57 LITERATURA – HARUKI MURAKAMI SE REVELA EM “ROMANCISTA COMO VOCAÇÃO”

Romancista como vocação (Alfaguara, 2017, tradução de Eunice Suenaga), de Haruki Murakami, é um ensaio sobre o processo criativo do escritor japonês. Vários aspectos das  criação literária, como os prêmios, originalidade, temas, personagens, o público são abordados em linguagem coloquial.

Um aspecto central do relato de Murakami é a determinação em se tornar escritor. Ele não frequentou cursos, nem teve preparo. Apenas, quando decidiu escrever, ao assistir um jogo de beisebol, foi em frente. O fato de sempre ter gostado de ler literatura facilitou sua decisão. O culto à individualidade  é o que levou à paixão pela literatura, pelo cinema e pela música.

Como um “bom japonês”, Murakami não deixa transparecer rebeldia. Pequenos desvios, como não ter sido aluno brilhante, ter se casado e buscado trabalho antes de se formar são o suficiente para torná-lo anomalia na sociedade japonesa. Ter trabalhado em Kabukichô,  zona de boemia de Tóquio, onde perambulam figuras marginais, foi, para ele, grande experiência:

Foi nesse lugar animado, diversificado, às vezes duvidoso e violento, que aprendi muito sobre a vida, e não nas salas de aula das universidades nem nos clubes universitários onde se reúnem pessoas idênticas umas às outras.  Eu me considerava streetwise, palavra inglesa que significa ‘portador da sabedoria prática para sobreviver na cidade’: eu me dava melhor com essas coisas mais pé no chão do que com estudos acadêmicos. Para ser sincero, as aulas na faculdade não me despertavam praticamente nenhum interesse.(página 23)

Outra experiência foi ter sido dono do bar de jazz por oito anos, em Kokubunji. O insight para se tornar escritor veio em 1978. Escreveu o romance Ouça a canção do vento, em 6 meses. Inventou um estilo próprio, uma linguagem objetiva e sintética. Ao ser premiado pela Revista Gunzô, publicada pela editora Kôdansha, o escritor teve o aval para deslanchar sua carreira.

Murakami recebeu vários prêmios literários no Japão. Curiosamente, em Romancista como vocação, lamenta mais por nunca ter sido distinguido com o  Prêmio Akutagawa (o mais prestigiado em sua terra) do que por ter recebido  o Tanizaki e o Yomiuri ou ter sido indicado ao Nobel. As recusas por não participar de juri de prêmios literários ou programas de tevê o distinguem da maioria dos escritores e  aspirante a escritores. Depois do sucesso do segundo livro, Norwegian Wood,  Murakami fechou seu bar e preferiu usar todo o tempo disponível para criar narrativas.

Com as indicações do escritor, escrever parece fácil e simples. A criatividade é despertada com o processo de guardar cenas ou personagens do cotidiano na memória para usá-los mais tarde. Mas,  além de observar o seu redor, como recomenda, outros estímulos – no caso dele, o jazz, a literatura e o cinema popular – parecem necessários para ativar a criação. Murakami cita aleatoriamente Beatles, Beach Boys, Thelonious Monk, Raymond Chandler, Kafka, ET, não se importando em classificá-los em categorias como alta cultura ou cultura popular.

Além da determinação, a disciplina é mais elemento imprescindível na carreira do escritor, de acordo com ele. Murakami diz escrever durante quatro ou cinco horas por dia, resultando em 300 páginas por mês. Um componente essencial de sua disciplina é o cuidado com o físico –  ele se exercita com corrida durante uma hora, todos os dias. Um ritual que o difere da imagem do escritor como “um antissocial que cria literatura em meio à ruína e ao caos, levando uma vida desregrada”.

