50- A TRANSCRIAÇÃO DE POEMAS DE YOSA BUSON

Escotilha19imagem01A borboleta e o sino – uma antologia de haikus (Cultura e Barbárie Editora, 2016, tradução de Sérgio Medeiros) é um esforço de mudar poemas japoneses de Yosa Buson para a língua portuguesa. Sérgio Medeiros emprestou a expressão “poemas mudados para o português”,usada por  Herberto Hélder, que traduziu haicais e tankas, reunidos na antologia O bebedor nocturno. Neste empréstimo, o tradutor indica o caminho da transcriação poética, cotejando versões em inglês e francês e rudimentos de japonês.

A borboleta e o sino é uma publicação artesanal do selo catarinense Cultura e Barbárie. Além de haicais, separados pela estação do ano, traz reproduções de ilustrações de Egon Schiele. O título é uma referência ao poema mais conhecido de Buson:

no sino do templo
dorme
uma borboleta

A antologia traz os poemas em romaji, a transliteração da língua japonesa para o alfabeto romano. E também notas de rodapé para explicar aspectos da cultura japonesa, como este:

a raposa vem
vestida de cortesão
nesta primavera

De acordo com a nota, as raposas se fantasiam para pregar peças. Para o leitor não iniciado, cabe uma explicação maior: A raposa (kitsune) é um animal sagrado na mitologia japonesa. Tem poderes mágicos. Em geral, transforma-se numa bela moça para seduzir rapazes. Aqui, vê-se a raposa travestida num príncipe.

Há ecos intertextuais, referências à poesia clássica:

chego aos arrozais:
ouço a lua claramente
e percebo as rãs
***
no fundo do lago
uma sandália de palha:
chuva de granizo

O primeiro poema alude ao canto da rã, tema clássico da poesia chinesa e japonesa. O tema (kigo) foi subvertido por Bashô, no poema: velho lago / barulho de água / a rã salta. Com o segundo poema, Buson teria respondido a seu mestre com a percepção da transitoriedade de todas as coisas no universo. A percepção sobre a passagem do tempo é uma das chaves para compor e ler haicais.

Outro kigo clássico é flores caindo, ou flores que caem:

as flores caindo…
e o menino embaixo delas
limpa o seu calção

Estas reflexões são o objetivo do haicai: pensar sobre o sentido último de nossa existência.

A referência é o poema Uma flor que cai/ Ao vê-la tornar ao galho/ Uma borboleta!, de Arakida Moritake. E há, também, uma repercussão transversal da metamorfose operada por Bashô ao corrigir o poema de seu aluno Kikaku. O aluno escreveu uma libélula/ tirando as asas/ uma flor de pimenta. A versão de Bashô, propondo um exercício de compaixão é: uma flor de pimenta/ ao colocar asas/ uma libélula.

A pintura era um instrumento privilegiado para ajudar Buson a criar haicais. Só o pintor poderia ter esta perspectiva panorâmica ao observar um camponês:

Ao cruzar o campo
vestindo só roupas leves
vira uma manchinha

Ou aproximar-se de seu objeto, como um close:

noite de verão:
nos pelinhos das lagartas,
as gotas de orvalho

E outros aspectos culturais, não só da mitologia, são evocados, como o das modelos (bijins) retratadas em xilogravuras por artistas como Kitagawa Utamaro. E as catástrofes naturais que abalam o arquipélago:

a bela mulher
franze a testa ao mordiscar
uma ameixa verde
***
o cesto no chão
sente logo o terremoto
que estremece o campo

Por trás de poemas que têm como tema os elementos da natureza em cada estação do ano, oculta-se uma reflexão filosófica:

Flor de lótus branca:
será que o monge já sabe
quando vai cortá-la ?

Estas reflexões são o objetivo do haicai: pensar sobre o sentido último de nossa existência. Por que não escrever um tratado sobre o tema, como fazem os filósofos ocidentais ? Os japoneses preferem esta forma concisa, inacabada e aparentemente banal. Há 400 anos tenta transmitir uma mensagem. Quantos terão captado seus sentidos?

Yosa Buson é um dos integrantes do quarteto de mestres do haicai japonês. Renovou a poesia japonesa com Matsuo Bashô, Issa Kobayashi e Masaoka Shiki. Poeta e desenhista,  Taniguchi Buson nasceu em 1716, in Kema, na província de Settsu, Japão e morreu em 24 de dezembro de 1783, em Quioto. Nasceu em família rica e, como Bashô, abandonou tudo pela arte. Viajou pelo nordeste do Japão e estudou haicai com vários mestres. Em 1751 estabeleceu-se em Quioto, como pintor profissional, ficando aí a maior parte de sua vida. Mudou o nome para Yosa, cidade da província de Tango, onde viveu de 1754 a 1757. Começou a ficar famoso depois de 1772.

