58 LITERATURA – Em ‘Kitchen’, Banana Yoshimoto usa culinária e fantasia para falar de luto

Banana Yoshimoto - KitchenQuando a novela Kitchen, de Banana Yoshimoto, foi lançada no Japão, em 1988, tornou-se um fenômeno. Vencedor do prêmio da Revista Kaien em 1987, o primeiro livro da escritora japonesa foi publicado em 1988 e traduzido em mais de 20 idiomas desde seu lançamento. A tradução brasileira é de 1995, feita por Julieta Leite, da tradução italiana, e publicado pela Nova Fronteira.

O livro reúne duas novelas: Kitchen, dividida em duas partes, e Moonlight Shadow. Ambas têm como tema lutos múltiplos e solidão. Na primeira novela, a jovem Mikage Sakurai acaba de perder a avó, que a criou depois de seus pais morrerem. Ela é acolhida por um conhecido, Yuichi Tanabe, criado pela mãe – e depois Mikage descobre que a mãe, Eriko é, na verdade, o pai.

A morte e a solidão são os temas principais de Kitchen. Mas, há também, contrapontos de vitalidade, como a gastronomia japonesa e a transexualidade. A cozinha moderna de Yuichi é o lugar de sua casa em que Mikage mais se sente à vontade. A cozinha é o lugar em que Mikage estende seu futon (edredom), no grande apartamento da avó, depois da morte dela. É um lugar de acolhimento familiar e reconhecimento para enfrentar a solidão.

“Tive um sonho. Eu estava lavando a pia da cozinha da casa que tinha deixado naquele dia. O que eu mais me lamentava era me separar da cor verde clara do piso. Era uma cor que eu odiava quando morava ali, mas agora que precisava ir embora eu gostava muito dela. A casa estava vazia, as prateleiras e o carrinho estavam vazios. Eu já tinha empacotado tudo. Em dado momento, percebi que Yuichi estava atrás de mim, esfregando o chão com um pano. Fiquei animada ao vê-lo.” (página 43)

E também é a cozinha um ponto de passagem, não só da morte para vida, como tanto o espaço de fusão entre o tradicional e o moderno. É na gastronomia que se rastreia uma “cultura japonesa” na novela, com as referências culinárias mais conhecidas no ocidente: o ramen (lámen, macarrão frito), tempura,tofushoyu. Curiosamente, quando Eriko morre, Mikage resolve preparar um enorme banquete, com pratos de de vários países. À medida que o luto de Yuichi se aprofunda, são apresentados os pratos japoneses menos conhecidos: torta de enguia, nikuman (pães chineses), tanuki sobakatsudon.

Para resgatar seu protetor, Mikage leva a ele um prato de katsudon (tigela com costeleta de porco e arroz), numa aventura noturna em que arrisca a própria pele. Através deste gesto, que também é o resgate de uma expressão cultural – para os japoneses, comida é afeto -, ela consegue revelar o vínculo que foi se formando com Yuichi, iniciado pelo primeiro ato de compaixão dele.

Moonlight shadow

A morte e a solidão são os temas principais de Kitchen. Mas, há também, contrapontos de vitalidade, como a gastronomia japonesa e a transexualidade.

A segunda narrativa do livro, Moonlight Shadow, tem o título retirado de uma obra da cantora Momoko Kikuchi, citada na primeira novela. Também aborda um luto múltiplo, o de Satsuki, que perde o namorado, Hitoshi, num acidente de automóvel. O irmão do namorado, Hiiragi, perde a namorada, Yumiko, no mesmo acidente.

Para enfrentar o luto, Satsuki resolve correr à noite, ao longo de um rio. Uma noite, conhece uma misteriosa jovem, Urara, que a conduzirá à cerimônia de adeus de seu amado. Uma história da tradição japonesa, a lenda de Tanabata, que narra o reencontro de um casal separado em pontos distantes da Via Láctea, uma vez por ano, é que inspira a narrativa de Banana.

Como na primeira novela, há a citação do travestismo. Hiiragi busca reconstruir a presença de sua amada vestindo seu uniforme escolar. Também para ele, é o elemento fantástico que o reconduzirá à vida.

As duas novelas são extremamente banais. A linguagem delicada e a estratégia de inserir referências culturais japonesas de modo acidental na trama as salva do melodrama. É esta miscelânea, aliada ao tempero forte da transsexualidade, o fator do sucesso de Kitchen no mundo todo.

Além de Kitchen, Banana Yoshimoto tem apenas mais um livro traduzido no Brasil, Tsugumi. Em Portugal, foram publicados A Última Amante de HachikoAdeusArco-Íris e Lua de Mel, todos pela Cavalo de Ferro.

KITCHEN | Banana YoshimotoEditora: Nova Fronteira;
Tradução: Julieta Leite;
Tamanho: 168 págs.;
Lançamento: Maio, 2007.

