25 SOCIEDADE | HIKIKOMORI, UM FENÔMENO JAPONÊS

O  fenômeno hikikomori , o hábito de se trancar em casa por anos a fio, rompendo os vínculos sociais, não é exclusivo do Japão. Mas os pesquisadores o relacionam com muitas características da personalidade japonesa, como a introversão social aliada à exigência de alta performance no ambiente escolar e profissional.  A proliferação dos aparatos tecnológicos – computador, celular, games. redes sociais – facilitou o surgimento dos hikikomori em todos os países, inclusive no Brasil. Esses jovens, que têm entre 20 e 30 anos, em média, não estudam nem trabalham e muitos podem até viver com os pais, que nunca os veem em casa.

De acordo com pesquisas conduzidas pela professora Cecília Noriko Ito Saito,  os hikikomori  (a palavra vem da junção de hiku – puxa e komoru – retirar) se diferenciam dos otakus.  Esses últimos também são grandes adeptos da tecnologia, mas não rompem os laços sociais.  Pelo contrário, animês e mangás são temas de conversa e motivos para encontros.  Já os hikikomori têm aversão ao  contato do olhar, como mostra o filme Shaking Tokio, do coreano Bong Joon Ho .  Na história, um amante de literatura aprisionado em casa há anos tem sua rotina alterada. Durante um terremoto, uma entregadora de pizza desmaia em sua casa. Ele é obrigado a tocá-la e o contato físico acaba desarmando o seu isolamento social.

Shaking Tokio é uma sátira à radicalidade da introspecção nipônica, mas alerta para o fechamento que a tecnologia pode impor aos mais sensíveis.  A raiz do isolamento está no bullying, na experiência brutal do  abuso psicológico na infância ou na juventude. Uma opinião postada no fórum sobre o tema na rede Linkedin, afirma que o fenômeno é típico da complexidade urbana contemporânea : Acho que há várias subcategorias neste fenômeno, mas parece que, em geral se refere a pessoas que se tornaram tão magoadas e danificadas pelas indelicadezas e outras expressões de comportamento, sem compaixão, e também sofreram rejeição em mais de um sentido, tornando sua existência inútil – o que os torna assustados para enfrentar as durezas da sociedade moderna. Quando as pessoas costumavam viver em sociedades mais conectadas, com parentes e vizinhos olhando um para o outro, como em uma situação em estilo nagaya, o hikikomori era menos prevalente.  (SM, 01 de fevereiro de 2012, em Hikikomori – A vida enclausurada nas redes sociais, Cecília Saito e Christine Greiner, Intermeios, 2013).

A recessão econômica japonesa, que tem oferecido apenas empregos free-lance ao jovens, e a extrema competição também estão elencados entre as razões para o enclausuramento tecnológico. Desde 2007, o Ministério da Saúde japonês tem um programa para estimular os enclausurados a sair de casa. Através da visita de assistentes sociais, os doentes são abordados por cartas, telefonemas, e-mails e convidados a passear em parques ou para ver um filme.  Infelizmente, a taxa de  recuperação é em torno de 30% dos casos.

25 LITERATURA | DIÁRIO DE KIOTO

Geiko, gueisha de Kioto. Foto; Marcos Giannotti. (Divulgação).
Geiko, gueisha de Kioto. Foto; Marcos Giannotti. (Divulgação).

O artista visual e crítico de arte Marco Giannotti esteve em Kioto, no Japão, durante 1 ano, a partir de março de 2011.  Ele foi convidado a lecionar na Universidade de Estudos Estrangeiros de Kioto. Sua estada rendeu artigos sobre o  estranhamento diante da arte e cultura japonesa, publicados no jornal O Estado de S.Paulo. E também um caderno de artista: um registro de criações usando o washi, o papel artesanal japonês em colagens consideradas “impensáveis” para um artista nativo, segundo um crítico local.  Os textos, as obras e as belas fotos que tirou de suas visitas a templos e jardins, foram reunidos no livro Diário de Kioto, publicado pela WMF Martins Editora, em 2012 .

