31 ARTES MARCIAIS | O SEGREDO DA ESPADA JAPONESA

Espadas, a arte de Edson Suemistu. Foto: site Edson Suemitsu.
Espadas, a arte de Edson Suemistu. Foto: site Edson Suemitsu.

Por que os ocidentais são fascinados por samurais e artes marciais ? Desde o século XIX , quando começou a modernização no Japão, no período Meiji, a imagem  do samurai foi reconstruída no Ocidente. Os guerreiros japoneses vinham sendo destituídos de poder e influência  gradativamente, nos séculos anteriores. No período Meiji tornam-se figuras meramente decorativas. Daí seu estereótipo, representando disciplina, lealdade, honra, ter sido apropriado pela indústria cultural. E formando uma imagem que se dissemina em mangás, animês, no cinema e na literatura de massa.

Os ocidentais  não são fascinados apenas pelos samurais. Seu  símbolo, a espada japonesa (Nihonto) passou a ser cultuado com devoção,talvez porque a espada represente poder. No imaginário universal,  é  famosa a espada lendária de Rei Arthur, Excalibur, e outros heróis também nomeavam suas espadas. As espadas japonesas mais antigas são as relatadas no Kojiki, um texto que mistura fato e mito, tido como o primeiro livro oficial de história do Japão, escrito em 712 d.C. De acordo com a lenda, a espada faz parte dos três “tesouros sagrados do Japão” – um espelho, um colar e a espada. Essa também tem um nome:  Kusanagi no Tsurugi. 

As espadas artísticas passaram a ser valorizadas no domínio do shógum Tokugawa. Nessa época, na falta de terras , usava-se a  espada para presentear nobres e  aliados.  Aí passaram a ser fabricadas com esmero artístico. Em 1876, o imperador Meiji baixou uma lei que proibiu o porte de armas de fogo e e armas brancas. Na 2a. Guerra os soldados japoneses foram armados com espadas e a produção voltou. Depois da derrota, as katanas tornaram-se “arma maligna símbolo do inimigo”, e proibida no território administrado pelo General Douglas MacArthur. Esse ordenou a destruição de todas as espadas japonesas. Um professor,  Junji Honma, salvou as artísticas, explicando ao general de seu valor.

Forjando espada artesalmente. Foto: site Edson Suemitsu.
Forjando espada artesanalmente. Foto: site Edson Suemitsu.

Curitiba abriga um fabricante de espadas artísticas. Edson Suemitsu, um paranaense natural da cidade de Bandeirantes, situada no oeste do estado,  afirma que faz parte da sétima geração de uma família de samurais. Viveu a infância e adolescência em uma cidade próxima, Jacarezinho e hoje vive  em Curitiba. Desde criança sentia-se atraído por trabalhos com uso de metal, e já brincava com espadas de madeira. Ia no ferro-velho e achava barra de ferro e brincava de fazer espada, ou forjava facas e instrumentos cortantes, numa oficina mecânica vizinha, conta. Aos 29 anos, começou a estudar  a arte da fabricação de espadas japonesas.  Tempos depois, forjou a primeira espada artística, iniciando-se como katana kaji (forjador de espadas). Aí surgiram várias encomendas e o filho montou um site para ele. Apesar do sucesso, a prática só se tornou uma profissão rentável há cinco anos.

A família Suemitsu é conhecida na comunidade nipo-brasileira de Curitiba.  Tome Suemitsu, a atualmente com 105 anos, avó de Edson, é sua integrante mais idosa.  Como o katana kaji, seus irmãos também praticam  Ki-Aikido, ramo de aikido criado pelo mestre Koichi Tohei , derivado da arte marcial fundada por Morihei Ueshiba.  Edson é um artesão e cada katana que fabrica é uma peça única. Depois de ver a forma final da katana, muita gente pode não acreditar nas ferramentas que Suemitsu usa. Quase todos os equipamentos de sua cutelaria improvisada nos fundos de uma oficina mecânica foram criados por ele mesmo. O interessante é que tanto antigamente como hoje, uma kataná tradicional é  feita com três instrumentos rudimentares: uma tenaz, um malho e uma bigorna. O processo baseia-se no antigo método chinês de aquecer, dobrar e achatar o metal repetidas vezes, até conseguir dar a forma que se deseja ao metal. É estressante, por isso, para produzir uma espada artesanal é preciso ter persistência  e paciência.

Segundo ele, seus ancestrais também eram katana kajis. Quando criança, intuitivamente ele tomou conhecimento dessa herança.  À medida em que foi amadurecendo, foi aprendendo a arte, como  autodidata. Ele acredita que uma força sobrenatural o guiou para esse caminho. Quando sua tia  esteve na província de Kagoshima, no Sul do Japão, confirmou  que os ancestrais  forjavam katanas. Edson acabou estudando toda a linhagem da família e conhece toda a árvores genealógica, até o tataravô.