E toda a disciplina é necessária para encontrar o caos criativo: “Acho que o caos existe na mente de todas as pessoas. Dentro de mim e de você também. Não é algo que precisa ser mostrado na vida prática: “olhe o caos que eu carrego, vejo como ele é grande””, Se você quer encontrar com o seu caos interno, basta fechar a boca e descer sozinho ao fundo do inconsciente. É aí que se encontra o caos que você precisa enfrentar, aquele que vale a pena ser enfrentado. Ele está no seu ponto mais íntimo.” (Página 103)

Um ponto decisivo para a sua escolha em direção à literatura foi o conflito que teve com a educação formal. O ensino formal é, para Murakami, um treinamento para condicionar espíritos conformados: “…com base na minha experiência, digo que o objetivo do sistema educacional do Japão é criar  pessoas da categoria dos ‘cães’, úteis à comunidade, e, indo além , diria até que o seu objetivo é criar pessoas da categoria dos ‘carneiros” que se deixam ser levadas com as demais.” (Página 114)

O escritor demonstra não ser uma pessoa de “mente aguçada”, mas alguém que tem disciplina suficiente para não seguir a maioria. É ele, com a mente lenta da imaginação,  quem faz a maioria segui-lo. O ensaio parece menos um manual para escritores e mais um diário aberto para os leitores. A maior vocação de Murakami é, sim, cativar seus leitores.

Romancista como vocação | Haruki Murakami
Tradução: Eunice Suenaga
Editora: Alfaguara
Lançamento: abril 2017
Preço: R$ 28, 40

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56 LITERATURA – SÔBÔ É O OLHAR JAPONÊS DA IMIGRAÇÃO

Tatsuzo Ishikawa é o último a direita da primeira fila,  nos anos 30

Sôbô (Ateliê Editorial, 2008, tradução Maria Fusako Tomimatsu, Monica Setuyo Okamoto e Takao Namekata), de Tatsuzô Ishikawa, é um romance sobre a imigração japonesa ao Brasil do ponto de vista japonês. Muitas são as narrativas sobre o tema do ponto de vista do imigrante que veio ao nosso pais. Esta mudança de perspectiva influencia também a mudança do espaço narrativo.

Sôbô é dividido em três partes. A primeira descreve a hospedagem dos imigrantes no porto de Kobe. A segunda, a viagem. A terceira, a chegada. A primeira e segunda partes são mais extensas tomando 80% da narrativa. Nos relatos fictícios de imigrantes japoneses, como o filme Gaijin, de Tizuka Yamazaki, e no O imigrante japonês, diário do artista plástico Tomoo Handa, as tramas se passam exclusivamente em território brasileiro.

Tatsuzo Ishikawa imigrou para o Brasil nos anos 30 e ficou durante 6 meses por aqui. Fez um acordo com a revista em que trabalhava para escrever artigos sobre a imigração. Ao chegar à hospedaria de imigrantes no porto de Kobe, ponto de partida dos navios “Maru”, ficou espantado com a pobreza dos viajantes. Decidiu escrever um romance. Em 1933, lançou a obra Sôbô. O romance recebeu o Prêmio Akutagawa, em 1935.

O título, Sôbô, é composto por dois ideogramas. Sô remete a Sôsei, “povo”, ou “cor de capim”, “apressar-se”, “envelhecer”. Bô, a “imigrante”, “povo subjugado”. O imigrante é comparado ao capim ou erva daninha, como algo desprezível.

O escritor projeta uma lente de aumento sobre a vida dos trabalhadores rurais, ao contrário de narrativas que enfocam o individualismo da classe média urbana. A trama gira em torno das aflições e expectativas de um casal de irmãos, Magoichi e Onatsu. Eles vêm como agregados da família Monma. Ela é casada, apenas por conveniência às regras, como um dos irmãos Monma.

O título, Sôbô, é composto por dois ideogramas. Sô remete a Sôsei, “povo”, ou “cor de capim”, “apressar-se”, “envelhecer”. Bô, a “imigrante”, “povo subjugado”. O imigrante é comparado ao capim ou erva daninha, como algo desprezível.