Gianotti chegou em Kioto um mês depois do pior tsunami da história do Japão . Seu primeiro texto, Contemplando pedras em Kioto, (reproduzido aqui, em seu blogue), fala dessa relação entre a instabilidade da natureza e a estabilidade conseguida através do esforço humano:  Em uma terra que treme, este jardim celebra o oposto, a experiência zen do Satori, do despertar para a vida. Num momento em que toda a nação se torna mais solidária devido a tragédia do  terremoto, seguido por um Tsunami que destroçou Fukushima, estas pedras são o exemplo da capacidade japonesa de procurar estabilidade quando tudo que “é solido parece se desmanchar no ar” a qualquer instante, diz, contemplando o jardim zen Ryoan-Ji.

Os  artigos tratam de temas diversos, como visitas a templos budistas e xintoístas, ou a vilas, como a Katsura, a museus contemporâneos, como o Benesse Art Site, em Naoshima, ou o Museu Miho. Outros trazem temas cotidianos, como  a descoberta de lojas especializadas em ukiyo-e, como a Nishiaru, localizada no interior de uma galeria comercial chamada Terachi Kyogoku. São crônicas que trazem não apenas informações sobre o exotismo japonês. A sensibilidade do artista  celebra o encontro entre as culturas, e guia o olhar para o inusitado, das imagens caóticas da metrópole ao cuidado minucioso com a natureza.

Além das crônicas sensíveis, Giannotti produz uma iconografia deslumbrante. Clichês culturais  como o torii ( o portal xintoísta),  pontes, pagodes, bambus : tudo é reconstruído em formas minimalistas, em composições coloridas, imitando o kiri-ê (colagem com recortes , em japonês).   “Impensáveis” para um artista japonês, as colagens refletem a criatividade brasileira, que tem referências tanto em Anita Maffalti como em Mário Pedrosa e Tomie Ohtake.

Ponte japonesa, colagem com washi. Marco Giannotti.
Ponte japonesa, colagem com washi. Marco Giannotti.

