NOTÍCIA | ARTIGOS SOBRE ESTUDOS JAPONESES

O site da Fundação Japão dispõe artigos de pesquisadores do campo de Estudos Japoneses. Os artigos tratam de temas diversos da cultura e sociedade japonesa, como o budismo, butô, literatura, teatro tradicional, cinema e economia.  Os trabalhos são assinados por pesquisadores como Christine Greiner, Ronan Pereira Alves, Darci Kusano e outros.  O link para acessar os artigos é esse.

26 SOCIEDADE | CULTURA JAPONESA TROPICAL

Por Victor Hugo Kebbe

Tanabata Matsuri já existia no período Edo - aqui, retratado por Hiroshigue.
No Japão, o Tanabata Matsuri  existe há mais de mil anos – aqui, retratado por Hiroshigue, no período Edo.

Pouco antes das comemorações para o Centenário da Imigração Japonesa no Brasil fiz uma breve visita ao Tanabata Matsuri de São Paulo, na Liberdade. Bairro pelo qual tenho uma grande afeição desde minha infância, o Tanabata era uma das poucas festividades locais que me era difícil poder comparecer, até aquele fatídico ano de 2008. Chegando bem cedo, pude acompanhar os preparativos para o festejo de final de semana, com vários descendentes pendurando infinitos bambus e lanternas pelas calçadas. Várias fotos foram tiradas, vários ângulos, vários momentos. Grupos de dança e taiko chegavam de todas as partes e se preparavam na “concentração” em frente ao Ikezaki, na Galvão Bueno, todos ansiosamente aguardando pela chamada ao palco, em plena Praça da Liberdade, sim, aquela da estação do Metrô, aquela da Rádio Taissô.

Logo uma amiga com quem tinha combinado de me encontrar havia chegado e aí pudemos almoçar e passear pelo bairro, apinhado de visitantes de todas as partes do Estado de São Paulo. Famílias inteiras de descendentes vindos de cantos distantes disputavam espaço lado a lado com japoneses “do Japão”, entre tantos não-descendentes que faziam questão de estar presentes na celebração de origem mitológica. Acompanhamos a abertura do Tanabata ao tradicional modo xintoísta, debaixo de um Sol brasileiro, imenso, debaixo daquele torii brasileiro, igualmente imenso – o pórtico xintoísta tão famoso de gravuras e fotos do que se entende de “Japão” – e, com uma câmera digital bem modesta, continuei registrando as minhas imagens e impressões.

Cheguei em casa naquele dia e a primeira coisa que fiz foi enviar estas fotos para uma amiga minha, japonesa, residente em Nagóia e um pouco mais velha que eu (mas não muito), sobre o tal do “Festival Tanabata de São Paulo”, um dos símbolos da “cultura japonesa” no Brasil. Muito intrigada e bastante educada, me respondeu: “nossa, isso é impressionante… parece algo do tempo dos meus avós. Apesar de ser algo japonês, é diferente.” Congelado no tempo, o Tanabata Matsuri de São Paulo era um símbolo de uma “cultura japonesa” um pouco diferente da “cultura japonesa” praticada no Japão. Tinha em mãos não uma “cultura japonesa”, mas “culturas japonesas”, no plural, sobre “Japões” absurdamente próximos e, ao mesmo tempo, paradoxalmente distantes.

Como já disse em outras oportunidades, apesar da similaridade fenotípica e a proximidade de alguns costumes e hábitos, são visíveis as “diferenças culturais” ou, como insistem alguns dos meus entrevistados, de “mentalidade”. Dadas as particularidades destas duas chaves culturais, não é à toa que acadêmicos tanto do Brasil quanto Japão se debruçam sobre o tema: como percebe Nobuko Adachi, os “japoneses” do Brasil são de fato diferentes do japoneses do Japão, estando as diferenças vinculadas aos esquemas ou estoques culturais de cada país.

