55 – HISTÓRIA- O FEMINISMO QUE VEM DA ÁSIA

Qiu Jin

O feminismo asiático não é fenômeno recente. Desde fins de século 19 temos notícia de mulheres que lutam por libertar-se da sociedade patriarcal na Ásia. A chinesa Qiu Jin e as japonesas Kanno Sugako e Fumiko Kaneko são algumas precursoras. Mas há muitas, mulheres coreanas, indianas, árabes, brasileiras, americanas e europeias que unem suas vozes na defesa dos direitos das mulheres de etnias amarelas, marrons e brancas da Ásia.  

No Brasil, há coletivos, como o Lótus – Feminismo Asiático –  e Perigo Amarelo, que reúnem jovens pesquisadoras, artistas e ativistas na internet. Pesquisadoras, como Caroline Ricca Lee, Ingrid Sá Lee,  Laís Miwa Higa e Kemi vêm promovendo discussões sobre identidade feminina asiática, não só em universidades, também em outros espaços públicos. Elas lutam pela visibilidade da identidade brasileira de etnias asiáticas, combatendo a fetichização do corpo feminino e estereótipos, como rótulos de boneca ou gueixa.

Há que se lembrar de Suely Kanayama, Yoko Kayano  e Nair Kobayashi, militantes do Partido Comunista do Brasil e guerrilheiras do Araguaia, nos anos 70. A guerrilheira Suely, de codinome Chica, foi morta com mais de cem tiros pelo exército, quando a guerrilha vivia seus últimos dias. Seu corpo não foi encontrado. Um militar afirma que teria sido queimado na Serra das Andorinhas, com o de outros guerrilheiros, para evitar posterior identificação.

Na história do feminismo asiático temos poetas, como a chinesa Qiu Jin, que lutou contra a famigerada prática de pés de lótus, a tradição de amarrar pés de mulheres para reduzi-los.  Qiu Jin e as japonesas  Kanno Sugako e Fumiko Kaneko têm em comum o fato de ter despertado o ódio dos governos locais., terem sido presas e torturadas. 

Qiu Jin  viveu de 1875 a 1907. Um  casamento extremamente infeliz  a fez gerar novas ideias consideradas subversivas. Logo  se tornaria membro de um grupo que advogava a queda da dinastia vigente no poder. Em 1903, decidiu viajar e estudar no Japão. Em Tóquio, foi  editora de um jornal, para o qual  escreveu o manifesto “Uma respeitosa proclamação aos 200 milhões de camaradas chineses”, em que lamenta problemas causados pelos pés de lótus e casamentos opressivos.  

O manifesto corroborava a visão de que um futuro melhor para as mulheres na China aconteceria com um governo baseado no modelo ocidental. Oradora eloquente, defendia o direito de escolher casamento, liberdade de educação e abolição da prática do pés de lótus. Em 1907,  se tornou diretora de uma escola para meninas, oficialmente  escola de professores de educação física, mas secretamente um centro de treinamento para  revolucionários.

Em 12 de julho de 1907, Qiu Jin foi presa. Torturada,  recusou a admitir o envolvimento na conspiração para derrubar a dinastia Qing. Poucos dias depois, foi decapitada, aos 31 anos de idade. Qiu foi considerada heroína e mártir pelos revolucionários, tornando-se símbolo de independência feminina. Por ser sempre lembrada como mártir, líder feminista e heroína do povo chinês, seus trabalhos literários costumam ser esquecidos ou postos de lado.  

O sol e a lua não têm luz, a terra é escura;
O mundo de nossas mulheres está tão profundamente afundado, quem pode nos ajudar?
Jóias vendidas para pagar esta viagem através dos mares,
Separada da minha família, deixo minha terra natal.
Desenfaixando meus pés, limpo mil anos de veneno,
Com o coração aquecido despertarão todos os espíritos das mulheres.
Infelizmente, este lenço delicado aqui
Está metade manchado de sangue e metade com lágrimas.

JAPONESAS
Outra feminista revolucionária é Kanno Sugako , também chamada  Suga (1881–1911). Jornalista anarco-feminista, foi autora de uma série de artigos sobre opressão de gênero e defendeu a liberdade e direitos iguais para homens e mulheres. Em 1910, foi acusada de traição pelo governo japonês por ter alegado envolvimento em conspiração para assassinar o Imperador. Foi a primeira mulher prisioneira política a ser executada na história política do Japão.

