NOTÍCIA | MATSURIS LÁ E CÁ

The sacred child of the 2007 Gion Matsuri. Imagem: Japan Guide.
As crianças sagradas 2007 Gion Matsuri. Imagem: Japan Guide.

Marilia Kubota

Visitar um matsuri (festival, em japonês) é uma experiência para todos os sentidos. Os festivais realizados no Japão, para marcar as estações do ano e outros eventos, estão relacionados a festividades xintoístas – religião relacionada ao culto da natureza. Em Quioto (a mais antiga cidade japonesa), por exemplo, são  celebrados os famosos AOI MATSURI, em maio, o GION MATSURI (o maior e mais popular)  durante todo o mês de  julho e o JIDAI MATSURI, em outubro.

Além de um festa visual, com exibição de uma profusão de quimonos, e de danças tradicionais (odori, como o bon odori, dança dos mortos, também trazida ao Brasil pelos imigrantes japoneses), há uma festa para o paladar. Em Quioto, ao contrário das festas brasileiras, sobressaem os pratos com tofu – o queijo de soja.  O soja é uma das principais proteínas da dieta japonesa.

No Brasil, nos acostumamos a associar os matsuris a grandes festivais gastronômicos, onde os pratos mais conhecidos são os que  contêm carne, como o sukiyaki e o yakisoba, além  do sushi e do sashimi. Nestes eventos, não pode faltar o karaokê – festival de canto amador – , tradição intimamente ligada com a vida do imigrante, funcionando como uma espécie de válvula de escape das repressões sociais. Tanto no Japão quanto no Brasil, cantar sucessos de seus cantores preferidos ajuda a aliviar as tensões do cotidiano. E, nos últimos anos, vê-se cada vez mais a presença do taiko (tambor japonês)  nos festivais brasileiros, graças ao apoio do governo do Japão.

Graças à indústria de entretenimento, que vende, a cultura japonesa traduzida para a  linguagem popular, floresce espontaneamente nos matsuris o cosplay (fantasiar-se como uma personagem de desenho animado). O cosplay seria uma espécie de “carnaval japonês” para  tímidos, uma possibilidade de extravasar suas fantasias.

Se existem  diferenças entre festivais japoneses e brasileiros,  não deixam de ser fenômenos de mídia. Os matsuris são cada vez mais visitados por turistas locais ou estrangeiros, e sua beleza, tradicional ou exótica, não pode passar despercebida. Por isso é um “paraíso” para fotógrafos, cinegrafistas e caçadores de imagens. Mas também para os artistas, como se vê na foto abaixo.

Imin 100. Foto: Claudine Watanabe.
Imin 100. Foto: Claudine Watanabe.

IMIN MATSURI 2013

Curitiba festeja mais um IMIN MATSURI para comemorar os 105 anos dos imigrantes japoneses no Brasil. Nesse final de semana,  (29 e  30), acontece  o 23. Festival do Imigrante Japonês ,  a ser  realizado na Praça Burle Marx, a lado do MON (Museu Oscar Niemeyer). O evento fica aberto das  11h às 21h no sábado e das 11h às 17h.  É realizado pela Associação Cultural e Beneficente Nipo-brasileira de Curitiba (Nikkei Curitiba) e apoiado pela Fundação Cultural de Curitiba, Prefeitura Municipal de Curitiba, Consulado Geral do Japão em Curitiba, Sakura e RPC TV. A grande atração da festa será a cantora japonesa Mariko Nakahiro.  A entrada é franca.

O Imin Matsuri acontece desde 1991 na comunidade nipo-brasileira de Curitiba. No início, o matsuri foi uma ideia proposta pelo animador cultural Claudio Seto para substituir as festas juninas, a partir da anedota da  confusão criada pelo imigrante japonês, em sua chegada em 18 de junho de 1908. Os issei (japonês de primeira geração) pensavam que os fogos de artifício das festas juninas eram uma saudação dos brasileiros a eles. O Imin Matsuri seria o segundo festival a ser celebrado pela comunidade, que já havia criado o Haru Matsuri – Festa da Primavera. A  ideia era ter um matsuri para cada estação, o que já acontece na cidade, com a celebração do Hana Matsuri (abril)  e do Seto Matsuri (dezembro). Como em muitas cidades brasileiras, os matsuris de Curitiba fazem parte do calendário oficial de eventos.

