51 LITERATURA – AKIKO YOSANO E O PODER DA POESIA

por Ayuko V. Sainohira

Japonesa, poeta, escritora, crítica literária, pesquisadora, educadora e ativista social. “Viveu” intensamente o agitado período do final do Século XIX até o início da II Guerra Mundial. Uma das mulheres mais famosas de sua época foi também a protagonista do Romantismo Literário no país.

50LITERATURAimagem01Akiko Yosano nasceu em Ōsaka, em 07 de dezembro de 1878 (11º ano da Era Meiji) e faleceu em Tōkyō, em 29 de maio de 1942 (17º ano da Era Shōwa). Seu nome de nascimento era Shō Hō, e ao se casar se tornou Shō Yosano. Akiko é seu pseudônimo como escritora.

Sua família de origem administrava uma loja de doces tradicionais na cidade de Sakai, e Akiko, boa na matemática, cresceu ajudando na loja. Aos 9 anos ingressou numa escola de sinologia e ainda na infância, aprendeu a tocar koto e shamisen, instrumentos japoneses de cordas. Na sua adolescência mergulhou na leitura de revistas literárias, romances contemporâneos e também clássicos antigos.

Por volta dos 20 anos, começou a publicar seus poemas em estilo lírico (tanka) em revistas e participou ativamente de um grupo de estudo literário para jovens. Em 1900, conheceu pessoalmente Tekkan Yosano, jovem maduro e energético escritor em ascensão. Contraindo uma relação amorosa com Tekkan (extraconjugal para ele na época), publicou seus tanka na revista Myōjō, da editora Shinshi-sha fundada pelo próprio Tekkan. No ano seguinte, saiu de casa e foi morar em Tokyo com Tekkan, e na Capital, publicou, com colaboração do namorado, sua primeira coletânea de poemas Midare-gami, aos 22 anos, usando o pseudônimo Akiko Hō. A obra, que desenha honestamente a sensualidade da mulher japonesa, impactou e chamou atenção da sociedade, e Akiko se estabeleceu como poeta do Romantismo. No mês seguinte da publicação do livro, em 1901, casou-se com Tekkan Yosano e com ele, teve doze filhos (perdeu um recém-nascido).

Em 1904, durante a Guerra Japão-Rússia, publicou o polêmico poema Kimi shinitamoukoto nakare, um libelo a favor da vida e contra guerra, e debatendo corajosamente com o escritor Keigetsu Ōmachi, seguidor da política nacionalista, opositor ferrenho da autora. Em 1911, colaborou com sua obra à 1ª edição da revista Seitō, primeira revista feminina do Japão, de literatura e ideologia social.

Em 1912, o jornal Yomiuri-shinbun iniciou a série Nova Mulher e tratou Akiko Yosano na sua 1ª edição, então, no dia seguinte, na partida dela para a Europa reuniram-se no porto mais de quinhentas pessoas, amigos, admiradores e curiosos, para a sua despedida. Akiko passou quatro meses em Paris, França, e conheceu também Inglaterra, Bélgica, Alemanha, Áustria e Holanda, junto com o marido que permaneceu na Europa mais tempo. Esta viagem gerou, dois anos depois, o livro Pari-yori (De Paris), assinado pelo casal, e nele discutiam a necessidade de liberdade da mulher em receber educação.

Com muitos filhos e a escassez de trabalho de Tekkan, o casal Yosano passou dificuldade financeira, e praticamente os escritos de Akiko e a rede de amizade do casal sustentavam a grande família, até Tekkan se tornar professor universitário, em 1919.

Em 1921, junto com o arquiteto I. Nishimura, o pintor e gravurista H. Ishii e Tekkan criaram a escola técnica de arte Bunka Gakuin, em Tokyo. A instituição foi a primeira escola privada mista no Japão, resistindo a repressão política durante a II Guerra Mundial e logo ganhou fama de “símbolo da liberdade, inteligência e arte”.

