39 NOTÍCIA – TRIBUTO A CLAUDIO SETO NO FIM DE SEMANA EM CURITIBA

Neste fim de semana, acontece o Tributo a Claudio Seto, um evento em homenagem ao artista visual e jornalista Claudio Seto, morto em 2008. O evento acontece no Centro de Criatividade de Curitiba (dentro do Parque São Lourenço) e terá entrada franca.

O criador do mangá "O Samurai".
O criador do mangá “O Samurai”.

Neste fim de semana, acontece o Tributo a Claudio Seto, um evento em homenagem ao artista visual e jornalista Claudio Seto, morto em 2008. O evento acontece no Centro de Criatividade de Curitiba (dentro do Parque São Lourenço) e terá entrada franca. Confira a programação:

Programação Tributo a Claudio Seto

Sábado, 21 de novembro

11h00 – Início das atividades
13h00 – Cerimônia de abertura – Palco
14h00 – Contação de histórias – Casa da Leitura
14h45 – Demonstração de dança – Palco
15h30 -Oficina de origami – Bloco III
16h30 – Contação de histórias – Casa da Leitura
17h00 – Oficina de mangá – Bloco III
15h ~ 17h – Lançamento e sessão de autógrafos da HQ “A Samurai”, de Mylle Silva
18h00 – Encerramento do evento

Domingo, 22 de novembro

10h00 – Início das atividades

11h – Oficina de furoshiki – Bloco III
13h00 – Oficina de encadernação artesanal – Bloco III
14h00 – Contação de histórias – Casa da Leitura
14h30 – Demonstração de dança – Palco
15h00 – Oficina de haicai Haiquase – Bloco III
15h30 – Contação de histórias – Casa da Leitura
16h00 – Oficina de mangá – Bloco III
16h30 – Taikô – Pátio
16h45 – Homenagem a Claudio Seto e Mitsue – Pátio
17h00 – Encerramento

Serviço

Tributo a Claudio Seto

Dias 21 e 22 de novembro
Das 11h às 18h (sábado) e das 10h às 17h (domingo)
Centro de Criatividade de Curitiba
Rua Mateus Leme, 4700 (Parque São Lourenço)
Entrada franca