Não pretendo me alongar ou “cair” numa discussão sobre “cultura” ou mesmo “cultura japonesa”, afinal, discutir “Cultura” não é e nunca será tarefa fácil, gerando tantas definições –  imprecisas – quanto possível. Seria um trabalho hercúleo e fadado ao fracasso tentar delimitar fronteiras para definir uma “cultura japonesa”, assim como seria igualmente tenebroso pensar em uma cultura brasileira, americana, francesa, etc. Nestas horas prefiro recorrer à sabedoria do antropólogo francês Claude Lévi-Strauss em sua própria “incapacidade” (esta fruto de profunda reflexão crítica) de alocar a “cultura japonesa” como algo distinto de qualquer outra cultura. Num mundo humano de contatos e trocas culturais constantes, seria uma ilusão “cairmos” no erro de acreditar na especificidade (e com ela a falácia da inferioridade ou superioridade) desta ou daquela cultura. E daí que muitos estudos “caem” por terra que, senão tomados por razões ideológicas quaisquer, são por vezes resultado de perspectivas unilaterais sobre a mesma coisa, oras, a experiência humana. Paremos de cair, por favor.

Contudo, é possível tecer algumas palavras sobre certos marcadores da “cultura japonesa” praticada no Brasil, contanto que tenhamos em mente que cultura é sempre um sistema dinâmico de símbolos e valores que podem sempre… mudar. Isso rapidamente coloca em tensão qualquer noção de cultura como algo estático e rígido que recai sobre os indivíduos, “vítimas” de um bloco de símbolos e valores desta ou daquela região. Assim fica fácil: apesar de praticada no Brasil com este nome, a tal da “cultura japonesa” daqui é bastante diferente (obviamente) da “cultura japonesa” de lá.

Quanto à “cultura japonesa” à brasileira, basta observarmos que itens e símbolos japoneses encontrados no Brasil são fruto de um complexo diálogo e síntese entre duas chaves culturais distintas, lembrando aqui do poderoso aporte teórico do antropólogo norte-americano Marshall Sahlins. Preste um pouco mais de atenção ao sushi de manga ou  salame, o temaki recheado com maionese, cream cheese, o temaki doce, servido em um cone de sorvete. Todos estes são produtos que, apesar de serem vendidos no Brasil como itens da “cultura japonesa”, sofreram processos intensos de significação e ressignificação ao entrarem em contato com um contexto cultural… diferente.

O mais curioso destes processos de significações e ressignificações de mundo é que eles ainda chocam muita gente, em especial quando tratam da “cultura japonesa” enquanto algo único, homogêneo e enganosamente “original”, percepção ideológica que tem raízes nas políticas educacionais do Japão em fins de Período Meiji até pouco antes da Segunda Guerra Mundial. Os que gritam em altos brados sobre a homogeneidade do povo e da “cultura japonesa” se esquecem que os caracteres que usam em seus cartazes e teorias foram importados da China, assim como vários costumes, leis e histórias, para não falarmos então da importância da Coréia na formação do bojo cultural nipônico, isso há muito tempo, quando a Coréia não era Coréia e quando o Japão não era o Japão que conhecemos hoje.

Como apontei à exaustão no meu Mestrado, o Centenário da Imigração Japonesa no Brasil atuou como um poderoso catalisador de mudança e, justamente, de significações e ressignificações de mundo, cujos ecos nós podemos sentir facilmente nos dias de hoje. Enquanto um interstício bastante particular do tempo, o Centenário obrigou os descendentes a se olharem novamente, atravessando não só o tempo (pelas várias gerações que envolveu nas festividades) como o espaço (pois evidentemente estamos falamos de Brasil e Japão). Naquele momento eu comentei sobre a produção de múltiplas “identidades nipo-brasileiras” (ao contrário de uma só, como dizem muitos por aqui), gerando infinitas japonesidades e percepções diferentes de identidade, “comunidade nikkei”, “cultura japonesa” e consequentemente, Japão.

Gostaria de apontar para alguns símbolos nipônicos que foram incorporados no imaginário da “comunidade nikkei”, muitos deles transpostos e ressignificados em um contexto diferente, o brasileiro, subvertendo em parte a lógica e significados originais.

