IMIN NÔ – III Encontro de Nô Gaku – Outono

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Na próxima terça-feira (04), a partir das 16 horas  acontece  o IMIN NÔ – III Encontro de Nô Gaku – Outono no Tucarena – PUC/SP. O IMIN NÔ é um evento realizado pela Associação de Nô Gaku, com apoio da Fundação Japão. A associação reúne grupos que representam quatro das cinco escolas do teatro clássico japonês:  Kanze, Hosho, Kongo e Kita, cada um com estilo próprio sobre o  Nô, um teatro que reúne representação, dança e música, estabelecido há 600 anos por Zeami Motokiyo no Japão. Os grupos apresentarão, juntos, a peça Funabenkei e outras do repertório clássico.

Funabenkei  relata a disputa de poder entre dois irmãos do clã Genji, que derrota o clã Heike, no século XII. A primeira parte da peça é  Tristeza de Shizuka, e narra a tristeza da esposa do guerreiro Yoshitune  por separar-se dela. O marido  precisa fugir de  seu irmão Yoritomo e parte numa viagem perigosa, num barco (fune) conduzido pelo monge o Benkei.

Na segunda parte, Luta contra o fantasma, Yoshitsune é atacado pelo fantasma de Taira no Tomomori,  samurai  que matou em combate. Ao final, o fantasma vencido desaparece nas ondas. O interlúdio é o Ai Kyogen, a história de Funabenkei em português, num texto criado especialmente para esta apresentação pelos artistas do IMIN NÔ.

Jun Ogasawara, criador do termo IMIN NÔ, define  essa recriação da tradição japonesa no Brasil como “nô de imigrantes, por imigrantes e para imigrantes”. A Associação Brasileira de Nô Gaku tem como objetivo dar continuidade à pesquisa e apresentações de peças clássicas, difundir e criar público para apreciação do Teatro Nô no Brasil.

O Tucarena fica na PUC/SP e o teatro tem entrada pela Rua Bartira, esquina com a Rua Monte Alegre, 1024 – São Paulo. Mais informações pelo telefone: 99318-3072.

NOTÍCIA | QUIMONOS E GRAVURAS JAPONESAS EM SP

Foto: divulgação.
Foto: divulgação.

Até o dia 28 de julho é possível ver a exposição A Arte dos Quimonos e as Gravuras Japonesas do Acervo Artístico dos Palácios,  no Palácio dos Bandeirantes, em São Paulo. A mostra reúne uma seleção de 30 quimonos do acervo do Museu Histórico da Imigração Japonesa no Brasil (MHIJB) e mais   30 gravuras ukiyo-e, pertencentes ao Acervo Artístico-Cultural dos Palácios do Governo do Estado de São Paulo.

A curadora Denise Matar escolheu os quimonos de um acervo de 400  peças do museu. As estampas de complexas tramas e padronagens, expressam  temas tão diversos como a estação do ano ou desenhos das lendas  japonesas. A exposição marca os 105 anos da imigração japonesa no Brasil, comemorada em 18 de junho e  os 35 anos da fundação do MHIJB.

Veja mais imagens dos quimonos expostos no Jojoscope.

A arte dos Quimonos e as Gravuras Japonesas do Acervo Artístico dos Palácios

Palácio dos Bandeirantes –  Avenida Morumbi, 4500  Morumbi – São Paulo/SP

Horário de visita: de terça a domingo, das 10h às 17h (de hora em hora)

Informações (11)2193-8282 monitoria@sp.gov.br

22 ENTREVISTA | LUGAR ALGUM DE ERICA KAMINISHI

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Por Marilia Kubota

Erica Kaminishi é uma desenhista que trabalha com minúcia na repetição de palavras, as quais se transformam em textura ao mesmo tempo em que reforçam sentidos e conceitos formais da obra (Rosimeire Odahara Graça).

Erica Kaminishi nasceu em 1979, em Londrina. Entre 1997 e 2000, fez cursos de arte no Japão e na Inglaterra. Em 2004 formou-se em Artes Plásticas pela Faculdade de Artes do Paraná. Em 2005 e 2006, fez Pós-Graduação no Departamento de Artes Visuais e  Cinema da Nihon University, em Tóquio, onde também cursou o mestrado, em 2009.  Antes de terminar o doutorado, na Universidade de Tama, mudou-se para Paris.