“Magoichi, ao passar em frente ao funcionário que estava chamando os nomes, ficou com medo de ser repreendido. Na verdade, a irmã Onatsu e Katsuji não eram marido e mulher. Katsuji Monma era amigo da família e fora, apenas formalmente, registrado como sendo da família Sat, na qualidade de genro. Estavam sendo obrigados a simular serem um casal, visto que não estavam dentro das normas exigidas pelo governo para receber o auxílio-viagem a imigrantes. Uma das exigências era de que o ‘o casal deve ter idade abaixo de cinquenta anos e os membros da família terem acima de doze anos’. A senhora Monma e seus dois filhos, juntamente com Magoichi e sua irmã, eram dois grupos que se uniram formando, temporariamente, uma única família. Porém, essa ideia astuta não fora de Magoichi: ele havia sido instruído pelo senhor Yamada, um representante regional de uma agência de recrutamento de imigrantes. Portanto, não havia motivos para serem repreendidos: aliás, para os encarregados, era uma situação extremamente normal. Eles deveriam, na verdade, incentivar esse tipo de conduta, pois assim aumentariam o desenvolvimento dos países estrangeiros e contribuíram para a diminuição dos problemas de aumento populacional do Japão. Vendo sob esta ótica das empresas de empreendimento internacional, a imigração, mesmo de uma única pessoa, era um negócio bastante lucrativo. Para o representante regional, o senhor Yamada, os imigrantes por ele negociados já lhe haviam rendido um bom dinheiro.” (Páginas 24 e  25)

Magoichi e Onatsu são bastante ingênuos e se deixam enganar por todos. Eles sintetizam o espírito dos camponeses, ao mesmo tempo com disposição física e limitados na defesa de interesses individualistas. Grande parcela do romanceiro da imigração japonesa ao Brasil versa sobre a burguesia, mas o proletariado rural era o perfil da maioria absoluta dos imigrantes.

Nem todos os imigrantes são ingênuos. Há os mais abastados, que conseguem burlar as leis de imigração. E há os que descobrem, só na viagem, que também no navio as diferenças entre as classes sociais serão mantidas.

“O cotidiano no navio já passava dos vinte dias. Se ainda estivesse em sua terra natal, continuaria sendo um trabalhador rural honesto e virtuoso, que não tinha consciência de nada. Mas, ao embarcar no navio e começar a ajudar na cozinha, tomou conhecimento de algo chamado ‘classe social’. O senhor Oizumi, um sujeito tão pacato em Kobe, ao tomar ciência de um outro mundo, passou a se comparar com os passageiros de primeira classe. Não só isso, mas ele vira também, no porto, o navio adquirir grandes quantidades de laranjas e bananas. Ele sabia também que, todos os dias, às três da tarde, os marujos levavam um lanche da tarde aos passageiros da primeira classe e aos altos funcionários do navio. Testemunhou também que os passageiros da primeira classe tinham suas roupas lavadas e passadas e, toda noite, os estrangeiros bebiam uísque e se divertiam ouvindo vitrola na varanda-café.” (Página 167)

Tatsuzo Ishikawa nasceu em 1905, na região norte do Japão, na província de Akita. Ingressou na Universidade Waseda, em Tóquio, mas por problemas financeiros, desistiu do curso. Desde estudante queria ser escritor. Em 1928, embarcou para o Brasil no navio La Plata Maru. Trabalhou por aqui e voltou ao Japão. Escreveu o romance, premiado anos depois. Os temas sociais eram o seu forte.

SÔBÔ | Tatsuzô Ishikawa

Editora: Ateliê Editorial;
Tradução: Maria Fusako Tomimatsu, Monica Setuyo Okamoto e Takao Namekata;
Tamanho: 264 págs.;
Lançamento: 2008.[/box]

 

54 LITERATURA – HIRO ARIKAWA CRIA MELODRAMA COM GATO NARRADOR

Histórias com animais costumam atrair multidões. Por isto, muitos escritores criaram personagens felinos. Na literatura japonesa, temos Eu sou um gato, de Natsume Soseki, em que o narrador é um gato irônico, que ri das trapalhadas de seu dono. Relatos de um gato viajante (Alfaguara,  tradução Rita Kohl, 2017), de Hiro Arikawa, começa citando o famoso felino porque seu narrador é também um gato, Nana (em japonês, sete). O bichano tenta ser irônico como o gato de Soseki. Mas o universo que ele habita é mais doméstico.

Nana foi recolhido das ruas por Satoru Miyawaki. O dono é aficcionado por felinos. Quando criança, teve outro gato, Hachi (em japonês, oito). Separou-se dele quando os pais morreram. Nana vive cinco anos com Satoru e depois, por algum motivo misterioso, o dono precisa que outra pessoa o adote. Satoru contata antigos amigos de infância para adotar o bichano. Para encontrá-los, viaja pelo Japão. Nestas viagens, vai reencontrar não apenas os amigos, como também relembrar a infância e adolescência.