39 LITERATURA – QUANDO O IMPERADOR ERA DIVINO

O livro narra uma história de ruptura em uma família nipo-americana formada por um executivo bem sucedido, uma dona de casa típica da classe média americana e um casal de crianças que frequentam a escola como todos da sua idade. Moram em Berkeley, na Califórnia, levam uma vida confortável. Numa noite, a casa arrumada para o Natal, agentes do FBI batem à porta e levam o pai sem que ao menos pudesse se vestir. Sem nenhuma acusação formal ou explicação, colocam-no de chinelos e de roupão num carro preto. É dezembro de 1941, poucos dias depois do ataque do Japão à base americana de Pearl Harbor, no Havaí.
Passados dois meses em que recebem poucas notícias do pai em cartas censuradas, a mãe e as crianças são obrigadas a deixar sua casa, assim como milhares de outras famílias. Do primeiro aviso da “Ordem de evacuação”, tiveram menos de dez dias para se preparar. Em fevereiro de 1942, o presidente dos Estados Unidos, Franklin Roosevelt, assinou a Ordem Executiva 9066, que estabeleceu áreas militares cercadas no interior do país para onde foram enviados aproximadamente 120.000 japoneses ou pessoas de ascendência nipônica, boa parte já cidadãos americanos. Eram os inimigos.
A arrumação da casa para o período que passariam longe – embalar os móveis, soltar o passarinho, enterrar a prataria, e outras providências mais dolorosas –, a viagem de trem para o desconhecido, o acampamento temporário numa pista para cavalos, os mais de três anos no campo de prisioneiros em Utah, no meio do deserto, a volta para uma casa depredada e saqueada depois de terminada a guerra, a ansiedade de reencontrar aquele pai.
A voz do narrador é essencial na prosa límpida e elegante de Julie Otsuka. Aqui, cada capítulo é narrado da perspectiva de um personagem. A mãe, os filhos, um coletivo de vozes que encara seus acusadores. Em comum, a sensação do tempo próprio em suspenso, mas o tempo do outro passando em pequenas modificações. Os filhos que crescem, a mãe que enruga, o pai congelado numa imagem que se esvanece no correr dos meses. Em dado momento o irmão pergunta as horas para a irmã, no Campo de Utah. O relógio mostrava seis horas em ponto havia semanas. Ela havia parado de dar corda no dia em que eles desceram do trem.
Sobre a autora:
Julie Otsuka nasceu em 1962 na Califórnia. Estudou artes na Universidade de Yale e dedicou-se à pintura durante alguns anos. Aos 30, optou pela literatura. Seu romance de estreia, Quando o imperador era divino, saiu em 2002 e recebeu os prêmios Asian American Literary e Alex da Associação Americana de Bibliotecas. Em 2004, foi contemplada pela prestigiosa bolsa da Fundação Guggenheim.
O Buda no sótão, seu segundo romance, recebeu diversos prêmios, dentre os quais o PEN/Faulkner de Literatura de 2012, além de ser finalista no National Book Award. Foi traduzido para dezenove idiomas e selecionado como livro notável pelo jornal The New York Times.
O livro narra uma história de ruptura em uma família nipo-americana formada por um executivo bem sucedido, uma dona de casa típica da classe média americana e um casal de crianças que frequentam a escola como todos da sua idade. Moram em Berkeley, na Califórnia, levam uma vida confortável. Numa noite, a casa arrumada para o Natal, agentes do FBI batem à porta e levam o pai sem que ao menos pudesse se vestir. Sem nenhuma acusação formal ou explicação, colocam-no de chinelos e de roupão num carro preto. É dezembro de 1941, poucos dias depois do ataque do Japão à base americana de Pearl Harbor, no Havaí.
Passados dois meses em que recebem poucas notícias do pai em cartas censuradas, a mãe e as crianças são obrigadas a deixar sua casa, assim como milhares de outras famílias. Do primeiro aviso da “Ordem de evacuação”, tiveram menos de dez dias para se preparar. Em fevereiro de 1942, o presidente dos Estados Unidos, Franklin Roosevelt, assinou a Ordem Executiva 9066, que estabeleceu áreas militares cercadas no interior do país para onde foram enviados aproximadamente 120.000 japoneses ou pessoas de ascendência nipônica, boa parte já cidadãos americanos. Eram os inimigos.
A arrumação da casa para o período que passariam longe – embalar os móveis, soltar o passarinho, enterrar a prataria, e outras providências mais dolorosas –, a viagem de trem para o desconhecido, o acampamento temporário numa pista para cavalos, os mais de três anos no campo de prisioneiros em Utah, no meio do deserto, a volta para uma casa depredada e saqueada depois de terminada a guerra, a ansiedade de reencontrar aquele pai.
A voz do narrador é essencial na prosa límpida e elegante de Julie Otsuka. Aqui, cada capítulo é narrado da perspectiva de um personagem. A mãe, os filhos, um coletivo de vozes que encara seus acusadores. Em comum, a sensação do tempo próprio em suspenso, mas o tempo do outro passando em pequenas modificações. Os filhos que crescem, a mãe que enruga, o pai congelado numa imagem que se esvanece no correr dos meses. Em dado momento o irmão pergunta as horas para a irmã, no Campo de Utah. O relógio mostrava seis horas em ponto havia semanas. Ela havia parado de dar corda no dia em que eles desceram do trem.
Sobre a autora:
Julie Otsuka nasceu em 1962 na Califórnia. Estudou artes na Universidade de Yale e dedicou-se à pintura durante alguns anos. Aos 30, optou pela literatura. Seu romance de estreia, Quando o imperador era divino, saiu em 2002 e recebeu os prêmios Asian American Literary e Alex da Associação Americana de Bibliotecas. Em 2004, foi contemplada pela prestigiosa bolsa da Fundação Guggenheim.
O Buda no sótão, seu segundo romance, recebeu diversos prêmios, dentre os quais o PEN/Faulkner de Literatura de 2012, além de ser finalista no National Book Award. Foi traduzido para dezenove idiomas e selecionado como livro notável pelo jornal The New York Times.

38 ESPÍRITO – COMO PRATICAR ZAZEN

Zazen – a prática essencial do zen (Comunidade zen-budista Zendo Brasil, 2011), é um manual de introdução para iniciantes na prática do zazen – a meditação zen budista. Orientado pela Monja Cohen, dirigente do Zendo Brasil, que segue a linha Soto Zen, traz instruções detalhadas aos novatos. Desde como se vestir, sentar corretamente, arrumar o zafu (almofada de meditação) , as saudações e posturas (mudra) e como se portar na sala de meditação (zendô).

Zazen – a prática essencial do zen (Comunidade zen-budista Zendo Brasil, 2011), é um manual de introdução para iniciantes na prática do zazen – a meditação zen budista. Orientado pela Monja Cohen, dirigente do Zendo Brasil, que segue a linha Soto Zen, traz instruções detalhadas aos novatos. Desde como se vestir, sentar corretamente, arrumar o zafu (almofada de meditação) , as saudações e posturas (mudra) e como se portar na sala de meditação (zendô).

