NOTÍCIA | Revista Zunái

O JORNAL MEMAI também é notícia no blogue da Revista Zunái:

Memai —Jornal de Letras e Artes Japonesas, editado pela poeta Marília Kubota, foi lançado em Curitiba. Em sua primeira edição, foi publicada uma entrevista com o escritor Wilson Bueno, autor de dois livros de tankas (forma poética clássica japonesa, composta de um terceto e um dístico): o Pequeno Tratado de Brinquedos e Pincel de Kyoto além de artigos sobre o ideograma, o cinema japonês e dicas de leituras. A página do jornal Memai na internet é www.jornalmemai.com.br

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POP | O Encantamento do Universo Ghibli

Hayao Miyazaki, um dos grandes nomes do cinema japonês, mostra para o mundo que as animações feitas pelo Estúdio Ghibli são feitas para crianças de todas as idades

Uma das primeiras imagens que temos ao pensarmos em animações japonesas – os animês – são os desenhos de olhos grandes, com certo grau de violência ou ainda cheios de ninjas e bichinhos bonitinhos lutando entre si. No entanto, muitas vezes nos esquecemos que o mercado japonês é bastante diversificado e segmentado, além de esconder verdadeiras obras de arte por trás dessa aparente “cultura para os jovens”. Um bom exemplo disso é o diretor Hayao Miyazaki, que conquistou fãs no mundo inteiro fazendo animações para crianças.

Animais falantes, bruxos, dragões marinhos, construções que se movimentam, demônios, deuses, sereias… E uma infinidade de cores que mexem com a imaginação de qualquer um. Ao contrário das animações do estúdio Walt Disney, que apostam em “desenhos musicais” e em histórias de amor para cativar o público, Miyazaki lança mão do imaginário infantil para compor seus mais cativantes personagens.

O Estúdio Ghibli foi fundado em 1985 por Hayao Miyazaki e Isao Takahata. A animação “Nausicaä do Vale do Vento” é considerado o trabalho de estréia do estúdio, mesmo tendo sido lançado um ano antes da fundação do estúdio. Ghibli significa “ventos quentes soprando no Deserto do Saara” e era o nome dado aos aviões italianos que sobrevoavam a região. A teoria por trás do nome é de que o Estúdio Ghibli iria dar um sopro na mente dos criadores de anime.

Yasuki Hamano, professor da Universidade de Tóquio e amigo pessoal de Hayao Miyazaki, conta que o importante para o diretor são as crianças e por isso produz animações pensando nelas. Além disso, Miyazaki preocupa-se bastante com o meio ambiente, tanto que os lucros do longa “Nausicaä do Vale do Vento” (1984) foi doada para ações ambientais. Outra animação na qual é possível notar a preocupação com o meio ambiente é “Mononoke Hime” (1997).

Hamano é também diretor do Museu Ghibli, localizado em Tóquio e inaugurado em 2001. O espaço abriga várias exposições permanentes sobre a história e a ciência da animação, além de rascunhos, story boards, entre outros materiais de referência do estúdio. No topo do website do museu a seguinte frase está em destaque: “Vamos nos tornar crianças perdidas, juntos” (迷子になろうよ、いっしょに, Maigo ni narō yo, isshoni).

 

Hayao Miyazaki e Ghibli no Brasil

Na década de 90 foram lançados alguns VHS e DVDs no Brasil – entre eles “Meu Vizinho Totoro” e “Porco Rosso” – mas o público só voltou-se para o estúdio quando o longa “A Viagem de Chihiro” ganhou o Oscar de Melhor Filme de Animação, em 2003. Foi nessa mesma época que a animação chegou aos nossos cinemas, seguido de “O Castelo Animado”, que foi indicado ao Oscar de Melhor Animação em 2006.

Em julho de 2006 começou a ser publicado o mangá de Miyazaki que serviu de base para o longa “Nausicaä do Vale do Vento”, uma verdadeira obra prima que tem atraído o público. A publicação está no quinto número e irá até o sétimo, sem previsão exata de quando chegará ao fim.

De qualquer maneira, muitos fãs que têm acesso aos vídeos e conhecem a língua japonesa fazem legendas e distribuem as cópias pela Internet, facilitando assim o acesso ao material que quase nunca chega por aqui. Então se você ficou interessado em conhecer um pouco mais dos trabalhos do Estúdio Ghibli é só ir até a locadora mais próxima ou dar uma vasculhada na rede e se deixar levar pelo encantador universo Ghibli.