Primeiramente, não podemos deixar de lado a chegada triunfal e pelo visto permanente do torii como símbolo da “presença japonesa” nas cidades que receberam imigrantes. Presentes no imaginário popular sobre o Japão, os pórticos são originalmente associados à esfera religiosa do xintoísmo, atuando como demarcadores do espaço sagrado/espaço profano no Japão. Em poucas palavras (e bem poucas, mas prometo escrever algo mais elaborado futuramente), o torii separa o espaço de uma divindade, kami, da nossa dimensão mundana, sendo um marco de transição da nossa realidade com um mundo “mágico”, do “invisível” e que não pode ser visto pelos nossos olhos humanos.

No Brasil o torii virou símbolo da “presença japonesa” em várias cidades, inclusive a minha, São Carlos, São Paulo. Alocados em praças públicas, rotatórias ou até mesmo entradas de restaurantes de “comida japonesa”, os torii perdem a sua conotação original para dar espaço ao imaginário do que temos do Japão. Não quero me alongar numa discussão sobre o Orientalismo de Edward Said ou algo do tipo, mas fica evidente a ressignificação do portal para algo que vai além de uma mera commodity, visão que, inclusive, empobrece o nosso entendimento da questão.

Longe de ser apenas uma “mercadoria” ou algo que simplesmente “encaixa” o pórtico dentro de uma lógica muito particular de mercado, o torii também incorpora e transborda um feixe de impressões sobre Japão, como que intrinsecamente carregado de mana ou algum poder mágico que traz, como o miraculoso teletransporte de Jornada nas Estrelas, um pouco do imaginário nipônico para perto de nós. Aqui e dentro deste contexto cultural híbrido e consequentemente singular, prefiro acreditar que, ao contrário de “perder” a sua conotação religiosa original, o torii “ganha” e acumula novas conotações e sentidos, atuando como um pára-raio de “orientalidades” (para emprestar uma categoria análitica da minha amiga pesquisadora Michiko Okano) e também como um demarcador de espaços diferentes, não o sagrado e o profano apenas, mas o brasileiro e o “japonês” (ou pelo menos o que as pessoas acreditam ser “japonês”).

Outro objeto bastante antigo que chegou com força no Brasil em tempos de Centenário foi o taiko, o famoso tambor japonês. Item também associado à dimensão religiosa e, segundo alguns, na lógica da guerra, no Brasil o taiko acabou sendo ressignificado como outro símbolo poderoso da “presença japonesa” e, por que não, igualmente carregado de “orientalidade”. Agora envoltos na dimensão da performance, do concerto e do show artístico, os grupos de taiko são indispensáveis nos festivais japoneses em todo o país, os famosos “matsuri” (aliás, outro tipo de festejo de origem religiosa, xintoísta, que aqui vira sinônimo de “festival japonês”, sim, aquele que frequentamos para comer yakisoba-sushi-e-temaki), sendo muitas vezes as apresentações mais esperadas pelos espectadores, descendentes e não-descendentes.

Talvez um dos símbolos mais curiosos da “cultura japonesa” praticada no Brasil é o Bon Odori, festejo nipônico similar ao nosso Dia de Finados e que aqui ganhou renome pelas danças circulares alegres (algumas, inclusive, associadas na dimensão da performance tal qual o taiko), geralmente praticadas pelas senhoras e senhores mais velhos da “comunidade nikkei”. O maior exemplo da capacidade de transformação e, justamente, no dinamismo desta “cultura japonesa” é o Matsuri Dance, uma atualização do Bon Odori praticado pelos jovens em alguns estados do país. Contudo, ao contrário de ser algo recente ou “mais novo”, não é encontrado no Japão dos dias de hoje, mostrando a particularidade da “cultura japonesa” à brasileira.

