HAICAI | Conceitos Estéticos do Haicai

A poesia clássica japonesa, cujo primeiro registro é a antologia Manyoshu, ou “coletânea de dez mil folhas”, publicada no século VIII, durante o período Heian (794 – 1192), influenciou o processo criativo de autores brasileiros desde o início do século XX. Representação direta do mundo dos fenômenos, em linguagem substantiva e dicção coloquial, ainda que o inusitado, a ironia, a sutileza e a própria estrutura da língua japonesa criem sensações de estranheza e imprevisto, como no conhecido poema de Bashô: “velha lagoa / o sapo salta / o som da água”.

A interferência criativa do acaso na elaboração da obra de arte e a ação intuitiva do artista são outros elementos valorizados na arte japonesa, porque remetem à simplicidade, à espontaneidade, à naturalidade, rompendo com as limitações da lógica rotineira e das convenções formais. Um mestre, no sentido japonês da palavra, não é aquele que maneja com habilidade as técnicas de composição poética, de pintura à nanquim ou de luta com a espada, mas sim aquele que, tendo assimilado essas técnicas, superou o mero domínio formal, atingindo shado, a arte sem arte, ou criação natural e sem artifícios, que corresponde ao ideal zen-budista de desapego e volta à natureza original da mente, que é o estado de vacuidade, ou sunyata, a harmonia que transcende todas as oposições entre sujeito e objeto, o interno e o externo, o efêmero e o eterno. A criação artística, nesse contexto cultural, não é vista como mera representação da natureza ou de conceitos éticos e metafísicos, mas como modo de conduta, ascese, prática para iluminação espiritual.

Um princípio essencial da filosofia da arte japonesa é o makoto, que pode ser traduzido “palavra verdadeira”, “essência”, “sinceridade”, “fidelidade”, “dedicação”, “lealdade”, “honestidade” ou “coração”. Esse princípio diz respeito a uma atitude interior, e ao mesmo tempo a um princípio cósmico. É a lei suprema do universo, segundo o tratado Chuang-Yung, a essência mais profunda do homem e do cosmo. Um poema tem makoto se ele tem sinceridade, se vem do coração, e não é apenas um artifício ou ornamento.

Outro princípio importante é yugen, que significa “mistério”, “charme sutil”. Os dois ideogramas que compõem esta palavra significam, respectivamente,  mistério e obscuridade.  Segundo Darci Yasuco Kusano, “yugen possui um significado além das aparências. (…) “Os fatores primordiais que constituem o yugen são a beleza e a elegância, aliadas à suavidade; o refinamento físico e espiritual.” (…) “São igualmente expressões de yugen a beleza ideal, sublime, com uma aura de mistério”.
Um haicai tem yugen se ele consegue enfocar o tema de modo raro, brilhante, mas com sutileza, leveza, sem ostentação ou vulgaridade. Assim, por exemplo, neste poema de Bashô: “dia de finados / do jeito que estão / dedico as flores” (LEMINSKI, 1983: 14). O poema se refere ao costume  japonês de colher flores para oferecê-las aos antepassados, no dia comemorativo dos mortos; num gesto de afirmação, à vida, Bashô oferece as flores sem retirá-las da terra, sem matá-las.

Ushin refere-se ao poema que consegue expressar uma emoção poética profundamente sentida. O ideograma de ushin é formado por dois kanjis que se traduzem por “ter coração” (FRANCHETTI, 1990: 20). Esse conceito, a princípio, denominava um estilo poético em que as qualidades predominantes eram a gentileza e a elegância; depois, passou a designar o poema que está repleto de emoção, como neste haicai de Buson, também traduzido por Leminski: “outono a tarde cai / penso apenas / em minha mãe e meu pai”. (LEMINSKI, 1983: 93).

Já mushin significa  “beleza transcendente e intuitiva”, não redutível à explicação ou análise. Mushin, nesse caso, nomeia um estágio de desenvolvimento espiritual em que vige a pura intuição e que só encontra paralelo na visão unificadora do satori, livre da tela do sim e do não, na iluminação budista. (FRANCHETTI, 1990: 21).

Por fim, vamos falar de mais dois conceitos essenciais à arte japonesa: sabi e wabi. Conforme Franchetti, sabi “se aplica a poemas caracterizados pelo clima de solidão e de tranquilidade: um texto tem sabi quando mostra a calma, a resignada solidão do homem no meio da beleza brilhante, da grandeza do universo” (idem). Como ilustração a esse conceito, podemos citar um poema de Issa, cheio de recolhimento e interiorização: “Em solidão, / como a minha comida / e sopra o vento de outono” (idem). Wabi também conota solidão, mas desta vez com referência à vida do eremita, do renunciante. “Designa um calmo saboreio dos aspectos agradáveis da pobreza, do despojamento que liberta o espírito dos desejos que o prendem ao mundo. É wabi a arte que, com o mínimo de elementos, significa apenas o suficiente para que se realize o momento de integração entre o homem e o que o rodeia” (idem). É a perfeição do imperfeito, a beleza do assimétrico, humilde, irregular, que corresponde à visão budista da realidade como algo efêmero e mutável. Um exemplo de wabi é o conhecido jardim de pedra e areia de um templo em Kyoto, cujo despojamento recorda o princípio de economia formal de artistas do século XX, como Mondrian. Outro exemplo de wabi é a história tradicional que conta um episódio do mestre zen Riyoki: convidado por um nobre poderoso a mostrar sua perícia na arte dos arranjos florais, Riyoki é recebido no palácio, mas entregam a ele apenas as flores e uma bacia de água, sem os apetrechos necessários para fazer o arranjo. Em poucos minutos, Riyoki  cortou as pétalas e as dispôs de maneira harmônica na água da bacia, com elegância e beleza. Um poema que expressa com perfeição o espírito de wabi é este haicai de Shiki, traduzido por Maurício Arruda Mendonça: “No meio do mato / a flor branca / seu nome desconhecido” (MENDONÇA, 1999: 116).

Claudio Alexandre de Barros Teixeira (Claudio Daniel) é doutrando em Literatura Portuguesa pela Universidade Estadual de São Paulo.

LITERATURA | A Mutação de Nikkeijin para Nihonjin

Se você for nikkei e ler o romance Nihonjin, de Oscar Nakasato, terá uma sensação imediata de identificação. Afinal, que descendente de japonês  não reconhece a história que ele conta, protagonizada por um imigrante japonês  de rígida personalidade ?
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