HQ | O Samurai de Curitiba

Entre mito e verdade transitava o personagem Claudio Seto, como os grandes fabulistas, um criador de sua própria história, prestes a se tornar uma lenda na terra do leite quente

Só de ouvir seu nome, alguns dirão que foi um grande artista. Os que conhecem minimamente seu trabalho, entretanto, discordarão: “Claudio Seto não foi um grande artista”, dirão. “Foi vários”. E se há críticas controversas a respeito de seu trabalho como escritor, poeta, jornalista, fotógrafo ou artista plástico, nada disso invalida a afirmação. Seu talento como quadrinista e a importância que teve no âmbito da nona arte fazem seu legado equivaler ao de muitos.

De um início de carreira sem grandes pretensões, em poucos anos tornou-se reconhecido como o pioneiro do gênero mangá no Brasil e foi capaz de desafiar a égide do regime militar como um dos expoentes dos quadrinhos eróticos, além de se antecipar a tendências mundiais na área. O homem Seto nasceu em 1944, na cidade de Guaiçara, interior de São Paulo. O artista, por sua vez, roubou a cena 23 anos depois, com o lançamento do primeiro gibi, “O Samurai”, pela editora Edrel.

Em um cenário dominado pela febre de publicações como Mandrake, Super-Homem e Tio Patinhas, seu quadrinho de lançamento destoava nas bancas nos idos de 1967. Nas histórias de Seto não havia moral ou heróis, mas sangue e violência promovida por um código de honra totalmente à parte da realidade brasileira. Não é preciso dizer que foi sucesso imediato.

Outra criação do artista, também de 1967, no entanto, é que se tornou best seller da editora: a Maria Erótica – personagem que deliciava os adolescentes da época e que entrou para a história dos quadrinhos adultos brasileiros. Nada mau para Seto, que anos antes o máximo que conseguia era publicar seus desenhos em uma revista de anúncios publicitários das lojas Arapuã da cidade paulista de Lins.

A influência, nunca escondeu, tomou dos mangakás Mizuno Hideko e Shirato Sanpei, seguidores do “deus do mangá” Osamu Tezuka (1928-1989). Chegou inclusive a conhecer Tezuka, durante os cinco anos em que viveu em Kyushu, no Japão, embora tenha começado a desenhar profissionalmente apenas após voltar ao Brasil. Em 1967, depois de pintar portas de caminhões acabou conseguindo uma oportunidade na Edrel.

Trabalhou até encerramento das atividades da editora, que ocorreu em 1973. Dois anos mais tarde, em julho de 1975, viajou para Curitiba para passar uns dias. Passaria pela capital paranaense apenas para buscar uma espada pertencente a seu tio-avô cujo paradeiro fora desconhecido ao longo de 30 anos e que – descobrira posteriormente – houvera ficado guardada por um senhor no Paraná. Quando entregou a espada, o portador teria instruído para que não sacasse o objeto, pois caso não o utilizasse para matar alguém, algo inesperado poderia acontecer. Na manhã seguinte, após levantar a arma, deparou-se, pela janela do hotel, com uma Curitiba coberta de neve. O visitante talvez nem soubesse, mas era a primeira vez que nevava na cidade em 47 anos. A alegria dos moradores com o fenômeno encantou Seto, que decidiu que era ali que viveria a partir de então.

Ninguém se atreve a contestá-lo, mas poucos sabem o que há de verdade e de ficção neste e em outros de seus relatos. Chegou a anunciar, certa vez, que, de fato, não era um. Disse que tinha um irmão gêmeo, univitelino. Seriam idênticos, de tal forma que pouquíssimos saberiam diferenciá-los, o que permitiria a um ocupar o lugar do outro sem que qualquer pessoa se desse conta. De prosa em prosa, foi capaz de transcender o espaço limitado do papel, invertendo a lógica da produção artística, para levar à história a realidade fabulosa dos quadrinhos.

