10 ESPÍRITO | TABEMASHOU *


Para alimentar o espírito basta rezar. Ou meditar. Certo ? Errado. Como já diziam as nossas avós, “saco vazio não para em pé”.  A  maior parte das doenças  contemporâneas está relacionada ao estilo de vida. Esse estilo está baseado em consumir demais e fazer tudo com  pressa.  Isso resulta em doenças do espírito, como stress, ansiedade crônica,   depressão e abre caminho para as doenças do corpo.
A  culinária japonesa hoje é moda. Só em São Paulo há 600 restaurantes japoneses, segundo a revista Veja São Paulo. Mas além da moda,  a culinária japonesa tem também um lado espiritual, como ensinam os monges zen-budistas.
A palavra japonesa “shojin” é composta pelos ideogramas “espírito” “精 e “progresso” 進. Quando a expressão foi criada, a ideia era zelar pelo treinamento dos monges zen-budistas no caminho para atingir a meditação perfeita, usando uma alimentação simples.
Por isso, a expressão Shôjin Ryori significa comida para o corpo e para o espírito. É a comida que se faz nos mosteiros zen. Uma culinária onde está presente o prazer de cozinhar e preparar os pratos. Mas com um detalhe: seugue-se estritamente o princípio do mottainai, ou seja, não desperdício.

Para ensinar os princípios da culinária zen aos legios, uma brasileira, a Monja Gyoku escreveu “O Zen na cozinha – princípios da culinária shojin”, publicado  em 2008.  A monja vivenciou o mottainai no Mosteiro Morro da Vargem, no Espírito Santo,  onde os monges só comiam o que encontravam por ali.  Arroz , farinha, rapadura, jaca, inhame, taioba, milho, mel, leite de vaca.

A restrição de ingredientes aflorava a criatividade. Comia-se jaca à milanesa, papa  de soro de leite com farinha de mandioca e outras invencionices. Tudo na cozinha era simples, limpo e organizado. Os monges cozinhavam com atenção e  silêncio.

Cozinhando em outros mosteiros, até no Japão, a Monja Gyoku En tornou uma mestre tenzô (cozinheira zen). Os tenzô recebem atenção especial no mosteiro. Tanto que, em 1237, o Mestre Dõgen escreveu instruções  para os cozinheiros (Tenzo Kyokin).

O ensaio fala do cuidado diário com os objetos usados na cozinha, a limpeza e a consideração pelos alimentos, a adequação da alimentação às estações do ano e necessidades individuais. Com tal atitude, cozinhar pode ser uma atividade nobre.

Para treinar o espírito no caminho do meio, eis aqui uma receita de missoshiro, o caldo de pasta de soja, reitrada do livro “O Zen na cozinha”. De acordo com o Guia dos Restaurantes Japoneses,  o missô  é um dos itens básicos da culinária japonesa.  No início, seu preparo era um segredo guardado por  monges budistas e nobres. Só no período Nara (710 a 784) a pasta só passou a ser usada na culinária diária, mas apenas por essas duas classes sociais. A popularização veio  no período Muramachi (1392-1573). Os japoneses faziam missô em casa até o século 17, quando ele começou a ser industrializado. (MK)

LINKS:

Veja Sâo Paulo: Chegamos a 278 sushis por minuto.

Guia dos restaurantes japoneses

O Zen na cozinha, de Monja Gyoju En, Editora CLA Cultural

* Vamos comer.

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10 GASTRONOMIA | RECEITAS SHÔJIN


Para fazer qualquer comida shojin, antes é preciso aprender a fazer o dashi – o caldo . Pode-se fazer o dashi com algas marinhas, com cogumelos shitake ou com vegetais. A receita da Monja  Gyoku-en combina alga kombu com shitake.

Ingredientes

– 1 pedaço de 7 cm de largura e 10 cm de comprimento de alga kombu

– 4 cogumelos shiitake

Como fazer

Lave bem a alga, esfregando-a com uma escova.  Deixe de molho em água durante 20 minutos. Lave bem os cogumelos e coloque-os em água para hidratar. A água usada para hidratar deve ser aproveitada para o caldo. Numa caçarola, acrescente a alga kombu e o shiitake em fogo médio, retir do fogo e coe o caldo.

SHIRUMONO (sopas)

O missoshiro, ou sopa de missô é um caldinho quente temperado com missô. Existem receitas variadas.  O que não varia é o modo de fazer : dissolva o missô num pouco de caldo ou água e acrescente à sopa na hora de servir. A medida é uma colher de chá de missô por pessoa.

