Você publicou um livro de ficção nos anos de 2014 ou 2015 ou gosta de escrever contos? Então pode participar do Prêmio Bunkyo de Literatura 2016 ou do III Concurso Bunkyo de Contos,  promovidos pela Comissão de Atividades Literárias – seção de Língua Portuguesa do Bunkyo São Paulo.

Nesta edição  serão selecionados  livros de ficção, em língua portuguesa que tenham sido publicados em 2014 ou 2015.  Interessados em concorrer ao prêmio devem encaminhar a ficha de Inscrição preenchida e  três exemplares da obra à secretaria da entidade até 31 de agosto. A entrega do Prêmio acontece em  novembro. Na edição de 2015 não houve premiados. Para suprir a falta, a instituição homenageou o advogado e tradutor Antonio Nojiri.

Contos

Também estão abertas as inscrições para o III Concurso Bunkyo de Contos,  cujo tema é “Sabores de Vida” . Os autores têm inteira liberdade de criação, desde que abordem situações que se enquadrem no tema principal. O  prazo para inscrição encerra no dia 30 de setembro  e pode ser feita por e-mail, por correio ou pessoalmente.

O 1º colocado no Concurso Bunkyo de Contos receberá o prêmio de R$ 2.000,00; o 2º será de R$ 1.500,00 e o 3º de R$ 1.000,00. No site,  o interessado poderá baixar Regulamento do III Concurso Bunkyo de Contos e a respectiva Ficha de Inscrição.

NOTÍCIA | JABUTI PREMIA DOIS NIPO-BRASILEIROS

 

O escritor brasileiro Milton Hatoum e Oscar Nakasato. (Foto: divulgação autor).

O  livro “Nihonjin”, do maringaense Oscar Nakasato foi premiado como melhor romance publicado em 2011, pela Câmara Brasileira do Livro, organizadora do  Jabuti, a premiação literária de maior prestígio no Brasil.

O prêmio foi uma surpresa para Nakasato. O JORNAL MEMAI fez uma entrevista com ele  aqui e uma  resenha sobre o livro Nihonjin aqui

Nakasato ainda concorre a mais uma etapa: no dia 28 de novembro serão anunciados os vencedores nas categorias livro do ano de ficção e não-ficção.

Uma outra nipo-brasileira foi  premiada pelo Jabuti. É a escritora e ilustradora Lúcia Hiratsuka,  com o livro de imagens (e-hon) Visita. Ela ganhou o segundo lugar na categoria ilustração de livro infantil e juvenil.

NOTÍCIA | OSCAR NAKASATO É INDICADO AO JABUTI

 

Jabuti é o terceiro prêmio que Nakasato concorre com Nihonjin.

O romance Nihonjin , de Oscar Nakasato, publicado pela Editora Benvirá (Saraiva) é um dos finalistas do Prêmio Jabuti de Literatura 2012. Nakasato, que é professor na Universidade Tecnológica Federal do Paraná (UTFPR), em Apucarana, é natural de Maringa, cidade do norte do estado do Paraná.

O livro, que conta a  história de um imigrante japonês no Brasil,  Hideo Inabata, foi publicado por ter vencido o Prêmio Benvirá de Literatura, em 2010. Em 2011, obteve o Prêmio Literário Nikkei, instituído pelo Bunkyo de São Paulo.

Os  livros que concorrem ao Jabuti foram publicados no Brasil entre 1º de janeiro e 31 de dezembro de 2011. Só o primeiro lugar ganha o prêmio de R$ 3.500. Os segundos e terceiros colocados levam a estatueta do Jabuti.

Os três vencedores de cada categoria serão revelados no dia 18 de outubro. Na premiação, em 28 de novembro, serão conhecidos os dois melhores livros publicados em 2011 em Ficção e Não Ficção – eles ganham R$ 35 mil cada um. (Com informações de O Estado de S.Paulo).