Satoru é um ser humano idealizado, que ama os animais e se torna excepcional depois da morte dos pais. Sempre solícito e gentil, é invejado pelos amigos, e este é motivo secreto pelo qual Nana se recusa a ser adotado por eles. Os amigos de infância têm relacionamentos conturbados, como é comum nas famílias: um tem conflitos com o pai autoritário desde criança, o outro não tem paciência com animais, o terceiro tem ciúmes da mulher, que já teve uma paixonite pelo protagonista. A tia de Satoru, a quem ele foi entregue depois que os pais morreram, é desenhada como socialmente inábil, apesar de ser uma juíza. Assim, Satoru se torna um ser angelical: parte desta visão romântica pode ser influência de Nana.

Relatos de um gato viajante é uma história do tipo kawaii – em japonês: fofo, adorável, amável. Kawaii designa produtos da indústria cultural, como animes ou canções J-Pop (o pop japonês), cuja personificação máxima é a gatinha Hello Kitty e os mutantes Pokemon. Embora Nana cite Soseki, a historinha do gato de Satoru nada tem a ver com o clássico. Eu sou um gato é uma crítica ácida sobre a sociedade japonesa. Relatos de um gato viajante é uma história melodramática sobre a relação entre um gato e seu dono. Mas é a fórmula certa para o mercado: no Japão, já foram mais de 400 mil exemplares vendidos.

Hiro Arikawa nasceu em 1972, em Kochi. Ganhou o Prêmio Dengeki para novos escritores, por Shio no Machi: Wish on My Precious em 2003, e o livro foi publicado no outro ano, no Japão. Seus romances são best-sellers e muitos deles foram adaptados para a TV e o cinema

.”Quando ele me encontrava por ali, eu o recompensava deixando que brincasse um pouco comigo, mas, mesmo que eu não estivesse, ele deixava, respeitosamente, sua oferenda. Às vezes outro gato encontrava a comida antes de mim, ou acontecia de o homem sair para algum lugar, e aí, por mais que eu esperasse, o croc-croc não aparecia. Mesmo assim, passei a ter uma refeição garantida praticamente todos os dias. Só que os humanos são criaturas muito caprichosas, então é melhor nunca depender totalmente deles. Um gato de rua esperto tem seus esquemas e se garante em vários lugares. E foi assim que começou minha relação com aquele homem — éramos apenas conhecidos, mantendo uma distância segura um do outro. Entretanto, logo quis o destino que essa relação se transformasse completamente. E esse destino doeu horrores. Eu estava atravessando a rua, de madrugada, quando o farol de um carro veio em cheio na minha cara. Tentei correr, mas uma buzina gritou nos meus ouvidos. Aí, já era. Levei um susto com a buzina, o que me fez demorar um segundo a mais para correr. Não fosse por isso, eu teria conseguido escapar fácil, mas a meio passo da calçada o carro me atingiu, com uma força espantosa — bam! Depois disso, eu não vi mais nada. Quando dei por mim, estava caído no meio dos arbustos da calçada. Meu corpo doía de um jeito que eu nunca tinha sentido na vida. Ah, mas eu estava vivo! Puxa vida, que situação. Tentei ficar em pé… só para despencar, com um grito. Ai, ai, ai, que dor! Era a minha pata traseira direita que doía absurdamente. Voltei a me deitar, sem forças, e lá fui eu lamber a ferida. Ah, não! Tinha um osso espetado. E agora? O que eu faço? Alguém me ajude!! Onde já se viu, um gato de rua pedir socorro? Não temos ninguém para nos acudir… Mas naquela hora eu me lembrei do homem, o que me dava a comida croc-croc toda noite. Talvez ele me socorresse. Não sei por que pensei isso, afinal, era só um conhecido que às vezes me levava uns agrados, e de vez em quando eu permitia um cafuné em troca. (Página 12)

RELATOS DE UM GATO VIAJANTE | Hiro Arikawa

Editora: Alfaguara
Tradução: Rita Kohl;
Quanto: R$ 29,90 (256 págs.);
Lançamento: Agosto, 2017.