Recomendações: o missô não deve ser fervido para não perder as propriedades nutritivas. Misturar o velho com o novo, ou seja, o missô fermentado (o velho, yang, segundo a medicina chinesa, positivo) e uma folhinha nova (yin, negativo). Pode ser acelga, nirá, cebolinha ou outra erva.

MISSOSHIRO

Ingredientes

– Dashi

– Missô

– Conteúdo da sopa (escolha o que preferir e corte em rodelas transparentes)

Como fazer

Leve ao fogo o dashi, junte o conteúdo que desejar e deixe ferver. Quando estiver cozido, tempere com miss^. Desligue o fogo para não ferver. Cebolinhas, salsa ou nirá podem servir como acompanhamento e deve ser servidas individualmente.

 

10 ARTES | MASANORI FUKUSHIMA

Masanori Fukushima nasceu em Kobe, Japão, em 1931. Enquanto estudava no  ensino fundamental, fazia treinamento de guerra, como todas as crianças que cresceram na época da Segunda Guerra Mundial.  Em março de 1944 Kobe foi bombardeada. Por isso, Masanori mudou para Hiroshima. Aí, estudou e trabalhou  na agricultura. Em 1945, a bomba  é lançada não muito longe de onde Masanori morava. Em 1948, ele voltou para Kobe.  Devido aos tumultos da guerra, só concluiu os estudos secundários em 1952. Em 1956 vai para Tóquio e torna-se aprendiz no Ministério das Relações Exteriores. Em 1960, entra no curso de Direito da Universidade de Htotsubashi. Em 1964, vem para o Brasil, como bolsista da Província de Hyogo. Em São Paulo, faz mestrado  em sociologia. No curso, conhece Maria Cristina, com quem viria a se casar.

Em 1967, já casado, volta para o Japão. Dá aulas como professor de português na Universidade de Takushoku, em Tóquio. Nessa universidade, torna-se responsável por pesquisas na América Latina e depois em Ciência Política. Em 1976 começa a dar aulas na Pós-graduação.

Em 1989 voltou ao Brasil para promover  atividades de intercâmbio. E retorna ao Japão, onde passa a estudar Arte como passatempo, na mesma universidade onde se formou. Quando se aposenta, em 1996, passa a se dedicar exclusivamente à pintura.

Sua primeira exposição acontece em em 1990, na Academia Paulistana de Artes, em São Paulo. Em 1994 e 1995, expõe em Tóquio, na Gleria de Tokyo-Marine Insurance. Em 1996, já está em Curitiba, expondo no Círculo Militar do Paraná e no Museu Alfredo Andersen, onde foi aluno e depois professor.  Em 1997 também exporá nesses dois espaços. E em 1998, no Espaço Banespa e na Associação dos Artistas Plásticos (APAP). Participou de exposições no Japão, como as 86ª, 87ª. E 88ª.  Edições do Nikaten, em 2001, 2002 e 2003, todas realizadas no Museu de Arte Metropolitano de Tóquio. Em 2002, expõe na Livraria Cultura, em São Paulo. Começando com a arte figurativa, Masanori gradativamente torna-se mais abstrato,  inserindo a caligrafia oriental em suas obras.

Morreu em 2008, tendo deixado dois filhos, Naotake e Kando

"Homem no rio", Acervo APAP, 1996, óleo sobre tela
"Pimenta do México", 1997, óleo sobre tela.
“Fronteiras da convivência”, 2001, óleo sobre tela.
“Sem titulo”, 2002, acrílica sobre tela.Série”pintura rápida”.

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

NOTÍCIAS |INSCRIÇÕES PARA ESTUDOS JAPONESES

Até esta quarta-feira (25), estudantes de graduação e pós-graduação podem inscrever trabalhos para o  Congresso Comemorativo dos 20 anos do Curso de Japonês da Unesp-Assis, cujo tema é Imigração e Identidade e acontece nos dias 24 e 25 de maio na Universidade Estadual Paulista, em Assis, no interior de São Paulo.

O congresso contará com a presença de personalidades da comunidade nikkei no Brasil, como a cineasta Tizuka Yamazaki, a pesquisadora de mangá Sonia Bibe Luyten e outros, como os professores  Masato Ninomiya (USP), Sonia Ninomiya (UFRJ), Alice Satomi (UFPB), Ronan Alves Pereira (UnB) e Koichi Mori (USP), que com outros especialistas debaterão questões relacionadas à identidade cultural dos nipo-brasileiros .