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Curitiba

Fato é que, em Curitiba, a partir de 1977, passou a trabalhar na Grafipar, editora fundada por Faruk El Khatib. Lá deu seqüência a seu legado, com a produção de desenhos e argumentos para revistas como Eros, Proton, Neuros e Perícia, que traziam histórias de ficção científica, terror e crimes, com pitadas de erotismo e críticas sociais. Em 1980, o departamento de arte da editora passou a ser comandado por Seto, que, ainda que em posição de liderança, preferia manter a conversação, como sempre fez, dominada por monossílabos. Nomes como Mozart Couto, Watson Portela, Rodval Matias, Gustavo Machado, Franco de Rosa, Flávio Colin e Fernando Bonini assinavam as publicações da Grafipar, que, por uma série de dificuldades financeiras, acabou encerrando as atividades em 1983.

Sem editora para publicar suas historietas, passou a dar aulas de desenho na Gibiteca de Curitiba no início da década de 1990 – conforme lembram seus alunos, sem pronunciar uma única palavra. Com uma coleção infindável de gibis na garagem de sua casa, recebia prazerosamente os aprendizes que queriam obter fontes de inspiração.

Até que em 1993 foi convidado pela prefeitura de Curitiba, à época administrada pelo arquiteto Jaime Lerner, a registrar em quadrinhos a história da capital paranaense, que naquele ano completava seu terceiro século de fundação. Ao cabo da produção da “História de Curitiba em Quadrinhos”, em parceria com a historiadora Cassiana Lacerda Carollo, deixou de vez de se dedicar à arte sequencial.

Obviamente não abandonou o desenho, o qual praticou ainda por meio de tirinhas e charges nos jornais Correio de Notícias, O Estado do Paraná e Tribuna do Paraná. Sempre ligado às raízes nipônicas, fazia questão de ilustrar todas as lendas japonesas que escrevia para o Jornal Nikkei – que depois veio a se chamar Planeta Zen – e para o livro que veio a publicar em 2008, na ocasião do centenário da imigração japonesa no Brasil.

No mês de julho do mesmo histórico ano, foi homenageado durante a cerimônia de entrega do 20º troféu HQ Mix, em São Paulo: a estatueta do prêmio, esculpida pelo artista Olintho Tahara, representava o personagem Samurai. A mesma figura, uma de suas mais célebres criações, rendeu o mais conhecido apelido de Seto – com consentimento ou não, o cidadão honorário da capital paranaense tomou para si, de uma vez, o título Samurai de Curitiba, assim mesmo, tal qual o de Vampiro ficou com o escritor Dalton Trevisan.

Morte

Morreu em conseqüência de um acidente vascular cerebral no dia 15 de novembro de 2008. Em meio ao mesmo silêncio com que fez parceria durante a carreira, despediu-se subitamente da vida, deixando esposa, três filhos e um dos mais importantes marcos para o universo brasileiro dos quadrinhos.

Os que acompanharam de longe dirão que Seto se decidiu pelo andar de cima quando viu cumprida sua missão – e se equivocarão. Seu trabalho, na verdade, não coube no perímetro da própria vida, de modo que, em túmulo, seguiu lançando obras. Vive atualmente neste e em centenas de milhares de textos, conversas e desenhos em que procura perpetuar seu legado, seja na área de quadrinhos, de pesquisa ou da difusão cultural. Vive como uma lenda, daquelas que ele mesmo contava.

ENTREVISTA 00 | Wison Bueno

O Jornal Memai abre a edição inaugural com Wilson Bueno, autor de “Pequeno Tratado de Brinquedos” e “Pincel de Kyoto”, dois singelos livros de tanka – a forma poética japonesa de 31 síbalas, que consagrou poetas japoneses modernos como Takuboku Ishikawa.

Wilson Bueno é autor de títulos literários em várias vertentes e gêneros. Sua obra de maior impacto é a novela Mar Paraguayo (editora Iluminuras, São Paulo), publicada na Argentina, Chile, México, Cuba, Estados Unidos, e objeto de teses e seminários, por sua inventiva construção ( portunhol e guarani). É também autor de mais 11 livros de ficção, entre eles “A Copista de Kafka”, finalista do Prêmio São Paulo de Literatura e Prêmio APCA de Literatura – Associação Paulista dos Críticos de Arte em 2008. Criador e editor, por oito anos, do premiado jornal Nicolau (1987-1994), considerado um dos mais importantes tablóides culturais brasileiros. É colaborador regular do Trópico (www.uol.com.br/tropico), site de arte e cultura do UOL, e do suplemento “Cultura” do jornal O Estado de São Paulo.