Nascida em Osaka, perdeu a mãe com 10 anos.  Kanno foi estuprada aos 15 anos, com estupro tramado pela madrasta. Culpabilizada pela família e pela sociedade, seu estuprador foi inocentado. Teve o primeiro contato com o socialismo quando lia artigos sobre vítimas de abuso sexual. Aos 17, casou com um homem que pertencia a uma família de comerciantes em Tóquio.  

Separou do marido dois anos depois e tornou-se amante de um escritor de Osaka, Udagawa Bunkai. Kanno começou a escrever em jornal e tornou-se engajada no movimento de mulheres cristãs contra o sistema de legalização de bordéis. Com o início da guerra russo- japonesa, se juntou ao movimento pacifista socialista-cristão e em 1906 tornou-se líder de um jornal na província de Wakayama e começou um relacionamento com o líder socialista Arahata Hanson (1887–1981). Começou a escrever artigos sobre emancipação feminina, contra a domesticação das mulheres , o valor da leitura e do conhecimento e questionando a castidade para o casamento.

Depois de retornar a Tóquio, envolveu-se num manifesto anarquista, pelo qual líderes foram presos, em junho de 1908. Enquanto visitava amigos na prisão, foi presa. Depois de ser liberada, dois meses mais tarde,  encontrou o anarquista  Shūsui Kōtoku (1871–1911). Juntos, começaram a publicar um jornal anarquista, banido pelas autoridades.  Kanno foi presa mais uma vez.

Em seu diário na prisão, Suga percebe que a mudança poderia não acontecer através de meios pacíficos. Concluiu que a revolução violenta era necessária. Então, ela, seu amante e dois outros anarquistas tramaram o  assassinato do Imperador Meiji. Construíram uma bomba, mas foram traídos. Com outras 23 pessoas, Kanno foi sentenciada à morte e enforcada em 24 de janeiro de 1911.

Fumiko Kaneko (25 de janeiro de 1903 – 23 de julho de 1926) foi anarquista japonesa, companheira de Bak Yeol, anarquista coreano, ativista pela libertação da Coreia. Presa e condenada sob acusação de conspiração contra o Imperador e apoiar o Movimento de Libertação da Coreia, se suicidou na prisão após três anos.

Kaneko nasceu em Yokohama, em família pobre. Em meio à fom, a mãe decidiu vendê-la para um prostíbulo, mas foi  recusada. Aos nove anos foi enviada para a avó materna, que morava na Coreia. Na escola, Kaneko se mostrou extremamente interessada em seguir estudos além da educação básica. A avó de Kaneko reprovava a atitude da neta de continuar os estudos e passou a maltratá-la. Cansada de maus tratos, Kaneko é mandada de volta ao Japão.

Quando  chegou em Tóquio, em  1920, conseguiu empregar-se em jornal. Começou dois cursos, Matemática e Inglês.  Conheceu  reformistas cristãos e socialistas, aceitando a doutrina durante um tempo.  Mas tinha dificuldades em manter o emprego, porque era explorada e o patrão era imoral na vida pessoal. Mal tinha tempo de acompanhar as atividades escolares, então as abandonou.

Aproximou-se de niilistas: Max Stirner, Mikhail Artsybashev e Friedrich Nietzsche. Passa a se relacionar com o anarquista Bak Yeol, um dos líderes do coletivo Futeisha (Sociedade dos Descontentes), formado por anarquistas e niilistas, japoneses e coreanos.

Fumiko e  Bak publicaram duas revistas que questionavam problemas da Coréia sob o Imperialismo Japonês. Após o sismo de Kanto em  1923,  o governo japonês passa a prender e assassinar imigrantes chineses e coreanos, e grupos de dissidentes, anarquistas e republicanos. Aí  são presos membros da Futeisha, incluindo Kaneko e Bak.

Acusados de conspirar o assassinato da família real japonesa, Kaneko e Bak foram condenados à morte. As sentenças seriam comutadas para prisão perpétua. Quando o diretor da prisão de Ichigaya entregou a Kaneko a comutação, Kaneko rasgou o certificado  lhe dizendo que o governo não tinha nada a dizer em relação a sua vida ou morte.

Transferida para Utsunomiya, recusou todo tipo de trabalho forçado, indo parar em confinamento em solitária. Três meses depois, requisitou fazer cordas com fibras de cannabis. Em 23 de julho de 1926, foi encontrada morta, por enforcamento, com a corda que ela mesmo fizera.