Katana, uma paixão universal. Foto: Edson Suemitsu.
Katana, uma paixão universal. Foto: Site Edson Suemitsu.

Na comunidade nipo-brasileira,  a crença na reencarnação e em preceitos herdados das religiões shintoístas e budistas é disseminada. Temas tabus para os católicos, como a reencarnação  e crença em espíritos são relatadas não apenas por grupos religiosos, mas também de pai para filho. Edson preserva o imaginário em que convivem princesas, guerreiros e a figura onipresente do Imperador, contando histórias fantásticas, que encantam os ouvintes.  As raízes nobres estão registradas  no Koseki Toohon, segundo ele. O Koseki Toohon é um documento emitido por todas as prefeituras japonesas e traz a genealogia da família.

Além de forjar a lâmina da espada, e fabricar artesanalmente o cabo, tudo com material importado do Japão, Edson faz um ritual para elas. O katana kaji as benze para que recebam boas energias espirituais. Tal ritual está de acordo com uma tradição que só os japoneses conhecem: manter uma katana em casa, segundo acreditam, traz boa sorte para a família. O artesão explica que mesmo uma espada usada pode ser benzida para trazer bons eflúvios para seu proprietário. Devido ao conhecimento da tradição, muitas famílias japonesas o procuram   para “resolver problemas familiares” com o benzimento de uma espada.

Katanas herdadas de ancestrais ou compradas como peças de decoração podem atrair “energia ruim”, segundo Edson. Isso se deve ao fato de que algumas katanas, compradas em sites estrangeiros foram roubadas ou pertenceram a pessoas que as venderam muito barato aos soldados americanos, durante a proibição de MaCArthur.  Por isso, a necessidade tanto de saber a origem da espada quanto fazer o ritual de benzimento. O artesão ainda ressalta que a katana fabricada por mãos japonesas é mais valiosa, não no sentido estritamente monetário. O maior valor de uma espada feita por mão japonesa é o sentimental, passa ser uma shinken, detalha. Em japonês, shinken significa “espada real”.   Esse tipo de espada é a considerada sagrada pelos japoneses e descendentes, que a buscam manter num altar budista.  Atualmente, não só japoneses desejam esse tipo de proteção. Os não descendentes também reconhecem o valor de tal instrumento, afirma Edson.  Por isso a fama do artesão só tem crescido. (MK).

Para saber  mais sobre a história da katana, acesse aqui.

 

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31 PESQUISA | UMA VIAGEM PELA ESCRITA NO CORPO

Miminashi Hôichi, em Kwaindan. Foto: divulgação.
Miminashi Hôichi, em Kwaidan. Foto: divulgação.

Por Marilia Kubota

Esse texto foi motivado pelo artigo Pele, pincel, papel e película – texto, corpo e representação em O livro da cabeceira, de Andrei Cunha,  publicado na última edição da revista Translatio, sob responsabilidade do Instituto de Letras da Universidade Federal do Rio Grande Sul. Andrei Cunha tem um super-currículo: é tradutor (“O Castelo de Yodo”, de Yasushi Inoue  e “Histórias de outra margem”, de Nagai Kafu) e professor de Literatura Japonesa na Universidade Federal do Rio Grande do Sul (UFRGS) e  Mestre em Relações Internacionais pela Universidade de Hitotsubashi, Tóquio, Japão. Atualmente escreve a tese de doutorado O Cineasta, o Filósofo, a Escritora e seu Tradutor: presença de Sei Shônagon na obra de Borges, Foucault e Greenaway.

O ensaio de Andrei estabelece relações entre  a obra  O livro do travesseiro, de Sei Shônagon e o  filme O Livro de Cabeceira (Pillowbook,  de Peter Greenaway, 1996). Através do estudo do motivo “escrita na pele”,  investiga  suas conexões  na literatura japonesa. Uma das fontes  de Andrei foi a dissertação As narrativas ‘japonesas” de Valêncio Xavier – Mimi-Nashi-Oichi & O mistério da prostituta japonesa, de minha autoria. A novela de Valêncio contém uma tradução criativa do conto japonês  Miminashi Hôichi  (耳なし芳一, Hôichi sem Orelhas).  A princípio, combinei com o autor fazer uma reescritura para leigos do artigo científico. Mas ao ler suas considerações, fiz outras leituras, o que motivou esse texto-mosaico.

O  tema escrita sobre a pele, que o pesquisador  extraiu da análise de três filmes adaptados de obras literárias,  faz pensar sobre a sua representação social, com implicações políticas ou eróticas.Parte das reflexões repercutem um ensaio de  Akira Mizuta Lippit, especialista em cinema, literatura e cultura japonesa  da Universidade de Califórnia, ao analisar dois filmes,  Contos da Lua Vaga (雨月物語, Ugetsu Monogatari, de Mizoguchi Kenji, 1953) e Kwaidan — as quatro faces do medo (怪談, Kwaidan, de Kobayashi Masaki, 1964).