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54 LITERATURA – HIRO ARIKAWA CRIA MELODRAMA COM GATO NARRADOR

Histórias com animais costumam atrair multidões. Por isto, muitos escritores criaram personagens felinos. Na literatura japonesa, temos Eu sou um gato, de Natsume Soseki, em que o narrador é um gato irônico, que ri das trapalhadas de seu dono. Relatos de um gato viajante (Alfaguara,  tradução Rita Kohl, 2017), de Hiro Arikawa, começa citando o famoso felino porque seu narrador é também um gato, Nana (em japonês, sete). O bichano tenta ser irônico como o gato de Soseki. Mas o universo que ele habita é mais doméstico.

Nana foi recolhido das ruas por Satoru Miyawaki. O dono é aficcionado por felinos. Quando criança, teve outro gato, Hachi (em japonês, oito). Separou-se dele quando os pais morreram. Nana vive cinco anos com Satoru e depois, por algum motivo misterioso, o dono precisa que outra pessoa o adote. Satoru contata antigos amigos de infância para adotar o bichano. Para encontrá-los, viaja pelo Japão. Nestas viagens, vai reencontrar não apenas os amigos, como também relembrar a infância e adolescência.

Satoru é um ser humano idealizado, que ama os animais e se torna excepcional depois da morte dos pais. Sempre solícito e gentil, é invejado pelos amigos, e este é motivo secreto pelo qual Nana se recusa a ser adotado por eles. Os amigos de infância têm relacionamentos conturbados, como é comum nas famílias: um tem conflitos com o pai autoritário desde criança, o outro não tem paciência com animais, o terceiro tem ciúmes da mulher, que já teve uma paixonite pelo protagonista. A tia de Satoru, a quem ele foi entregue depois que os pais morreram, é desenhada como socialmente inábil, apesar de ser uma juíza. Assim, Satoru se torna um ser angelical: parte desta visão romântica pode ser influência de Nana.

Relatos de um gato viajante é uma história do tipo kawaii – em japonês: fofo, adorável, amável. Kawaii designa produtos da indústria cultural, como animes ou canções J-Pop (o pop japonês), cuja personificação máxima é a gatinha Hello Kitty e os mutantes Pokemon. Embora Nana cite Soseki, a historinha do gato de Satoru nada tem a ver com o clássico. Eu sou um gato é uma crítica ácida sobre a sociedade japonesa. Relatos de um gato viajante é uma história melodramática sobre a relação entre um gato e seu dono. Mas é a fórmula certa para o mercado: no Japão, já foram mais de 400 mil exemplares vendidos.

Hiro Arikawa nasceu em 1972, em Kochi. Ganhou o Prêmio Dengeki para novos escritores, por Shio no Machi: Wish on My Precious em 2003, e o livro foi publicado no outro ano, no Japão. Seus romances são best-sellers e muitos deles foram adaptados para a TV e o cinema

.”Quando ele me encontrava por ali, eu o recompensava deixando que brincasse um pouco comigo, mas, mesmo que eu não estivesse, ele deixava, respeitosamente, sua oferenda. Às vezes outro gato encontrava a comida antes de mim, ou acontecia de o homem sair para algum lugar, e aí, por mais que eu esperasse, o croc-croc não aparecia. Mesmo assim, passei a ter uma refeição garantida praticamente todos os dias. Só que os humanos são criaturas muito caprichosas, então é melhor nunca depender totalmente deles. Um gato de rua esperto tem seus esquemas e se garante em vários lugares. E foi assim que começou minha relação com aquele homem — éramos apenas conhecidos, mantendo uma distância segura um do outro. Entretanto, logo quis o destino que essa relação se transformasse completamente. E esse destino doeu horrores. Eu estava atravessando a rua, de madrugada, quando o farol de um carro veio em cheio na minha cara. Tentei correr, mas uma buzina gritou nos meus ouvidos. Aí, já era. Levei um susto com a buzina, o que me fez demorar um segundo a mais para correr. Não fosse por isso, eu teria conseguido escapar fácil, mas a meio passo da calçada o carro me atingiu, com uma força espantosa — bam! Depois disso, eu não vi mais nada. Quando dei por mim, estava caído no meio dos arbustos da calçada. Meu corpo doía de um jeito que eu nunca tinha sentido na vida. Ah, mas eu estava vivo! Puxa vida, que situação. Tentei ficar em pé… só para despencar, com um grito. Ai, ai, ai, que dor! Era a minha pata traseira direita que doía absurdamente. Voltei a me deitar, sem forças, e lá fui eu lamber a ferida. Ah, não! Tinha um osso espetado. E agora? O que eu faço? Alguém me ajude!! Onde já se viu, um gato de rua pedir socorro? Não temos ninguém para nos acudir… Mas naquela hora eu me lembrei do homem, o que me dava a comida croc-croc toda noite. Talvez ele me socorresse. Não sei por que pensei isso, afinal, era só um conhecido que às vezes me levava uns agrados, e de vez em quando eu permitia um cafuné em troca. (Página 12)

RELATOS DE UM GATO VIAJANTE | Hiro Arikawa

Editora: Alfaguara
Tradução: Rita Kohl;
Quanto: R$ 29,90 (256 págs.);
Lançamento: Agosto, 2017.