Aprender os rituais do zazen é importante porque tais rituais são repetidos a cada sessão. Além dos ensinamentos práticos, há uma breve história sobre a tradição Soto Zen, fundada por Eihei Dôgen, no século XIII, no Japão. Também há explicações sobre o que é a meditação zen, e, principalmente, sobre o que não é.

O livreto termina com algumas sugestões de exercícios de alongamento, recomendados a quem inicia o zazen.  Os exercícios para o pescoço e as pernas evitam o desconforto em  quem fica sentado imóvel, por longo tempo.

39 HAICAI – OS FRUTOS HÍBRIDOS DO HAIKAI

Mais dois livros apresentam suas versões do haiku adaptado no Brasil; Kaki, de Alvaro Posselt e Livro Arbítrio, de Lau Siqueira.

A forma poética japonesa haiku, que compõe um poema completo com apenas 17 sílabas ( ou sons) disseminou-se mundo afora depois de redescoberta pelos poetas simbolistas franceses, no início do século xx, e amplamente divulgado pelos poetas beatniks. no pós-guerra. Graças aos esforços dos poetas franceses e americanos, a poesia dos mestres Matsuo Bashô, Yosa Buson, Kobayashi Issa e Masaoka Shiki ganhou o mundo.

No Brasil, o haiku tornou-se haicai. Os praticantes mais conhecidos, como Paulo Leminski e Alice Ruiz  inspiraram-se no modelo francês,  em que o haiku é miscigenado com a trova. Eis porque aqui, quase sempre o haicai traz rima, como se vê em quase todos os poemas de Kaki, o mais novo livro do haicaista Alvaro Posselt. Completando a trilogia formada por   Tão breve quanto o agora (2012) e Um lugar chamado instante (2013), em Kaki (2015) o poeta se torna mais japonês, sem abrir mão da brejeirice brasileira:

Vento do oriente / Aqui caiu um caqui / que deixou semente

Uma folha cai / Sem pressa a estação começa / na folha do bonsai

Kanpai/ uma gota de orvalho / no saquê do samurai

Capa do livro Kaki.
Capa do livro Kaki.

O que o torna mais japonês algumas vezes são a remissão aos icones da cultura japonesa, mas há também aqueles poemas que seguem o rigor do haiku:

Passa a correnteza – / o reflexo da libélula / o rio não leva

Dias desiguais / Agosto deixa no rosto / uma ruga a mais

Bem mais rápidos são os tiros de letras de Lau Siqueira. Em Livro Arb[itrio (Casa Verde, 2015), o poeta homenageia a poeta Alice Ruiz, numa das partes do livro:

silêncio e estilo / agora é a vez / e a voz do grilo

pequeno e certeiro / o poema partiu-se/para ficar inteiro

perdi o encanto / parecia tudo / e nem era tanto

Mas é nos poemas mais longos que Lau solta sua filosofia, ou filosofree:

dialogar / com o vento / mesmo / sem ar / eu tento

Resistência

o que me sustenta/ sobre carne e osso / é não ter aprendido / a desistir / viver é voar / até sumir

Tatame

sábio e rápido / o pássaro faz ninho / no oco ou no topo / jamais no abandono / nunca seu reino / por um trono / no máximo um kimono.

Vê-se que a síntese de linguagem é a matéria-prima desta poética, seja qual a forma usada. Tanto Lau (em seu sexto livro de poesia) quanto Álvaro, à medida em que o tempo passa, tornem-se o artesanato da linguagem mais refinado. Para o poeta, não há maior felicidade do que encontrar as palavras justas para o seu dizer.

Capa do livro LIvro Arbítrio.
Capa do livro LIvro Arbítrio.

39 NOTÍCIA – OFICINAS PRODUZEM LIVROS DE HAICAI EM PARANAGUÁ

Oficinas do projeto “Pontes de Cultura”, patrocinado pela lei de incentivo de Paranaguá produzirão 300 livros artesanais com poemas do tipo haicai. As oficinas orientadas por Marília Kubota e Lauro Borges finalizam o projeto, iniciado em fevereiro deste ano, com parcerias com a Fundação Municipal de Cultura de Paranaguá, Secretaria Municipal de Educação/Semedi e Associação Beneficente Cultural e Esportiva Nipo-brasileira de Paranaguá com a Revista MEMAI.

Oficina que produziu capa de livros.
Oficina que produziu capa de livros, com orientação do  artista Lauro Borges. Foto: Maria Carolina Felício.