 

 

53 LITERATURA – “SONO”, DE HARUKI MURAKAMI É UMA FÁBULA SOBRE TERRORES FEMININOS

No conto Sono (Alfaguara, 2015, tradução de Lica Hashimoto), de Haruki Murakami, a protagonista está há 17 dias sem dormir. Ela é uma dona-de-casa japonesa com 30 anos, com marido dentista e filho pequeno. A insônia começa quando tem um pesadelo, e logo após, a visão de um velho magro de cabelos brancos ao pé de sua cama. O susto provoca o despertar contínuo.

A protagonista, sem nome, tem uma rotina monótona: vai ao mercado, cozinha, limpa a casa, lava a roupa e à tarde faz natação ou vai ao shopping. Eventualmente faz sexo mecanicamente com o marido. Durante o período insone, passa a desfrutar de prazeres clandestinos, como a leitura do livro Anna Karenina, de Leon Tolstoi, beber conhaque e tomar chocolate. Note-se que estas eram atividades corriqueiras em sua juventude, que ela deixou de fazer quando casou. Mais adiante, ela rodará de carro a esmo pela cidade.

É sintomático que o livro que a insone escolhe para ler seja Anna Karenina. O romance narra a história de uma aristocrata casada que tem um caso extra-conjugal. Assim como a personagem russa, a mulher precisa de algo que a tire da rotina. A leitura do romance a desloca para outro tempo e espaço, afastando-a da realidade prática.

“Após verificar que meu marido dormia, fui me sentar no sofá da sala e, sozinha, tomei o meu conhaque e abri o livro. Durante a primeira semana reli três vezes Anna Karenina. Quanto mais eu lia, mais eu descobria coisas novas. Esse longo romance possuía muitos segredos e estava repleto de respostas. E nas respostas descortinava-se um novo segredo. Era como uma caixa artesanal em que dentro de um mundo havia outro mundo pequenino e, no interior deste, outro mundo ainda menor. Todos esses mundos formavam um universo complexo. Um universo que sempre existiu e que aguardava ser descoberto pelo leitor. O meu eu de antigamente só conseguia desvendar uma pequena fração desse universo. Mas o meu eu atual era capaz de enxergar um mundo imensamente maior. Conseguia entender o que o grande Tolstoi quis dizer, ler nas entrelinhas, entender como estas mensagens estavam organicamente cristalizadas em forma de romance, e o que nele de fato superava o próprio autor. Eu conseguia enxergar isso tudo como se estivesse em pé no topo de uma colina e contemplasse a paisagem.” (Páginas 86 e 87)

Segundo Ricardo Piglia (O último leitor, Companhia das Letras, 2006), “a leitura de um romance (no romance) é um exercício de construção da passagem e do cruzamento entre ficção e realidade”). Murakami é especialista neste cruzamento, construindo túneis, bibliotecas, corredores escuros e poços em suas histórias. A leitura  é um ponto de passagem que permite ao leitor ser um outro. É a detecção de algo falta na vida. A saída do mal-estar existencial de Anna Karenina é o adultério e o suicídio.Anna Karenina é também leitora de romances (em uma cena, é retratada num trem, lendo um romance inglês) e representa a modernidade. No século XIX, a leitura de romances era considerada adequada ao universo feminino. As mulheres eram vistas como criaturas de capacidade intelectual limitada, imaginativas, frívolas e emotivas. A leitura de jornais era oposta à leitura de romances. Como relatavam acontecimentos públicos, estavam reservados ao público masculino.

A mulher insone de Murakami identifica-se com a angústia da personagem russa. A insônia a conduz à leitura e outras pequenas transgressões a um cotidiano sem sobressaltos. Ela não chega a concretizar o adultério, embora os passeios noturnos indiquem o desejo latente.

Além de Tólstoi, outra personagem leitora famosa na literatura é Madame Bovary. Para muitos escritores, tais personagens eram o signo da mulher oprimida que deseja emancipação. Murakami já investiu no tema feminino, na trilogia 1Q84 (Alfaguara, 2009/2010) e no livro de contos Homens sem mulheres (Alfaguara, 2015). O conto Sono aponta para um aprofundamento da discussão. O melancólico é que o desfecho da história continua seguindo o padrão do século XIX de Anna Karenina.