Concurso de mangá

O Curso Bunkyo de Língua Japonesa aproveita para promover  um concurso de mangá.  Interessados em participar  devem comparecer à entidade e retirar o papel e o cartaz onde colará o desenho.  A entrega dos desenhos deve ser feita até a sexta-feira (28). Podem ser usados quaisquer tipos de materiais de pintura (pincéis atômicos, aquarelas, grafites,  giz de cera, lápis de cor, nanquim.) ou materiais e técnicas variadas como colagens, tecidos, pedrarias, lantejoulas.  O resultado será divulgado no domingo (30).

O Museu Oscar Niemeyer fica na Rua Marechal Hermes, 999 – Centro Cívico.

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23 HAICAI | FAÍSCAS, DE ADEMIR DEMARCHI

Untitled, 2008. Mai Fujimoto.
Untitled, 2008. Mai Fujimoto.

Segundo o poeta Ademir Demarchi, o título Faíscas remete à ideia de iluminação budista – o satori. São faíscas de felicidade, de memórias da infância  divagações bucólicas ou experiências familiares no meio rural. Em lugar do rigor da arte que consagrou Matsuo Bashô e Issa Kobayashi, Demarchi prefere a poesia tropical, bonachona dos adeptos do free haiku, criado pelos poetas beatniks e propagado no Brasil pelo poeta Paulo Leminski e seus discípulos, os escritores Domingos Pelligrini Jr. (que criou “haikaipiras” e Thadeu Wojciechowski (que prefere deleitar-se com os koans-do de Saburo Nosuco).

Se tudo no Brasil é sátira ou paródia, por obra do acaso  o riso cede à lírica e  acontece a faísca da iluminação.  Pode ser que isso seja o satori. 

Ademir Demarchi nasceu em Maringá (PR), em 1960 e mora em Santos (SP).  É doutor em Literatura Brasileira pela USP. Editor da revista de poesia Babel e do  selo Sereia Ca(n)tadora.

minhas roupas tortas/sou eu o espantalho/na horta

 

sementes de algodão/viram nuvens/em minhas mãos

(para nempuku sato)

 

a cigarra plena ao cantar/busca a perfeição/de rachar, morrer

 

varre com cuidado/e respeito as folhas/secas caídas no eito

 

candente o vagalume/ferve às costas/a garoa cadente

 

o vento fala às folhas/as folhas/falham ao vento

 

na areinha/nada de costas/a tartaruga marinha

 

Pirão de Sereia. Ademir Demarchi, Realejo, 2012. 

 

23 POLÍTICA | SOBRE A FESTA DAS MANIFESTAÇÕES NO BRASIL

Manifestação em defesa do Passe Livre em SP.
Manifestação em defesa do Passe Livre em SP. Foto: Felipe Gaieski.

A sensação que fica é que protestos e manifestações, violentos ou não, tem um caráter simbólico importantíssimo na democracia: provocam um tipo de reação do poder público a curto prazo, aproximam as pessoas, passam uma mensagem de indignação da população, mas seus efeitos não duram sem que os ideais pelos quais se luta sejam internalizados pela sociedade civil e exigidos e cobrados dentro das regras do jogo político democrático.

Temo que os protestos no Brasil vão ter o mesmo fim, mas ainda assim estão servindo para balançar as pessoas, para mostrar que manifestante não é vagabundo, que violar a propriedade (privada e patrimônio público) não é nada perto da agressão contra vidas humanas, perto dos abusos cometidos sistematicamente pela PM, e por tabela,  mostraram  que o comentarista da Globo, Arnaldo Jabor é um babaca,  o Datena é  oportunista, e a grande mídia não tem honestidade, não tem caráter.

No final pode surgir uma nova sociedade civil organizada que tente internalizar um pouco das lutas que ocorreram nesses dias de revolta e criar uma série de critérios, de princípios de ação condizentes com a luta contra práticas corruptas (e não contra a corrupção como termo geral e indefinido) e contra os abusos do Estado. Mas infelizmente, creio que a grande maioria vai aceitar as desculpas do Jabor e xingar o pessoal da USP de maconheiros filhinhos de papai na próxima greve que realizarem por lá.