25 ARTES | AS CASAS JAPONESAS

Por Okawa Ryuko
As casas tradicionais japonesas eram comumente construídas em madeira. Por um lado, abundava a madeira de boa qualidade e, por outro, o recurso a ela permitia uma melhor ventilação e penetração da luz, o que convinha ao tipo de clima japonês. O problema era a suscetibilidade ao fogo, mas os edifícios em madeira compensavam com a sua resistência aos terremotos, tão frequentes no Japão, e por serem de fácil construção e demolição. O famoso Horyuji, uma estrutura de madeira do séc. VII, ainda resiste, o que demonstra a excelência da madeira como material de construção. A partir do século passado, o número de casas de cimento aumentou, mas um toque de madeira é algo de que os japoneses são incapazes de prescindir. A maior parte dos interiores das casas de cimento continua a ser de madeira, nem que se trate apenas de painéis de madeira. Existem certas partes das casas tradicionais a que podemos chamar paredes, komai-kabe. Consistem em camadas de argila, por si só decorativas e revestidas de finas tábuas de madeira nos locais expostos à chuva. O bambu, que além de belo é extremamente robusto e elástico, está presente nas cercas e nos tetos e serve ainda como suporte para as paredes de argila. São também utilizados como caleiras, beirais de telhado ou canos de água, visto serem ocos por dentro. A pedra, devido aos frequentes tremores de terra, não é utilizada como material de construção, mas surge algumas vezes como degraus ligando o edifício e o jardim.
Pedras encaminhando-se para a sukiya (casa de chá) de Senkeien, Yokohama. (Imagem: Japão Japan).
Pedras encaminhando-se para a sukiya (casa de chá) de Senkeien, Yokohama. (Imagem: Japão Japan).
A preocupação principal na construção da habitação japonesa tradicional é a não delimitação rigorosa do espaço interior e exterior:
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Procura-se a mais profunda inserção do edifício no espaço circundante, reduzir ao máximo a interferência na natureza. Cercazinhas leves de bambu, portas corrediças, jardins exteriores e interiores…
Cerca de bambu, pedras no caminho, telhado de colmo - a natureza portas adentro.
Cerca de bambu, pedras no caminho, telhado de colmo – a natureza portas adentro.
Os nakaniwa (jardins interiores) estendem em direção ao exterior os espaços interiores. De modo a impedir a obstrução da luz ou do ar, nos nakaniwa não se podem plantar árvores de grande porte ou em grande número. A escolha das plantas tem de ser cuidadosa. Geralmente, incluem uma lanterna de pedra ou uma bacia de pedra cuja função não é meramente decorativa, se o estilo for puro.
Sukiya (casa de chá) do Daidokuji: shoji velando um nakaniwa (jardim interior) com lanterna e bacia de pedra.
Sukiya (casa de chá) do Daidokuji: shoji velando um nakaniwa (jardim interior) com lanterna e bacia de pedra.
Basta recordarmos as casas árabes, rodeadas de muros altos e espessos, abrindo-se apenas para o seu próprio interior, resguardando-se do exterior, para se perceber o modo diverso dos japoneses verem o mundo e nele habitarem. A privacidade, no Japão, não é conseguida através da construção de muros, de portas com fechaduras, de janelas com vidro e persianas. É conseguida através de um comportamento formal, do respeito pelo próximo e pelas regras de educação. A parte de uma construção japonesa que mais chama a atenção é, sem dúvida, o telhado, ou os múltiplos telhados. Bem característica é a convivência de vários estilos de telhado (hisashi) no mesmo edifício. Seja qual for o tipo de telhado – kiri-zuma, yose-mune, iri-moya – apresentam beirais baixos e longos, de modo a resguardar as habitações das grandes chuvadas. A possibilidade de utilizar vários telhados diferentes facilita também a adição de novas assoalhadas.
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Os telhados costumavam ser de palha e de caules de planta até à Idade Média, quando começaram a ser também utilizados o cipreste e o cedro, técnica ainda hoje visível em templos e casas rurais. Por volta do séc. VI d.C., a arquitetura budista – proveniente da China – trouxe consigo as telhas, mas passaram-se milénios até serem utilizadas em residências. Seja como for, a área ocupada pelos telhados é imensa e reina sempre uma sombra densa sob o alpendre. Como notou Junichiro Tanizaki, o grande escritor japonês: “Se o telhado japonês é um guarda-sol, o ocidental é apenas um chapéu. Melhor, como num boné, os rebordos estão reduzidos a tão pouca coisa que os raios diretos do sol podem incidir nas paredes até ao nível do telhado.” Ainda por cima, além do longo telhado, a existência de um grande beiral e de uma varanda, já para não falar do filtro dos shoji (divisórias com aberturas cobertas com papel de arroz) permitem que apenas um pálido reflexo da luz do jardim penetre no interior. Tal espelha bem o gosto japonês pela sombra, pelos ambientes velados e a sua profunda repulsa pelo brilho vulgar. A penumbra, tênue e incerta, os japoneses sabem-no bem, tem um encanto sutil e discreto: “Não é que tenhamos uma reserva a priori relativamente a tudo o que brilha, mas, a um brilho superficial e gelado, preferimos sempre os reflexos profundos, um pouco velados.” (Junichiro Tanizaki) Recordemos, a propósito, a diferença entre o papel de arroz, com a sua leve rugosidade, as suas nuances de cor, as suas zonas opacas e o nosso papel, que rebrilha com um branco metálico e sem mácula, como que traindo essa obsessão, tão ocidental e por vezes tão perigosa, pela “pureza”.
Casa camponesa no distrito de Chabu, em estilo tradicional.
Casa camponesa no distrito de Chabu, em estilo tradicional.
A maior diferença entre as casas ocidentais e as japonesas é a concepção das divisões. No Japão dividem-se os espaços com shoji ou fusuma, não existindo fechaduras. Shoji é uma divisória de correr, com uma moldura feita de madeira lacada e coberta com janelas de papel de arroz para deixar a luz entrar, ainda que esteja fechada. Existem também as divisórias fusuma, igualmente de correr, feitas de papel muito espesso emoldurado em madeira. Assim, uma divisória shoji ou fusuma é, a um tempo, arquitectura e decoração. As fusuma, por exemplo, são decoradas com pinturas ou caligrafia.
Em primeiro plano, fusuma; em segundo plano, shoji.
Em primeiro plano, fusuma; em segundo plano, shoji.
Cada divisão pode funcionar como sala de estar, sala de jantar ou quarto de dormir. E basta remover as shoji ou fusuma para se obter uma divisão maior. A casa japonesa é, pois, multi-funcional e extremamente versátil na sua concepção. Hoje em dia, a maior parte das casas japonesas apresenta uma mistura de quartos com chão de madeira, tatami ou carpete. No entanto, a tradição japonesa é o revestimento do chão com tatami. Tatami são esteiras feitas de uma camada inferior de palha com cerca de 5 cm de espessura, tendo a superfície coberta com uma folha de junco entrançado. Tatami é fresco no verão e ajuda a manter o calor no inverno. Cada tatami tem cerca de 1,8 metro de comprimento e 90 cm de largura. A área de um tatami chama-se jo e é o jo que se usa para falar do tamanho de uma divisão, ou seja, diz-se “O meu quarto tem 8 jo” ou “O meu quarto tem 8 esteiras (tatami).”
Fusuma à esquerda, shoji à direita e tatami no chão.
Fusuma à esquerda, shoji à direita e tatami no chão.
Um tokonoma é um elemento essencial da casa tradicional japonesa. Consiste numa pequena alcova decorada com um rolo de pintura e pelo menos um ornamento, como um arranjo de flores ou peça esculpida em madeira. No entanto, a pintura ou ornamento, por mais valiosos, não devem atrair o olhar de forma grosseira, quedando mergulhados nessa parte particularmente sombria de uma divisão japonesa. Precede-o um pilar de madeira, por vezes um tronco escassamente trabalhado e preservado na sua original forma sinuosa.
O tokonoma é a alcova à direita.
O tokonoma é a alcova à direita.