Sérgio Medeiros é professor de Literatura na Universidade Federal de Santa Catarina. Tem 16 livros publicados entre ensaios, traduções e poesia, com destaque para Sexo Vegetal (Iluminuras), Totens (Iluminuras) e O Choro da Aranha (7Letras). Sua obra poética já foi traduzida para o espanhol, o italiano e o inglês e foi finalista do prêmio Jabuti em 2008 e 2010 e semi-finalista do Prêmio Portugal Telecom em 2010 e 2012.

A BORBOLETA E O SINO | Yosa Buson – Sérgio Medeiros

Editora: Cultura e Barbárie;
Tradução: Sérgio Medeiros;
Quanto: R$ 50,00 (180 págs.);
Lançamento: Março, 2016.

 

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39 HAICAI – OS FRUTOS HÍBRIDOS DO HAIKAI

Mais dois livros apresentam suas versões do haiku adaptado no Brasil; Kaki, de Alvaro Posselt e Livro Arbítrio, de Lau Siqueira.

A forma poética japonesa haiku, que compõe um poema completo com apenas 17 sílabas ( ou sons) disseminou-se mundo afora depois de redescoberta pelos poetas simbolistas franceses, no início do século xx, e amplamente divulgado pelos poetas beatniks. no pós-guerra. Graças aos esforços dos poetas franceses e americanos, a poesia dos mestres Matsuo Bashô, Yosa Buson, Kobayashi Issa e Masaoka Shiki ganhou o mundo.

No Brasil, o haiku tornou-se haicai. Os praticantes mais conhecidos, como Paulo Leminski e Alice Ruiz  inspiraram-se no modelo francês,  em que o haiku é miscigenado com a trova. Eis porque aqui, quase sempre o haicai traz rima, como se vê em quase todos os poemas de Kaki, o mais novo livro do haicaista Alvaro Posselt. Completando a trilogia formada por   Tão breve quanto o agora (2012) e Um lugar chamado instante (2013), em Kaki (2015) o poeta se torna mais japonês, sem abrir mão da brejeirice brasileira:

Vento do oriente / Aqui caiu um caqui / que deixou semente

Uma folha cai / Sem pressa a estação começa / na folha do bonsai

Kanpai/ uma gota de orvalho / no saquê do samurai

Capa do livro Kaki.
Capa do livro Kaki.

O que o torna mais japonês algumas vezes são a remissão aos icones da cultura japonesa, mas há também aqueles poemas que seguem o rigor do haiku:

Passa a correnteza – / o reflexo da libélula / o rio não leva

Dias desiguais / Agosto deixa no rosto / uma ruga a mais

Bem mais rápidos são os tiros de letras de Lau Siqueira. Em Livro Arb[itrio (Casa Verde, 2015), o poeta homenageia a poeta Alice Ruiz, numa das partes do livro:

silêncio e estilo / agora é a vez / e a voz do grilo

pequeno e certeiro / o poema partiu-se/para ficar inteiro

perdi o encanto / parecia tudo / e nem era tanto

Mas é nos poemas mais longos que Lau solta sua filosofia, ou filosofree:

dialogar / com o vento / mesmo / sem ar / eu tento

Resistência

o que me sustenta/ sobre carne e osso / é não ter aprendido / a desistir / viver é voar / até sumir

Tatame

sábio e rápido / o pássaro faz ninho / no oco ou no topo / jamais no abandono / nunca seu reino / por um trono / no máximo um kimono.

Vê-se que a síntese de linguagem é a matéria-prima desta poética, seja qual a forma usada. Tanto Lau (em seu sexto livro de poesia) quanto Álvaro, à medida em que o tempo passa, tornem-se o artesanato da linguagem mais refinado. Para o poeta, não há maior felicidade do que encontrar as palavras justas para o seu dizer.

Capa do livro LIvro Arbítrio.
Capa do livro LIvro Arbítrio.

38 LITERATURA – VIAGEM A UM DESERTO INTERIOR

A escritora Leila Gunther lança “Viagem a um Deserto Interior”, diversificando sua produção, já que seu primeiro livro “O Voo Noturno das Galinhas” era de contos. Ambos foram publicados no Brasil pela Ateliê Editorial.

