54 LITERATURA – HIRO ARIKAWA CRIA MELODRAMA COM GATO NARRADOR

Histórias com animais costumam atrair multidões. Por isto, muitos escritores criaram personagens felinos. Na literatura japonesa, temos Eu sou um gato, de Natsume Soseki, em que o narrador é um gato irônico, que ri das trapalhadas de seu dono. Relatos de um gato viajante (Alfaguara,  tradução Rita Kohl, 2017), de Hiro Arikawa, começa citando o famoso felino porque seu narrador é também um gato, Nana (em japonês, sete). O bichano tenta ser irônico como o gato de Soseki. Mas o universo que ele habita é mais doméstico.

Nana foi recolhido das ruas por Satoru Miyawaki. O dono é aficcionado por felinos. Quando criança, teve outro gato, Hachi (em japonês, oito). Separou-se dele quando os pais morreram. Nana vive cinco anos com Satoru e depois, por algum motivo misterioso, o dono precisa que outra pessoa o adote. Satoru contata antigos amigos de infância para adotar o bichano. Para encontrá-los, viaja pelo Japão. Nestas viagens, vai reencontrar não apenas os amigos, como também relembrar a infância e adolescência.

Satoru é um ser humano idealizado, que ama os animais e se torna excepcional depois da morte dos pais. Sempre solícito e gentil, é invejado pelos amigos, e este é motivo secreto pelo qual Nana se recusa a ser adotado por eles. Os amigos de infância têm relacionamentos conturbados, como é comum nas famílias: um tem conflitos com o pai autoritário desde criança, o outro não tem paciência com animais, o terceiro tem ciúmes da mulher, que já teve uma paixonite pelo protagonista. A tia de Satoru, a quem ele foi entregue depois que os pais morreram, é desenhada como socialmente inábil, apesar de ser uma juíza. Assim, Satoru se torna um ser angelical: parte desta visão romântica pode ser influência de Nana.

Relatos de um gato viajante é uma história do tipo kawaii – em japonês: fofo, adorável, amável. Kawaii designa produtos da indústria cultural, como animes ou canções J-Pop (o pop japonês), cuja personificação máxima é a gatinha Hello Kitty e os mutantes Pokemon. Embora Nana cite Soseki, a historinha do gato de Satoru nada tem a ver com o clássico. Eu sou um gato é uma crítica ácida sobre a sociedade japonesa. Relatos de um gato viajante é uma história melodramática sobre a relação entre um gato e seu dono. Mas é a fórmula certa para o mercado: no Japão, já foram mais de 400 mil exemplares vendidos.

Hiro Arikawa nasceu em 1972, em Kochi. Ganhou o Prêmio Dengeki para novos escritores, por Shio no Machi: Wish on My Precious em 2003, e o livro foi publicado no outro ano, no Japão. Seus romances são best-sellers e muitos deles foram adaptados para a TV e o cinema

.”Quando ele me encontrava por ali, eu o recompensava deixando que brincasse um pouco comigo, mas, mesmo que eu não estivesse, ele deixava, respeitosamente, sua oferenda. Às vezes outro gato encontrava a comida antes de mim, ou acontecia de o homem sair para algum lugar, e aí, por mais que eu esperasse, o croc-croc não aparecia. Mesmo assim, passei a ter uma refeição garantida praticamente todos os dias. Só que os humanos são criaturas muito caprichosas, então é melhor nunca depender totalmente deles. Um gato de rua esperto tem seus esquemas e se garante em vários lugares. E foi assim que começou minha relação com aquele homem — éramos apenas conhecidos, mantendo uma distância segura um do outro. Entretanto, logo quis o destino que essa relação se transformasse completamente. E esse destino doeu horrores. Eu estava atravessando a rua, de madrugada, quando o farol de um carro veio em cheio na minha cara. Tentei correr, mas uma buzina gritou nos meus ouvidos. Aí, já era. Levei um susto com a buzina, o que me fez demorar um segundo a mais para correr. Não fosse por isso, eu teria conseguido escapar fácil, mas a meio passo da calçada o carro me atingiu, com uma força espantosa — bam! Depois disso, eu não vi mais nada. Quando dei por mim, estava caído no meio dos arbustos da calçada. Meu corpo doía de um jeito que eu nunca tinha sentido na vida. Ah, mas eu estava vivo! Puxa vida, que situação. Tentei ficar em pé… só para despencar, com um grito. Ai, ai, ai, que dor! Era a minha pata traseira direita que doía absurdamente. Voltei a me deitar, sem forças, e lá fui eu lamber a ferida. Ah, não! Tinha um osso espetado. E agora? O que eu faço? Alguém me ajude!! Onde já se viu, um gato de rua pedir socorro? Não temos ninguém para nos acudir… Mas naquela hora eu me lembrei do homem, o que me dava a comida croc-croc toda noite. Talvez ele me socorresse. Não sei por que pensei isso, afinal, era só um conhecido que às vezes me levava uns agrados, e de vez em quando eu permitia um cafuné em troca. (Página 12)