Duas oficinas do projeto “Pontes de Cultura”, patrocinado pela lei de incentivo municipal da Prefeitura de Paranaguá produziram 300 livros artesanais com poemas do tipo haicai. As oficinas de haicai e publicação de livros, orientadas pela poeta Marília Kubota e pelo artista plástico Lauro Borges finalizam o projeto, iniciado em fevereiro deste ano, com parcerias com a Fundação Municipal de Cultura de Paranaguá, Secretaria Municipal de Educação/Semedi e Associação Beneficente Cultural e Esportiva Nipo-brasileira de Paranaguá com a Revista MEMAI.

O projeto comemorou, pela primeira vez, na cidade o Dia da Imigração Japonesa em Paranaguá, no dia 19 de junho, em alusão à data histórica da chegada dos imigrantes japoneses ao Brasil, que aconteceu no dia 18 de junho de 1908. Em 2015, o evento também comemorou os 120 anos de Tratado de Amizade e Comércio Brasil-Japão.

“Pontes de Cultura” tem como objetivo disseminar a cultura japonesa para novos públicos. As oficinas de haicai e publicação de livros aconteceram em dez escolas DE tempo integral do município, escolhidas entre as turmas de professoras que participaram dos cursos de formação (oficinas) realizadas em 19 de junho.

Uma exposição, com data ainda a ser definida, mostrará, no hall da Biblioteca Mário Lobo, os livros produzidos nas oficinas. As capas, feitas de cartolina, foram produzidas nas oficinas de publicação de livros, orientada por Lauro Borges: “Dialogar com as professoras antes e durante o contato com os alunos/crianças foi muito produtivo. Fica a certeza do quanto é benéfico o uso das linguagens artísticas nas escolas. Nossa proposta para uma construção coletiva e colaborativa de uma publicação de poesia é uma oportunidade para se tratar das muitas questões e etapas da palavra, da escrita, ilustração e leitura.” Os haicais – poesia em forma poética japonesa – foram escritos em oficinas orientadas pela poeta Marília Kubota: “Foi uma grande experiência dar oficinas de haicai para crianças pequenas em Paranaguá. A criação de livros e poemas pelas mãos das próprias crianças funciona como um estímulo às atividades de leitura e arte. Espero poder dar continuidade a esse projeto envolvendo a cultura japonesa e a comunidade nipo-brasileira”, diz.

Os livros devem ser montados no mês de novembro e estarão em exposição no Hall da Biblioteca Mário Lobo, em data ainda a ser definida.

Na oficina da poeta Marilia Kubota, as crianças escreveram haicai. Foto: Maria Carolina Felíciio.
Na oficina da poeta Marilia Kubota, as crianças escreveram haicai. Foto: Maria Carolina Felíciio.

38 LITERATURA – TSUGUMI, DE BANANA YOSHIMOTO

Segundo romance de Banana Yoshimoto publicado no Brasil, Tsugumi narra a história da personagem-título e sua prima, Maria Shirakawa, de personalidades opostas, convivendo nos últimos anos da adolescência numa pequena cidade na península de Izu, n o litoral japonês.

Capa do livro "Tsugumi".de Banana Yoshimoto.
Capa do livro “Tsugumi”. de Banana Yoshimoto.

Tsugumi, Estação Liberdade, Tradução: Lica Hashimoto, 2015.

Personagens com personalidades opostos, Maria Shirakawa e sua prima Tsugumi convivem os últimos anos da adolescência numa pequena cidade na península de Izu, a oeste de Tóquio.  Maria, já morando na capital, compadece-se do destino da prima, de saúde frágil, que não pode abandonar a terra natal. Apesar da fragilidade física, Tsugumi tem uma personalidade forte, que chega a ser cruel.

Em férias de verão, Maria volta à cidade natal a fim de passarem uma última estada juntas. Ali, com o cão Poti, ela  viverá dias incríveis. A narradora é hábil em construir  uma trama com tons de leve melancolia, tendo como fundo a ideia da morte. Como em seu best-seller Kitchen (no Brasil, publicado pela Nova Fronteira, em 1988), Banana Yoshimoto  reproduz uma narrativa pontuada por  pequenos dramas e aventuras  – como  a reconciliação dos pais de Maria e a descoberta do amor por parte de Tsugumi.  A obra rendeu à autora, em 1989 — ano de publicação da edição japonesa —, o Yamamoto Shugoro, prêmio literário local concedido anualmente a livros que se destaquem como exemplos de arte narrativa.