Ao conhecer  Leila Guenther, inevitável pensar em sua herança oriental. Apesar do sobrenome do pai alemão, Leila tem ascendência japonesa por parte de mãe. E aí vêm os estereótipos sobre quem tem uma outra etnia e é mulher, no Brasil. Pensa-se primeiro na etnia e a seguir no gênero para tentar definir a que grupo o autor pertence. Mas a poesia de Leila foge dos estereótipos, deixando-se tocar de leve pelo charme de pertencer a uma etnia milenar e ser feminina.

Viagem a um Deserto Interior é  dividido em cinco partes: Paisagens de Dentro, O Deserto Alheio, Castelo de Areia, Um Jardim de Pedra e A Possibilidade do Oásis. Cada parte está relacionada com um tema contemporâneo: solidão, o Outro, o estranhamento do cotidiano, o zen-budismo e amor. A autora publicou um primeiro livro, de ficção  O Voo Noturno das Galinhas pela Ateliê Editorial, que acaba de ser lançado em uma edição portuguesa.  O livro foi um dos 17 contemplados pelo Prêmio Petrobrás Cultural de 2012.

De acordo com o poeta e crítico Alcides Villaça, Viagem a um deserto interior contém “um espanto de vida a um tempo estóico e dilacerado, ressurgido de incêndios, vingando um calar histórico. Urro e desprezo podem acalantar a criatura ofendida, as inquietudes podem se abrigar numa forma zen, a paisagem contemplada pode guardar uma guerra dentro. ” O deserto explicita a metáfora do esforço zen-budista , visto no jardim seco zen-budista. A mente é como o jardim e das pedras e areias pode surgir um mundo mais profundo. As angústias não deixem de ser belas, porque constituem a beleza da paisagem humana.  Dominadas, nada resta a não ser contemplá-las, em doce abandono.

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Leila Guenther é formada em Letras pela Universidade de São Paulo e autora do livro de contos O Vôo Noturno das Galinhas (Ateliê Editorial), traduzido para o espanhol (Borrador Editores) e em Portugal.  Este lado para cima, (Sereia Ca(n)tadora, Revista Babel). Participou de  antologias de contos e poesia.  Para os palcos de Robert Wilson, adaptou a peça A dama do mar, de Susan Sontag (N-1 Publications), baseada em Ibsen, e traduziu A velha, adaptação de Darryl Pinckney para uma novela de Daniil Kharms.

POEMA

CIMENTO

Todas as fotos sumiram.
Seu rosto se desfez
como um muro aos poucos encoberto pelo musgo,
um muro cada vez mais rabiscado,
que vai perdendo a pintura,
até desabar com os anos de chuva e descuido
e deixar entrever a casa abandonada.
Uma foto apenas
quase derruída
sobre o meu
enquanto desaparecíamos.
Penso se o cachorro, 
aquele cão que se perdeu na mudança,
hoje também se lembraria de seu rosto futuro
reside em algum lugar de mim
tornado árido e áspero.
Um instantâneo
onde seu rosto se debruçava

 

38 HAICAI – MARILIA KUBOTA LANÇA "micropolis" EM SÃO PAULO E CURITIBA

A poeta Marilia Kubota lança seu primeiro livro de haicai “micropolis”, nesta quinta-feira (22), em Sâo Paulo e no sábado (24), em Curitiba.

Capa do livro "micropolis". Arte: Ronald Polito.
Capa do livro “micropolis” sobre ilustração de Ronald Polito.

A poeta Marilia Kubota lança seu primeiro livro de haicai “micropolis”,  nesta quinta-feira (22), em Sâo Paulo e no sábado (24), em Curitiba. O lançamento em São Paulo é promovido pela Lumme Editora, que publicou o livro, em 2014, e acontece no evento denominado “Recital Caixa Preta”, na Casa das Rosas, a partir das 19 horas.  O recital celebra os autores publicados pela editora, como Claudio Daniel (“Cadernos Bestiais”) e Contador Borges (“Lautréamont Anacrônico”). Em Curitiba, “micropolis” será lançado com outros dois livros: “Livro Arbítrio” (Casa Verde, 2015), do gaúcho Lau Siqueira e “Febre Terçã” (selo Off-Flip, 2013), da belenense Vássia Silveira, no Museu Guido Viaro, a partir das 20 horas.

micropolis traz 34 haicais, a maior parte escritos em oficinas de criação literária.  A capa do livro foi criada pelo poeta Ronald Polito e remete a um tema recorrente na arte japonesa, as pedras. No ano de 2014 Marilia Kubota começou a orientar oficinas sobre a forma poética japonesa, e escreveu alguns exercícios, que nunca havia experimentado antes. “Foi uma brincadeira. Jamais imaginei que poderia escrever haicais. Para mim, a poesia de Bashô, Issa e outros mestres japoneses é inigualável. Só pude me soltar porque escrevi sem pretensão de publicar um livro”, conta a poeta. micropolis é seu terceiro livro de poesia, antecedido por “Esperando as bárbaras”, de 2012 (Blanche Editora) e Selva de Sentidos, em 2008 (Água-forte Edições).