MEMAI – Quando você foi editor do jornal de cultura “Nicolau”, aliás, criado por você, desde o nome, entre os anos 80 e 90, em pelo menos 1/3 das edições estavam pautadas matérias sobre cultura japonesa. Isto se devia a sua paixão pela cultura japonesa ou refletia uma tendência da época, de cultuar o zen e as artes clássicas japonesas?

WILSON BUENO – Desde cedo a minha paixão pela cultura japonesa foi muito marcada e marcante. Não só  para mim, mas também para grande parte da geração a que pertenço, herdeira dos beatniks. Nas viagens lisérgicas do meu tempo buscávamos o zen, aquela coisa “essencial” das artes clássicas do Japão.  Gostávamos de interpretar o mundo a partir do aparente nonsense dos koans búdicos… Era, digamos, a nossa filosofia, em oposição ao “catolicismo” feudal do Ocidente, com tudo o que vinha nele de moralismos congelados, estanques. Eu, em particular, sou um lewiscarrolliano por excelência, um discípulo aplicado igualmente de Edward Lear, hoje aliás tão meticulosamente estudado no Brasil por Dirce Waltrick do Amarante. E não poderia ser de outro modo num jornal que tinha à frente das diversas equipes que por ele passaram, este locutor que vos fala, não é mesmo?

MEMAI – Quando você ouviu falar de poesia japonesa pela primeira vez ? Teve algum envolvimento com a comunidade nipo-brasileira no interior do Paraná ? Qual a sua primeira imagem dos nihonjin (japoneses) ?

BUENO –  Os nihonjin, por outras vias, estão presentes desde sempre em minha vida. No sertão profundo, onde nasci, na aldeia Água do Salto, a 50 kms de Jaguapitã, plantavam café e algodão. Em Curitiba, para onde vim com 7 anos, estudei com muitos deles – do antigo primário aos igualmente antigos ginásio e científico. Admirava-os porque eram sobretudo “ordeiros”, me identificava com aquela dedicação deles aos estudos.  Como era meu vício ser o primeiro aluno da classe, era muito mais fácil para mim estreitar laços de amizade com os meninos japoneses do que com os demais… E depois tinha que, sobretudo em Curitiba, éramos todos migrantes – fossem os japoneses ou os “sertanejos” do Norte pioneiro (norte do estado do Paraná), os filhos de polacos ou de ucranianos… Ah, e também os descendentes dos árabes… Quando das primeiras “luzes” literárias, logo de cara as coisas do Japão me chamaram a atenção, mesmo porque, como já disse, a minha geração as cultuava através do haicai, do tanka, da ikebana ou das lutas marciais… Do kendo ao aikido…

MEMAI–  O haiku, no Brasil chamado haicai, se tornou uma forma poética popular. Você fugiu desta forma, preferindo criar poemas em tankas. Por quê ?

BUENO – Porque sempre me moveu e me move o desejo de fazer diferente, o que até pode sugerir uma coisa pernóstica, mas é que, já repeti isso em várias ocasiões, não sei ser de outro modo.  Não manejo, não consigo manejar aquilo que todo mundo, em dado momento, está fazendo. Aí, como conciliar a paixão pelos versos japoneses senão pela via do tanka, embora eu seja autor de dezenas de haicais? E depois tem que me impus um desafio: o tanka, sabemos, carrega consigo o chamado “olho” do haicai e ainda pede uma “conclusão” em dois versos finais. Sempre, claro, na rigorosa métrica que inventamos para ele, para transfigurá-lo, creio. Uma “matemática” que me seduz, – 5/7/5 ( o haicai!) e 7/7 a dita “conclusão”, uma sutil “moral” da história… Como em “Magrura” (Pequeno Tratado de Brinquedos): “minha meia-irmã/ chegou de Piracicaba/ ainda mais magra/ corremos em seu socorro/ de magra voou pro morro”.  A métrica, inventada aqui, também é um exercício de humildade – você se vê obrigado a desprezar o que julga um achado precioso porque este tal de “precioso” o poema só pode acolhê-lo se em rigorosas e calculadas sílabas poéticas… Temos que recusar, jogar literalmente no lixo o que consideramos grandes “insights”, porque não cabem no metro do poema, você me entende?

MEMAI – No “Pequeno Tratado…” há referências a Bashô, Issa, Buda. Quais são seus poetas japoneses preferidos ? E os poetas que fazem tanka ?