RELATOS DE UM GATO VIAJANTE | Hiro Arikawa

Editora: Alfaguara
Tradução: Rita Kohl;
Quanto: R$ 29,90 (256 págs.);
Lançamento: Agosto, 2017.

 

 

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30 HAICAI | MAIS VIDA PARA BASHÔ

Capa do livro "Vida". Foto: divulgação.
Capa do livro “Vida”. Foto: divulgação.

Há pouco tempo, o nome do poeta Paulo Leminski esteve envolvido na polêmica sobre a chamada “lei das biografias”.  Personagem de uma biografia escrita pelo jornalista Toninho Vaz, seu nome foi, mais uma vez, estampado nas manchetes de jornais. De um lado, a viúva Alice Ruiz e suas filhas defendiam a manutenção dos itens do Código Civil que garantem a preservação da privacidade do biografado. De outro, o biógrafo defendia a queda da necessidade de autorização para escrever sua obra.  A discussão  ainda pega fogo na Câmara e no Senado.

Leminski, porém, escreveu biografias. Não como quem emite um relatório de datas e fatos sobre seu personagem. Mas como quem o ama.  Vida  traz a biografia de quatro de seus ídolos: dois revolucionários, o  russo León Trotski e o galileu Jesus e dois poetas, o  japonês Matsuo Bashô e o brasileiro Cruz e Sousa. O volume, reunindo o quarteto, foi lançado já alguns meses pela Companhia das Letras, a mesma  editora que publicou a antologia Toda Poesia, que atingiu 65 mil exemplares vendidos.

O poeta  não era biógrafo profissional. Suas incursões pelo gênero são poéticas. O estilo se assemelha mais à colagem de fatos (pouquíssimos), fotos, poemas (muitos), alicerçados por seu poder de pensamento crítico.  As pseudobiografias são, na verdade, ensaios.  A de Bashô, por exemplo, é  um tratado seriisimo sobre a poesia japonesa, o haiku e a declaração de sua paixão pelas artes japonesas, incluindo as marciais. Paixão transversal, a ponto de os conceitos invadirem as histórias de outros biografados, como Cruz e Sousa. Isso para explicar o sentimento que une os quatro biografados: sabishisha, spleen, banzo e blues. Quatro palavras que têm a melancolia como denominador comum.

Até o século XIX, a filosofia relacionava o sentimento de melancolia à poesia. Talvez o poeta cultivasse esse sentimento atávico de tristeza.  E na arte japonesa, além do sabishisha,  de onde vem o conceito de wabi sabi –  o cultivo da beleza imperfeita – há também o mononoaware, o sentido do efêmero. Há quem veja na escolha desses personagens influência da personalidade de Leminski.  Teriam sido todos suicidas, afirmam os críticos. A tese da personalidade suicida, da tendência kamikaze é o que permeia uma ou duas biografias sobre o poeta. Antes, porém, de cultivar sentimentos mórbidos, Leminski exaltava a alegria.  