Cena de "Contos da Lua e da Chuva", de Kenji Mizoguchi.
Cena de “Contos da Lua e da Chuva”, de Kenji Mizoguchi.

A leitura de Lippit abre caminho para o enfoque político, relacionando a escrita na pele de  Hôichi às queimaduras  causadas pelas cinzas atômicas depositadas sobre a pele das vítimas de Hiroshima e Nagasaki.  O pesquisador segue uma tendência da crítica social ao analisar  filmes japoneses do pós guerra, como  Gojira (ゴジラ, de Honda Ishiro, 1954),  Mothra  (モスラ, de Honda Ishiro, 1961) e Onibaba, (de Kaneto Shindo, 1964), como  alegorias para reavivar as memórias da catástrofe nuclear. Tais filmes funcionariam para reparar ou denunciar  os traumas da derrota japonesa na Segunda Guerra Mundial. Se os monstros ou personagens em estado de barbárie podem ser  sombras de Hiroshima e Nagasaki, também os fantasmas de Hôichi o seriam, segundo Lippit.

Mas tal enfoque corre o risco de cair numa simplificação. A leitura do tema em Hôichi pode ser aprofundada se em vez de se isolar na crítica social,  aproximar-se da do fillme  Contos da lua vaga,  adaptação da coletânea Contos da Lua e da Chuva (雨月物語, Ugetsu Monogatari, de Ueda Akinari; primeira edição de 1776). No conto   A Volúpia da Serpente [蛇性の婬, Jasei no In], usando as palavras de Andrei, um rapaz se rende aos encantos de uma bela desconhecida, e descobre tarde demais que se tratava de um espírito maligno (a serpente do título). Um monge budista reconhece o pérfido fantasma e ajuda o rapaz a se livrar da maldição, por meio de um ritual de exorcismo.

Hôichi também se deixar encantar por fantasmas. Os monges do mosteiro em que está hospedado  o acham tocando para o túmulo do imperador menino Antoku Tennu. Por ter sido derrotado pelos Genki, todo o  clã Heike se afogou e tornou-se  fantasma, segundo a crendice popular.  Para quebrar o feitiço, é preciso pintar o Sutra do Coração em todo o seu corpo. O sutra o tornaria  invisível para os fantasmas. Quando volta, o samurai não consegue ver Hôichi. Mas as orelhas, sem  pintura,  são arrancadas e levadas para outro mundo.

As alterações promovidas para adaptar as obras literárias aos filmes são importantes, de acordo com Andrei. Na versão literária de  A Volúpia da Serpente,  a mulher se transforma em uma gigantesca serpente branca, que o rapaz subjuga usando uma estola do monge, aromatizada com incenso de papoulas; no filme, o monge  escreve em seu peito e suas costas um sutra em sânscrito, e a mulher é incapaz de se aproximar de sua vítima, pois ele tem como que o “corpo fechado” pelo texto.

Lippit analisa a escrita na pele como  uma divisão : a separação  entre o plano do real e o plano do imaginário. Quando os seres fantásticos se fortalecem, os humanos se tornam meras “ilusões”; já quando o humano consegue se libertar do plano do sonho, são os monstros que recuam para a sombra; no entanto, nenhuma das duas dimensões consegue eliminar de todo a outra. A pele de Genjurô tem  apelo erótico para o monstro e  quando ela se cobre de texto, se torna motivo de repulsa. Já em Kwaidan, há “uma divisão ótica” que “separa a carne das sombras” (id.). Se a mulher pode ver Genjurô, mas não consegue tocá-lo, o espírito do guerreiro não pode ver Hôichi , mas ainda assim consegue arrancar suas orelhas.

Cena de "O Livro de Cabeceira". Foto: divulgação.
Cena de “O Livro de Cabeceira”. Foto: divulgação.

Analisando a evolução do desejo feminino, Andrei observa uma mudança. Em   Contos da Lua Vaga é negativo e em O Livro de Cabeceira, positivo. Daí a   escrita no corpo deixar de ser repulsiva para ser atrativa: Enquanto os sutras na pele de Hôichi o tornavam invisível, os amantes de Nagiko só se tornam visíveis — desejáveis — quando escritos. O mesmo ocorre com a escrita: os textos de Nagiko só ganham a atenção do editor quando pintados no corpo de Jerome .

Essa escrita, enquanto mantém seu estatuto sagrado é invisível.  Passando pelo artístico, pelo literário torna-se erótica.  O desejo de Nagiko de ter a sua pele pintada com escrita se transforma e expande, levando-a a encenar outras religiões (em um encontro, seu corpo é coberto com o “Pai Nosso” em latim), outras culturas e línguas, e finalmente, ao encontrar o tradutor, ela passa a autora da escrita. 

