53 LITERATURA – “SONO”, DE HARUKI MURAKAMI É UMA FÁBULA SOBRE TERRORES FEMININOS

No conto Sono (Alfaguara, 2015, tradução de Lica Hashimoto), de Haruki Murakami, a protagonista está há 17 dias sem dormir. Ela é uma dona-de-casa japonesa com 30 anos, com marido dentista e filho pequeno. A insônia começa quando tem um pesadelo, e logo após, a visão de um velho magro de cabelos brancos ao pé de sua cama. O susto provoca o despertar contínuo.

A protagonista, sem nome, tem uma rotina monótona: vai ao mercado, cozinha, limpa a casa, lava a roupa e à tarde faz natação ou vai ao shopping. Eventualmente faz sexo mecanicamente com o marido. Durante o período insone, passa a desfrutar de prazeres clandestinos, como a leitura do livro Anna Karenina, de Leon Tolstoi, beber conhaque e tomar chocolate. Note-se que estas eram atividades corriqueiras em sua juventude, que ela deixou de fazer quando casou. Mais adiante, ela rodará de carro a esmo pela cidade.

É sintomático que o livro que a insone escolhe para ler seja Anna Karenina. O romance narra a história de uma aristocrata casada que tem um caso extra-conjugal. Assim como a personagem russa, a mulher precisa de algo que a tire da rotina. A leitura do romance a desloca para outro tempo e espaço, afastando-a da realidade prática.

“Após verificar que meu marido dormia, fui me sentar no sofá da sala e, sozinha, tomei o meu conhaque e abri o livro. Durante a primeira semana reli três vezes Anna Karenina. Quanto mais eu lia, mais eu descobria coisas novas. Esse longo romance possuía muitos segredos e estava repleto de respostas. E nas respostas descortinava-se um novo segredo. Era como uma caixa artesanal em que dentro de um mundo havia outro mundo pequenino e, no interior deste, outro mundo ainda menor. Todos esses mundos formavam um universo complexo. Um universo que sempre existiu e que aguardava ser descoberto pelo leitor. O meu eu de antigamente só conseguia desvendar uma pequena fração desse universo. Mas o meu eu atual era capaz de enxergar um mundo imensamente maior. Conseguia entender o que o grande Tolstoi quis dizer, ler nas entrelinhas, entender como estas mensagens estavam organicamente cristalizadas em forma de romance, e o que nele de fato superava o próprio autor. Eu conseguia enxergar isso tudo como se estivesse em pé no topo de uma colina e contemplasse a paisagem.” (Páginas 86 e 87)

Segundo Ricardo Piglia (O último leitor, Companhia das Letras, 2006), “a leitura de um romance (no romance) é um exercício de construção da passagem e do cruzamento entre ficção e realidade”). Murakami é especialista neste cruzamento, construindo túneis, bibliotecas, corredores escuros e poços em suas histórias. A leitura  é um ponto de passagem que permite ao leitor ser um outro. É a detecção de algo falta na vida. A saída do mal-estar existencial de Anna Karenina é o adultério e o suicídio.Anna Karenina é também leitora de romances (em uma cena, é retratada num trem, lendo um romance inglês) e representa a modernidade. No século XIX, a leitura de romances era considerada adequada ao universo feminino. As mulheres eram vistas como criaturas de capacidade intelectual limitada, imaginativas, frívolas e emotivas. A leitura de jornais era oposta à leitura de romances. Como relatavam acontecimentos públicos, estavam reservados ao público masculino.

A mulher insone de Murakami identifica-se com a angústia da personagem russa. A insônia a conduz à leitura e outras pequenas transgressões a um cotidiano sem sobressaltos. Ela não chega a concretizar o adultério, embora os passeios noturnos indiquem o desejo latente.

Além de Tólstoi, outra personagem leitora famosa na literatura é Madame Bovary. Para muitos escritores, tais personagens eram o signo da mulher oprimida que deseja emancipação. Murakami já investiu no tema feminino, na trilogia 1Q84 (Alfaguara, 2009/2010) e no livro de contos Homens sem mulheres (Alfaguara, 2015). O conto Sono aponta para um aprofundamento da discussão. O melancólico é que o desfecho da história continua seguindo o padrão do século XIX de Anna Karenina.