Haruki Murakami (村上春樹 , nascido em 12 de Janeiro de 1949), em Quioto, Japão. Em 1986, partiu para a Europa e depois para os EUA, onde acabaria por se fixar. Escreveu o primeiro romance Hear the Wind Swing em 1979, livro ainda não traduzido para português, mas seria em 1987, com Norwegian Wood, que o seu nome se tornaria famoso no Japão. Sua obra foi traduzida para 42 idiomas e recebeu importantes prêmios. Livros traduzidos no Brasil: Caçando carneiros (2001, relançado em 2014), Norwegian Wood (2005, relançado em 2008), Dance, dance, dance (2005, relançado em 2015), Minha querida Sputnik (2003, relançado em 2008), Kafka à beira-mar (2008), Após o anoitecer (2009), Do que eu falo quando eu falo de corrida (2010), 1Q84 (3 volumes – 2012, 2013), O Incolor Tsukuro Tazaki (2014), Romancista como vocação (2017).

SONO | Haruki Murakami

Editora: Alfagura;
Tradução: Lica Hashimoto;
Ilustrações: Kat Menschik;
Quanto: R$ 29,90 (120 págs.);
Lançamento: Março, 2015

 

52 LITERATURA — HIROMI KAWAKAMI NARRA A SOLIDÃO EM “A VALISE DO PROFESSOR”

‘A valise do professor’, de Hiromi Kawakami, foge de estereótipos romanescos.

51literaturaimagem01Em A valise do professor, ganhador do Prêmio Tanizaki, um dos mais prestigiosos do Japão, Hiromi Kawakami apresenta um romance inusitado entre uma mulher adulta e desiludida e um professor de literatura. O romance foge a todos estereótipos: a protagonista não é bela e decidida; seu par não é jovem e forte.

Tsukiko, 38 anos, uma mulher solitária e sem grandes objetivos na vida, costuma frequentar um bar. Ali, encontra casualmente um ex-professor de ensino médio, Harutsuna Matsumoto, trinta anos mais velho que ela. A princípio, aproximam-se pela coincidência de gosto culinário. Ao longo da narrativa, ela o chama apenas de Professor, por ter esquecido seu nome.

“Nessa noite bebemos ao todo cerca de cinco frascos de saquê. Ele pagou a conta. Na vez seguinte em que nos encontramos no bar para beber, foi a minha vez de pagar. A partir da terceira vez, separamos a conta, e cada um pagou sua parte. Este sistema continua, desde então. O temperamento de ambos foi provavelmente a razão de termos continuado a frequentar o estabelecimento assiduamente. Sem dúvida, não só a preferência pelos tira-gostos é semelhante, como também a forma de se relacionar com as pessoas. Apesar da diferença da idade, mais de trinta anos, sinto-me muito mais próxima dele do que de amigos da mesma faixa etária.” (pág. 13)

O Professor é um homem já maduro, formal e tradicional em sua maneira de se relacionar com os outros. Sempre com sua valise, sua severidade contrasta com a doçura de Tsukiko. O Professor ensina literatura e é culto. A ex-estudante, desatenta, não sabe recitar poemas japoneses, nem distinguir uma árvore de cerejeira.

Entre encontros e desencontros no bar, eles combinam passeios. Num domingo de verão, vão a uma feira perto de uma estação de trem; em outro, num outono, vão colher cogumelos com o dono do bar. Neste passeio, o Professor revela que foi casado, e sua mulher, numa saída, contrariando a ele e seu filho, comeu um cogumelo alucinógeno que a fez ter um ataque riso. Dez anos depois deste episódio, ela fugiria.

Alguns dias depois visitar a família, na comemoração de um  Ano Novo, Tsukiko tem um acidente doméstico. Aí ficamos sabendo de sua sensação de deslocamento na vida:

“A culpa é do retorno da casa agitada por minha mãe, irmão e esposa, sobrinhos e sobrinhas, os quais raramente visito apesar de vivermos no mesmo distrito. Há muito deixei de sentir esse tipo de mal-estar familiar. O problema é que de alguma forma pareço me sentir insatisfeita. É como, por exemplo, quando você encomenda alguns vestidos do seu tamanho, mas, no momento em que os veste, um deles está curto demais, outro de tão longo arrasta a barra pelo chão. A surpresa faz você despir as roupas, mas ao colocá-las em frente ao corpo, constata estarem todas exatamente do seu tamanho. É exatamente assim.” (Página 76)

O relacionamento conflituoso com de Tsukiko com a mãe é semelhante à do Professor com a ex-mulher. O desconforto familiar é um ponto de comunhão em ambos: a harmonia do amor familiar é rompida, o que explica a solidão, e a entrega ao álcool. Em alguns momentos, o leitor se dá conta que a vida de Tsukiko é dividida entre a realidade e o delírio.