Ainda em O Livro da Cabeceira, a escrita na pele exige a mediação do trabalho do   tradutor/leitor na obra autoral.  O escritor só pode ser reconhecido pelo seu editor quando passa a usar os palimpsestos da humanidade – as peles já escritas e reescritas,  que constróem o cânone literário e ser traduzido para uma língua comum. Lendo Barthes, sabemos que nos primeiros tempos, se escrevia em pedras, conchas, cascas e folhas de árvores. Suportes rígidos que exigiam gretaduras, riscos, inscrições. Quando se passou a usar pele de animais (pergaminho) a escrita tornou-se descrição, pincelada, caligrafia. Para melhor aproveitar o pergaminho, as escritas devem ser apagadas e sobrepostas em palimpsestos. Eis como se criaram  as grandes histórias da literatura.

Greenaway faz referência à história da escrita e aos processos de criação. Seu enfoque é oposto ao do horror da destruição atômica, que paira como uma ameaça à continuação de nossa espécie.  Hôichi, em vez de ser colocado na crítica social, estaria bem disposto na critica cultural. Quando a tradição oral passa a frequentar o templo, provoca a dessacralização da escrita. Não há só marcas de cinzas atômicas na pele de Hôichi. Há também a explosão de escritas e textos, que se espalham em variados  corpos no planeta. A apropriação dessas escritas pela sociedade de massas reinscreve seus rudimentos nos muros das cidades, sob forma de pichações, invertendo sua posição social. E  os ideogramas, tatuados em peles jovens e desejáveis, passam a ser apenas signos. A “divisão ótica” se mantém, e o significado da “escrita na pele” continua opaco aos fantasmas da modernidade.

31 LITERATURA | 1Q84 – O MUNDO PARALELO DE HARUKI MURAKAMI

Foto: divulgação.
Capa da trilogia completa 1Q84. Foto: divulgação.

Por Rocio Novaes

Em dezembro de  2013 foi lançada a terceira edição de  1Q84,  de Haruki Murakami (Alfaguara, tradução  de Lica Hashimoto) e também a edição da trilogia completa. Minha leitura se deu pelo formato e-book dos volumes 1 e 3, e pelo impresso, do 2.  A trama  se desenvolve a partir da descoberta do  livro Crisálida de Ar,  escrito por Fukaeri, uma garota de 17 anos. Por insistência de um editor que vê na história grande chance literária, o texto é reescrito em segredo por Tengo, um aspirante a escritor que tem dificuldade em escrever um  romance de sua autoria.

Crisálida de Ar conta a estranha história de Fukaeri, que teria passado a infância em uma comunidade religiosa, a seita Sakigake. Os rituais  da seita, até então fechados a sete chaves, vêm à tona quando o livro obtém um prêmio literário e torna-se um best- seller. A fama súbita  desagrada o grupo religioso e estabelece uma relação entre Tengo, Fukaeri e a seita Sakigake.

Na história de Fukaeri, um “Povo Pequenino” emerge da boca de uma cabra morta e tece uma crisálida de ar que gera outra Fukaeri, duplicando-a. A réplica é denominada dohta em contraponto a sua matriz,  maza. Há também uma réplica para a lua: duas luas pairam no céu, maza e dohta.

Em paralelo se desenrola a narrativa de  Aomame,  uma jovem de 30 anos oriunda de uma família adepta das Testemunhas de Jeová. A jovem  presta serviços a uma instituição filantrópica que fornece abrigo a mulheres e crianças vítimas de violência.

O livro 1  inicia com Aomame presa num congestionamento em Tóquio. Ela faz  malabarismos para sair do congestionamento e cumprir um compromisso incomum firmado com a instituição.  Aomame consegue uma saída e é inserida no mundo das  duas luas no céu. Esse mundo é 1Q84.

Na infância, Aomame era arrastada pela  mãe a  casas de desconhecidos para angariar fiéis e fazer pregações de pressupostos religiosos das Testemunhas de Jeová. Tida como esquisita na escola e excluída pelos colegas, exceto por Tengo. Este também  era arrastado pelo pai a  casas de desconhecidos para fazer cobrança de uma rede de televisão. Após  breve convívio na escola,  Aomame e Tengo se separam. Mas levam  a lembrança de um aperto de mão  quando ambos tinham apenas 10 anos de idade.

Uma série de acontecimentos  instigam Aomame a sair de 1Q84. Estes acontecimentos envolvem Tengo, Fukaeri, Tamaru (segurança da instituição filantrópica),  Ushikawa, detetive  contratado pelo grupo religioso Sakigake, e o líder desta seita. No livro 3, dois personagens,  Ushikawa, já delineado no livro anterior, e Tamaru, ganham proporção e contribuem para elevar o tom de suspense que permeia a história. O suspense, no volume  3, se dá em torno da probabilidade de reencontro de Tengo e Aomame.