Tais diferenças de historicidade entre os japoneses “do Japão” e os japoneses “do Brasil” não só evidenciam o poder do diálogo e interlocução destes esquemas ou estoques culturais em contextos diferentes, como permitem que minha amiga japonesa diga, repleta de razão e em alto e bom som, que a “nossa cultura japonesa” é bastante diferente da “cultura japonesa do Japão”, cedendo espaço à capacidade de invenção enquanto algo positivo. Como um alerta extremamente importante aos japanólogos e também bastante produtivo se encararmos a questão de modo crítico, vemos a dificuldade em definir a “cultura japonesa” como algo estanque, carregada de uma ilusória territorialidade, ancestralidade biológica ou mesmo cristalizada pelos discursos políticos, acadêmicos, “intelectuais”, etc., como uma caixa lacrada de símbolos que só podem ser acessados por membros muito específicos de um clube mais específico ainda. Afinal, essa “cultura japonesa” tanto aqui quanto acolá é produzida (e só assim pode ser produzida) diante do contato, do diálogo e das trocas culturais. Essa não é a tal da diversidade?

22popimagem02Victor Hugo Kebbe é Doutor em Antropologia Social pela UFSCar. Além de realizar pesquisas sobre a comunidade nikkei no Brasil, se dedica ao estudo de parentesco japonês e famílias decasséguis no Japão. Foi Fellow da Japan Foundation, pesquisador associado da Faculdade de Educação da Shizuoka University e do Instituto de Antropologia da Nanzan University, Nagóia. É autor do blog Japanologia.

 

26 GASTRONOMIA | FRESCOR DE PRIMAVERA

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Revista com receitas de kanten ( Foto: Luiza Freire).

Por Luiza Freire

A ascensão da primavera traz consigo um intenção de leveza e mudança de perspectivas e sentimentos que movem nossas vidas. Intenções que remetem à beleza do desabrochar das flores nesta estação e que indicam a possibilidade de renascimento e de despertar para a vida, após a intensidade de um período frio e de recolhimento do inverno. Sensação de liberdade e de estar ao ar livre com companhias agradáveis, leves e divertidas. Estas mudanças climáticas são muito perceptíveis e definidas no Japão, onde as estações e o clima referente a cada uma delas é muito peculiar. Desde a Antiguidade os japoneses se preocupam com a utilização de ingredientes e os alimentos apropriados de cada estação. A alteração é completa dos sabores à louça e as cores destes utensílios e as receitas que vão à mesa japonesa. Uma preocupação estética muito própria e muito intensa e que tem seu esplendor na gastronomia, um ápice da celebração à passagem do tempo. As receitas têm elementos bem próprios da estação como o desabrochar das cerejeiras e as louças de inverno escuras e de desenhos fortes são substituídas por louças mais finas, claras e com gravuras que remetem às flores e a brisa leve. A primavera tanto no Japão como no Brasil é uma época propícia aos preparos menos calóricos, mais coloridos e de sabor delicado assim como o clima e as sensações que esta estação evidencia aos olhos e ao paladar.

Há tempos procurava alguma publicação japonesa que indicasse o preparo de receitas mais leves, menos calóricas e mais primaveris. Foi numa das andanças no bairro da Liberdade em São Paulo atrás de referências e ideias para meus pratos que cheguei a uma revista japonesa inusitada: aplica o conceito de receitas de até oitenta calorias e/ou diet. Uma publicação repleta de receitas dedicadas à utilização do ágar-ágar (gelatina de algas), as chamadas gelatinas japonesas ou kanten, que particularmente gosto muito e que possuem além de alto valor protéico e de vitaminas, um valor calórico muito reduzido.

Há uma infinidade de possibilidades de sabores, cores e texturas que podem ser preparadas com este ingrediente e na revista fiquei surpresa com as preparações salgadas com a gelatina, todas muito leves e práticas para o dia-a-dia. Considerei como um ingrediente muito convidativo à primavera e preparei, especialmente para esta edição, um kantendoce e variado com sucos e frutas numa sobremesa que é rápida, leve, refrescante e especialmente light.  Uma combinação colorida, bela, saborosa e renovadora como as sensações propiciadas pelas mudanças da nova estação.

Itadakimasu (いただきます)!

RECEITA

 

Luiza  Freire nutre desde a infância a paixão pela cultura e a gastronomia japonesas. Quando não está cozinhando, é pesquisadora na área de educação e políticas educacionais brasileiras.