Porque já sinto que os ideais do movimento estão sendo apropriados, e não pela direita golpista, como muitos rotulam, mas por gente que não entende nada de política (e tende a ser a tal direita golpista,  mas também transita na esquerda deslumbrada). O que começou como ideais difusos, e depois uma disputa com o governo de São Paulo, está tendo gradualmente a pauta modificada contra o governo federal, especialmente com a repentina mudança da postura da imprensa, o que não seria grande problema se apenas soubessem porquê. O que começou como um movimento da esquerda, logo será transformado em movimento anti-Dilma, sem resolver os problemas antigos e novos. E ela pode de fato ter muita culpa da situação atual do país, mas não é a única responsável pelo que aflige a população.

Aqui temos o risco de lançar no jogo político pessoas pseudo-politizadas, aquelas que não compreendem bem a distribuição de competências entre município, governo estadual e federal, congresso, assembleias e câmaras de vereadores. Quem aumenta o preço da passagem? Quem licita e supervisiona as obras da copa? Quem é responsável pela polícia militar? Aquele que não sabe isso, que acha que são detalhes, burocracia, é quem geralmente culpa o governo federal, PT, Dilma, por tudo. É o mesmo povo que chama os outros de massa de manobra, e não percebe que é a verdadeira massa manobrável, por não compreender que as raízes da corrupção, da má gestão de recursos, está mais na falta de accountability** horizontal e vertical do Estado do que na escolha do eleitor. Enfim, quem vê a política de forma superficial e resume sua crítica ao argumento genérico da corrupção e PEC 37 ( pautas importantes de debate), mas sem sequer procurar compreender os fenômenos que critica,  vai lutar para acabar com algo ruim e colocar algo  pior no lugar.

E pior, a própria crítica à imprensa está sendo esvaziada. Tem gente que insiste em achar que a TV Globo é partidária do governo federal e a manifestação é uma parceria entre a emissora e o PT, tem gente que acha que qualquer crítica ao PT é coisa de golpista (as vezes é, as vezes não é). Enfim, a crítica se polariza e se torna inócua.

E esse texto não é uma defesa do PT ou de qualquer partido político, até porque este, como todos os outros partidos, merecem sim, crítica, precisam mudar completamente suas práticas. O nível de interferência do governo federal nos outros poderes é inadmissível e antidemocrático, além da qualidade da atuação legítima ser medíocre. E assim também tem sido as ações de todos os partidos do espectro político, da esquerda à direita. Mas ainda assim mantenho um desabafo,  a manifestação de alguém que quer que cada responsável seja responsabilizado na devida medida. E é por isso que, passado o calor dos primeiros protestos, creio que é essencial criar uma pauta para esse movimento, sob o risco de que muita gente ali acabe lutando contra algo que nem queria lutar.

 Nota da editora: contém impressões pessoais.  Veja edição original em Nihon Go!

23 POLÍTICA | COMO SÃO OS PROTESTOS NO JAPÃO

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Por Eduardo Mesquita Pereira Alves

Com as recentes manifestações do Movimento Passe Livre em São Paulo, a expansão dos protestos contra problemas crônicos da sociedade brasileira, bem como contra a conhecida, porém muitas vezes ignorada truculência da PM, comecei a me perguntar sobre a ocorrência de situações semelhantes no Japão. Por coincidência,  quando estava lá, também tive curiosidade semelhante, mas não me aprofundei. Revendo o que investiguei naquele tempo, não achei muita coisa diferente. Assim, desde já, peço que, se alguém conhece melhor o tema, contribua com comentários, links. Posto aqui, como sempre, como leigo interessado, não como especialista.

A impressão que fica ainda é a mesma, poucas manifestações populares, questões pontuais, ausência de continuidade, números pequenos. Para falar a verdade, no feed do Partido Comunista no Facebook (assino todos os partidos, é uma boa fonte de informação sobre as ideologias que permeiam a política japonesa), que vejo toda semana alguns movimentos menores, especialmente de classes específicas de trabalhadores, protestos contra energia nuclear e contra o TPP (Transpacific Partnership).