BUENO – Kobaiashi Issa me parece insuperável. Só pra lembrar, de cor, uma autêntica jóia, eterna: “Ao Fuji sobes/ Pequeno caracol/ – Mas sobes”.  Acho a nossa Helena Kolody (1912 – 2004 ) , a minha mais decisiva influência e estímulo para ir ao tanka como quem vai com gula a um pote de  mel. A saudosa Helena tem tankas lindíssimos, de uma delicadeza que era dela sua maior marca. E, claro, alguns clássicos, só encontráveis infelizmente em inglês, ou espanhol, reunidos numa antologia chamada Kojiki e que conta as origens do Japão e que, curiosamente foi escrito em chinês, me ensinaram muito… Aprendi, aprendo e creio que continuarei aprendendo com a leitura dos fragmentos encontráveis por aí desse livro fantástico.

MEMAI – Alguns poetas que moravam em Curitiba, como Helena Kolody, Paulo Leminski e Alice Ruiz cultivaram o haicai como forma poética. Alguma vez você chegou a conversar sobre poesia e arte japonesa com eles ? E com Claudio Seto, que morreu recentemente e para quem você escreveu uma crônica, tinha conversas sobre poesia e filosofia ?

BUENO – Sim, não só sobre o haicai, mas também sobre as inúmeras manifestações que fazem do Japão uma coisa singularíssima na história da arte humana… Das artes da guerra à delicadeza da ikebana; do haicai à renga; do tanka ao zen. Sabendo, claro, que no Oriente todos estas coisas se misturam e se transfundem senão transcendem… Claudio Seto, meu grande amigo, ilustrador de inúmeros textos meus, não falava… Só criava em seu silêncio búdico… Era um ser de uma beleza incalculável, mesmo em seus monossílabos… Monossílabos que sorriam…

MEMAI – No Japão o haiku é uma forma poética não-subjetiva, que procura eliminar o “eu”, como num exercício zen. O poema clássico não tem rima nem titulo. Quando esta forma poética é trazida para o Ocidente, estas regras são subvertidas: aparecem titulo, rimas e subjetividade. Seria uma adaptação da poesia japonesa no Brasil, um país de tradição trovadoresca?

BUENO –  Sem dúvida, a adaptação da poesia japonesa ao Brasil é justamente o que, me parece, enriquece, ainda mais uma tradição clássica. Os brasileiros somos useiros e vezeiros em reinventar as artes alheias… Veja com o futebol, o rude esporte bretão, o que fizemos… Virou uma coisa transcendente o que antes era só um esporte tosco… Não digo que o poema clássico, sem rima nem título, como é praticado pelos orientais, seja tosco, pelo contrário. Chamo atenção é para essa capacidade brasileira de transfigurar as coisas… Há um tanka em Pequeno Tratado de Brinquedos em que tento focar essa dissolução do “eu”… Chama-se justamente “Anônimo”. Se você me permite, lembro de cor: “eu e a minha mestra/ saímos caçar cepilhos/ só colhemos grilo/ tarde voltamos com fome/ jantamos os nossos nomes”.

MEMAI – Alguns dos conceitos-base da arte japonesa são a harmonia da forma e a síntese na linguagem. Quando você compõe seus tankas, pensa em alguma regra ou conceito ?

BUENO – Não, só penso em fazer o melhor e honrar, de alguma forma, a grande tradição, mesmo que disturbando-a, ou por isso mesmo…

MEMAI – Que tipo de repercussão tiveram seus livros de tankas ?

BUENO – Enorme.  Há leitores apaixonados que me passam e-mails, absolutamente encantados com os meus tankas. Em Mato Grosso do Sul, alguns formandos, do maravilhoso curso de Letras que tem lá a UFMS, estão realizando teses de mestrado exclusivamente em torno dos meus únicos livros de tankas – o Pequeno Tratado… e Pincel de Kyoto… Justamente descendentes de japoneses, o que é interessantíssimo e me honra muito, acredite. E o  Pequeno Tratado… já está em segunda edição, o que é raro para um livro de poesia, no Brasil, ainda mais de tankas, você não acha?

MEMAI – Depois de  “Pequeno Tratado de Brinquedos” e “Pincel de Kyoto”,  você pretende lançar mais algum livro de tankas ? É uma forma poética na qual você compõe com regularidade ?