Seu primeiro prêmio importante aconteceu em 2006, o Prêmio Estímulo, dado pelo  12º Floss Silk Visual Art, do Japão. Em 2008, recebeu o Prêmio Especial Tagboat Award Exhibition, também de Tóquio. Em 2009, o Sawamoto Noriyoshi, da Nihon University College of Arts, e em 2010, o Mostra de Artistas no Exterior, da Fundação  Bienal de São Paulo. E no mesmo ano, o Prêmio Funarte de Arte Contemporânea 2010. Em 2012, recebeu a Bolsa Produção em Artes Visuais , da Fundação Nomura.
Em 2003, participou da exposição  Wakane – A Arte Nipobrasileira no Paraná, no Museu de Arte de Londrina e na Galeria da Caixa Econômica, em Curitiba. Em 2006, fez coletivas em  Gunma e Tóquio. Em 2007, participou da  International Art Triennale,  da Universidade de Artes de   Osaka. Em 2010, da Aichi Triennale, em Nagoya e em  2012, da  Echigo -Tsumari Art Triennale, em Niigata. Fez individuais em Curitiba, Nagoya, São Paulo, no Tokyo Opera City, em Florianópolis.

A entrevista a seguir foi dada um dia depois da abertura da exposição Lugar InComum,  montada no Museu de Arte Contemporânea do Paraná. Erica estava em trânsito, entre Curitiba, Florianópolis e São Paulo, organizando as três mostras de sua temporada brasileira em 2013.  A artista londrinense deve voltar a a expor em Curitiba no fim do ano, apresentando  a exposição Palavras Fluidas, na  Casa Andrade Muricy.

1. Quando você era criança, gostava de desenhar ?  Quais foram os seus primeiros passos em direção às Artes Plásticas ?

Na verdade, não gostava muito de desenhar. Tive uma infância normal. Lembro que via  meu pai desenhando – ele gosta de desenhar, trabalhar com madeira, inventar. Mas como trabalhava muito, era raro eu ver ele desenhando. Em casa, todos gostavam de trabalhos manuais. A minha vontade de desenhar e frequentar ateliers começou aos 13, 14 anos, porque eu queria estudar Arquitetura e fui procurar um estúdio de desenho. Sempre gostei de fazer maquetes na escola. Então eu pensava em ser arquiteta. Daí , por indicação de um vizinho, fui procurar o atelier da artista plástica e professora Yoshiya Nakagawara. Ela me acolheu de braços abertos.  Tive aulas de desenho, pintura, escultura, e várias técnicas de arte todos os dias, durante três anos.  

2 -Muito jovem, você foi estudar Artes na Inglaterra e no Japão. O que representou essa experiência para você ?

Assim que terminei o colegial, queria estudar numa faculdade japonesa. Na época, meus pais haviam voltado do Japão, onde trabalharam como dekasseguis. Minha irmã havia morado em Tóquio e aí decidi ir para o Japão. Fui com a cara e a coragem, não sabia falar japonês fluentemente. Quando cheguei lá, comecei a estudar japonês durante meio período e no outro, trabalhar como dekassegui, numa empresa de telefonia. Foi um período de grande aprendizagem nas artes. Eu freqüentava os museus de Tóquio e como ainda estávamos na fase da bolha econômica, não havia crise, os museus traziam grandes artistas europeus.

3 – Nesse período você chegou a conviver com  artistas japoneses?

Não, era muito jovem. Só depois, quando fiz um curso de cerâmica. Não consegui entrar numa faculdade de artes japonesas em 1997, lá o sistema educacional é diferente, você precisa ter mais um ano de estudo, é preciso estudar 12 anos. E os cursos de graduação são caros. Então decidi estudar por conta própria. Entrei numa escola de cerâmica em que a maioria dos alunos estudava arte como passatempo. Mas era divertido, a gente viajava pelo interior para queimar as peças. No ano de 2000, peguei o dinheiro que consegui poupar com meu trabalho e fui para Londres estudar inglês. Pensei em estudar Inglês, fazer faculdade de artes no Brasil e depois voltar para o Japão, com bolsa de estudos do Monbushô. Sabia que era importante estudar Inglês para as provas. Desde o primeiro ano da faculdade eu já tinha esse objetivo de voltar ao Japão.

4- Até voltar para o Brasil você não fez trabalhos de criação próprios ?

Quando voltei para o Brasil, parece que o meu conhecimento estava acumulado. Na época  da professora Yoshiya eu desenhava e aprendia, mas  não tinha desenvolvido meu estilo. Copiava muito, até da professora. Quando cheguei no Brasil, tinha muita vontade de escrever sobre a experiência no exterior. Escrevia diário,  era uma fase de adaptação. É complicado ficar muito tempo longe, então eu escrevia muito, desenhava, meus cadernos eram recheados de escrita com desenho. Aí começou a se formar um embrião de minha obra, do desenho com a escrita.