Junichiro Tanizaki afirmou: “De cada vez que contemplo um tokonoma, essa obra-prima do requinte, fico maravilhado por constatar até que ponto os japoneses souberam utilizar os jogos de luz e sombra . (…) Numa palavra, sem outro suporte para além de simples madeira e paredes nuas, compôs-se um espaço recatado onde os raios de luz que aí deixamos penetrar produzem, aqui e além, recantos vagamente escurecidos. (…) Experimentamos a sensação de que, nesses locais, o ar encerra uma espessura de silêncio, que uma serenidade eternamente inalterável reina nessa escuridão.”

Tokonoma da Miyokian-taian, sukiya de Sen no Rikyu (o maior mestre do chá de sempre) em Kyoto.
Tokonoma da Miyokian-taian, sukiya de Sen no Rikyu (o maior mestre do chá de sempre) em Kyoto.

As janelas (mado), para além da sua dimensão propriamente utilitária – ventilação, luminosidade, vigilância do jardim exterior – têm uma enorme importância estética. Existem vários tipos de janelas, cada qual adequado a determinadas divisões ou propósitos. A tako-mado, por exemplo, só se encontra na cozinha ou nas instalações sanitárias. Seja na sala de recepção, seja na entrada, a maru-mado, a janela circular, é sobretudo visível no mais belo exemplo da arquitectura tradicional japonesa: a casa de chá – sukiya – essa “estrutura efémera, construída para abrigar um impulso poético.” (Kakuzo Okakura).