Em 1923, Akiko perde um grande trabalho literário pela força da natureza: o incêndio provocado pelo Grande Terremoto de Kantō queimou a edição pronta a ser publicada da obra Shin-Shin’yaku Genji Monogatari (Tradução Renovada da História de Genji) e também Genji Monogatari Kōgi (Palestra sobre História de Genji), que estavam guardadas na escola Bunka Gakuin. A obra, tradução moderna e integral da clássica do século X, da autora original Murasaki Shikibu, já era uma reescrita de sua publicação anterior, no entanto, com nova e ampla pesquisa. Mas a paixão pela arte venceu a tristeza desta perda: Akiko escreveu pela terceira vez a tradução do livro – aproximadamente dez mil páginas manuscritas-, e finalmente conseguiu publicá-la em 1938, quinze anos depois. Os fundadores da escola, inclusive casal Yosano, reconstruíram-na imediatamente após o Terremoto.

Em 1940, Akiko sofreu um AVC, ficando paralisada, e, após quatro meses em coma, faleceu em 1942. Deixou um grande volume de tanka (50 mil), traduções de obras clássicas japonesas para o japonês moderno, poemas em versos livres, pesquisas literárias, livros didáticos, artigos de crítica política e social, etc.. Publicou mais de 70 livros em vida. Teve grande contribuição para o movimento feminista no Japão: incentivando a independência econômica e psicológica da mulher, a sua participação política e a liberdade pela educação.

約束

いつも男はおどおどと
わたしの言葉に答へかね、

いつも男は酔つた振。
あの見え透いた酔つた振。

「あなた、初めの約束の
塔から手を取つて跳びませう。」

Compromisso

Sempre o homem,
sem jeito,
não sabe responder
às minhas palavras.

Sempre o homem
finge-se de bêbado.
Teatrinho barato.

“Então, meu bem,
vamos pular lá da torre,
de mãos dadas,
tal como você se comprometeu
lá no início.”

如何に若き男

如何に若き男、
ダイヤの玉を百持てこ。

空手しながら採り得べき
物とや思ふ、あはれ愚かに。

たをやめの、
たをやめの紅きくちびる。

Ei, Moço…
Ei, moço,
traga para mim
cem esferas de diamante.

Acha que consegue extrair
sem nenhum esforço?
Ai, que tonto!

Lábios vermelhos
de uma moça,
da mulher delicada e sensível.

男こそ慰めはあれ、
おほぎみの側にも在りぬ、
みいくさに出でても行きぬ、
酒ほがひ、夜通し遊び、
腹立ちて罵りかはす。

男こそ慰めはあれ、
少女らに己が名を告り、
厭きぬれば棄てて惜まず。

Homem

Os homens têm distrações:
Aproximam-se de autoridades,
Participam de guerras santas,
Comemoram com bebidas alcoólicas,
Brincam a noite toda,
Insultam ao ficar com raiva.

Os homens têm distrações:
Aproximam-se das mocinhas,
Abandonando-as ao se saciarem
e desprezando-as sem pena.

わが見るは人の身なれば、
死の夢を、沙漠のなかの
青ざめし月のごとくに。
また見るは、女にしあれば
消し難き世のなかの夢。

Sonhos

Num sonho, fui alguém.
Sonhei com a morte
como se fosse a lua pálida no deserto.
Num outro sonho, fui mulher.
Sonhei com a sociedade;
não se pode eliminá-la.

伴奏

われはをみな、
それゆゑに
ものを思ふ。

にしき、こがね、
女御、后、
すべて得ばや。

ひとり眠る
わびしさは
をとこ知らじ。

黒きひとみ、
ながき髪、
しじに濡れぬ。

恋し、恋し、
はらだたし、
ねたし、悲し。

Melodia Companheira

Sou mulher orgulhosa,
por isso,
eu sofro.

Suntuosos vestidos,
bens e ouro,
posição de madame.
Quero tudo!

O vazio do sono solitário.
Não saberá meu homem.

Olhos pretos,
cabelos longos.
Todos molhados.

Que saudade!
Que chato!
Que irritante!
Que triste!

Livro: 『晶子詩篇全集』Coletânea de Poemas de Akiko
Autora: 与謝野晶子Akiko Yosano
Editora: 青空文庫Aozora Bunko, 2012
(original: 実業之日本社Jitsugyō-no-Nihonsha, 1929 (4º ano de Era Shōwa)
Capítulo: 薔薇の陰影、雑詩廿五章 “Nuance de Rosa, 25 poemas diversos”
Artigo e Tradução: ビトリア齊之平Ayuko V. Sainohira, 2017

Ayuko V. Sainohira é japonesa, radicada em Vitória do ES/Brasil desde 2002. Professora de língua japonesa, tradutora, musicista e regente de coral.

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