Haruki Murakami (村上春樹 , nascido em 12 de Janeiro de 1949), em Quioto, Japão. Em 1986, partiu para a Europa e depois para os EUA, onde acabaria por se fixar. Escreveu o primeiro romance Hear the Wind Swing em 1979, livro ainda não traduzido para português, mas seria em 1987, com Norwegian Wood, que o seu nome se tornaria famoso no Japão. Sua obra foi traduzida para 42 idiomas e recebeu importantes prêmios. Livros traduzidos no Brasil: Caçando carneiros (2001, relançado em 2014), Norwegian Wood (2005, relançado em 2008), Dance, dance, dance (2005, relançado em 2015), Minha querida Sputnik (2003, relançado em 2008), Kafka à beira-mar (2008), Após o anoitecer (2009), Do que eu falo quando eu falo de corrida (2010), 1Q84 (3 volumes – 2012, 2013), O Incolor Tsukuro Tazaki (2014), Romancista como vocação (2017).

SONO | Haruki Murakami

Editora: Alfagura;
Tradução: Lica Hashimoto;
Ilustrações: Kat Menschik;
Quanto: R$ 29,90 (120 págs.);
Lançamento: Março, 2015

 

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38 LITERATURA – TSUGUMI, DE BANANA YOSHIMOTO

Segundo romance de Banana Yoshimoto publicado no Brasil, Tsugumi narra a história da personagem-título e sua prima, Maria Shirakawa, de personalidades opostas, convivendo nos últimos anos da adolescência numa pequena cidade na península de Izu, n o litoral japonês.

Capa do livro "Tsugumi".de Banana Yoshimoto.
Capa do livro “Tsugumi”. de Banana Yoshimoto.

Tsugumi, Estação Liberdade, Tradução: Lica Hashimoto, 2015.

Personagens com personalidades opostos, Maria Shirakawa e sua prima Tsugumi convivem os últimos anos da adolescência numa pequena cidade na península de Izu, a oeste de Tóquio.  Maria, já morando na capital, compadece-se do destino da prima, de saúde frágil, que não pode abandonar a terra natal. Apesar da fragilidade física, Tsugumi tem uma personalidade forte, que chega a ser cruel.

Em férias de verão, Maria volta à cidade natal a fim de passarem uma última estada juntas. Ali, com o cão Poti, ela  viverá dias incríveis. A narradora é hábil em construir  uma trama com tons de leve melancolia, tendo como fundo a ideia da morte. Como em seu best-seller Kitchen (no Brasil, publicado pela Nova Fronteira, em 1988), Banana Yoshimoto  reproduz uma narrativa pontuada por  pequenos dramas e aventuras  – como  a reconciliação dos pais de Maria e a descoberta do amor por parte de Tsugumi.  A obra rendeu à autora, em 1989 — ano de publicação da edição japonesa —, o Yamamoto Shugoro, prêmio literário local concedido anualmente a livros que se destaquem como exemplos de arte narrativa.

Banana Yoshimoto (nascida Mahoko Yoshimoto, m Tóquio, em 24 de julho de 1964), é filha do poeta e militante de esquerda Takaaki Yoshimoto (1924-2012). Formada em literatura pela Universidade Nihon, arrebatou a crítica por sua obra de estreia, Kitchen, publicada em 1988, quando ainda era estudante universitária. Ganhou  o prêmio literário Izumi Kyoka.  A autora adotou o pseudônimo “Banana” pelo apreço que tem por flores de bananeira. Seus livros já foram traduzidos para mais de vinte idiomas. O tema da morte e a preferência por protagonistas mulheres são algumas das marcas mais evidentes na escrita da autora, cujos personagens nunca caem nos lugares-comuns: ao contrário, são sempre excêntricos. Bastante produtiva, Banana Yoshimoto lançou ainda, entre outros títulos, Mizuumi [O lago, 2005], Moshi moshi Shimokitazawa [Olá Shimokitazawa, 2010] e Tori-tachi [Pássaros, 2014].

NOTÍCIA | PALESTRA SOBRE TRADUÇÃO EM SÃO PAULO

Lica Hashimoto. Foto: USP.
Lica Hashimoto. Foto: USP.