O título 1Q84 faz referência a 1984, última obra de George Orwell publicada em 1949, pouco antes de sua morte. Muitas outras referências literárias,  além de Orwell, vão surgindo através de Tamaru. É o segurança quem sugere a Aomame ler Proust. Ele  não havia lido Em Busca do Tempo Perdido: “nunca estivera preso”, é sua justificativa. Para Aomame é o livro ideal para a circunstância em que se encontra. É ainda Tamaru quem alerta cuidado ao entregar uma pistola a Aomame: “se uma arma entra na história, ela deve ser usada”,citando o escritor russo Tchekhov .

Estas citações atingem o ápice da ironia no  encontro de Tamaru com Ushikawa.  Tamaru fala sobre a legendária casa construída pelo psiquiatra suíço Carl Gustav Jung – conhecido por estudos do arquétipo e inconsciente coletivo- em Zurique. E cita a frase que teria sido esculpida por Jung em uma pedra em frente a esta casa: “Faça frio ou não, Deus está sempre presente”.  E Shakespeare: “se morrermos hoje, amanhã não precisaremos morrer”. Além disso, o autor é hábil em entremear uma série de referências à música ocidental, do clássico ao jazz,  revelando sua paixão pela música. Murakami já foi proprietário de um bar de jazz.

A leitura de 1Q84  leva a refletir sobre o fanatismo religioso, a intolerância, a duplicidade do eu, a solidão, a resignação disciplinada de seus protagonistas, a exclusão, e  outras questões da pós-modernidade. Em relação à duplicidade do eu, arrisco  uma analogia com o advento das redes sociais em que, de alguma forma, parece implicar em uma duplicação de cada um de nós: a matriz, maza e a virtual, dohta.

E o que seria o mundo paralelo de Haruki Murakami? Enveredar-se pela Teoria dos Muitos Mundos, oriunda da física quântica, pode não ser o caminho para o entendimento. Melhor atribuir à literatura a criação de um mundo paralelo em que tudo pode acontecer. Um mundo em que seres pequeninos podem emergir através da boca de uma cabra morta ou da boca de um homem morto.

Inserir ou não o leitor neste mundo dependerá da habilidade do escritor e habilidade parece não faltar a Murakami. Um recurso  utilizado pelo autor, para que o leitor não perca o fio da meada, é a repetição da narrativa. Repetição que se dá ora na forma de revisão mental dos acontecimentos pelos protagonistas, ora na forma de recapitulação dos fatos pelo narrador. Resulta que, na trilogia, tal qual Aomame, o leitor é inserido no mundo 1Q84 . E é instigado a sair dele através de uma leitura que flui rápida em 1280 páginas. O leitor  constata que aventurar-se pelo mundo paralelo que a literatura implica pode ser tão ou mais gratificante que por sua matriz, o mundo real. Este, por sua vez, está repleto de outros mundos paralelos que emergem pela mente de grandes ou não tão grandes escritores. Murakami habita o primeiro grupo.

31literaturaimagem03Rocio Novaes é psicóloga pela PUC- PR, com trânsito em psicanálise e sociologia e especialista em Gestão Penitenciária pela UFPR. Trabalhou na área de psicologia jurídica na Secretaria de Justiça do Paraná. É organizadora e revisora do Caderno de Tratamento Penal  (DEPEN,2011). Tem artigos publicados em revistas de sociologia jurídica e de psicanálise. É professora autônoma na Escola de Educação em Direitos Humanos. Nasceu em Arapongas e vive em Curitiba.

 


31 ARTES | UM OLHAR DESLOCADO NO COTIDIANO

Mai Fujimoto em performance no vídeo "Jardim", 2010.
Mai Fujimoto em performance no vídeo “Jardim”, 2010.
Por Marilia Kubota
Mai Fujimoto começou a estudar Artes em 1998, na Faculdade de Artes do Paraná. Completou seu curso no Centro Universitário Belas Artes de SP, em 2003. Em 2006 montou um blog na internet para usar como parede, e assim visualizar suas obras todas juntas em um local só. Em 2007 participou do Salão de Arte Contemporânea de Santo André. No Ano do Centenário da Imigração Japonesa, em 2008, mesmo sem divulgar seu trabalho ou se inscrever em editais, por causa de seu blog, recebeu convites para participar de cinco exposições ( Unicamp, Bunkyo, Casa do Olhar e Paço Municipal de Santo André, Galeria Deco – especializada em artes japonesas).
O nome semelhante a outro artista paulistano, César Fujimoto, foi responsável por algumas confusões no meio artístico. Às vezes ela recebe e-mails com propostas de projetos direcionados a ele. Mas Mai, através de seus desenhos, fotos de cenário urbano em que o olhar se desloca para captar detalhes da paisagem, seu gosto pelo colecionismo, soube se destacar. Em 2009, foi convidada a expor em Madri, no Espacio Menosuno.
Uma de suas manias é colecionar objetos, especialmente os que remetem a memórias afetivas da infância ou da juventude. Um exemplo são as travas de ferro de janelas antigas, com figura de soldados. Outro, os papéis de presente e de bala com os quais a sua a avó, Shizuko Toda, dobrava origamis, em Assai, no norte do Paraná. As memórias da avó são tão vivas que Mai chegou a guardar moldes de papel com os quais ela fazia figurinos para costura.
waiting room, 2011.
waiting room, 2011.