De qualquer forma, vou compartilhar aqui as manifestações mais enérgicas que encontrei, e depois vou tecer comentários sobre isso. E, aproveitando a carona, sobre o que penso do que estamos vendo no Brasil

1) Revolta do Arroz (1918)

É, tive que voltar  quase cem anos no tempo para achar algum protesto bem inflamado. E esse foi o maior do Japão moderno, e também tem a ver com aumento em preço, mas em vez de um serviço essencial, trata-se do alimento essencial do japonês, obviamente, o arroz.

De 1914 à 1918, o preço do arroz tinha ficado praticamente inalterado em torno dos 15 ienes. Em 1918, subiu para 50 ienes. O custo de vida evidentemente subiu, os jornais fizeram enorme alarde sobre a incapacidade do governo em conter a escalada dos preços, gerando um sentimento de insegurança, que culminou com uma série de manifestações violentas em centenas de cidades e vilas japonesas, entre o dia 11 e 20 de agosto daquele ano.

O governo reprimiu violentamente o movimento, com mais de 25 mil pessoas presas, aplicação de penas capitais, que mesmo assim não contiveram as revoltas. Tudo isso levou à queda do primeiro-ministro e à formação do primeiro Gabinete Partidário do Japão, ou seja, gabinete (órgão máximo do poder executivo) formado pelo partido com maioria no parlamento. Até então, o gabinete era formado por uma elite política ligada ao Imperador, externa ao sistema parlamentar.

2) Revolta Koza

É a mais recente, ocorreu em 20 de dezembro de 1970,  25 anos depois da ocupação americana da ilha de Okinawa, 5 mil habitantes se rebelaram e entraram em confronto com 700 membros da Polícia Militar dos Estados Unidos.

Mais do que a indignação com a presença estrangeira, foi fruto da revolta contra a extraterritorialidade jurisdicional, que impedia que americanos  criminosos  e abusadores da população japonesa fossem julgados pela justiça local.

Os japoneses destruíram mais de 75 carros, causaram incêndios, feriram 56 soldados americanos. Houve ainda feridos entre os policiais de Okinawa e evidentemente entre os manifestantes, além de dezenas de presos.

O evento fomentou forte sentimento anti-americano, ou melhor, antipresença militar americana. O governo japonês adotou postura conciliadora, conseguiu acalmar ambos os lados. Do lado americano, milhares de soldados pediram dispensa ou foram transferidos. Do lado japonês se tornou comum entre a população de Okinawa organizar atos mais pacíficos contra a base dos fuzileiros navais.

3)  Incidente de Airin

Esse sim, é bem recente. Em 1990, foram 5 noites de conflito entre 2500 policiais e 1500 manifestantes, que arremessaram pedras na polícia, queimaram prédios, destruíram patrimônio público. Foram mais de 200 feridos e 50 e poucos presos.

O distrito de Airin, em Osaka, é conhecido pela criminalidade, pela presença maciça da Yakuza, bem como por uma população marginalizada de trabalhadores braçais e alcoólatras. Os constantes abusos da polícia corrupta da região culminaram com essa explosão da população, após a prisão de um homem, motivada por um discurso contra o imperador.

4)  Protestos anti-energia nuclear

Protestos contra a geração de energia por meio das usinas nucleares sempre foram uma constante no Japão. Mas desde o incidente em Fukushima, não só se tornaram  comuns, como atingiram proporções enormes. Em 16 de julho de 2011, estima-se que quase 200 mil pessoas se reuniram em Tóquio para protestar. Esses eventos não registraram ocorrências violentas, no entanto. Também não tiveram muito resultado.

Enfim, no Japão, como aqui, se protestou contra o aumento de preços, contra o abuso de poder da polícia, e diferentemente daqui, contra uma presença estrangeira que muitas vezes parece violar a soberania da nação, bem como contra a geração de energia nuclear que já fez o país sofrer .

No final das contas, minha impressão é que o efeito dos protestos não foi grande. Na revolta do arroz provocou a queda do primeiro-ministro, mas em 2 anos, a situação não só foi revertida como piorou, com uma onda de autoritarismo que levou ao desastre da participação japonesa na Segunda Guerra.