BUENO – Sempre digo, e repito, que estes serão meus únicos livros de poesia, estrito senso. Sou basicamente um ficcionista, com inúmeros títulos nessa área. Embora tenha, inéditas, e guardadas a sete chaves, mais duas reuniões de poesia – o “13” ( sonetos eróticos, que pretendo sejam póstumos…) e o “35. Poemas de Amor”,  barroquíssimos, que sinceramente não sei quando publicarei… Cinco desses últimos foram publicados pelo site de arte e cultura do UOL, o Trópico ( www.uol.com.br/tropico ). Tenho também, e inédito, um livro com mais de 50 tankas chamado “Casa do Poeta”.  Hesito muito em publicar poesia. Quero crer que sou um ficcionista, e não mais que isso…

MEMAI – E por falar em ficção, que  escritores japoneses contemporâneos você lê?

BUENO – Sou apaixonado pela literatura moderna do Japão. Tenho um pequeno ensaio sobre Yasunari Kawabata, um dos meus ícones, e sempre retorno a este autêntico titã das letras contemporâneas que é Yukio Mishima… A prosa japonesa contemporânea é de um vigor extraordinário… Quem quiser escrever ficção, em qualquer língua, tem que conhecer esses e outros autores, penso eu…

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TANKAS

I

casa do poeta

folhas brancas no escritório

chá das cinco horas

da janela o cinamomo

conta estórias passam os anos

II

casa do poeta

silva a serra motriz

– uma nova mesa!

panelas, pratos de estanho

no retrato, o avô piscando

III

casa do poeta

de vez em quando uma lágrima

chove na vidraça

no céu o céu cor de cinza

saudades nunca não passam

IV

casa do poeta

desenho de passarinho

de Rogério Dias

três deles se escondem álacres

atrás de um bico-de-lacre!

V

casa do poeta

num canto a teia de aranha

fia ouro ao sol

o musical meio-dia

réstia de luz no varal

Do livro Casa do Poeta (inédito)

PALCO | Do Kung Fu à Contracultura

A paixão pela flauta de bambu japonesa levou o jornalista a uma viagem que incluiu enlatados americanos e ex-adeptos do flower power até chegar a fazer o vento dançar.

Um ensaio sobre a flauta shakuhachi (尺八) poderia partir de ou abranger aspectos tão complexos quanto a História, as relações entre a música e a religião no Japão ou a diversidade de estilos e notações. A esse respeito, porém, há trabalhos muito interessantes, acessíveis a pessoas que desejem saber mais. Obras, por exemplo, como “Shakuhachi – A Manual for Learning”, de Nicolas Yomei Blasdel, ou o portal brasileiro de internet “Shakuhachi Brasil & América Latina” (www.shakuchiba.ning.com). Diante dessa disponibilidade de informações, peço licença para tratar de outro assunto que, acredito, pode ser tão interessante quanto descobrir, por exemplo, que a notável flauta nipônica pode ter suas raízes não na China, mas na Índia ou mesmo no Egito. Gostaria de abordar minha própria experiência com o shakuhachi.

O que leva um não-nipodescendente a buscar aprender um instrumento cujo aprendizado é considerado “complexo” por muita gente no próprio Japão? Eu poderia, perfeitamente, ser um desses casos “estranhos”, de indivíduos que resolvem mergulhar em um aspecto inusitado de uma cultura alheia e retornar de lá com um cocar na cabeça ou como ícone do interculturalismo. Observando o cenário brasileiro, porém, verifico que, como eu, existem outros fascinados pelo shakuhachi. Não muitos, mas certamente muito apaixonados pela arte. Criaturas como Shen Ribeiro e Matheus Ferreira, mestres de São Paulo, Sérgio Vinícius Monfernatti, excepcional player de Curitiba ou o gaúcho Henrique Elias Sulzbacher, provavelmente o mais entusiasmado tocador de shakuhachi que já conheci. Cada qual devidamente agarrado à sua flauta, soprando com empenho e sonhando em ganhar mundos de conhecimento tão amplos quanto o alcance de suas notas.