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Metáfora do inconsciente, 2001.

você consegue se observar? você consegue ler todas estas minúsculas palavras? você consegue ver tudo claramente? você consegue ler todas as formas de consciência? (Yoshiya Nakagawara Ferreira)

5 – Em seu site, você publicou: “O desenho sempre fez parte do meu repertório artístico, estando  próximo da ideia de um diário visual, cujos elementos eu encontro na poética da palavra escrita – ora minha, ora de outrem. Fale mais  sobre isso.

Ontem eu estava dando uma “limpa” nos meus trabalhos antigos e me surpreendi: nossa, eu fazia isso. Era uma espécie de diário, mesmo.  Usava pastel oleoso como técnica, porque é barato. Eu pegava uma ponta fina e escrevia sobre o pastel, em vários bloquinhos de papel.  Ano passado, pesquisando sobre a palavra escrita como imagem e a imagem como palavra escrita , descobri que vários artistas já usaram isso. Essa fusão entre escrita e imagem é uma conquista da arte moderna, vem da pintura moderna, do dadaísmo. Mas também é parte de um processo pessoal. Como absorvi muita coisa, fui acumulando informação. E surgiu a vontade de escrever. Eu vivia na internet, trocando e-mails com pessoas da área de literatura.  Lia bastante literatura em geral. Só comecei a ler  poesia na segunda temporada em que passei no Japão, os poetas brasileiros e de língua portuguesa. Esse período inicial foi da escrita do meu pensamento, de auto-expressão e até rebeldia. Por exemplo, um casal de amigos guardou um registro de diário meu, juvenil, em que escrevi; “sociedade hipócrita!” (risos).Como eu já tinha uma formação em artes visuais, através da escrita,  conseguia me expressar de forma mais clara.

6 – O crítico japonês Takeshi Kanazawa, da Universidade de Seian, diz que a sua tendência mais marcante é a construção de imagens por meio de palavras. “Formas singelas e abstratas, sobrepõem-se e se expandem, evoluindo para figuras orgânicas que se transformam em progressões contínuas.” Letras e palavras se misturam ao desenho, quase subvertendo a função expressiva da escrita: as letras é que desenham as imagens.

No começo, eu não dava muita importância à composição, à escrita como forma. Era mais solto, como se fosse uma página de caderno. Aí fui desenvolvendo meu processo de criação e comecei a compor com a escrita como uma forma plástica. Para facilitar a participação do espectador, sempre escolho poemas que têm a ver com meu trabalho. Às vezes coloco uma impressão dos poemas que usei para que o espectador possa ler. No começo, os textos literários inseridos na imagem eram mais claros, eu fazia linhas. Daí fui juntando mais até virar um pontilhismo.

Série IV – Reprodução de uma Flor, inlucindo nomes de flores do Haicai . Exposto em  Yokohama,  em 2008.
Série IV – Reprodução de uma Flor, incluindo nomes de flores do Haicai . Exposto em Yokohama, em 2008.

7 – E ideia de inserir mapas do Japão, é uma busca por um território imaginário ?

Sim. Os nikkeis têm uma imagem do Japão meio fora da realidade. O mapa funciona para recriar um espaço que é teu e não é. Quando me aproprio dos mapas japoneses, eles se tornam meus. Quando recorto da minha maneira, tornam-se meus territórios. É a visão de nós,  nikkei, que nos apropriamos  de um Japão que é só nosso, só existe em nossa imaginação. Quando você vai para o Japão, descobre um país totalmente diferente. Existe um choque quando se vai lá pela primeira vez. No meu caso, a experiência familiar de um Japão nostálgico é muito forte. Quando eu era criança, na minha casa tinha muitas imagens do Japão, fotos, pinturas do Monte Fuji. E ficou na minha memória a imagem de uma foto bem grande de uma cachoeira. Nunca soube qual o nome, a região. Engraçado, que uma vez, eu estava viajando com meu marido na região do Monte Fuji, fomos visitar uma cachoeira bem famosa e eu me dei conta que já a conhecia. Lembrei aquela foto da minha infância.É estranho isso, um lugar que te pertence e não, ao mesmo tempo. A maioria dos nikkei têm uma nostalgia de um lugar ausente. E isso é o que o Fernando Pessoa diz  a nostalgia de um lugar ausente.

8 –  E os nikkei acabam tendo uma identidade diaspórica, indo de um lugar a outro, primeiro do Japão para o Brasil e agora do Brasil para o Japão.