Koza fomentou muita discussão, mas, 43 anos depois,  a base americana continua em Okinawa.

O incidente de Airin não mudou a realidade de Airin, e os movimentos anti-nuke não impediram o religamento das usinas nucleares do Japão.

SOBRE A FESTA DAS MANIFESTAÇÕES NO BRASIL

 

* Nota da editora: Veja edição original em Nihon Go!

** representação.

O maior crime cometido na humanidade não causou nem um motim. Só a diáspora da herança cultura japonesa no mundo. Foto: Hiroshima mon amour.
O maior crime cometido na humanidade não causou nem um motim. Só a diáspora da herança cultura japonesa no mundo. Foto: Hiroshima mon amour.

Eduardo Mesquita Pereira Alves é advogado, graduado em Direito pela UFPR, sócio da Sunye, Pereira Alves e Oliveira Viana – Sociedade de Advogados, e estudou na Soka University, de abril de 2010 a fevereiro de 2011. É autor do blog Nihon Go!

23 KOTOBA | ESTAMOS TODOS TONTOS

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“Rice Planting” (Taue), Shiro Kasamatsu (1898-1991) – 1953.

No Brasil, na Turquia, no Japão. Estamos todos tontos. Não sabemos muito bem o que está acontecendo, mas o mundo está em movimento.

Os jovens vão à rua por muito pouco ?  Talvez sim, talvez não, diria o sábio chinês Sofu.  Os movimentos sociais, anônimos, articulados nas redes sociais, são belos levantes contra a ordem mundial.

Um pouco de desordem, mesmo para os disciplinados japoneses – e seus descendentes,  e os fiéis seguidores dessa cultura, os japoneses múltiplos  – não faz mal. Uma hierarquia por demais rígida acaba por engessar os sistemas. O melhor é seguir com interesse a dança dos movimentos nas ruas, seja o ritmo  o rap ou o bon odori. Diz um poeta brasileiro: “chutes de poeta não levam perigo à meta.” Poetas não fazem gol,  ao contrário, podem ser os bobos que chutam a bola para longe do campo.

O que as manifestações políticas de jovens desejam pode não ser  relevante. O importante é manter vivo o desejo de se manifestar. Isso sim, é uma revolução.   E uma vertigem.

Marilia Kubota

23 GASTRONOMIA | COM AÇÚCAR, COM AFETO

Por Lu Noguchi

Crédito: http://sweetblogchria.com.br/novo/?p=1676
Crédito: http://sweetblogchria.com.br/novo/?p=1676

Neste mês, o texto da coluna de gastronomia é suave, leve  e encantador como os versos entoados atualmente pela Fernanda Takai  quando canta “(…)com açúcar, com afeto/ fiz seu doce predileto  / para você parar em casa (…)”, uma ode ao ato de cozinhar e para  além disso preservar e rememorar bons momentos ao redor da mesa com  quem se ama.

O mês de junho tornou-se  um mês especial dentro da minha lista de alegrias anuais. Há um ano  iniciava esta coluna aqui no MEMAI, em meio a uma profusão de  incursões e imersões tanto na gastronomia japonesa e, especialmente,  na confeitaria e patisserie mundial. Foi uma fase  doce e de muito  trabalho, e o  resultado final é fruto de muitas e intermináveis tentativas até a obtenção do sabor, consistência,  aroma e aparência ideais.

Este olhar sobre a gastronomia  como ponto de despertar os sentidos e as sensações vai ao encontro  do retorno da corrente de uma culinária mais afetiva, a comfort food, termo norte-americano cunhado para designar a  sensação de relacionar o alimento às sensações psíquicas e do  tempo onde foram vividas e de evidenciar os momentos à mesa e os prazeres  do processo como um todo, desde a escolha das receitas, ao preparo e  à degustação propriamente dita. Das diversas obras da gastronomia  japonesa que tive contato até hoje, mais da metade delas dedicavam-se  a valorizar o conceito de cozinhar por amor e/ou afeto. Os japoneses,  desde a antiguidade, dedicam-se a valorização do ato de  cozinhar e preparar seu alimento.