Banana Yoshimoto (nascida Mahoko Yoshimoto, m Tóquio, em 24 de julho de 1964), é filha do poeta e militante de esquerda Takaaki Yoshimoto (1924-2012). Formada em literatura pela Universidade Nihon, arrebatou a crítica por sua obra de estreia, Kitchen, publicada em 1988, quando ainda era estudante universitária. Ganhou  o prêmio literário Izumi Kyoka.  A autora adotou o pseudônimo “Banana” pelo apreço que tem por flores de bananeira. Seus livros já foram traduzidos para mais de vinte idiomas. O tema da morte e a preferência por protagonistas mulheres são algumas das marcas mais evidentes na escrita da autora, cujos personagens nunca caem nos lugares-comuns: ao contrário, são sempre excêntricos. Bastante produtiva, Banana Yoshimoto lançou ainda, entre outros títulos, Mizuumi [O lago, 2005], Moshi moshi Shimokitazawa [Olá Shimokitazawa, 2010] e Tori-tachi [Pássaros, 2014].

38 PESQUISA – LEITURAS DO CORPO NO JAPÃO

“Leituras do corpo no Japão”, de Christine Greiner é uma obra que apresenta as diversas faces que o corpo assume na cultura japonesa, desde as artes, a medicina, a política e como é visto no pensamento da cultura viva e subversiva do Japão.

Capa com ilustração de Fernando Saiki.
Capa com ilustração de Fernando Saiki.Título: Leituras do corpo no Japão — e suas diásporas cognitivas
Como os japoneses veem o corpo, através da cultura, na medicina, política, na moda e nas artes, dando ênfase ao Butô, a dança que nasceu no pós-guerra, com Kazuo Ohno e Tatsumi Hijikata. A obra é repleta de referências artísticas, literárias, históricas e filosóficas, além de anotações do diário pessoal de Christine Greiner,  colocando  em xeque o dualismo entre mente e corpo para desfazer tanto os clichês sobre identidade quanto o contraste entre Japão e Ocidente.  “Leituras do corpo no Japão” é uma viagem que conduz o leitor para paisagens fascinantes e enigmáticas, nas quais a estética é tecnologia de transformação e a arte é reinvenção do corpo.
A viagem pela “cultura do corpo” começa com o pensamento sobre mente e corpo na filosofia taoísta, e os ensinamentos da medicina chinesa, herdados pelos japoneses. E segue pela apropriação de um  “corpo político” da nação japonesa, simbolizado pelo imperador. A ideia do “corpo do imperador” como corpo da nação, intocável e puro, é cultuado desde o xintoísmo, que impediam que os reis fossem vistos ou tocados pela população. E segue com a queda do mito do corpo sagrado, quando o corpo da nação se feminiliza, diante da derrota na Segunda Guerra Mundial.
Na cultura de massa, o corpo da nação japonesa será dilacerado, simbolizado por personagens grotescos no cinema, como Godzilla (Gojira) e outros monstros. lembrando as marcas na pele das vítimas das bombas atômicas. E reapropriado em individualidades, através da moda, pelas modenu-garu (modern girls, garotas modernas), que se vestem com trajes ocidentais.
Nas artes, o corpo japonês será questionado,restituído e humanizado pelas experimentações da dança butô, com Kazuo Ohno e TatsumiHijikata. Os mestres buscam, através da poesia, aceitar a desmilitarização e femilnilização do Japão. Por outro lado, nas artes visuais, Takashi Murakami apropria-se da cultura pop para criar o conceito de superflat – a cultura de achatamento, superficial, sem profundidade.
Por fim, no Japão contemporâneo temos uma juventude massificada e solitária. O corpo é cultuado, mas tem que ser aproximado a um modelo de beleza ocidental.
Christine Greiner é professora livre-docente da Pontifícia Universidade Católica de São Paulo – PUC-SP, onde ministra disciplinas na graduação em Artes do Corpo, e no Programa de Estudos Pós-Graduados em Comunicação e Semiótica, no qual coordena o Centro de Estudos Orientais. Foi pesquisadora e professora visitante no Centro Nichibunken de Kyoto, na Universidade de Tóquio, na Universidade Paris viii, na nyu, na Universidade Rikkyo e na Universidade Kansai Gaidai. Como curadora, foi uma das responsáveis pelas exposições Primeira Pessoa (2006), Tokyogaqui (2008), A Revolta da Carne (2009) e Corpos de Imagens Eikoh Hosoe (2014). Publicou diversos ensaios sobre o tema, bem como sobre cultura japonesa, dança contemporânea e performance, tanto no Brasil, quanto no Japão, na França, na Itália e nos Estados Unidos, tendo organizado as seguintes coletâneas: Tokyogaqui, um Japão imaginado, com Ricardo Muniz Fernandes, Imagens do Japão 1 e 2, com Marco Souza, e Hikikomori, a vida enclausurada nas redes, com Cecília Saito. Entre seus livros, pode-se destacar: Butô, pensamento em evolução (Escrituras, 1998), Teatro Nô e o Ocidente (Annablume, 2000), O Corpo, pistas para estudos indisciplinares (Annablume, 2005) e O Corpo em crise, novas pistas e o curto-circuito das representações (Annablume, 2010).

