48 LITERATURA – YOKO OGAWA E O LADO AFETIVO DA MATEMÁTICA

A Fórmula Preferida do Professor (traduzido por Shintaro HayashiEstação Liberdade, 2017), de Yoko Ogawa, é um romance que assusta, a princípio. Não vamos encontrar uma intriga clássica, narrando a história de amantes apaixonados ou desencontros familiares. Há, sim, um encontro, mas entre um trio inusitado: um velho professor de matemática, uma empregada doméstica e seu filho de dez anos.  Toda a narração, feita pela empregada, concentra-se, pasme, em fórmulas matemáticas.

Professor –  nem um personagem na trama tem nome – sofreu um acidente em 1975 e acabou tendo problemas de memória. Só consegue ter lembranças até o ano do desastre e a cada 80 minutos a memória volta à estaca zero. Ele passa a maior parte do tempo em casa, resolvendo problemas de matemática para revistas. Por ter gênio difícil, entra em conflito com as empregadas contratadas pela cunhada, sua tutora legal. Ao conhecer o filho da narradora, o Professor resgata uma outra paixão, a de ensinar. A curiosidade do menino – a quem apelida de Raiz  – e sua mãe alimentam uma amizade que durará até o fim de sua vida. A partir desse estranho encontro de gerações, Raiz irá absorver não só o amor por contas e equações, como também valores sobre respeito às diferenças, amizade e tolerância.

A narrativa, que começa em março de 1992, acontece na pequena residência do Professor. A paixão do docente pela matemática acaba contagiando não só o filho, mas também a empregada doméstica. E a paixão de Raiz, o beisebol, é compartilhada pelo Professor, fascinado pelo jogador canhoto Yutaka Enatsu, detentor da camisa de número 28 do time Hanshin Tigers.

O romance, publicado originalmente em 2003, fez decolar a carreira internacional da escritora japonesa, de quem a Estação Liberdade também publicou O Museu do Silêncio (2016). Best-seller instantâneo no Japão quando de seu lançamento, em 2003, A Fórmula Preferida do Professor acumula mais de quatro milhões de exemplares vendidos. Ganhou uma adaptação cinematográfica, em 2006, dirigida por Takashi Koizumi. Quem faz o papel do Professor é o ator Akira Terao, conhecida figura dos filmes de Akira Kurosawa e protagonista do primeiro filme dirigido por Koizumi, Depois da Chuva (1999).

Vale lembrar que depois de A Fórmula Preferida do Professor, Ogawa publicou, em 2006, An Introduction to the World’s Most Elegant Mathematics, obra em coautoria com o matemático Masahiko Fujiwara, um diálogo sobre a extraordinária beleza dos números.

Yoko Ogawa nasceu em Okayama, Japão, em 1962. Estreou em 1988 com Agehacho ga kowareru toki (A decomposição da borboleta), pelo qual obteve o prestigioso Prêmio Kaien, voltado a novos escritores. Já publicou mais de 20 obras de ficção e não ficção. Prêmios, aliás, não faltam em sua carreira, valendo menção o Akutagawa pela novela Ninshin karenda (Diário da gravidez), o Izumi Kyoka por Burafuman no maiso (O enterro de Brahman), e o Tanizaki por Mina no koshin (A marcha de Mina). Por A Fórmula Preferida do Professor, ela ainda arrebatou os prêmios Yomiuri e o da Sociedade Nacional de Matemáticas. Yoko Ogawa vive em Ashiya, província de Hyogo — nas proximidades de Kyoto — com o marido e o filho.

A FÓRMULA PREFERIDA DO PROFESSOR | Yoko Ogawa

Editora: Estação Liberdade;
Tradução: Shintaro Hayashi;
Quanto: R$ 32,63 (232 págs);
Ano: Março, 2017.

46 PALCO – ATORES NIKKEI PROTESTAM CONTRA DISCRIMINAÇÃO

Coletivo Oriente-se composto por atores de ascendência oriental lança manifesto pela igualdade étnica nas produções audiovisuais

46sociedadeimagem01Cerca de 200 atores de ascendência oriental lançaram um manifesto pela igualdade étnica nas produções audiovisuais no B_arco Centro Cultural, na última quarta-feira (31/08), em São Paulo.Os atores integram o Coletivo Oriente-se, que segundo sua página no Facebook, tem como objetivo “Difundir que somos atores brasileiros, que podemos interpretar diferentes papéis como os atores de outras etnias e que existe a necessidade de mudanças de paradigmas nas produções cênicas, midiáticas e audiovisuais no que tange à diversidade, assim como é na vida real. ”

O coletivo lançou um vídeo em que atores e atrizes afirmam a nacionalidade brasileira ao lado da etnia japonesa e a pouca representatividade nas produções culturais cênicas, denunciando as imagens estereotipadas e negativas. Na novela “Sol Nascente”, que estreou esta semana na Rede Globo, por exemplo, há um personagem de ascendência japonesa caracterizado como  nerd, num clichê em produções de teledramaturgia, em que os homens nipo-brasileiros são representados como assexuados.

Na quarta-feira, além do lançamento do manifesto e do vídeo, também houve discussão sobre a representatividade étnica nas produções audivisuais brasileira. Participaram do debate, além do Coletivo, os cineastas Paula Kim e Sandro de Andrade, o  antropólogo Alexandre Kishimoto e o curador Yudi Rafael, os dois últimos, integrantes do grupo  Estudos Asiáticos-brasileiros.