A biografia de Bashô é dividida em quatro estações. Essa divisão funciona para lembrar a relação do haicai com as estações do ano. Leminski explica detalhadamente o sistema de escrita japonês. E também que o haiku é um caminho, um dô, para atingir a perfeição.  Depois, escreve com entusiasmo sobre o zen-budismo. Além de citar  poemas  japoneses,  no fim,  lista   haicais de Ezra Pound, Guilherme de Almeida, Octavio Paz,   Juan Tablada , Millôr Fernandes,e, natural, dele , e de Alice Ruiz.

Se Leminski não segue o conceito estrito de biografia, tanto melhor para seus leitores. Esses podem saborear mais uma obra com o estilo do polaco, pleno de paixão e inteligência. Bom seria se o livrinho convencesse os parlamentares de que biografias não precisam invadir a vida privada de ninguém. Quem é cheio de vida não precisa de autorização para escrever o que quer que seja.  A  poesia, as artes e a literatura só são feitas de textos não-autorizados.  Mas a indústria cultural, o  jornalismo  e a política insistem que todo o abuso, desde que rentável,  deva ser legalizado.  Assim caminha a humanidade. E os poetas seguem,  como uns bons  foras-da-lei.

20 NOTÍCIA | EDITORA DE LEMINSKI PREMIA HAICAIS

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O escritor e jornalista Luiz Andrioli, de Curitiba,  é o autor de um dos cinco  haicais premiados no concurso relâmpago organizado pelo blogue da Companhia das Letras para promover o lançamento do livro “Toda poesia”, de Paulo Leminski. O concurso recebeu mais de mil poemas, julgados por Alice Ruiz, Sofia Mariutti e Leandro Sarmatz. Esses foram os cinco poemas selecionados, ganhadores do livro e da camiseta:

Dois cães na rua
O solto faz festa
O preso protesta
— Luiz Andrioli

Flor de maio
presa ao vestido
trancado no armário
— Ana Clara Noronha

a pipa
se alinha
ao voo da andorinha
— Amyr

à meia-luz
água apitando no bule
gaita de blues
— Lucas Puntel Carrasco

Faro de breu
Farol do vaga-lume
Acendeu
— Márcio Januário Pereira

NOTÍCIA | EDITORA LANÇA CONCURSO DE HAICAI

O haikai se faz com três linhas, ou versos, e não mais que 17 sílabas. Seu tema é a natureza, e não nossos sentimentos e pensamentos. Se faz com simplicidade, leveza, desapego, sutileza, objetividade, integração com o todo. Sua melhor definição, na opinião de muitos, é uma fotografia em palavras. Grava o instante. O fotógrafo não aparece na foto, mas sua sensibilidade sim. O mesmo no haikai. É como se as coisas falassem por si mesmas. Sem adjetivos, sem a impressão do poeta, exatamente como são. Só o real, sem comparar a nada e, talvez por isso mesmo, tão incomparável. Porque, descrevendo a coisa apenas como ela é, desperta a sensação da própria coisa. A sensação, por exemplo, da estação em que ela acontece, nos fazendo lembrar de que tudo está sempre mudando, tem o seu próprio tempo, que é cíclico. É essencial, isto é, capta a essência das coisas, e a essa característica se dá o nome de haimi, que significa “sabor de haikai”. Não é difícil de entender, quando se volta à comparação com fotografia.  Qualquer um é capaz de perceber se uma foto é boa ou não, além dos aspectos técnicos. Ela é boa se nos toca, se capta um instante especial, se provoca uma sensação. (Alice Ruiz)

Esse texto de Alice Ruiz está publicado no blog da Companhia das Letras, para convocar poetas a escrever haicais.  Para participar, os autores devem deixar um haicai na caixa de comentários do post   até a meia-noite do dia 7 de março. Alice Ruiz  e os editores Leandro Sarmatz e Sofia Mariutti escolherão os 5 melhores, e seus autores receberão uma camiseta e um exemplar de Toda poesia, de Leminski.