26 RECEITA | KANTEN FLORIDO

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Kanten florido. (Foto: Luiza Freire / Cerâmica: Alice Yamamura)

Nesta receita optei por fazer uma mix de kanten. Duas coloridas opções com sucos (maracujá e groselha) dando um leve sabor doce ao prato aos kanten de lichia em calda e morango com kiwi. A apresentação foi preparada utilizando cortadores de alimentos de formatos variados e dispostos sobre o prato de cerâmica mais claro para evidenciar as intensas cores do kanten. Rápida e de preparo descomplicado esta receita é perfeita para os dias mais quentes e agradáveis da primavera e do verão.

 Ingredientes:

  • 25g de ágar-ágar em pó
  • água para dissolver conforme as instruções do fabricante da gelatina
  • 280 ml (2 copos) de suco
  • 1 lata de lichia em calda (*)
  • 1 bandeja de morangos cortados em cubos
  • 3 kiwis cortados em cubos

Preparo:

Dissolva o ágar-ágar conforme as instruções da embalagem. Para a gelatina de morangos e kiwis utilize dez gramas do pó e após esfriar disponha as frutas picadas. No kanten de sucos, dissolva cinco gramas do pó para cada dois copos de suco concentrado e reserve. Para o kanten de lichia dissolva cinco gramas do pó em água fria e somente após esfriar quase completamente, adicione as lichias em calda picadas e o caldo da lata. Após o kanten estar firme e frio corte-o conforme sua preferência utilizando cortadores de formatos variados e sirva. Pode ser levado à geladeira e tem validade de três a sete dias.

(*)Além da lichia é possível utilizar pêssego, abacaxi, cerejas ou figos em calda.

Rendimento: 16 porções.

26 KINEMA | CURITIBA TERÁ MOSTRA DE CINEMA NIKKEI

Cena do filme "Chá verde e arroz", de Olga Futemma.
Cena do filme “Chá verde e arroz”, de Olga Futemma.

O MEMAI promove, com apoio do Consulado Geral do Japão em Curitiba e Fundação Cultural de Curitiba, a Mostra de Cinema Nikkei,  que acontecerá de 25 a 31 de outubro, no Cine Guarani, no Centro Cultural Portão. As sessões acontecem todos os dias, a partir das 20 horas, menos às segunda-feiras, quando o cinema está fechado.

O cinema é a arte que retrata a imagem de seu povo. Os imigrantes japoneses chegaram ao Brasil em 1908, e alguns poucos traziam a lembrança de filmes produzidos na terra do Sol Nascente, ainda em 1899, quando começaram a ser produzidas as primeiras películas.  Esses filmes retratavam o épico japonês (o imaginário de samurais, gueixas, etc.) e, posteriormente, com a entrada de grandes cineastas como Akira Kurosawa, Yasujiro Ozu, Kenji Mizoguchi, Shoei Imamura, a vida nas grandes cidades.

No Brasil, vimos que os imigrantes mantiveram a sedução pelas imagens  não apenas como espectadores. Se a princípio muitos não puderam obter câmeras e filmadoras, a partir do pós-guerra surgem desbravadores como o cineasta Hikoma Udihara, o fotógrafo Haruo Ohara e o animador  Ypê Nakashima, que se tornaram caçadores ou produtores de imagens, registrando o cotidiano e as cidades em que viviam, colaborando na composição de uma iconografia sobre a vida dos  japoneses e seus descendentes no Brasil.

Outras figuras que se destacam na história visual da imigração japonesa são Tomie Ohtake, Claudio Seto e os projecionistas que levavam filmes japoneses para o interior do estado. A pintora  Tomie Ohtake e o ilustrador Claudio Seto reconstróem o Japão no Brasil, com suas tintas e pinceladas, algumas vezes recriando  a essência japonesa com mais rigor,  outras,  diluindo-as na paisagem brasileira.  Já os  cinema-shya,  projecionistas da comunidade nipo-brasileira, foram retratados por Olga Futemma.