Maru-mado da sukiya do Kodaiji.
Maru-mado da sukiya do Kodaiji.
O espírito que preside à construção da sukiya é o wabi, um conceito estético e filosófico polissémico extremamente complexo e de difícil tradução (já o abordei no primeiro post deste blogue). A beleza triste do Outono é wabi. A solidão, a desolação de uma paisagem são wabi. A simplicidade, a sobriedade, a sombra, a recusa de ostentação, é wabi. O sentimento da melancolia é wabi. Assim, o estilo sukiya revela uma profunda afeição pelos materiais naturais e pela assimetria: ”É um domicílio do assimétrico, na medida em que se consagra à adoração do imperfeito, deixando propositadamente algo inacabado para que seja completado pelo jogo da imaginação.” (Kakuzo Okakura).
A chaleira no chão.
A chaleira no chão.
A sukiya evoca a natureza, a sua imprevisibilidade, mas mantendo, ao mesmo tempo, a harmonia e o equilíbrio. Desde logo, o portão é assimétrico tanto no seu design como na sua posição. O acesso à casa (roji) é encurvado; no caso de ser retilíneo, será construído em diagonal, impossibilitando a visão da casa para quem se encontra no portão. Este caminho tem geralmente um aspecto informal, de natureza em bruto e com a presença da pedra. Constitui o primeiro estádio da meditação, a primeira quebra com o mundo profano – a sukiya, na sua arquitectura e no seu propósito, a cerimónia do chá, está intimamente ligada ao budismo zen.
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A sukiya – onde “a brandura da idade cai sobre tudo” (Kauzo Okakura) – não deve impressionar de forma óbvia. É menor do que as mais pequenas casas japonesas (no estilo puro, a sua dimensão é de quatro tatami e meio) e os seus materiais devem sugerir pobreza, embora refinada. Foi elaborada, no entanto, com mais cuidado e originou mais despesas do que uma mansão de abastados. Os carpinteiros das sukiya formam uma classe aparte, distinta e honrada, entre os demais artesãos. As linhas exteriores de uma composição sukiya (uma casa inspirada neste estilo) devem ser rectas e contínuas e as aberturas (geralmente shoji) espaçosas, de modo a unificar o espaço interior e o mundo exterior da natureza em redor. Como protecção contra o sol de verão, penduram-se nessas aberturas estores de tabuinhas de bambu fendidas ou de junco. Também podem pender dos beirais do telhado.
Urakuen-joan. Esta sukiya é um tesouro nacional do Japão.
Urakuen-joan. Esta sukiya é um tesouro nacional do Japão.
Por baixo dos telhados, é por vezes construída uma varanda-corredor (espaços simultaneamente exteriores e interiores) com chão revestido de madeira ou bambu, para reforçar a ligação do edifício com o exterior. A sensação dos pés nus a caminhar sobre o chão de madeira no verão é inesquecível: um contato de uma frescura e, simultaneamente, de uma verdade calorosa como só é possível experimentar na própria natureza.
Corredores-varanda no Shugaku-in, em Kyoto.
Corredores-varanda no Shugaku-in, em Kyoto.
Tudo, as cores suaves, a luz moderada, deve inspirar neutralidade e sossego. No interior, não se avista uma única peça de mobiliário. O estilo sukiya é um hino ao vazio. Apenas ocuparão o espaço os seres humanos, essas figuras condenadas à transitoriedade. Esse fato realça a importância da construção e do material utilizado. “A beleza de uma divisão japonesa, produzida unicamente por um jogo sobre o grau de opacidade da sombra, dispensa quaisquer acessórios. O ocidental, vendo isso, fica surpreendido com este despojamento e julga tratar-se apenas de paredes cinzentas desprovidas de qualquer ornamento, interpretação perfeitamente legítima do seu ponto de vista, mas que prova que ele não conseguiu desvendar o enigma da sombra.(…) Para nós, essa claridade numa parede, ou antes, essa penumbra, vale por todos os ornamentos do mundo e vê-la não nos cansa nunca.” (Junichiro Tanizaki).
A cor sukiya.
A cor sukiya.
O brilho, o excesso, a ordem previsível, o óbvio, a exibição, choca o espírito japonês. Sentem-se desconfortáveis nas casas ocidentais, onde reina uma claridade crua, onde há excesso de mobiliário e decoração e onde as peças de metal foram polidas à exaustão e reluzem furiosamente: “…amamos as cores e o lustro de um objeto maculado pelo uso, pela fuligem ou pelas intempéries, ou que o parece estar, e viver num edifício, ou no meio de utensílios que possuem esta qualidade, apazigua-nos curiosamente o coração e acalma-nos os nervos.” (Junichiro Tanizaki).
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Bibl: Isabel Quelhas de Lima, A Casa Tradicional Japonesa, Ed. Civilização /Kakuzo Okakura, O Livro do Chá, Cotovia /Junichiro Tanizaki, Elogio da Sombra, Relógio de Água. Fotografias: Japan: Zoom in Travel/Introducing Japan, Kodansha/Japão, O Império do Sol Nascente, Círculo de Leitores./Pictorial Encyclopedia of Japanese Culture, Gakken.
Transcrito do original luso em  Japão, Japan.
Okawa Ryuko é o nome japonês de Claudia Ribeiro, que nasceu em Angola e atualmente vive em Portugal. Prepara o doutoramento em Filosofia das Ciências. Desde sempre se interessou pelo Extremo-Oriente. Estudou Chinês na China e japonês em Portugal. Frequentou ainda um curso de verão de Língua Estrangeiras na Universidade de Quioto.

25 HAICAI | INVERNO

"Persimmon in Snow", Tanaka Ryohei (b.1933) - 2006.
“Persimmon in Snow”, Tanaka Ryohei (b.1933) – 2006.
Silêncio sem fim / Num canto do jardim seco / o gato descansa

Alvaro Posselt / Curitiba / PR

 Manhã de inverno – / No chão úmido os pardais / Comendo alpiste.