Como os nikkei sempre foram uma comunidade fechada, a questão da tradição cultural tinha um grande peso.É interessante que a partir da terceira geração existe um resgate da história nikkei. A terceira geração, a nossa, foi a da recusa, a vergonha da identificação com a cultura japonesa. A partir da quarta geração há um resgate dessa cultura, talvez porque o Japão esteja na moda.

Exposição "Growing Memories", realizada na Trienal de Echigo.
Growing Memories, realizada na Trienal de Echigo, 2012 .

– Ao contrário da visão comum do jogo como uma forma lúdica de entretenimento, você diz que o jogo pode ser perverso. Por que essa visão ? E qual a função da interatividade com o público nesse “jogo perigoso’?

A questão do jogo começou em 2004, quando eu fiz uma exposição no Museu Metropolitano de Arte (Muma), em Curitiba. Fiz os desenhos como módulos, como se fossem os quadrados do jogo de damas. Eu gostava  de ler sobre a teoria dos jogos, o aspecto lúdico, as teorias de George Gadamer e Huizinga sobre o jogo na arte. Essa questão do jogo sempre esteve presente na minha obra. Com a escrita, por exemplo, você precisa chegar perto para entender o trabalho. Essa aproximação também é um jogo: você precisa ler para entender. A questão da perversão surgiu quando participei de uma apresentação em Kyoto e a curadora do Museu de Arte Contemporânea de Tóquio perguntou, quando você coloca a questão do jogo no seu trabalho , também tem que ver o lado perverso, como se estivesse lucrando com a colaboração do outro. Você usa a participação do público, como se precisasse da mão-de-obra dele para que o trabalho se complete.

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Memórias insulares, Museu de Arte Contemporânea do Paraná, 2013.

10 – Essa foi uma informação nova a respeito do jogo, um conceito que você desenvolve em projetos como Mi casa, mi vida, Growing Memories e Memórias Insulares, usando peças de quebra-cabeças para montar paisagens ou mapas.  O público participa escrevendo, desenhando. Você consegue ainda ver essa interatividade de forma lúdica ?

Para mim o que conta é a troca. Quando fiz a exposição Entre o vício e o puro, apresentada no Museu Metropolitano de Arte, em 2003, percebi que o jogo só existem quando conta com mais de um participante. Existe a questão da troca, mas também ultrapassar os limites do sagrado da obra de arte. O “não tocar” de algumas galerias e museus. Através do jogo você faz com que o público se aproxime da obra. O espectador tem que mergulhar no jogo do artista pra poder entender a obra.

11 –Qual a influência que seu trabalho têm da vanguarda da arte tropicalista, como e Hélio Oiticica e Lygia Clark ?

No período em que comecei esses trabalhos mais participativos, eu estava fazendo o doutorado no Japão, na área de novas mídias. E todos os trabalhos com novas tecnologias envolvem interatividade.Convivi com colegas que criavam obras interativas, usando a tecnologia. E as aulas eram do tipo como desenvolver robôs, como fazer os objetos falarem. Aí pensei que poderia trazer esses recursos  para a arte clássica. Pesquisando, descobri que no Brasil o Oiticica, a Lygia Clark, já trabalhavam com a arte participativa. Foi bom saber que eu estava sincronizada com a modernidade da arte brasileira. Da minha parte, foi intuitivo.

Pedra da instalação "O Jardim", profanada por crianças, em exposição em São Paulo, em 2011.
 “O Jardim”, em exposição em São Paulo, em 2011. A instalação está sendo  reapresentada no Museu de Arte Contemporânea do Paraná, 2013.

12 – E como você tem visto a  interatividade de suas obras com o público ?

No Japão, o público gosta muito de participar. Idosos, adultos, crianças. Talvez porque a cultura japonesa é muito baseada na escrita, os cartões Tanabata,  os ema dos jinja, a caligrafia. Como o meu trabalho tem a ver com o gestual da escrita, tem maior receptividade no Japão. Tinha fila para participar dos quebra-cabeças da exposição Mi casa, su casa,  na Trienal de Aichi e de Growing Memories, na Trienal de Ichigo.  Eu entregava uma peça do quebra-cabeças em branco e o participante desenhava ou escrevia o que quisesse. Agora os brasileiros também podem conhecer esse trabalho na exposição Memórias Insulares, que está no Sesc Ipiranga, em São Paulo e participar.

13 – A arte clássica japonesa é uma referência ou é muito ultrapassada ?