O próximo encontro é numa festa de hanami – contemplação de floradas de cerejeira. Na festa, o Professor reencontra uma ex-colega, e Tsukiko, sai com outro ex-colega, Kojima. Aparentemente, cada um encontra outro par, mas Tsukiko e o Professor acabam se reaproximando para jogar Pachinko (máquinas de jogatina no Japão). Kojima ainda insiste em se relacionar com Tsukiko, mas ela descobre que seu amor é o Professor.

Um ponto controverso na tradução é a citação de pratos da culinária japonesa. Muitos são petiscos de izakaya (bar japonês) e estão relacionados às estações do ano. É um pouco difícil, para quem conhece esta culinária, decifrar que “enrolado de pasta de peixe” é kamaboko, ou “biscoito de arroz com pimenta” é okaki.

Hiromi Kawakami nasceu em Tóquio em 1958. Estudou ciências biológicas na Universidade de Ochanomizu e foi professora até 1994, quando estreou na literatura com o romance Kamisama [Deus]. Com Hebi o fumu [Pisar uma cobra], recebeu em 1996 o Prêmio Akutagawa. Desde então, vem sendo reconhecida e laureada em diversas premiações importantes, incluindo o Prêmio Tanizaki de 2001, por A valise do professor.

A VALISE DO PROFESSOR | Hiromi Kawakami

Tradução: Jefferson José Teixeira;
Editora: Estação Liberdade;
Quanto: R$ 34,90 (232 págs.);
Lançamento: Maio, 2012.

 

49 – O ARREPIANTE MUSEU DO SILÊNCIO DE YOKO OGAWA

A escritora japonesa Yoko Ogawa foge de enredos convencionais, românticos. Em O Museu do Silêncio (Estação Liberdade, 2016, tradução de Rita Kohl), ela conta a história do sonho de uma velha ricaça em construir um museu bizarro. A ideia é preservar lembranças de pessoas que morreram no vilarejo em que  mora. Para levar tal tarefa adiante, ela contrata um museólogo.

Pouco a pouco o museólogo torna-se cúmplice da velha, sua filha adotiva e do jardineiro que construirá o edifício do museu. Também, gradativamente, o narrador familiariza-se com o mau humor e grosserias da velha e o cotidiano do lugar.

Como em outros museus, o Museu do Silêncio destina-se a abrigar uma coleção de objetos  que representa um patrimônio histórico ou cultural de uma época ou civilização. Mas estes objetos não podem ter uma simples conotação afetiva. Têm que representar fundamentalmente a vida das pessoas que morreram.

“— Sempre que alguém da vila morre, recolho um único objeto relacionado àquela pessoa. É uma vila pequena, como você sabe, então não é todo dia que morre alguém. Mas não é fácil reunir esses objetos, algo que descobri na prática.Talvez fosse pesado demais para uma criança de onze anos. Mas, mesmo assim, consegui fazê-lo por muitas décadas. A minha maior dificuldade é porque não me contento com uma recordação qualquer.Nunca me contentei com algo fácil, uma roupa que a pessoa vestiu uma ou duas vezes, uma jóia que viveu fechada no armário, uns óculos feitos três dias antes de morrer. O que eu quero são coisas que guardam, da forma mais vívida e fiel possível, a prova de que aqueles corpos realmente existiram, entende ? Algo sem o que os anos acumulados ao longo da vida desmoronariam desde a base, algo que possa eternamente impedir que a morte seja completa. Não são lembrancinhas sentimentais, não tem anda a ver com isso. É claro que o valor financeiro também está fora de questão.” (página 45)

Entre os objetos coletados, estão, por exemplo, um DIU, que pertenceu a uma prostituta assassinada há cinqüenta anos. Ou a capa de pele de bisão-do-rochedo-branco, que pertenceu a um “monge do silêncio”. O monge do silêncio e o bisão-do-rochedo-branco são referências imaginárias. Como em seu último romance publicado no Brasil,  nem um personagem é nomeado. Nem o lugar é identificado.