Gilmar Júnior / Umarizal / RN

Quadrilha animada -/Um grupo de amigos dançam/Sob bandeirinhas.

Benedita Azevedo / Magé / RJ

 Lua de inverno -/ No ermo  do cerrado / Um uivo solitário

Carlos Viegas / Brasília / DF

domingo de inverno – / no silêncio da manhã / uma britadeira

Kathleen Lessa / São Paulo / SP

Caminho do sítio – / As flores- de- são -joão / por todos os lados.

Mahelen Madureira / São Paulo / SP

Próximo ao lixão / entre as fendas da pedreira / ninhos de urubus

Neide Rocha Portugal / Bandeirantes / PR

luz de lampião – / as agulhas vão e vem / ao tecer a manta

Regina Alonso/ Santos / SP

 Boneco de neve./ Na primeira tentativa/ Os dedos congelam.

Sérgio Pichorim / São José dos Pinhais / PR

 Na manhã de inverno / alunos agasalhados / não conseguem escrever

Silvio Gargano Júnior / Batatais / SP

Esses são alguns poemas publicados na Revista Nikkei Bungaku 44, editada pela Nikkei Bungaku do Brasil. Além dos haicais escolhidos para a edição, na parte em português a revista traz uma seleção extra do 30 Concurso Literário Yoshio Takemoto,  nas categorias haicai, poesia e conto em português, a última parte da tradução de Trilha Longínqua de Oku, de Matsuo Basho, feita pela professora de literatura aposentada pela UFRGS,   Meiko Shimon e um artigo sobre o poema tanka, de autoria de professora de literatura da USP, Neide Hissae Nagae. Interessados em publicar trabalhos na edição 45 podem enviar haicais, poesia e contos até 30 de setembro . Mais informações pelo email secretaria@nikkeibungaku.org.br

25 POLÍTICA |OS TABUS DA HISTÓRIA DOS NIKKEIS NO BRASIL

 