Quando fui pela segunda vez ao Japão, no mestrado, estudei muito a arte clássica japonesa. Além das disciplinas do mestrado, também frequentava os museus de Tóquio. Acabei usando algumas informações em minha poética, por exemplo, a matéria-prima  do Nihon ga, a arte tradicional japonesa, como o papel arroz. Nunca fiz  pintura à moda japonesa, mas gosto de simular as cores da arte clássica, como o dourado e o prata. Nos meus desenhos, gosto  de fazer o contorno em preto, como no Ukiyo-e, a forma de composição, que trabalha o ma, o espaço negativo. Então há muita influência da arte tradicional japonesa.

14 – Mas você conseguiu construir uma linguagem própria.

Quando fiz a exposição no Opera City, em Tóquio, fui uma das quatro artistas jovens escolhidas para a exposição. Fui a primeira nikkei a ser escolhida para expor lá. Os críticos diziam que a minha obra era e não era japonesa ao mesmo tempo.  Diziam que as cores que eu usava não eram do Nihon ga. Pesquisei e peguei algumas cores similares ao Nihon ga, mas acabou ficando diferente. Os críticos diziam que os artistas japoneses não faziam o tipo de composição que eu propunha. Eu sentia que de fato não era japonesa e meu trabalho refletia a identidade ambígua. Sei que já consegui delinear uma poética pessoal. Os jovens artistas japoneses têm uma técnica ótima, mas falta expressão artística, uma linha de pensamento.

15 – Por que você mudou para a França ? Acha que sua arte terá mais expansão nesse país ?

A França é um território neutro. Não preciso mais absorver tanto a cultura japonesa. Em busca de um resgate de identidade. Por enquanto estou apenas estudando francês em Paris e me adaptando ao cotidiano da cidade. Na França, os artistas não têm muita afinidade com o mercado,  têm mais liberdade. São mais conceituais do que os japoneses, que dão muita importância à técnica. Ainda me sinto um “peixe fora d´agua”, não tive coragem para fazer cursos ou buscar  galerias.

 

29 HAICAI – OUTONO

Autumn Leaves II. Judi Bagnato

Autumn Leaves II. Judi Bagnato

No rabo do gato
leve desassossego —
lua no telhado
Teruko Oda

Da janela da casa
procuro ao longe a lua —
e ela está tão perto!
Eunice Arruda

O sol vai subindo —
em todo o jardim o brilho
das gotinhas de orvalho.
Lourdes Fátima Basílio

Silêncio do feriado
realça seus grasnados —
araras na árvore
Tânia Alves da Costa

Janela aberta —
olhando a lua de outono
adormeço
João Tolói

(Seleção feita por Monica Martinez, do blogue Espaço do Haicai, entre  poemas criados por  membros do Grêmio de Haicai Ipê, em reunião no mês de abril).

22 POP | QUANDO ELAS SALTAM DAS TELAS DA TV

Por Victor Hugo Kebbe

Hatsune Miku.
Hatsune Miku.

A tecnologia não é nova, porém traz ao mundo da música uma revolução sem precedentes. Como músico familiarizado com sintetizadores há 23 anos, não consigo deixar de reconhecer o avanço da tecnologia Vocaloid para a área. Contudo, como Antropólogo de Estudos Japoneses, me é igualmente interessante observar a entrada desta tecnologia dentro do mundo da “cultura pop japonesa” que a cada dia que passa conquista novos fãs no mundo todo.

Em 22 de agosto de 2009,  a cantora Hatsune Miku realizou seu primeiro show ao vivo na Saitama Super Arena, reunindo inúmeros fãs de todo o Japão. Personalidade presente no mundo pop nipônico, Hatsune Miku estrela mangás, comerciais, músicas, jogos, concertos musicais no Japão e Estados Unidos e inspira cosplayers em todo o mundo, porém com uma característica no mínimo impressionante: ela não existe.

Hatsune Miku ou simplesmente “Miku” é uma das mais bem sucedidas Vocaloids da atualidade, sendo idolatrada por alguns como a “idol” (as famosas cantoras adolescentes do Japão que reúnem em si a beleza e a estética kawaii), do presente e, por que não, do futuro, angariando fãs em todo o globo. Apesar de tudo isso, ela não existe: Miku é, em todos os sentidos, uma criação virtual que só é possível graças à reunião de vários circuitos integrados e muitos pesquisadores espalhados pelo mundo. Representada como uma singela e típica personagem feminina dos mangás e animes japoneses, Miku ainda possui voz e sabe cantar qualquer música que você pedir.