38 KINEMA – FICBIC INCLUI MOSTRA DE CINEMA JAPONÊS

O Festival Internacional de Cinema da Bienal Internacional de Curitiba (FICBIC) abre nesta quinta-feira (05), em Curitiba, incluindo Mostra de Cinema Japonês a partir de terça-feira (10), com destaque para animes e a obra do diretor Kon Ichikawa.

Cena de Conflagration.
Cena de Conflagration. Foto: divulgação.

O Festival Internacional de Cinema da Bienal Internacional de Curitiba (FICBIC), que abre nesta quinta-feira (05), em Curitiba,  inclui uma Mostra de Cinema Japonês, promovida pela Fundação Japão e Consulado do Japão em Curitiba. A mostra terá quatro  dias (10, 11, 12 e 13) e será apresentada na Cinemateca de Curitiba, tendo como destaque animes e a obra do diretor Kon Ichikawa.

Entre os animes, os títulos são; Princess Arete, de Sunao Katabuchi, (2001), Genius Party, de Atsuko Fukushima (2007), After School Midnighters, de de Hitoshi Takekiyo (2012), MInd Game, de Masaaki Yuasa, Japão (2004), Genius Party Beyond, de Masahiro Maeda e outros (2008).

Na mostra Kon Ichikawa, os destaques são os filmes Conflagratiion (1958), Irmão mais novo (1960) e A Vingança do Ator (1973).  Nascido em 1915 no oeste do Japão, Ichikawa estudou s em Osaka, mas desde jovem era fascinado pelos shows de marionetes e desenhos animados e, a partir de 1933, passou a fazer parte do departamento de animação de J.O. Studios, em Quioto. Estreou em 1948 como diretor de cinema e, em 1956, dirigiu o épico antiguerra A Harpa da Birmânia (ou “Não Deixarei os Mortos”). Considerada sua obra-prima, o filme é baseado em um romance em que um soldado japonês desafortunado tenta convencer um grupo de colegas a se renderem após o final da Segunda Guerra Mundial.

Outros filmes: Fogos na Planície (1959,)  voltando ao tema da guerra e criando cenas de excessiva atrocidade, com necrofagia, mutilações e canibalismo; Estranha Obsessão (1960),  Olimpíadas de Tóquio (1964, documentário).  Em 1994, foi premiado pelo governo japonês  e, em 2001, o Festival de Cinema de Montreal homenageou-o com prêmio pelo conjunto da obra. Em 2006, o Festival Internacional de Tóquio lhe entregou o Prêmio Akira Kurosawa, também pelo conjunto da carreira. Fez seu último filme em 2006 –  refilmagem de The Inugami Family. Morreu aos 92 anos, vítima de pneumonia em um hospital de Tóquio.

38 HQ – HQ DE CURITIBA SERÁ LANÇADA NO FIQ

Graças ao financiamento coletivo, mais um projeto de quadrinhos se realiza. O projeto conseguiu arrecadar mais de R$ 23 mil para que a história de “A Samurai”, de autoria da jornalista e escritora Mylle Silva possa ser ilustrada por oito quadrinistas – Yoshi Itice, Vencys Lao, Guilherme Match, Mika Takahashi, Herbert Berbet. Bianca Pinheiro, Leonardo Maciel e Gustavo Borges.

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Capa de “A samurai”.

Graças ao financiamento coletivo, mais um projeto de quadrinhos se realiza. O projeto conseguiu arrecadar mais de R$ 23 mil para que a história de “A Samurai”, de autoria da jornalista e escritora Mylle Silva possa ser ilustrada por oito quadrinistas – Yoshi Itice,   Vencys Lao, Guilherme Match, Mika Takahashi,  Herbert Berbet. Bianca Pinheiro,  Leonardo Maciel e Gustavo Borges. A graphic novel será lançada no Festival Internacional de Quadrinhos (FIQ), que acontece de 11 a15 de novembro, em Belo Horizonte.