À parte o projeto da velha, o vilarejo é sacudido por acontecimentos estranhos. Uma bomba explode, matando o monge do silêncio e ferindo a filha adotiva da velha. E uma série de assassinatos de mulheres guarda relação com a morte da prostituta.

A homenagem a pessoas quaisquer provoca uma reflexão sobre morte e esquecimento, ou morte e silêncio. Os dois únicos objetos afetivos que o museólogo leva para o vilarejo, o livro Diário de Anne Frank, que pertenceu à sua mãe, e um microscópio, herança de seu irmão, tornam-se emblemáticos.

Anne Frank leva a pensar sobre os milhares de mortos na Segunda Guerra. As meninas judias, que como Anne Frank, se esconderam em apartamentos clandestinos para fugir dos nazistas. Mas cujas vidas não ficaram conhecidas, como a autora do diário, e foram esquecidas pela história. Paradoxalmente, os milhares de mortos anônimos em Hiroshima e Nagasaki são lembrados permanentemente como protagonistas da maior catástrofe provocada pelo homem nos tempos modernos.

Já o microscópio evoca olhar para a vida insignificante, olhar que tem paralelismo com o trabalho do escritor. Os personagens da literatura representam vidas quaisquer, que em verdade, somos nós, em dimensão universal. Através da ampliação de vidas minúsculas, percebemos a relação entre todos os seres humanos. Com o microscópio da literatura nos tornamos mais sensíveis à alteridade e ao conceito de universalidade. A morte é a equiparação da humanidade em comum, gênios ou medíocres, famosos ou anônimos, empresários ou trabalhadores.

Yoko Ogawa é uma autora japonesa nascida em 1962. Natural de Okayama, já ganhou praticamente todas as honrarias literárias de seu país natal (prêmios Kaien, Akutagawa, Yomiuri, Izumi Kyoka e Tanizaki), publicando mais de 20 obras de ficção e não ficção. O Nobel Kenzaburo Oe disse que ela “é capaz de dar expressão às maquinações mais sutis da psique humana, em uma prosa que é delicada, mas penetrante”. No Brasil, a autora tem publicado os títulos Hotel Iris (Leya Editora, 2011), O museu do silêncio (Estação Liberdade, 2016) e A fórmula preferida do Professor (Estação Liberdade, 2017).

O MUSEU DO SILÊNCIO | Yoko Ogawa

Editora: Estação Liberdade;
Tradução: Rita Kohl;
Quanto: R$ 37,84 (304 págs);
Lançamento: Outubro, 2016.

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45 PESQUISA – ESTUDOS SOBRE LITERATURA JAPONESA NA UFPR

O Nero (Núcleo de Estudos do Romance da UFPR) começa um ciclo de estudos sobre literatura japonesa, todas as terceiras terças-feiras do mês, até novembro.

45pesquisaimagem01A partir deste semestre, o Nero (Núcleo de Estudos do Romance da UFPR)  começa um ciclo de estudos sobre literatura japonesa.  Os encontros acontecem todas as terceiras terças-feiras do mês, até novembro.  A professora de Literatura Japonesa, Márcia Namekata, é a convidada do ciclo, que tem como  mediadores os professores Caetano Galindo, Luís Bueno e Pedro Dolabela Chagas. O bate-papo será  no Edifício D. Pedro I • Reitoria UFPR • 11º andar, Sala 1.100.

O primeiro encontro é nesta terça-feira (16), das 16 às 18 horas, quando será discutido o romance  “Tale of the Lady Ochikubo”, de autoria desconhecida. Cópias do texto estão disponíveis na Copiadora Reitoria | Rua Amintas de Barros, 270. A participação é  livre e gratuita.  Não há nenhum tipo de pré-requisito. Nem mesmo ter lido a obra.

Programação

27 de Setembro
Genji Monogatari, de Murasaki Shikibu

25 de Outubro
The Pillow Book, Sei Shōnagon
Versão traduzida em português

22 de Novembro
The Life of an Amorous Man, de Saikaku Ihara