A tecnologia Vocaloid é o próximo passo da evolução dos sintetizadores, agora capaz de emular com perfeição a voz cantada. Se cada instrumento já criado pelo homem teria o objetivo de imitar a voz humana em seus mais variados timbres, o Vocaloid não “imita” uma canção já cantada por alguém, mas consegue produzir a cada canção algo inédito e único. Criada pela Yamaha Corporation e pelo grupo de pesquisa de Hideki Kenmochi da universidade espanhola Pompeu Fabra, a tecnologia “quebra” os fonemas de uma voz gravada e os transforma de acordo com a entonação, tempo, altura/pitch e timbre para se ajustarem a uma canção específica, esta informada ao programa de computador com o uso de um piano virtual. Dessa forma, o Vocaloid é capaz de cantar – pelo menos em japonês e inglês – qualquer música informada ao computador.

“Bibliotecas” de vozes são oferecidas em pacotes vendidos no mercado para qualquer pessoa, contendo em cada pacote diferentes “personas”, cantores e cantoras que literalmente ficam à disposição de qualquer um para cantar suas canções preferidas. Miku é uma dessas cantoras, transcendendo a tecnologia de modo nunca antes visto.

Criada como parte da estratégia de marketing da tecnologia Vocaloid, Miku ganhou uma representação gráfica e virou personagem de mangás e jogos, já tendo uma personalidade própria que é reconhecida por qualquer jovem em qualquer convenção de anime, mangá e cosplay do mundo. Longe de ser refém da imaginação do usuário desta tecnologia, Miku já realiza shows em projeções de última geração, acompanhada de músicos ao vivo e lotando casas como qualquer Madonna ou Britney Spears que o valha. Para além de uma série de programações de computador realizada por vários técnicos e músicos japoneses, Miku canta, dança e entretém plateias cada vez maiores a cada ano que passa, tendo “comparecido” no último NicoNico Chokaigi em 27 e 28 de abril de 2013 em Chiba.

O Japão é um país com uma relação particular com a tecnologia, patente e palpável no cotidiano. Tomar um ônibus que depende de uma máquina para contar as moedas, assim como poder fazer compras no supermercado sem a presença de atendentes ou “caixas” já demarcam a ordem da prática de maneira singular que não é encontrada em outros lugares do mundo. Quem, daqueles que vivem por lá, não aguarda as gravações robotizadas dentro dos trens ou dos elevadores, ou então, quem que não se rende às facilidades do “me-ru” (email) enviado pelo celular, entre tantas outras atividades do dia-a-dia que são mediadas pelas máquinas?

Esta relação entre homem e máquina, tão ventilada na Ficção Científica à exaustão, ganha novos tons quando colocamos à mesa os robôs, andróides e formas de inteligência artificial, debates presentes na cultura pop japonesa há décadas. O contraste entre Homem/Máquina, Homem/Robô, Criador/Criação já era evidente no mangá Metrópolis (1949), do famoso mangaka Osamu Tezuka. Lá, obra ímpar que foi há pouco adaptada para anime pelas mãos de Katsuhiro Otomo e Rintaro, temos a pergunta que mais nos importa: diante de tanta tecnologia, como fica o estatuto da humanidade, ou melhor, no meio das máquinas, o que nos define enquanto  humanos?

É por conta disso, desta relação singular entre homem e máquina que a Ficção Científica é cada vez mais profícua no Japão do que, talvez, em outras partes do mundo. Enquanto o Ocidente se desdobra para entender o recrudescimento deste gênero de narrativa nas prateleiras de cá, o Japão a cada dia que passa produz tantas e tantas obras dignas de discussão e tão características deste mundo “pop”. Nausicaa (1984), Ghost in the Shell (1989), Shiriaru Ekusuperimentsu Rein (1998), Steamboy (2004), Ghost in the Shell: Arise (2013) entre outros, já antecipam alguns dos entraves que encontramos com o desenvolvimento irrefletido da ciência e tecnologia.

O fenômeno representado por Hatsune Miku e os Vocaloids não deveria ser motivo de choque ou surpresa, sendo um reflexo de muito do que já foi apresentado em mangás e animes. Desenvolvendo-se num subgênero próprio, são vários os exemplos que mostram um namorado ou namorada “mágica” de origem tecnológica, representando ou incorporando o que se almeja dos relacionamentos humanos e par do ideal, sendo um prato cheio para compreendermos parte da cultura japonesa contemporânea e suas transformações. Em Video Girl Ai (1989) e Chobits (2001) temos personagens femininas eletrônicas em um relacionamento amoroso com dois protagonistas adolescentes, sendo a primeira uma projeção de uma fita de vídeo cassete e a segunda um computador na forma de uma bela andróide.