A narrativa é ambientada no período medieval do Japão (período Edo), quando o  país era governado pelos daimyos (senhores feudais), e estes defendidos por  samurais. Num contexto em que as mulheres eram seres submissos, aparece uma mulher excepcional: Michiko. Ainda recém-nascida, ela foi deixada no okiya, a casa das gueixas, para ser criada ali,  mas ela alimenta o desejo de encontrar sua famílial. Para tanto, decide mudar o seu destino e se torna uma samurai que não mede esforços para atingir seus objetivos e lutará até o fim para realizar os seus sonhos. Ao todo, a graphic novel terá 112 páginas divididas entre a história e os extras. Cada capítulo terá uma cor predominante.

O roteiro foi escrito pela jornalista e escritora Mylle Silva, criadora do site Tadaima! Curitiba e o Webcomics Brasil. Em 2014 publicou A Sala de Banho, seu primeiro livro de contos, também por financiamente coletivo.

 

Yoshi Itice,  fundador do estúdio/site LoboLimão, no qual trabalhou até 2014. Entre suas publicações,  o livro-jogo Last RPG Fantasy e a série Batsuman. Em 2015, deu início a um novo projeto, o Manjericcão. 

Vencys Lao, natural de Paulínia/SP, é ilustrador e quadrinhista.  Alterna  atividades entre Estúdios de animação com trabalhos como O Sítio do Pica Pau Amarelo (Split Filmes/Mixer) e Galinha Pintadinha (Bromélia Filmes) com seus trabalhos autorais, como a HQ independente Dia do Porko e Hey Little Rich Girl. Colaborou com quadrinhos independente na Inglaterra e Rússia. Hoje trabalha como freelancer na área editorial em revistas e livros infantis.

Guilherme Match, ilustrador profissional desde 2005, já trabalhou para agencias de publicidade, editoras e marcas de vestuário. Também é professor de mangá desde 2008. Criou gosto pelos quadrinhos publicando fanzines entre 2004 e 2008. Seu projeto mais novo é Rocksling, publicado de forma independente em março de 2015.

Mika Takahashi já fez animação 2D e 3D, concept art e atualmente se aventura em storyboard e quadrinhos.

Bianca Pinheiro, carioca curitibana, é autora da webcomic Bear (publicada pela Editora Nemo) e também da HQ Dora (independente). Gosta de sorvetes, musicais e gatos.

Herbert Berbert vive no interior de SP, sempre gostou de desenhar, mas só em 2012 após um acidente começou a fazer quadrinhos como forma de terapia e não parou mais. Com influencias de diversos estilos e artistas tem o cartoon como seu preferido, é autodidata mas gosta de absorver o máximo possível de cada artista que conhece. Participou das HQs Madbox em parceria com a prefeitura de Piracicaba e o estúdio Madbox, a HQ Tudo já Foi Dito de Pedro Hutsch, e a HQ 321 Fast Comics -Vol.2 de Felipe Cagno, além de várias exposições online e físicas.

Leonardo Maciel é ilustrador e já trabalhou para a Ed. Abril, Ed. Saraiva, O2 Produções, Rede Globo, Ed. Moderna, shopping Conjunto Nacional – DF, Jurassicast e Folha de São Paulo. Seu primeiro trabalho como quadrinista foi para a Revista Recreio e serviu como motivação para iniciar seu trabalho autoral como quadrinista em seu site Nabunda Nada.Teve participações nos livros Nem Morto, de Leonardo Finocchi, na antologia Máquina Zero e no livro Joãos & Joanas por Fulanos e Fulanas, de Pedro Hutsch Balboni. Atualmente está trabalhando na graphic novel Êxodo, com roteiro de Carlos Ruas.

Gaúcho natural de Porto Alegre, Gustavo Borges aos 19 anos já publicou 2 álbuns independentes com suas séries “A Entediante Vida de Morte Crens” e “Edgar”, um sketchbook e participou de vários livros coletivos. Trabalha com quadrinhos e ilustração a menos de dois anos, e não tem dúvidas que nasceu pra contar histórias.

38 ESPÍRITO – A MORTE PARA OS JAPONESES

No Brasil, no Dia dos Mortos, até há alguns anos, era comum famílias de descendentes de japoneses deixar um prato de comida ou bebidas diante de túmulos dos antepassados. Os japoneses ofereciam refeições aos mortos, seguindo tradição xintoísta. Hoje a prática é condenada no Japão. O pratinho de comida é oferecido no Hotokesama, o santuário doméstico em reverência aos antepassados.

Bebida no túmulo do cineasta Yasujiro Ozu.