Nessa sexta-feira (29), a partir das 14 horas, Lica Hashimoto, a tradutora de Haruki Murakami,   fala na palestra  Tradutor como pesquisador: referências intertextuais como uma ferramenta de tradução, que acontece na Faculdade Messiânica. A palestra divulgará os trabalhos dos  grupos de estudos interinstitucionais “Abordagens em Estudos de Artes, História, Linguística e Literatura Japonesa: tradução autóctone e tradição oriental” , vinculados ao Conselho Nacional de Pesquisa Científica (CNPq)  e sediados na Universidade Estadual Paulista (UNESP), Universidade de São Paulo e Faculdade Messiânica. 

 Para a tradutora,  traduzir uma obra literária deve sensibilizar o tradutor para  a  importância criar um diálogo entre várias disciplinas científicas. Isso é necessário para viabilizar a transferência cultural sem perder a experiência da alteridade. Através de exemplos selecionados em obras traduzidas, a professora Lica pretende-se colocar em foco a difícil aproximação entre o que se desenvolve no plano dos estudos teóricos da tradução e o que se considera ilícito nas esferas editorial e empresarial. 

Lica Hashimoto possui várias publicações na área de língua japonesa. Já ter traduzido 13 livros de literatura japonesa, entre elas  traduções foram: O livro do travesseiro, de Sei Shonangon e 1084 Livro I 1084 Livro II, de Haruki Murakami.

Data: 29 de novembro (sexta-feira),  das 14h às 16h30

Local: Auditório da FMO – Rua Morgado de Mateus, 77 – Vila Mariana – Informações e inscrições: tel. (11) 5081-5888.

http://www.faculdademessianica.edu.br

20 LITERATURA | USP LANÇA O CLÁSSICO "O LIVRO DO TRAVESSEIRO"

 

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Um trabalho realizado em conjunto por cinco professoras e pesquisadoras do Centro de Estudos Japoneses da Universidade de São Paulo (USP), durante onze anos resultou na monumental tradução de “O Livro do Travesseiro”, obra seminal  de Sei Shônagon  (c. 966-1020),  uma das primeiras mulheres a escrever narrativas na literatura japonesa, no século X. A obra, que teve orrganização de Madalena Hashimoto Cordaro , foi traduzida por  Geny Wakisaka (pesquisadora de Man’ Yõshu, o livro das Mil Folhas, outro clássico a poesia japonesa), Junko Ota, Lica Hashimoto, Luiza Nana Yoshida e Madalena Hashimoto Cordaro, todas professoras e pesquisadoras com larga experiência na tradução direta de originais da literatura japonesa. O livro é uma publicação da  editora 34 Letras, em parceria com a USP, e será lançado nesse sábado (23), na Livraria Martins Fontes, em São Paulo, das 11 às 14 horas.

“O Livro do Travesseiro” é considerado a porta de entrada mais certeira para o universo de costumes, valores e atitudes mentais que moldam, até hoje, a base de vida no Japão. Com cerca de trezentos textos curtos, que podem ir de algumas páginas a uma única linha, e que podem ser lidos em sequência ou com a liberdade do acaso, o livro compõe um belo inventário da cultura do Japão da corte, vista pelo olhar poético de uma grande escritora. Com a capacidade de produzir insights inesperados, Sei Shônagon ilumina tanto os pequenos fatos do cotidiano no Palácio Imperial, como os fenômenos da natureza, as sutis interações da vida social e a refinada trama de valores estéticos que enlaça e organiza praticamente todas as esferas da cultura.

Verdadeiro recenseamento dos costumes e práticas do período Heian — aquele em que se forma e sistematiza a estética propriamente japonesa, O Livro do Travesseiro compõe um registro dos afetos, da sensibilidade e do conhecimento de uma época. Sei Shônagon narra e descreve grandes acontecimentos festivos (como os festivais religiosos e musicais) e os complexos códigos de conduta, que se estendem desde as relações entre a Imperatriz e suas damas, entre pessoas de diferentes sexos, gerações e distintos graus na hierarquia do poder, até os mínimos e surpreendentes detalhes da etiqueta e do vestuário.

A obra de Shonagon inspirou diversos escritores, Jorge Luis Borges, Victoria Ocampo, Alberto Manguel, Peter Greenaway (que dirigiu o premiado The Pillow Book – O livro de cabeceira, 1996) . Seu estilo fragmentário, a princípio rejeitado e considerado obra menor, mudou de  estatuto a partir do século XIX e criou a “literatura feminina” no Japão. Com Shikibu Murasaki, autora de “Genji monogatari”, Shonagon é considerada a maior escritora do Japão.