Retorno à egocêntrica questão que alimenta este artigo. Se bem me lembro, minha mais antiga experiência com a flauta de raiz de bambu se deu ainda na infância, ao assistir a série “Cosmos”, de Carl Sagan. Em um dos episódios, no qual o apresentador falava sobre seleção das espécies, ele contou a história dos caranguejos heikegani (平家蟹), da região de Danno Ura (uma porção interior de mar no Japão), cuja carapaça se assemelha ao rosto de um samurai feroz. Observou que, originalmente, tal configuração de casca provavelmente era exceção, tornada regra por força de uma crença local que associava os “caranguejos-samurais” às almas dos guerreiros (os bushi do clã Heike) que ali se mataram por afogamento após uma derrota no dia 24 de abril de 1185. Compartilhando a dor – e, certamente, receando despertar a fúria dos combatentes mortos -, os pescadores passaram a devolver ao mar todos os espécimes “diferentes”, acabando por moldar e substituir, por um processo de “seleção cultural”, a espécie original de carapaça lisa.

Se, per se, a história já era das mais interessantes, ficou ainda mais atraente ao chegar acompanhada pelas notas cavas de um shakuhachi tocado pelo grande mestre Goro Yamaguchi. Não sei, de fato, por que, mas a música – “Sokaku-Reibo” (巣鶴鈴慕) ou “Tsuru-no-Sugomori” (鶴の巣籠, na Escola Kinko) – simplesmente hipnotizou aquele guri de dez ou onze anos. Tanto, que ficou gravada no espírito e acabou redescoberta anos depois, durante uma seção de compra de CDs de música étnica na saudosa “801”, loja que Horácio Tomizawa de Bonis mantinha no Setor Histórico de Curitiba. Fato é que, depois desse dia, o tema das cegonhas no ninho e a arte de Goro Yamaguchi passaram a fazer parte de minha “trilha sonora pessoal”.

O shakuhachi, porém, não tem apenas um apelo sonoro. Visualmente, a flauta de sete orifícios construída com bambu madaké encarna tudo o que um ocidental poderia conceber sobre a nobreza e a “arcanidade” das culturas do Oriente. Wabi-sabi (侘寂) em estado puro, mesmo para quem sequer imagina o que isso significa. Foi essa, ao menos, minha percepção pessoal ao ver uma dessas flautas pela primeira vez, em um inusitado ambiente de prática de Kung-Fu. O ano era 1985, e a história do “shakuhachi chinês” apenas ilustra o quanto as coisas podem ser coloridas. A flauta, enfim, pertencia ao mestre Lee Chung Deh, herdada de um pai que, durante a Segunda Guerra Mundial, em uma Taiwan invadida, a teria recebido em uma aposta com um oficial do Exército Imperial Japonês. “Uau!”, sonhou o garoto, como sonha até hoje o homem ao pensar nos trajetos que ligam as pessoas às coisas na vida. O fato é que Kwai Chang Caine, o célebre monge Shaolin do seriado de tevê “Kung-Fu” (inspirador de nove entre dez praticantes de Kung-Fu dos Anos 70 e 80) tocava flauta entre uma sessão e outra de filosófica pancadaria. Assim, no final de minhas primeiras aulas de arte marcial chinesa, passei a tentar tocar a flauta, percebendo, de cara (e ficando instigado por isso), a tremenda dificuldade de emitir sons.

Meu contato mais recente com o instrumento aconteceu há coisa de quatro anos, quando conheci minha esposa, Lina Saheki. Em um de nossos primeiros contatos, pela internet – ela morava em Vitória e eu, em Curitiba -, comentei que gostava muito de shakuhachi, e obtive como inesperada resposta a informação de que ela possuía uma flauta em casa, silente há muito por falta de quem a tocasse. A peça pertencera a Inomata Chüshiroo, seu bisavô materno, e chegara ao Brasil em 1933, na bagagem de imigrante. Lina comentou que, se eu conseguisse tirar algum som, se quisesse tentar e me esforçasse para tanto (santo Yamato Damashii!), a flauta seria minha. Alguns dias depois, recebi a peça em casa, a enviei para restauro por um dos maiores especialistas do mundo – o americano Monty Levenson, um herdeiro da Contracultura que trocou Jimmy Hendrix pelo madake – e, em pouco tempo, eu estava a “brigar” pela música com um grupo de músicos e cantores idosos japoneses de Minyo (música folclórica japonesa) em Curitiba. Hoje, posso dizer que, na companhia de amigos como Sérgio Vinícius Monfernatti, emito alguns sons distantes da beleza, mas, certamente não desprovidos de um santo desejo de melhorar.