Embora este seja o primeiro livro, a autora organizou  um concurso de haicai, o Concurso Nacional de Haicai Nenpuku Sato, em 2008, nas comemorações dos 100 anos da imigração japonesa ao Brasil.   A partir daí, seu contato com a forma poética japonesa se aprofundou, orientando oficinas ou dando palestras sobre o tema.

neste outono
nem uma seta no alvo
pássaros nas nuvens

35 HAICAI – HAICAIS TRAZEM LIRISMO E HUMOR

36haicaiimagem01Nas ondas do haicai, Rose Mendes, Editora inHouse, 2014.

Primeiro livro de haicais de Rose Mendes (Rosemary Ruas Mendes), é um diário onde a autora faz breves anotações sobre a natureza. Muitos dos haicais, como já revela o título,  têm como tema o mar. O assunto é clássico na poesia, especialmente em Portugal. Na poesia brasileira,  foi explorado no romantismo  de Fagundes Varella e Gonçalves Dias. chegando até o século 20 na voz de  Cecilia Meirelles. Embora o Japão seja um arquipélago, o “mar” não é comum na  tradição poética do haicai.  Mais comumente,  os clássicos exploram o tema das águas :  tanques, lagos, chuva, rios, orvalho, sob forma de kigo – uma palavra-chave que designa a estação do ano. De Bashô, temos esses exemplos célebres:

Mar agitado —/ Estende-se até a ilha de Sado / A Via-láctea

O polvo num pote – / Sob a lua de verão / É tão breve o sonho

Lágrima no olho do peixe / choram as aves / primavera não nos deixe

Na poesia portuguesa, de Camões a Fernando Pessoa e Sophia de Mello Breyner Andresen é que abundam as citações. Não por acaso, em 2010, foi lançada uma antologia específica em Portugal.  O haicai, nessa vertente, traz a melancolia lusitana:

Lágrimas salgadas / o mar permanece nos olhos / desde o princípio (Casimiro de Brito)

Diferente da alegria tão brasileira:

E saber que um dia / serei onda  rindo / no teu mar de alegria (Hamilton Faria, Haikuazes, 2006).

Nas ondas do haicai traz um pretexto para refletir sobre a relação entre o mar e a linguagem. Além daquela trazida pela influência portuguesa, em que o mar é a imensidão e a aventura, há também o mar miúdo onde se pescam os  insights da poesia japonesa. Rose parece beber nessa segunda fonte, vislumbrando a imensidão em pequenos detalhes, como uma flanêur  passeando pela beira da praia.

Tarde de verão  / conchinha dupla-aurora / o mar leva e traz

Manhã de outono / Vão e vêm com as ondas / sonhos de juventude

Causos caiçaras / no casarão de avós  / Que saudade!

Nuvens escuras / Flutua pelo canal / círculo de gaivotas

Pedras espalhadas / apinhadas de mariscos  / Lembro de meu pai

Lufada de vento ? O cheiro do peixe frito / pela rua afora

Ah! Flutua / sobre o mar / a lua de maio

36haicaimagem02Entre arranhões e lambidas, Alvaro Posselt, Blanche, 2014.  O terceiro livro de Alvaro Posselt (Tão breve quanto o agora, 2012, Um lugar chamado instante, 2013) segue a linha do senryu,  o haicai humorístico da poesia japonesa. Ao contrário do haiku, no qual predomina o registro lírico e o aspecto sublime da vida, o senryu inclina-se a comentar o aspecto mais prosaico e popular do cotidiano.  O nome senryū vem do poeta Senryū Karai (柄井川柳, 1718-1790), que viveu no período Edo. Uma amostra de sua verve poética:

泥棒を dorobō wo / o ladrão
捕えてみれば toraete mireba / quando o pego
我が子なり wagako nari / meu próprio filho
No Brasil,  tivemos um humorista que usou a forma do haicai para praticar o  senryu : Millôr Fernandes. Eis uns de seus tercetos caústicos: 
Eis o meu mal /A vida para mim / Já não é vital.
Gatos também estão presentes nos haicais japoneses e brasileiros:
Um gato sem dono / Dormindo sobre o telhado — /Chuva de primavera.(Taigi)
As folhas caindo / Na roça em frente ao portão / Divertem o gato. (Issa)
janela que se abre /o gato não sabe / se vai ou voa (Alice Ruiz)
Uma característica do haicai livre praticado no Brasil é o uso de rimas.  A rima é consagrada na tradição poética brasilleira, por isso o haicai praticado aqui não pode prescindir desse efeito sonoro, como mostram os poemas de Alvaro:

Deus, dai-me um par de asas / com tanto gato esparramado / não há como andar pela casa 

Só come e dorme / em cima do sofá / um gato enorme

Em cima da fronha / um som no meio do sono / gato também sonha

34 LITERATURA | O JARDIM DE HIDEKO

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Por Akira Yamasaki

no jardim de hideko/equilibram-se colibri / cuitelicópteros

motor de moto na rua /manhã de primavera /  no jardim de hideko / da haste de antena / benteviu-me / três vezes seguida

da porta da cozinha / hideko contempla / o inverno na cerejeira / os olhos distantes / xícara de chá fumegante / nas mãos esquecida / pesam sobre as flores / silêncios de bentevis / e solidões esmagadas

hideko, amanhã a morte virá ao seu jardim, tocará flores e folhagens, e, especialmente, as pedras consumidas pelo silêncio das nossas tristezas incineradas / e então ficaremos juntos à sua espera, com mãos inertes e abraços pendentes de submissão aos caramujos condenados a subir com suas ventosas de cola deslizante pelas nossas pernas, costas e faces nuas, para alimentar-se do adubo e da caspa dos nossos cabelos / hideko, amanhã o sol virá ao seu jardim, escorregará com generosa luminosidade pelas palavras abertas e pelos calos, juntas e cicatrizes das plantas podadas centenas de vezes pelos bisturis do tempo / e então ficaremos juntos à sua espera, com nossas mãos molhadas de igrejas e desapegos, de perfumes indecifrados e de sabedorias de mantas e portais milenares onde os peregrinos param para descansar à sua sombra antes de seguir viagem

Akira Yamasaki é poeta e ativista cultural e mora no Itaim Paulista, bairro da extremo leste da cidade de São Paulo, desde 1964. Natural de Osvaldo Cruz, do interior do estado, foi um dos idealizadores do MPA – Movimento Popular de Arte de São Miguel Paulista, movimento de resistência cultural que impulsionou as artes na região até 1986. Os poemas acima fazem parte do livro Bentevi, itaim, publicado em julho de 2012, dentro do projeto Memória Musical.

 

 

32 KOTOBA | O RETORNO DA VERTIGEM E A OPÇÃO POÉTICA

Ukiyo-e "Tokonoma".
Ukiyo-e “Tokonoma”.

Depois de um intervalo intermitente, MEMAI  volta a ter atualizações mensais de artigos, ensaios e eventos, e  flashes e imagens sobre as artes japonesas, em sua página no Facebook.Voltamos no mês da estreia do blockbuster Godzilla, produção americana dirigida por Garethe Edwards no circuito comercial nacional. O monstro japonês Gojira, criado por Ishihiro Honda, já foi repaginado pelo menos 30 vezes, em filmes e ganhou até uma versão como personagem de desenho animado. Nas versões mais recentes, o lagartão, que representava o horror japonês à catástrofe nuclear, viu enfraquecer sua característica original como vetor de protesto político.  Para os fãs de Godzilla, as comparações serão inevitáveis.

Para nós, do MEMAI, o remake interessa dentro de uma crítica diacrônica, para conhecer a evolução do personagem ao longo da história contemporânea e  refletir sobre o seu significado em cada contexto histórico.  Mas deixemos a divulgação, alavancada pelo marketing da Warner Bros.,  para a grande imprensa. Preferimos divulgar  a caixa de  DVDs do cineasta Kenji Mizoguchi, contendo cinco clássicos de sua filmografia. Ou a saga de Tokuichi Idaka, registrada pelo cineasta independente nipo-brasileiro Mário Jun Okuhara no filme”Yami no ichi nichi- o dia que abalou a comunidade nipo-brasileira.

MEMAI opta pela divulgação da arte japonesa ou da arte que sofre a sua influência. Privilegia  o olhar poético antes do midiático. Às obras superexpostas dedica um olhar mais critico.E contempla as que permanecem  no tokonoma, o nicho que nas salas de chá guarda os documentos ou objetos sagrados no ritual da cerimônia de chá. Nem sempre teremos um  tokonoma  à disposição. Mas sempre podemos resguardar um nicho dentro de nós para guardar o que consideramos sagrado.

Marilia Kubota