Apesar de recentes, podemos encontrar em Video Girl Ai e Chobits alguns símbolos do que se espera da “mulher ideal” japonesa (yamato nadeshiko) que já estava presente até mesmo no clássico da literatura japonesa, o Genji Monogatari, este do século XI! Tais impactos não passam despercebidos dos japanologistas, em especial do canadense Thomas LaMarre que busca compreender as representações do amor platônico nestas novas narrativas, em especial no mundo da animação.  A grande diferença agora é que, longe de existirem apenas na tela da sua TV, tais personagens saltam e adentram no mundo real com Hatsune Miku, realizando shows ao vivo que atraem milhões de pessoas.

Como diz o presidente da Crypton Future Media, a empresa que desenvolveu a persona mais carismática dos Vocaloids, Miku não é uma “idol virtual”, mas apenas uma tecnologia de estúdio musical virtual. Diante do sucesso e difusão de Miku na cultura pop japonesa de modo geral, me pergunto longe de qualquer cunho valorativo sobre suas implicações: será mesmo apenas uma nova tecnologia ou o prenúncio do que muitos animes e mangás já apontam há muito, uma nova transformação sobre o estatuto de humanidade? Vemos, criadores, que temos muito a aprender sobre as relações humanas com estes mangás e animes, nossas criações.

Veja aqui um vídeo de Hatsune Miku.

22popimagem02Victor Hugo Kebbe é Doutor em Antropologia Social pela UFSCar. Além de realizar pesquisas sobre a comunidade nikkei no Brasil, se dedica ao estudo de parentesco japonês e famílias decasséguis no Japão. Foi Fellow da Japan Foundation, pesquisador associado da Faculdade de Educação da Shizuoka University e do Instituto de Antropologia da Nanzan University, Nagóia. É autor do blog Japanologia.

 

NOTÍCIA | TAKO-X NA ONDA DO BEIJO

Caricatura de Tako-x, contra a homofobia de Marcos Felicano
Caricatura de Tako-x, contra a homofobia de Marco Feliciano

O cartunista curitibano Tako-x uniu-se ao colega paulistano  Laerte Coutinho para protestar contra a homofobia do deputado federal  Marco Feliciano, presidente da Comissão de Direito Humanos, que propôs no Congresso Nacional um projeto de lei com  tratamento psicológico para homossexuais, conhecido como “cura gay”. Tako-x criou o cartum acima,  veiculado em sua página no Facebook desde o dia 26 de abril.

Depois de duas temporadas no Japão, o cartunista, famoso pela criação do personagem  Gralha  e por ser desenhista e roteirista na MAD brasileira, retornou a Curitiba, há três anos. Em seu blogue, Tako  faz caricaturas  de artistas  como o colega Ademir Paixão e o diretor de teatro Edson Bueno,  e também o cartunista Laerte , os atores Debora Secco,  Nicolas Cage, Juliane Moore, Cameron Diaz.

Artista plástico formado pela Escola de Belas Artes do Paraná, EMBAP, Edson Ossamu Takeuti é um nissei nascido em Curitiba, Paraná, em 1965.  Começou a sua carreira artística em 1983 publicando as primeiras tiras de quadrinhos no jornal O Estado do Paraná. Em 1985, começou a desenhar para a revista MAD (edição brasileira), onde desenha sátiras de programas de TV e capas da revista.
De 1990 a 1994, morou em Tóquio, Japão. Enquanto trabalhava como ilustrador para os editoras e agências de publicidade japonesas, continuou a publicar semanalmente  suas história em quadrinhos no Brasil. As suas criações, como o Marco e os seus Amigos, X-salada e X-tudo, foram publicadas por muitos anos em jornais brasileiros.De volta ao Brasil, em 1995,  montou um estúdio de arte (TJR Estúdio) e presidiu a APIQ – a Associação de Ilustradores do Paraná (de 1997 a 1999). Nessa mesma época, ele e outros cartunistas criam um super-herói chamado o Gralha, publicado semanalmente de 1998 a 2000 no jornal Gazeta do Povo, o maior jornal no estado do Paraná. Este personagem teve suas primeiras aventuras publicadas em um álbum pela Editora Lettera, ganhando o prêmio de 2001 de Melhor Álbum de Ficção do HQ MIX (o Oscar dos quadrinhos brasileiros).Em 2002, depois de participar de um curso de cinema de Tizuka Yamasaki, escreve e dirige um curta metragem de aventura “live-action” com o super-herói o Gralha. Este filme em vídeo de 20 minutos intitulado “O Ovo ou a Galinha” ganhou o prêmio de Melhor Filme do Júri Popular no Festival Internacional de Cinema e Vídeo de Curitiba em 2003.Em 2003 ele foi convidado também para participar no livro “Wakame – Melhores Artistas Nipo-brasileiros”, patrocinado pelo Secretaria de Cultura do Governo do Estado do Paraná. Antes de voltar para o Japão em 2004, ainda fez mais 2 curta-metragens intitulados “O Gralha e o Oil-Man – Um Encontro Explosivo” e “O Apêgo.”De volta no Japão, na cidade de Nagoya, monta um estúdio de ilustração. É também o chargista do maior jornal da comunidade brasileira no Japão, o International Press. 