Além da avó, Mai lembra o avô, Mitsuo Toda, pintor, que quando jovem chegou a participar de algumas mostras significativas em São Paulo. Por influência dele, Mai começou a ter aulas de desenho artístico. E para estudar Belas Artes veio morar em Curitiba, no ano de 1998, conhecendo talentos locais, como Alice Yamamura. Em 2009 conheceu artistas nipo-brasileiros contemporâneos, como Erica Kaminishi, Thais Ueda e Alice Shintani e fez um curso de Estética Japonesa, na Universidade de São Paulo, com a professora de história da arte japonesa Michiko Okano.

Em 2010, foi ao Japão e lá entrou em contato com artistas da área de dança contemporânea, residentes em Kyoto. De acordo com eles, um local tão interessante e underground como Tokyo, mas conhecido mais por seu lado tradicional, de templos e cenários turísticos. Conheceu Seth Yarden, dançarino e tradutor de muitos livros da Editora Seigensha – especializada em artes, que a apresentou a artistas locais com quem pode conversar sobre butoh, um de seus grandes interesses.

Quando retornou a Curitiba em 2010, Mai passou a fazer parte de um grupo formado por vários artistas, entre eles Denise Bandeira, Laura Miranda e Lauro Borges, para elaborar experimentos coletivos e discutir a processos que envolvem parte da obra de Lygia Clark e Hélio Oiticica. Atualmente, Mai desenvolve um projeto para o Bolsa-produção, uma bolsa de artes patrocinada pela Fundação Cultural de Curitiba. Para ela, a arte não está separada da vida. Por isso, pode desenvolver até um livro arte com seu enteado ou passar horas observando pássaros mortos. Sua obra é permeada de fragmentos, composta por elementos tão díspares como fotos, poemas, objetos ou animais. Uma amostra de seu pensamento não-convencional é a descrição dos elementos que compõe a obra da segunda foto nessa página: ar, modo silencioso e respiração shinkansen – o trem bala japonês.

Zenite: http://maifujimoto.weebly.com/zenite.html
Zenite: http://maifujimoto.weebly.com/zenite.html

31 HAICAI | IMAGENS DO ORIENTE NO OCIDENTE

Tira de Adão Iturrusgarai. http://adao.blog.uol.com.br//
Tira de Adão Iturrusgarai. http://adao.blog.uol.com.br//

por Marilia Kubota

Os maus leitores  costumam  acomodar  os poetas da nova geração dentro da expressão “filhos de Paulo Leminski”. Leminskinhos, como seria também,  o cartunista Adão Iturrusgarai , que, para apresentar-se ao Polaco do Pilarzinho, disse que ele parecia com seu pai. Se é inevitável para os iniciantes tomar de empréstimo temporariamente  a voz de seus mestres, com o tempo é a voz do autor que prevalece. Dois poetas paranaenses, influenciados pelo  minimalismo da poesia japonesa  comprovam essa tese.

Alvaro Posselt, em Um instante chamado agora (Blanche, 2013), caminha para o segundo grupo. Reinventa o  haicai, num tom que mistura o  libérrimo Leminski, o parnasiano Guilherme de Almeida  e o estilo tradicional  seguido pelos grêmios.  Seus tercetos, com título, métrica e rima, entremeiam os ritmos da trova brasileira com o haiku. Há  humor e irreverência, e, por vezes, lirismo:

 Criança não mente / Há um mundo bem mais profundo / na casa da gente

A gente nunca erra / quando faz da paz / nossa arma de guerra

E o poeta se diverte com os chavões da filosofia zen, traduzida no Ocidente como sinônimo de paz e tranquilidade. E também com as imagens mais que gastas no  haiku:

Ninguém está a salvo / Nem mesmo o arqueiro / muito menos o alvo

Um de cada lado / Minha fé remove montanhas / eu é que fico parado

Meu chá tem calibre / Além de chumbo e pólvora / leva um pouco de gengibre

Mas Alvaro não quer escrever apenas  paródias. Também pratica exercícios de haiku com rigor, buscando  o que os mestres buscaram, com leveza:

Atrás do quintal / a chuva em gotas de chumbo / deita o capinzal

Ganha um novo brilho / o portão enferrujado – / Lua de verão

Um galho seco / divide a lua ao meio – / Crescente e minguante

Em Ano Neon, (editora do autor, 2013) Kléber Bordinhão  apresenta uma poética que não se descola da contemporaneidade. Podemos ver em sua obra rastros de Leminski e José Paulo Paes, na preferência por armadilhas de linguagem vertidas em trocadilhos:

luaça

lua protagonista, / sopra as estrelas pras nuvens / só pra ela ser vista.

ano neon

mil vaga-lumes,/ as estrelas imóveis / morrem de ciúmes

quadro

cinema terapia / o mundo em câmera lenta / enquanto ela ria

1982

rastros de maio, / nunca viu o mesmo brilho / em outro raio

coleção

estrelas a granel / as que não cabem no bolso / ele espalha no céu

Os poetas seguem uma onda que fez do haicai um modismo no Ocidente. Porém, conseguem desfilar com graça nas passarelas. Não com o glamour  ensaiado de  manequim, mas com a gaiatice de quem sabe brincar com as palavras.

GRÊMIOS

Já os grêmios literários de haicai buscam preservar o haicai tradicional, seguindo as linhas-mestras de composição do haiku. A manutenção do kigo –  o termo que designa a estação do ano – , a ausência de título e rimas, a ruptura com o discurso linear ou explicativo são preceitos dados pelos mestres Matsuo Bashô, Yosa Buson, Issa Kobayashi e Masaoka Shiki.  O grêmio mais antigo é o Ipê, de São Paulo, atualmente coordenado por Teruko Oda. Uma de suas discípulas mais disciplinada é Regina Alonso, que regularmente tem poemas selecionados para a Revista Brasil Nikkei Bungaku. Veja essa série:

Lá se vai a pipa

À beira do mar / alvoroço de crianças – / Lá se vai a pipa!

Mureta do sítio – é só estender as mãos / até as amoras…

Flutuam no ar / as flores do vilarejo ? ? Ipê amarelo.

Casa de repouso – / Na quietude da varanda / canto de cigarra.

Alta madrugada -/ Acompanha os penitentes / luz dos pirilampos.

(Regina Alonso, Brasil Nikkei Bungaku 45, novembro 2013, pag. 22)

Se há liberdade para a criação de haicai no Ocidente, há também espaço para a tradição. E para talentos extraordinários, como Leminski e Alice Ruiz, além de Teruko Oda.

31 GASTRONOMIA | SALADAS PARA O VERÃO

 

Cerâmica: Marcelo Tokai.
Cerâmica: Marcelo Tokai.

Por Maria Cristina Fukushima

Meio-dia / dorme ao sol / menino e melancias (Alice Ruiz).

Quando o verão chegava com aquela umidade e desânimo atacava a todos. O suor constante, o ar  abafado, uma gosma que aderia à pele das pessoas, a falta de apetite era geral. Os japoneses costumam comer enguia para recuperar as forças. Nos primeiros relatos dos viajantes brasileiros, que estiveram no Japão logo após a Revolução de Meiji (1868), já se lia que as japonesas vivam chupando gelo devido ao calor de verão. Apesar de estar próximo do mar, em Tóquio só se percebe a presença do porto e, às vezes, sente-se aquele cheiro de mar. Se bem que a cidade era considerada a Veneza da Ásia de antigamente. A paisagem devia ter sido mesmo privilegiada. Para os dias de verão recomendo o delicioso  Hiyayako e outras receitas de saladas o práticas, fáceis de fazer e leves para a digestão.

Imagem: http://tabetayo.seesaa.net/article/147129355.html
Imagem: http://tabetayo.seesaa.net/article/147129355.html

Hiyayako

Cortar 1 tofu em quadradinhos. Servir numa tigela cheia de gelo e água. Para se comer, fazer num pratinho um molho com shoyu, gengibre ralado e cebolinha verde em rodelinhas.

Pepino  com salada de wakame

Cortar 2 pepinos do tipo japonês no cortador de legumes, bem fininho. Salgar um pouco e reservar. Depois de dez minutos, espremer a água que o pepino soltou. Colocar 1/2 xícara de wakame (algas secas) na água para hidratar. Espremer bem.  Misturar os dois. Molho: misturar à parte, três colheres de vinagre de arroz, duas colheres de açúcar branco, uma colher de shoyu, uma pitada de Ajinomoto. Misturar bem e servir geladinho.

Salada de repolho com gengibre

Pegar 1/2 repolho médio, lavar e rasgar as folhas (retirar a parte dura) com a mão em tamanho próprio para se comer. Temperar com 5 colheres de vinagre branco, 5 de açúcar e um pouco de sal. Cortar e espalhar sobre o repolho picado, um pedaço de gengibre em tirinhas (tirar a casca). Aquecer 5 colheres de óleo para salada e regar por cima. Tampar e deixar por umas duas horas para curtir na geladeira. Ciuidaod para não deixar água, pois o sabor não aparece.