Kishimoto criticou o imaginário estereotipado veiculado pela indústria televisiva, citando um artigo do produtor de TV e professor  Gabriel Priolli, publicado em 2003. Segundo o professor a  TV e os noticiários veiculam “uma determinada imagem do Brasil , e de suas características, inteiramente construída no Sudeste e, por um número bastante reduzido de pessoas, os roteiristas, redatores e artistas de meia dúzia de emissoras, no máximo”.

O antropólogo lembra que o episódio da escolha do ator Luís Mello para interpretar um japonês ressoa em 1969, com outra novela da Globo, com a escolha do ator Sérgio Cardoso para interpretar o velho negro Pai Tomás, segundo pesquisa de Joel Zito Araújo. Houve muitos protestos, boicote e um incêndio no estúdio de gravação, abreviando a duração da novela. Nos anos 1970, com a novela Escrava Isaura, mais uma vez se tentou o blackface, com a escolha da atriz  Lucélia Santos, para interpretar uma heroína afro-brasileira, numa reconstituição adocicada da história da escravidão. O argumento do produtor da novela, Walter Avancini?  O mesmo de hoje: ” não havia atrizes negras preparadas para fazer o papel.”

Kishimoto destacou que poucas foram as novelas que apresentaram personagens negros de classe média: Vidas em Conflito, (1969), Corpo a corpo, (1985), e  A próxima vítima (1995).  “Somente em 2004, na novela Da cor do pecado,  Taís Araújo viria ocupar o posto de primeira protagonista negra em 40 anos de história dessa emissora”, ressaltou.

Para o pesquisador, o branqueamento na televisão brasileira  afeta  não apenas os asiático-brasileiros, mas  diversos grupos sociais e minorias étnicas : afro-brasileiros, indígenas, bolivianos, africanos, nordestinos, LGBTS, mulheres, os sem teto e os excluídos.” Trata-se de um sistema social que discrimina, segrega, estigmatiza e hierarquiza social e racialmente. Que representa os afro-brasileiros com estereótipos como da empregada doméstica e do bêbado; o índio como vagabundo; o asiático como o abobado que não sabe se expressar em português; o nordestino como ignorante, o ativista do movimento social como baderneiro etc.”, completa.

Para reverter o quadro da discriminação, Kishimoto diz que é preciso  criar novas narrativas da perspectiva dos asiático-brasileiros: “Para isso é preciso estimular, valorizar e se conectar com o trabalho de roteiristas, fotógrafos, artistas plásticos, cineastas, documentaristas, historiadores, antropólogos, dramaturgos e teledramaturgos asiático-brasileiros.” Citou o surgimento de iniciativas independentes, como o do coletivo Oriente-se e o do Yo Ban Boo, além do grupo  Estudos Asiático-Brasileiros que reúne historiadores, antropólogos, artistas plásticos, escritores e ativistas que discutem questões sobre identidade e representatividade.

Leia  o Manifesto do Coletivo Oriente-se.

MANIFESTO DO COLETIVO ORIENTE-SE NO BRASIL PELA IGUALDADE ÉTNICA
 
Nós, artistas e profissionais das artes com ou sem ascendência oriental, seja japonesa, chinesa ou coreana, reivindicamos por igualdade no tratamento justo a todos os cidadãos, repugnando práticas de discriminação étnica que ocorre em algumas produções de audiovisual que retratam o oriental de forma estereotipada, preconceituosa e distorcida da realidade. Em especial para produções populares de rede aberta como novelas, seriados e comerciais que, atingem a maioria da parcela dos cidadãos brasileiros, influenciam diretamente a sociedade promovendo às vezes, o conceito deturpado e negativo, denegrindo a imagem dos orientais e educando as novas gerações com a visão preconceituosa contra a nossa comunidade.
Somos parte integrante da sociedade brasileira, nascemos, vivemos e contribuímos com muito trabalho para o enriquecimento e desenvolvimento de nossa nação. Ter a presença de atores e artistas orientais em produções de audiovisual em papéis não estereotipados e de forma respeitosa, é o mínimo e o justo que a comunidade oriental brasileira merece em retribuição e gratidão por mais de um século de história em terras brasileiras. Somos brasileiros e exigimos respeito para com todos, independentemente de sua ascendência. A diversidade étnica, social e/ou de gênero é fundamental e necessária para o crescimento de qualquer cidadão.
Entendemos que, frente às desigualdades existentes, não basta rejeitar as práticas de discriminação, mas sim realizar ações que possam corrigir distorções e aproximar indivíduos. É responsabilidade de cada um de nós brasileiros, promover a igualdade no cotidiano, através de nossos atos, trabalhos e postura. É de extrema importância que os profissionais que atuam diretamente na concepção e produção de obras de audiovisual, tenham a consciência de que a sua criação pode influenciar positivamente a nossa sociedade e difundir a diversidade. Cabe também a nós, artistas orientais brasileiros, fomentar a imagem positiva de nossa comunidade, através de nosso trabalho artístico, para que as futuras gerações possam se olhar com a autoestima de um cidadão brasileiro pertencente a esta nação.