22 MODA | FUROSHIKI VIRA FULÔ CHIQUE

Tereza e costureiras da Vila Torres, Foto: Gazeta do Povo.
Tereza e costureiras da Vila Torres.  Foto: Gazeta do Povo.

A escritora  Tereza Hatue de Resende resolveu fazer bom uso de seu tempo livre com a aposentadoria do serviço público.  No fim do ano passado, treinou uma equipe de 10 pessoas no Clube de Mães União Vila das Torres, em Curitiba, numa oficina de furoshiki . Ela repassou  para esse grupo a  técnica de amarrar nós em panos, conhecida de mães e avós japonesas para produzir sacolas, sacos e embalagens para presentes.

Depois de aprender como fazer os nós, as mulheres – e um homem – produziram 400 bolsas, distribuídas a convidados do Paraná Business Collection,  evento de moda realizado pela Federação das Indústrias do Paraná (FIEP), em novembro de 2012. As bolsas são feitas de tecidos de chita de algodão, comprados em grande quantidade. A ideia de fazer furoshiki com tecidos de chita encantou até mesmo uma comitiva de japoneses, que esteve em Curitiba, ano passado, e fez nova encomenda de 50 panos.

Os tecidos são escolhidos nas lojas a dedo por Tereza. Depois, o acabamento tem que ser costurado pelas mulheres do Clube das Mães.  A escritora  criou a marca Fulô Chique para promover o trabalho. O nome da marca faz  um trocadilho com a palavra furoshiki  (風呂敷 ), que vem de furo = banho e shiki = cobrir . Eram os panos usados pelos samurais para embrulhar as roupas nos banhos  públicos. “Fulô é uma palavra bem brasileira, é como se falava ‘flor’, antigamente, no nordeste”, lembra. Desse modo, a cultura brasileira foi incorporada à tradição japonesa, através de tecidos de chita com estampas floridas.

O Clube de Mães da Vila Torres tem sua própria marca, a Sinergia. A marca fabrica e vende outros produtos, como ecobags feitas de banners reciclados.  O furoshiki é uma entre as várias atividades da associação, que fica numa região de favela de Curitiba. O Clube foi fundado há 16 anos para capacitar mulheres para o mercado de trabalho. Hoje, além de cursos (pintura em tela, ginástica,  língua espanhola, entre outros),  oferece serviços de informática, abriga uma rádio e uma biblioteca comunitária. Por semana, cerca de 150 pessoas passam pela sede do Clube.

A ideia de trazer o furoshiki para a Vila Torres veio de outro conceito da cultura japonesa, o mottainai.  De acordo com esse princípio (Mottai nai significa não levar) não se deve levar  nada além do que se pode carregar com as mãos. O furoshiki substitui sacolas plásticas e embalagens de papel, entrando na ordem da  sustentabilidade econômica e ecológica.

 

Furoshiki substitui papel de presente. Foto: Macaxeira.
Furoshiki substitui papel de presente, embalando qualquer coisa…. Foto: Macaxeira.
O furoshiki substittui o papel de presente.
…inclusive livros como esse, de autoria de Tereza Resende. Foto: Macaxeira.

MOTTAINAI

Um dos maiores divulgadores do conceito mottainnai no Brasil é o estilista Jun Nakao. Ele já fez uma exposição de roupas baseada nesse conceito e dá palestras sobre o tema. Mottainai é uma ideia  originalmente budista. De acordo com essa filosofia, tudo tem sua lógica de existência, e por isso, deve ser reusado, reciclado e reduzido, no sentido de concentrado.

Os japoneses dizem mottainai toda vez que se defrontam com casos de  desperdício. Isso pode refletir em atos como  aproveitar cascas, raízes e brotos de alimentos ou não desperdiçar um grão de arroz, atitude bem comum entre os imigrantes mais velhos. A ideia de sustentabilidade pegou com tanta força nos últimos anos, que até uma empresa de Curitiba, a Nexo Design, de Naotake Fukushima, distribuiu, em 2011, uma sacola ecológica como brinde aos clientes.

Ficou interessado ? Veja aqui como dar os nós básicos do furoshiki.