No Brasil, no Dia dos Mortos, até há alguns anos, era comum  famílias de descendentes de japoneses deixarem um prato de comida ou bebidas diante de túmulos dos antepassados. Ofereciam-se comida e bebida aos mortos, seguindo antiga tradição xintoísta. Hoje a prática é condenada no Japão, considerada anti-higiênica. O pratinho de comida é oferecido no Hotokesama, o santuário doméstico em reverência aos antepassados.

Nas Escrituras Budistas lê-se que um dia o monge Mokuren viu a mãe morta sofrendo de fome nas profundezas do inferno. A oferta de uma tigela de arroz ajudou a aliviar a dor dela. A tradição de oferecer comida e bebida aos mortos vem daí. A prática foi proibida pelo governo japonês, por atrair corvos aos cemitérios.

Aos pioneiros imigrantes, o governo japonês recomendava não expor o hotokesama na sala de estar. A cautela era para que a diferença de crenças não chocasse os brasileiros. O santuário era colocado no quarto de dormir. A clandestinidade favoreceu o ecumenismo. Assim, a maioria dos descendentes de japoneses no Brasil, além de batizados com nomes cristãos, aderiu ao catolicismo, mas não esqueceu de prestar reverências aos ancestrais.

O culto aos ancestrais é disseminado nas corporações japonesas. Grandes empresas mantêm mausoléus para homenagear funcionários. São os monumentos empresariais, construídos pela Panasonic, Mitsubishi e Sony, entre outras, para cultuar os “soldados da empresa”. Hirochika Nakamaki, antropólogo do Museu Nacional de Etnologia da Universidade de Osaka, que estudou estes monumentos, conta que estes monumentos começaram a ser erguidos a partir dos anos 50 no Monte Koya, no sul de Osaka, onde estão sepultados daimios (senhores feudais) históricos.

Diante de memoriais empresariais pede-se votos de prosperidade nos negócios, prevenção de acidentes de trabalho e reconhecimento da preferência do consumidor. As empresas japonesas mais conceituadas são as que criam e mantêm memoriais para funcionários.

Nakamaki diz que os memoriais são uma extensão de relações entre executivos e funcionários, que reproduzem laços entre daimios e samurais. Ele sustenta que as multinacionais nipônicas adotaram o modelo do clã feudal e adaptaram rituais religiosos em suas organizações para sobreviver no mundo dos negócios.

“Trazendo os santuários xintoístas, símbolo dos laços territoriais e os templos, dos laços sanguíneos para as organizações, os daimiyos capitalistas transferiram os laços de sangue e territoriais para as empresas. Assim carregaram símbolos budistas e xintoístas com valores mercadológicos, inserindo aspectos religiosos no ambiente de trabalho para transferir sentimentos familiares aos funcionários”, diz Nakamaki.

JAPÃO

Ritual Tooro Nagashi em Hiroshima.

Os orientais não têm a mesma visão da morte que os ocidentais. A morte, tanto para chineses, japoneses, tibetanos e indianos, influenciados pela cultura budista, é ocasião de júbilo. O budista chora quando nasce uma criança e ri quando se vai um morto. Acreditam que morte é renascimento. Em vez de preto, usa branco para celebrar o luto.

O Dia dos Mortos no Japão é celebrado a 15 de agosto (O-bon). O-bon é uma festa budista em que é permitido aos espíritos mortos visitar as casas de familiares vivos para comemorar o encontro com eles. Acendem-se lanternas nas portas de entrada das casas para guiar os espíritos. No fim do festival (Tooro Nagashi) acendem-se lanternas nos rios, de onde os fantasmas retornariam ao mundo sobrenatural, após visitar os parentes durante vários dias.

O mais antigo registro sobre a comemoração do O-bon é de 657 e faz parte da história da Rota da Seda. Na época, a cidade de Asuka (hoje uma vila da cidade de Nara) era pólo da efervescência política e cultural, povoada por chineses, coreanos e persas que faziam a rota da seda, entre Pequim e arredores.

A origem da palavra vem de rituais persas de crença dos zoroastros: uruvan (urabon, em japonês): campo de energia ligando vida e morte. O zoroastrismo atingiu o Japão através da Rota da Seda fundiu-se com festivais budistas, que se tornaram populares a partir do ano 538.

Em Tóquio o Dia dos Mortos ainda é celebrado em julho, mas em outros lugares é em agosto – sétimo mês do calendário lunar, ainda considerado pela agricultura tradicional como época de plantio e colheita. As danças japonesas conhecidas em festivais japoneses como Bon-odori são originárias dos rituais fúnebres. Uma das funções das danças é espantar os maus espíritos, que também são reanimados na época.

(Publicado originalmente em micropolis, em 31/10/2004)