Aliado a esta condição  da gastronomia oriental como representação do carinho e da afetividade  de quem prepara os pratos e a condição da incansável perfeição  na busca pelo quarteto (sabor, consistência, aroma e aparência), deleguei  o mês de junho como o “mês amoroso” na minha agenda daqui em diante.

Compartilho com vocês  deste sentimento leve, adocicado e por que não apaixonado na receita  a seguir uma preparação comfort food feita para comemorar um ano de MEMAI e meu retorno  às aulas de língua japonesa. Como modo de confraternizar com meus tomodachi,  celebrando a vida e os bons momentos. Uma fofinha, delicada e rápida  combinação de sabores, os cupcakes de baunilha com recheio de Boston  Cream e cobertura de ganache de chocolate 55 %  puro cacau fizeram sucesso. Bolos são presentes para os japoneses e  aqui no Brasil,  são sinônimo de acolhida, de “casa da avó”.  Presenteei estas pessoas queridas com a minha especialidade e aquilo  que é a minha comfort food, ou seja, a comida que traz conforto e lembranças  e cupcakes/bolos sempre rendem ótimas recordações.

 Itadakimasu (いただきます)!

RECEITA

Lu Noguchi nutre desde a infância a paixão pela cultura e a gastronomia japonesas. Quando não está cozinhando, é pesquisadora na área de educação e políticas educacionais brasileiras

23 RECEITA | CUPCAKE DE BAUNILHA (バウニリア の カップケーキー)

Foto: Lu Noguchi.
Foto: Lu Noguchi.

Ingredientes:

125g de manteiga sem sal

  • 125g de açúcar
  • 2 ovos
  • 1 colher (café) de extrato de baunilha
  • 125g de farinha de trigo
  • 50ml de leite
  • 1 colher (sobremesa) de fermento em pó

Boston Cream – Recheio

  •  ½ litro de leite
  • 1 fava de baunilha
  • 2 gemas
  • 1 lata de leite condensado
  • 2 colheres (sopa) de amido de milho

Ganache de Chocolate – Cobertura

  •  360g de chocolate meio amargo (55% cacau ou mais)
  • 2 caixas de creme de leite UHT

Preparo:

Massa: Pré-aqueça o forno a temperatura  média por 15 minutos. Neste tempo, bata a manteiga amolecida e o açúcar,  na batedeira, até obter um creme esbranquiçado. Sem desligar a batedeira,  despeje os ovos um a um. Após obter um creme homogêneo incorpore o  extrato de baunilha e desligue a batedeira. Peneire a farinha neste  recipiente e misture delicadamente a massa. Aos poucos despeje o leite  e misture bem e por último, incorpore o fermento em pó. Distribua a  massa em 12 forminhas para cupcakes, lembrando de preencher menos da  metade da forminha para que a massa não transborde ao assar. Leve ao  forno pré-aquecido por aproximadamente 15 minutos ou até a superfície  ficar levemente dourada. Retire do forno e deixe-os esfriar sobre uma  grade para que o bolinho não desgrude da forminha.

 Recheio: Em uma panela misture com o fuet(*) o leite, as gemas,  o leite condensado e a fava de baunilha. Cozinhe esta mistura em fogo  brando, por aproximadamente 15 minutos ou até levantar fervura. Retire  a fava de baunilha e descarte. Insira o amido de milho diluído em 50  ml de leite frio. Mexa até o creme incorporar e formar bolhas na superfície,  desligue o fogo e reserve.

 (*) Corte a superfície do cupcakes com uma faca, em formato  cônico. Retire este pedaço de massa e recheie com o Boston Cream.  Separe a base deste cone e tampe o recheio. É importante rechear com  o creme e o bolinho já frios para não alterar o sabor e a consistência  da massa e do recheio.

Cobertura: No micro-ondas, em potência média (70%), derreta  o chocolate em pedaços por dois minutos. Retire do micro-ondas e apoie  sobre uma grade. Misture o creme de leite e mexa até o chocolate ficar  incorporado e com a consistência firme, porém amolecida para ser usada  em sacos de confeitar. Confeite os bolos já recheados com este ganache  e sirva.

 Rendimento: 12 unidades.