A mostra será uma oportunidade para rever questões sobre a história de uma comunidade ainda considerada estrangeira no Brasil: o reconhecimento de torturas e crimes cometidos contra esse grupo étnico durante o Estado Novo, a fixação em comunidades, como o bairro da Liberdade, em São Paulo, o sentimento de não-pertencimento da maior parte dos  descendentes e o retorno dos dekasseguis para  o Japão, a partir dos anos 90.

Essa mostra visa iluminar momentos captados pelas câmeras, e ainda pouco divulgados entre as comunidades nipo-brasileiras e de apreciadores da cultura japonesa. Desde a sua criação, em 2009, o MEMAI acredita que a arte japonesa não é apreciada apenas pelos membros da comunidade nipo-brasileira. Por isso, a comemoração dos 105 anos da imigração japonesa ao Brasil, justifica uma repercussão maior da memória dos imigrantes, documentada em imagens em movimento.

A programação, em detalhes, será fornecida pelo MEMAI, uma semana antes do evento.

NOTÍCIA | CICLO DE CINEMA JAPONÊS

"Céu e inferno", de Akira Kurosawa.
“Céu e inferno”, de Akira Kurosawa.

No mês de setembro, o Cineclube Sesi traz filmes do Cinema Japonês,  contemplando obras  realizadas durante as décadas de 60 e 70 , de autores com estilos bem diversos: Akira Kurosawa, Kaneto Shindo  Masaharu Shinoda e Shunya Ito.  Enquanto Kurosawa discute o Japão do pós-guerra, Shindo  e Shinoda exploram o feudalismo e Ito parodia  os clichês da contemporaneidade.

Programação:
Dia 05/09 – “Céu e Inferno” de Akira Kurosawa
Dia 12/09 – “Onibaba” de Kaneto Shindô
Dia 19/09 – “Duplo suicídio em Amijima” de Masahiro Shinoda
Dia 26/09 – “Female convict scorpion jailhouse” de Shunya Ito
Local: Sala Multiartes do Centro Cultural da FIEP – Avenida Cândido de Abreu, 200 – Centro Cívico – Curitiba

NOTÍCIA | CELEBRAÇÕES PARA TOMIE OHTAKE

Estudos de Tomie. Imagem: divulgação.
Estudos de Tomie. Imagem: divulgação.

Pelo menos 15 exposições já estão programadas para celebrar os  100 anos da pintora Tomie Ohtake, a ser comemorados no dia 21 de novembro. Uma das mais curiosas, Influxo das formas,  é a organizada pelo   Instituto Tomie Ohtake, com curadoria de Agnaldo Farias e Paulo Miyada. A exposição é inédita por mostrar documentos da gênese de seu processo de trabalho.

São 100 materiais de estudo, entre os milhares de esboços que a artista fez durante mais de seis décadas : colagens, desenhos, cadernos, croquis e maquetes de esculturas. Para refletir e contrapor entre o processo e a obra, outra sala abriga cerca de 30 trabalhos entre pinturas, gravuras e uma escultura.

Japonesa de nascimento e brasileira por adoção , Tomie  só começou a pintar depois dos 40 anos, após ter criado os filhos. Criou em seus estudos um vocabulário  de formas que vão e voltam como uma inundação em toda sua obra. “[…] suas linhas não têm começo nem fim, elas retornam sempre, como letras de um alfabeto pessoal que Tomie manuseia incessantemente, percorrendo-as em tamanhos, cores e materiais variados”, afirmam os curadores.

 Por muitos anos, Tomie rasgou e recortou páginas de revistas brasileiras e japonesas – além de cartões postais, envelopes e o que mais lhe caísse nas mãos – a fim de criar os módulos de seus estudos para pinturas e gravuras. Farias e Miyada descobriram também que, paralelamente, a artista preenchia cadernos e folhas soltas com dezenas de pequenos retângulos, cada um a síntese de uma pintura. Feitas com canetas coloridas, esferográficas, grafite e mesmo com picotes de papel, essas miniaturas podiam ser o ponto de partida de novas telas ou formar compilações de obras que, juntas, integrariam uma exposição.

Instituto Tomie Ohtake avenida faria lima 201             (entrada pela rua coropés)             são paulo – sp