As  inscrições como ouvinte e para apresentação de trabalhos  podem ser feitas através desse link e a programação oficial está aqui. Há ainda vagas para oficinas de shodo (caligrafia) e origami.

O congresso  presta homenagens aos pioneiros do curso, como a professora Eliza Atsuko Tashiro Perez. Haverá uma cerimônia típica do kagamiwari –  a quebra de um barril de saquê com pequenos martelos de madeira. E também  o lançamento de três livros: Manga, o poder dos quadrinhos japoneses (relançamento), de Sonia M. B. Luyten, Tempo e espaço na cultura japonesa, de Shuichi Kato, com tradução de Neide Nagae e Fernando Chamas e Lao Tzu e Chi kung, da autoria de Kenichi Shioda.

Mais informações pelo e-mail japones20anos.unesp.assis@hotmail.com.

 

10 POP | MUITAS FACES…

CULTURA POP

Foi-se o tempo em que era possível ver os japoneses dentro do trem com suas revistas em quadrinhos que mais pareciam listas telefônicas. Hoje os japoneses olham todos para baixo, olhos e dedos atentos ao keitai, o telefone celular que não pode faltar. Com acesso a internet e a possibilidade de enviar mensagens (ou meeru) para seus amigos, os japoneses passam o tempo todo conectados ao mundo e ignoram o que está a sua volta.

Mesmo assim, a livrarias e konbini (lojas de conveniência) continuam cheias de pessoas lendo mangás e revistas. No entanto, normalmente os jovens que admiram o Japão idealizam uma população inteira de otakus fanáticos por animês e mangás, o que não é verdade. Na verdade há uma comum convivência com a cultura pop, convivência essa que acontece nos mínimos detalhes da vida, como num pacote de presente, na sacola de mercado, no desenho de uma pasta, numa embalagem de comida, nos manuais de emprego, nos materiais de estudo, etc.

Os japoneses são pessoas naturalmente visuais e três aspectos são determinantes para isso: a busca pela perfeição; a língua japonesa, que possibilita a associação direta entre o ideograma da palavra e a palavra em si; e a deficiência da língua japonesa que, muitas vezes impossibilita a compreensão plena de algo que seja apenas falado, sem o suporte da escrita.

DISCRIÇÂO

Japoneses são muito discretos e gostam de ser anônimos, possivelmente um motivo para que o uso dos celulares fosse tão popularizado. Ao ler uma revista, as outras pessoas podem ver o que está sendo lido, mas no celular ninguém pode ver o que o usuário está fazendo. A tela é pequena e portátil, além de existir filtros que, ao serem colados na tela, inibem olhares curiosos.

Outro item muito popular são as sobre capas de livro. Apesar de serem, muitas vezes, coloridas e bonitas, a verdadeira função da sobre capa é esconder o título do livro de olhares curiosos. Via de regra é falta de educação bisbilhotar o que o outro está fazendo.

A rede social Facebook, febre mundial, não tem muita adesão dos japoneses exatamente porque não é possível ser anônimo. Para se cadastrar é necessário utilizar seu nome verdadeiro, sem apelidos, diferente do Mixi, uma das redes sociais mais utilizadas pelos japoneses e que permite que o usuário seja mostrado como anônimo.

Pode parecer uma contradição, mas os japoneses podem se mostrar bastante curiosos quando o assunto é idade e posição social. Isso se deve ao fato de que a posição social da pessoa determina a maneira como ela será tratada pelos outros. Em outras palavras, de acordo com sua idade, emprego ou atividade, você será tratado de uma maneira específica por um determinado grupo social.

IGUAL

O Japão é um país pequeno, o que favorece a sensação de igualdade. Não importa onde se esteja, ao olhar uma notícia pela televisão tem-se a sensação de pertencimento. Seguindo a filosofia do pattan,  os detalhes do dia a dia japonês são basicamente iguais. Em todo o país é possível encontrar caixas eletrônicos iguais, adesivos nas portas automáticas, o interior dos trens, máquinas automáticas, estações, etc.

Ao juntar a discrição das pessoas com o modelo a ser seguido, a sociedade japonesa se mostra como uma massa única que parece caminhar para um objetivo sólido e pré-determinado. A liberdade de expressão, de escolha, os sonhos e anseios que diferem ao padrão são aparentemente tolidos por um bem maior: a manutenção da igualdade sólida e fluída.