Ao conhecer tal série de pessoas e circunstâncias – do Kung-Fu à contracultura, passando por imigrantes japoneses, internet, seriados de tevê e guerreiros do Japão pré-feudal -, é possível que você ache essa história fantástica. Fantástica, com efeito, não é minha própria experiência; como ela, evidentemente, há muitas outras, cada qual com uma configuração que lhe confere cor e essência. Fantástico é perceber que, em uma aparente sucessão de acasos, muitas e boas coisas podem acontecer. O maior de todos os performers de shakuhachi, desconfio, ainda está por nascer. Quem sabe ele não está apenas esperando por um jornal, chegado em momento incomum (ou totalmente previsível), para descobrir isso? Notável, enfim, é a vida – com suas múltiplas possibilidades.

VIDA | O Espírito do Ideograma

No caminho do auto-cinhecimento, uma palavra, é – e não é – uma palavra: 一心伝心

Conta a tradição que a origem do zen-budismo tem como marco uma transmissão sem palavras conhecida, hoje, como “o Sermão da Flor”. Nessa história, o Buda histórico, Sidarta Gautama, teria se mantido por um longo período em silêncio, apenas contemplando uma flor, diante de uma assembléia de discípulos ávidos pelos seus ensinamentos. Momento no qual um deles, Mahakashyapa, irrompeu o silêncio com um riso ao compreender o sentido inexprimível da flor e da existência. dns server . Correspondendo ao riso, Buda teria dito:

Eu possuo o Tesouro do Correto Dharma e a Maravilhosa Mente de Nirvana (Shobogenzo Nehan Myoshin) e agora o transmito a você.”

Traduzido frequentemente como “transmissão de coração para coração”, “transmissão sem palavras” ou “transmissão de mente para mente”, o termo isshin denshin (一心伝心), tão amado pelos próprios japoneses, pode auxilliar as pessoas a compreender um pouco mais sobre como funciona a visão de mundo no Japão.

Nascido na China como pictograma que representava o coração físico e depois simplificado para facilitar a escrita, o ideograma shin ou kokoro () significa, a um só tempo, coração, mente e espírito. Assim, a moderna divisão/oposição que fazemos no Ocidente entre os conceitos de coração e mente – moderna, porque entre os romanos ele também sediava sentimentos, como corda – é superada por esse significante, cuja essência abarca, compreende e ultrapassa qualquer dualidade. Shin não é, portanto, apenas um órgão ou uma sede física, mas um dado imaterial. Já o símbolo do ichi (), que significa, literalmente, “um”, é utilizado para representar a unidade. Por sua vez, o ideograma den (), que traz os radicais para pessoa e para o número dois, indica um modo de transmissão, caminho ou tradição.

Assim, o conjunto dessas representações busca traduzir um estado de espírito no qual a compreensão silenciosa do “outro” torna as palavras supérfluas, convertendo qualquer tentativa de comunicação formal não só em algo desnecessário, mas inútil.

No Japão, assim como na China, existe uma preocupação acentuada com a função das palavras e seus símbolos, bem como com a correta transmissão de sentimentos e sensações. Acredita-se que as palavras devam transmitir não somente mensagens “frias”, atreladas exclusivamente à sua representação formal. Mais do que isso, elas também devem transmitir valores que vão além (isso explica a grande preocupação estética presente na escrita oriental, que deu origem, por exemplo, ao Shodô). Valores que revelam e indicam o significado esotérico da própria palavra, ou seja, aquele que lhe é mais caro e que está vedado a receptores incapazes de percebê-lo. Afinal, como dizem os japoneses: “as palavras têm espírito.”

Tal espírito-coração-mente pode ser apreendido e percebido, em parte, pelo próprio estudo dos ideogramas sino-japoneses conhecidos como kanji (ou hanzi na China). O estudo do kanji como caminho dessa aproximação revela, por exemplo, que o símbolo de honestidade, verdade, fidelidade – (que também se lê  shin) –  é composto pela união de dois ideogramas: pessoa, (hito) e falar, (iu).

Esse é um único exemplo – capaz, porém, de abarcar completamente os múltiplos níveis de informação e significado presentes na escrita/leitura clássica de países como Japão e China. Uma palavra, enfim, é – e não é – apenas uma palavra.