 

 

52 LITERATURA — HIROMI KAWAKAMI NARRA A SOLIDÃO EM “A VALISE DO PROFESSOR”

‘A valise do professor’, de Hiromi Kawakami, foge de estereótipos romanescos.

51literaturaimagem01Em A valise do professor, ganhador do Prêmio Tanizaki, um dos mais prestigiosos do Japão, Hiromi Kawakami apresenta um romance inusitado entre uma mulher adulta e desiludida e um professor de literatura. O romance foge a todos estereótipos: a protagonista não é bela e decidida; seu par não é jovem e forte.

Tsukiko, 38 anos, uma mulher solitária e sem grandes objetivos na vida, costuma frequentar um bar. Ali, encontra casualmente um ex-professor de ensino médio, Harutsuna Matsumoto, trinta anos mais velho que ela. A princípio, aproximam-se pela coincidência de gosto culinário. Ao longo da narrativa, ela o chama apenas de Professor, por ter esquecido seu nome.

“Nessa noite bebemos ao todo cerca de cinco frascos de saquê. Ele pagou a conta. Na vez seguinte em que nos encontramos no bar para beber, foi a minha vez de pagar. A partir da terceira vez, separamos a conta, e cada um pagou sua parte. Este sistema continua, desde então. O temperamento de ambos foi provavelmente a razão de termos continuado a frequentar o estabelecimento assiduamente. Sem dúvida, não só a preferência pelos tira-gostos é semelhante, como também a forma de se relacionar com as pessoas. Apesar da diferença da idade, mais de trinta anos, sinto-me muito mais próxima dele do que de amigos da mesma faixa etária.” (pág. 13)

O Professor é um homem já maduro, formal e tradicional em sua maneira de se relacionar com os outros. Sempre com sua valise, sua severidade contrasta com a doçura de Tsukiko. O Professor ensina literatura e é culto. A ex-estudante, desatenta, não sabe recitar poemas japoneses, nem distinguir uma árvore de cerejeira.

Entre encontros e desencontros no bar, eles combinam passeios. Num domingo de verão, vão a uma feira perto de uma estação de trem; em outro, num outono, vão colher cogumelos com o dono do bar. Neste passeio, o Professor revela que foi casado, e sua mulher, numa saída, contrariando a ele e seu filho, comeu um cogumelo alucinógeno que a fez ter um ataque riso. Dez anos depois deste episódio, ela fugiria.

Alguns dias depois visitar a família, na comemoração de um  Ano Novo, Tsukiko tem um acidente doméstico. Aí ficamos sabendo de sua sensação de deslocamento na vida:

“A culpa é do retorno da casa agitada por minha mãe, irmão e esposa, sobrinhos e sobrinhas, os quais raramente visito apesar de vivermos no mesmo distrito. Há muito deixei de sentir esse tipo de mal-estar familiar. O problema é que de alguma forma pareço me sentir insatisfeita. É como, por exemplo, quando você encomenda alguns vestidos do seu tamanho, mas, no momento em que os veste, um deles está curto demais, outro de tão longo arrasta a barra pelo chão. A surpresa faz você despir as roupas, mas ao colocá-las em frente ao corpo, constata estarem todas exatamente do seu tamanho. É exatamente assim.” (Página 76)

O relacionamento conflituoso com de Tsukiko com a mãe é semelhante à do Professor com a ex-mulher. O desconforto familiar é um ponto de comunhão em ambos: a harmonia do amor familiar é rompida, o que explica a solidão, e a entrega ao álcool. Em alguns momentos, o leitor se dá conta que a vida de Tsukiko é dividida entre a realidade e o delírio.

O próximo encontro é numa festa de hanami – contemplação de floradas de cerejeira. Na festa, o Professor reencontra uma ex-colega, e Tsukiko, sai com outro ex-colega, Kojima. Aparentemente, cada um encontra outro par, mas Tsukiko e o Professor acabam se reaproximando para jogar Pachinko (máquinas de jogatina no Japão). Kojima ainda insiste em se relacionar com Tsukiko, mas ela descobre que seu amor é o Professor.

Um ponto controverso na tradução é a citação de pratos da culinária japonesa. Muitos são petiscos de izakaya (bar japonês) e estão relacionados às estações do ano. É um pouco difícil, para quem conhece esta culinária, decifrar que “enrolado de pasta de peixe” é kamaboko, ou “biscoito de arroz com pimenta” é okaki.

Hiromi Kawakami nasceu em Tóquio em 1958. Estudou ciências biológicas na Universidade de Ochanomizu e foi professora até 1994, quando estreou na literatura com o romance Kamisama [Deus]. Com Hebi o fumu [Pisar uma cobra], recebeu em 1996 o Prêmio Akutagawa. Desde então, vem sendo reconhecida e laureada em diversas premiações importantes, incluindo o Prêmio Tanizaki de 2001, por A valise do professor.

A VALISE DO PROFESSOR | Hiromi Kawakami

Tradução: Jefferson José Teixeira;
Editora: Estação Liberdade;
Quanto: R$ 34,90 (232 págs.);
Lançamento: Maio, 2012.