Advertisements

45 POLÍTICA – PRESENÇA NIPO-BRASILEIRA NA SEMANA DA ANISTIA

Mario-Jun-Okuhara
Mario Jun Okuhara,  um dos organizardores dos eventos da comunidade nipo na Semana da Anistia

De  22 a 28 de agosto, vários grupos que lutam contra o racismo contra a etnia amarela realizam eventos dentro da  “Semana da Anistia”, do Ministério da Justiça. Nesta quarta-feira (24), às 19h, acontece uma roda de conversa, no Sindicato dos Metalúrgicos, em Santos.  Na quinta (25), cine debate com a exibição dos curtas “Pique Esconde e Raul Soares: Histórias que não se apagam”, no Museu da Imagem e do Som, em Santos. Na mesma cidade, na sexta (26),  a partir das 19 h, há a exibição do filme “Em nome da Segurança Nacional”, no Museu da Imagem e do Som. 

Em São Paulo, a progamação começa na terça (23), às 17h30min,  com o lançamento do site e documentário sobre violações dos direitos do povo Krenak pelo Estado Brasileiro.no Saguão da Procuradoria Regional da República da 3a. Região, na sexta (26), às 13 h, Audiência Pública Perseguição, Homofobia e Ativismo LGBT na Ditadura Militar, no Espaço Transcidadania, no Largo do Arouche. No  sábado (27), há duas atividades, a primeira, às 9 h,no Centro Pastoral São José, no Belenzinho, com lançamento do livro “Quando os trabalhadores se tornaram classe: a construção da riqueza no estado de São Paulo”, e  às 15 h, Sarau e Roda de Conversa acerca da Identidade Asiática no Brasil, Memórias, Repressão e Resistência, no Centro Cultural São Paulo, organizada pelo coletivo Perigo Amarelo. No domingo (28), às 9h30min, na Igreja São Gonçalo,  missa em memória dos 6.500 imigrantes japoneses expulsos de Santos, no litoral paulista,  durante o governo de Getúlio Vargas .

Um dos organizadores da Semana é o  cineasta Mário Jun Okuhara, autor do filme “Yami no ichi nichi –  O crime que abalou a colônia japonesa” , que mostra a história de Tokuichi Hidaka, que aos 19 anos, foi um dos autores do assassinato do Coronel Jinsaku Wakiyama, em crime atribuído à organização ultranacionalista Shindo Renmei.  Okuhara milita pela retratação pelo Estado Brasileiro pelas  violações de direitos dos imigrantes japoneses durante o Estado Novo. O cineasta quer seguir o exemplo da  National Association of Japanese Canadians, que obteve  êxito no movimento de reparação em 1988.

Eventos fora da programação

Uma das raras fotos de Suely Kanayama.
Uma das raras fotos de Suely Kanayama.

Também haverá uma palestra e exibição do documentário “Perigo Amarelo” na Universidade de Mogi das Cruzes e uma missa no Rio de Janeiro, mas não foram inseridas na programação da Semana da Anistia. Em Curitiba, o Espaço Memória, Mulher e Trabalho homenageia as mulheres que lutaram contra as ditaduras no Brasil, no Estado Novo (como a poeta e feminista Patrícia Galvão e Olga Benares, companheira do fundador do Partido Comunista do Brasil,  Luís Carlos Prestes) e no Golpe de 1964, com a exposição “Onde está Suely? – Mulheres que não se calaram na ditadura”. O destaque da mostra é para Suely Yumiko Kanayama, que militou no Partido Comunista do Brasil  e lutou na Guerrilha do Araguaia.  O vídeo contando sua história, produzido para a Comissão da Verdade, também será exibido, com outros vídeos de guerrilheiras e mulheres torturadas pela ditadur. A guerrilheira Suely, de codinome Chica, foi assassinada com mais de cem tiros pelo exército, quando a guerrilha vivia seus últimos dias. Seu corpo não foi encontrado. Um militar afirma que teria sido queimado na Serra das Andorinhas, junto com o de vários outros guerrilheiros, para evitar posterior identificação. Haverá exibição de filmes e debates nos dias 25, 26 e 27. O Espaço Memória, Mulher e Trabalho fica na Livraria Vertov, Avenida Visconde de Rio Branco, 835, sobreloja 02.