Foto publicada no livro do escritor Ichiro Tamai que revela a brutal repressão contra os japoneses na ditadura de Getúlio Vargas. Outro arquivo histórico que resgata a Verdade e a Memória Nipo-Brasileira. Foto: Abrangências.
Foto publicada no livro do escritor Ichiro Tamai . Divulgação: Abrangências.
Por Marilia Kubota
Dois projetos idealizados por nipo-brasileiros, Travessias em conflito, de Alexandre Kishimoto e Alice K.  e Abrangências, de Mário Jun Okuhara , estão ajudando a romper o silêncio sobre o lado negro da história da imigração japonesa no Brasil.  Travessias em conflito, organizado pelo Núcleo Hana,   realizou de 2012 a 2013 uma série de seminários, exibição de filmes  e dramatizações, culminando numa catarse em torno de um tabu mantido por anos na comunidade no Brasil: discussões sobre organizações ultranacionalistas que agiam durante o período Vargas, o envolvimento dos nikkeis na militância política nos anos 60/70 e a discriminação dos okinawanos.
Um dos  pontos altos dos seminários  foi o encontro do pesquisador americano Jeffrey Lesser (autor de Uma diáspora descontente) com  Chizuo Osava, militante da Vanguarda Popular Revolucionária, liderada pelo guerrilheiro Carlos Lamarca.  Osava, de codinome Mário Japa, foi torturado durante dois dias e duas noites pelo delegado Sérgio Fleury.
Os eventos do Travessias em Conflito foram filmados, estão sendo editados num documentário  e devem ser publicados em  livro. Em breve o Núcleo Hana deve retomar o projeto, com novas pesquisas, e criações dramatúrgicas.  Alexandre Kishimoto é neto do jornalista Koichi Kishimoto,  autor de   Isolados no campo de batalha na América do Sul, publicado no Brasil, em japonês, em 1947. O livro aborda os crimes cometidos contra os nipo-brasileiros durante a Segunda Guerra. A  primeira edição foi esgotada, e a segunda edição do mesmo ano foi confiscada das livrarias. Nos anos 1960 foi reeditado em japonês no Brasil; apenas na década de 2000,  o livro foi publicado no Japão, graças ao professor Shuhei Hosokawa. A família está tentando publicar a versão em português.
O projeto Abrangências  também aborda a violação aos direitos humanos dos  imigrantes japoneses, mas  nos anos 40.  O documentário  Yami no ichi nichi – o crime que abalou a colônia japonesa, dirigido por Okuhara,  estimulou o depoimento  de 14 vítimas de tortura do governo Vargas na Comissão Nacional da Verdade. O documentário  conta a história de Tokuichi Idaka, assassino do coronel  Jinsaku Wakayama, líder da Shindo Renmei, a maior organização ultranacionalista japonesa atuante na comunidade nipo-brasileira durante o período da Segunda Guerra.  Idaka foi preso durante 15 anos na Ilha Anchieta, em São Paulo. Quando saiu, foi hostilizado pela comunidade nipo-brasileira. Okuhara busca  uma retratação pública do governo brasileiro a vítimas de tortura e morte na  comunidade.
Para Okuhara,  um pedido de retratação pública do governo  pelas violações aos direitos humanos dos imigrantes japoneses é o reconhecimento do papel desses brasileiros na  história do pais:   Não só a comunidade ganha, mas cada um dos nipo-brasileiros que construíram e constroem o Brasil. A retratação seria semelhante ao processo de resgate de direitos dos nikkei nos EUA, onde, durante o governo Reagan, reconheceu-se o crime cometido contra  norteamericanos presos em  campos de concentração.  O cineasta esclarece  que a imagem  dos nikkei como bons trabalhadores, diligentes e honestos atende parcialmente à condição do povo nipo-brasileiro: Isto porque, o período da ditadura Vargas demonstrou a força de resistência dos imigrantes japoneses que sofreram uma brutal violência do Estado, e que a “comunidade” tem vergonha de colocar perante a sociedade maior. A cultura da vergonha,  com a cultura do sigilo e do esquecimento formaram uma mentalidade para a falta de enfrentamento. Se a comunidade  nega a existência ou generaliza os casos de tortura e morte de imigrantes japoneses, terá que rever os seus conceito e o seu papel na sociedade brasileira.
HISTÓRIA
Como é sabido, até a Segunda Guerra Mundial, os nikkei eram malvistos no Brasil. A entrada dos imigrantes causou acalorados debates no congresso nacional e nos jornais. Discutia-se a tese do Perigo Amarelo, criada pelos americanos, devido à  política de expansão imperialista japonesa . Nesse período de aberta hostilidade, surgiram obras como O Perigo Japonês, de Vivaldo Coaracy, publicado em 1942, no Brasil. O fluxo da imigração foi interrompido com a adesão de Vargas aos aliados, na Segunda Guerra. E tanto nos EUA como no Brasil, os imigrantes japoneses começaram a ser discriminados com violência. Os imigrantes, suspeitos de “ajudar o inimigo como espiões” foram evacuados  nos dois países ,  retidos em campos de concentração. A história é conhecida no EUA, onde 110 mil cidadãos foram presos, sendo metade deles americanos (descendentes de japoneses).
Mas no Brasil, pouco se falava até 1996. As pesquisas sobre racismo contra japoneses foram conhecidas até os anos 40.  Depois disso, divulgou-se apenas as que revelavam a ascensão da comunidade nikkei. São conhecidos alguns  campos de concentração de japoneses no Brasil, como o da Ilha de Acará, em  Tomé-açu, no Pará.
Já no Paraná, a delegacia de Antonina, em 25 de setembro de 1942, retirou 85 migrantes da cidade: 53 japoneses, 10 alemães e 22 italianos. Do litoral, o “trem dos evacuados” partiu para Curitiba, conforme contam Maria Helena Uyeda e Claudio Seto no livro Ayumi – caminhos da imigração. Os colonos foram expropriados de suas terras e presos  na Granja de Canguiri, que fica na Região Metropolitana de Curitiba. Durante semanas foram expostos à chacota de estudantes, instruídos para insultá-los  Os estudantes imitavam o mugido de vacas e o  relincho dos cavalos, já que a área era um estábulo. É uma página negra na história da comunidade no Brasil, mas que não deve ser esquecida.

25 ARTES | O POLÊMICO WEI WEI E OUTROS ORIENTAIS

Instação de Ai Wei Wei na Bienal de Arte de Curitiba.
Instalação de Ai Wei Wei na Bienal  Internacional de Curitiba.