Maria Cristina FukushimaMaria Cristina Fukushima é socióloga, doutora em Literatura Comparada pela Universidade de São Paulo e autora do livro “Uma receita …puxa a outra” (Insight Editora, 2010). 

31 KOTOBA | PARA NÃO DIZER QUE NÃO FALEI DO CAVALO

Oda Nobutaka (Onoe Kikugoro) leva o cavalo com a carga. | NATIONAL THEATRE

Em 31 de janeiro de  2014 começa o Ano do Cavalo, segundo o calendário lunar chinês.  De acordo com as profecias astrológicas, é um período que favorece impulsos, ataques e agressões. O cavalo aparece não só na astrologia oriental, como também em muitas lendas. Há uma, especial, em que a boca aberta do cavalo com seu dentes poderosos representa uma espécie de porta para um mundo paralelo. O herói que consegue colocar a mão na boca do cavalo sem que ele a arranque é que faz com que a porta se abra.

O cavalo aparece ainda na peça de kabuki é Sanzenryo Haru no Komahiki ( As três mil Ryo carregadas por um cavalo no ano novo), encenada este mês no Teatro Nacional de Tóquio. Muitas peças de kabuki são similares aos folhetins eletrônicos brasileiros.  O  enredo com frequência é melodramático e repleto de intrigas, atos de lealdade, romances, auto-sacrifício e vilania, entremeados a algum fundo histórico, ou totalmente fantasiosos, como uma novela de Glória Perez. Sanzenryo Haru no Komahiki foi premiada em Osaka em 1794, pelo trabalho do escritor Tatsuoka Mansaku, da região de  Kansai .  Agora é interpretada pelo ator Onoe  Kikugoro, 71 anos, de uma linha de atores de kabuki.

Um ponto interessante da peça, é que o protagonista é Oda Nobutaka, 0 terceiro filho de Oda Nobunaga (1534-82), o poderoso Senhor da Guerra. Mas sua fonte de inspiração é  Matsudaira Choshichiro, o filho de um cortesão chamado Tokugawa Tadanaga.  Rei Sasakuguchi, crítico do Japan Times, explica que o artifício foi necessário porque um decreto oficial do shogunato  baniu qualquer menção do nome de oficiais ou senhores em obras de ficção pelo público. Desse modo,  Matsudaira ficava fora da restrição com Nobutaka,  personagem de um regime anterior.

O shogunato  Tokugawa foi o regime de governo , que teve o controle do país em 1603 e reteve o poder dentro da dinastia familiar até  1867. Ou seja, o dramaturgo pode ter usado Matsudaira como personagem por ter descoberto nele algo interessante, mas a história gira em torno da batalha para suceder Oda Nobunaga, que morreu em 1582. O violento fim veio no Templo  Honno-ji, em Quioto, onde ele foi atacado por forças leais a um general chamado  Akechi Mitsuhide, que estava conspirando com um outro  general, Toyotomi Hideyoshi, para retirar o  poder de Nobunaga.

Na adaptação contemporânea, o fundo histórico é carnavalizado. Mas o que interessa é o Ano do Cavalo, citado no Ato IV,  intitulado Lutando pela Ponte Yamato em  Sumiyoshi, onde se encena a celebração do Ano do Cavalo. O ato abre com uma cena de ladrões lutando em torno de uma cavalo perto da Ponte  Yamato, em  Sumiyoshi, Osaka. O cavalo está carregando uma fortuna de não menos do que 3 mil r que  Mashiba Hisayoshi está doando a um templo no sagrado Monte Koya, na  Peninsula Kii (atualmente Prefeitura de  Wakayama), em honra ao primeiro aniversário da morte de  Oda Nobunaga.

Então, quando os ladrões começam a levar o cavalo e sua carga, um  samurai aparece e manda eles devolver o roubo. Quando os ladrões o atacam, ele os mata  — nesse ponto, alguns oficiais de Hisayoshi voltam e descobrem que o samurai é  Oda Nobutaka. Quando os oficiais concordam que está certo dar o dinheiro em memória de seu pai,  Nobutaka deixa o cavalo, desviando a doação em dinheiro de seu amigo leal para o mercador   Tarosuke, que está todo endividado  depois de gastar todas as suas economias pagando as contas da casa de gueixas de  Nobutaka.

A arte é, quase sempre, perversa. No drama ou na comédia há modos de interpretar a realidade ou vingar-se dela.  Tatsuoka Mansaku se vinga da censura do shogunato Tokugawa elevando o pequeno vilão, em detrimento do maior deles.

Marilia Kubota