O polêmico  Ai Wei Wei,  que faz de sua arte um protesto contra a liberdade de expressão na China, trará à  Bienal Internacional de Curitiba a instalação feita de bicicletas  Very Yao, a ser  exposta no pátio do prédio da Secretaria de Estado da Cultura (SEEC).  Ele está entre os mais de 100 artistas de 5 continentes que participam da bienal, que acontece de 31 de agosto a 1o. de setembro em Curitiba. O evento, já no calendário cultural da cidade há 20 anos, tem curadoria dos críticos Teixeira Coelho (MASP/Museu de Artes de São Paulo)  e Ticio Escobar (Trienal do Chile) nessa edição.

A ironia faz parte do trabalho de Wei Wei. Ele  manipula ferramentas midiáticas  como um gênio para publicizar suas obras, como mostra o clip Dumbass. No vídeo, o artista denuncia sua prisão domiciliar  por dois meses, em 2011,  pelo governo chinês, a pretexto de sonegação de impostos.  “Fique na linha de frente como um idiota, num país que se oferece a todos como uma prostituta”, diz um dos versos da canção do clip. A prisão também é tema de seu último disco,  A Divina Comédia, lançado em junho.

A artista japonesa Sakiko Yamaoka também foi selecionada para participar da bienal.  Sakiko nasceu em 1961, vive e trabalha em Tóquio, Japão. Atua com performance, video, fotografia e instalação. Define sua obra como esculturas que representam ação, tempo e relacionamento entre o artista e seu público, o artista e os materiais, na qual tenta criar uma amostra da condição humana. Em suas performances, por exemplo, os corpos humanos são considerados objetos. Sakiko participou de vários festivais de arte, na Ásia (Japão, Indonésia, Tailândia)  e na Europa (Suécia, Polônia e Escócia).

Além de Wei Wei e Sakiko, entre os nomes internacionais figuram Ann-Sofi Sidén (Suécia), Antoni Abad (Holanda), Luis Felipe Noé (Argentina), Katharina Grosse (Alemanha), Martine Viale (Canadá), Peter Kubelka (Áustria), Regina Silveira (Brasil) e William Kentridge (África do Sul).

Entre os artistas brasileiros,  a poeta Marilia Kubota,  editora do MEMAI teve uma obra selecionada pela curadoria de Literatura. Seu poema Trem-fantasma estará ao lado de outros poemas de autores de Curitiba e do Brasil. A curadoria foi feita pelo poeta Ricardo Corona, concorrente ao prêmio Jabuti de Poesia em 2012, com o livro Curare. Obras de poetas locais serão lidas por monitores do evento, dentro dos ônibus da cidade.  Todos os poemas  selecionados serão reunidos na antologia Fantasma Civil, a ser lançada no dia 17 de outubro, no Palacete Wolf, no Largo da Ordem.

NOTÍCIA | UFPR E TENRI PODEM FIRMAR CONVÊNIO

A Universidade Federal do Paraná (UFPR) pode estar prestes a firmar um convênio com a Universidade de Tenri, no Japão. Na última quarta-feira (14), um primeiro contato foi feito entre o reitor Zaki Akel Sobrinho e o professor Yoshikazu Yomochi, da Universidade de Tenri,  para aproximar as universidades e estabelecer um possível termo de cooperação. O reitor ouviu do professor Yomochi a proposta de um convênio que inclui intercâmbio ─ intelectual e cultural ─ de alunos e professores das duas universidades.

A sugestão da parceria surgiu da universidade japonesa, que pretende reformular seu curso de graduação em Língua Portuguesa até 2015 e ampliar a formação de alunos do Departamento de Estudos Brasileiros, fundado há mais de 20 anos. Apesar do contato ter sido feito pelo Departamento de Letras, pelo  professor Luis Gardenal, os intercâmbios podem se estender para outros cursos e também para uma área de tradição da Universidade de Tenri, o esporte. Da universidade japonesa, já saíram três campeões olímpicos de judô.

Para o reitor Zaki Akel, além de enviar e receber intercambistas, a parceria “dá continuidade ao processo de internacionalização da nossa Universidade”. Com início previsto para depois de 2015, o Termo de Compromisso deve ser assinado no ano que vem com uma visita do reitor da Universidade de Tenri à UFPR.