51 LITERATURA – AKIKO YOSANO E O PODER DA POESIA

por Ayuko V. Sainohira

Japonesa, poeta, escritora, crítica literária, pesquisadora, educadora e ativista social. “Viveu” intensamente o agitado período do final do Século XIX até o início da II Guerra Mundial. Uma das mulheres mais famosas de sua época foi também a protagonista do Romantismo Literário no país.

50LITERATURAimagem01Akiko Yosano nasceu em Ōsaka, em 07 de dezembro de 1878 (11º ano da Era Meiji) e faleceu em Tōkyō, em 29 de maio de 1942 (17º ano da Era Shōwa). Seu nome de nascimento era Shō Hō, e ao se casar se tornou Shō Yosano. Akiko é seu pseudônimo como escritora.

Sua família de origem administrava uma loja de doces tradicionais na cidade de Sakai, e Akiko, boa na matemática, cresceu ajudando na loja. Aos 9 anos ingressou numa escola de sinologia e ainda na infância, aprendeu a tocar koto e shamisen, instrumentos japoneses de cordas. Na sua adolescência mergulhou na leitura de revistas literárias, romances contemporâneos e também clássicos antigos.

Por volta dos 20 anos, começou a publicar seus poemas em estilo lírico (tanka) em revistas e participou ativamente de um grupo de estudo literário para jovens. Em 1900, conheceu pessoalmente Tekkan Yosano, jovem maduro e energético escritor em ascensão. Contraindo uma relação amorosa com Tekkan (extraconjugal para ele na época), publicou seus tanka na revista Myōjō, da editora Shinshi-sha fundada pelo próprio Tekkan. No ano seguinte, saiu de casa e foi morar em Tokyo com Tekkan, e na Capital, publicou, com colaboração do namorado, sua primeira coletânea de poemas Midare-gami, aos 22 anos, usando o pseudônimo Akiko Hō. A obra, que desenha honestamente a sensualidade da mulher japonesa, impactou e chamou atenção da sociedade, e Akiko se estabeleceu como poeta do Romantismo. No mês seguinte da publicação do livro, em 1901, casou-se com Tekkan Yosano e com ele, teve doze filhos (perdeu um recém-nascido).

Em 1904, durante a Guerra Japão-Rússia, publicou o polêmico poema Kimi shinitamoukoto nakare, um libelo a favor da vida e contra guerra, e debatendo corajosamente com o escritor Keigetsu Ōmachi, seguidor da política nacionalista, opositor ferrenho da autora. Em 1911, colaborou com sua obra à 1ª edição da revista Seitō, primeira revista feminina do Japão, de literatura e ideologia social.

Em 1912, o jornal Yomiuri-shinbun iniciou a série Nova Mulher e tratou Akiko Yosano na sua 1ª edição, então, no dia seguinte, na partida dela para a Europa reuniram-se no porto mais de quinhentas pessoas, amigos, admiradores e curiosos, para a sua despedida. Akiko passou quatro meses em Paris, França, e conheceu também Inglaterra, Bélgica, Alemanha, Áustria e Holanda, junto com o marido que permaneceu na Europa mais tempo. Esta viagem gerou, dois anos depois, o livro Pari-yori (De Paris), assinado pelo casal, e nele discutiam a necessidade de liberdade da mulher em receber educação.

Com muitos filhos e a escassez de trabalho de Tekkan, o casal Yosano passou dificuldade financeira, e praticamente os escritos de Akiko e a rede de amizade do casal sustentavam a grande família, até Tekkan se tornar professor universitário, em 1919.

Em 1921, junto com o arquiteto I. Nishimura, o pintor e gravurista H. Ishii e Tekkan criaram a escola técnica de arte Bunka Gakuin, em Tokyo. A instituição foi a primeira escola privada mista no Japão, resistindo a repressão política durante a II Guerra Mundial e logo ganhou fama de “símbolo da liberdade, inteligência e arte”.

Em 1923, Akiko perde um grande trabalho literário pela força da natureza: o incêndio provocado pelo Grande Terremoto de Kantō queimou a edição pronta a ser publicada da obra Shin-Shin’yaku Genji Monogatari (Tradução Renovada da História de Genji) e também Genji Monogatari Kōgi (Palestra sobre História de Genji), que estavam guardadas na escola Bunka Gakuin. A obra, tradução moderna e integral da clássica do século X, da autora original Murasaki Shikibu, já era uma reescrita de sua publicação anterior, no entanto, com nova e ampla pesquisa. Mas a paixão pela arte venceu a tristeza desta perda: Akiko escreveu pela terceira vez a tradução do livro – aproximadamente dez mil páginas manuscritas-, e finalmente conseguiu publicá-la em 1938, quinze anos depois. Os fundadores da escola, inclusive casal Yosano, reconstruíram-na imediatamente após o Terremoto.

Em 1940, Akiko sofreu um AVC, ficando paralisada, e, após quatro meses em coma, faleceu em 1942. Deixou um grande volume de tanka (50 mil), traduções de obras clássicas japonesas para o japonês moderno, poemas em versos livres, pesquisas literárias, livros didáticos, artigos de crítica política e social, etc.. Publicou mais de 70 livros em vida. Teve grande contribuição para o movimento feminista no Japão: incentivando a independência econômica e psicológica da mulher, a sua participação política e a liberdade pela educação.

約束

いつも男はおどおどと
わたしの言葉に答へかね、

いつも男は酔つた振。
あの見え透いた酔つた振。

「あなた、初めの約束の
塔から手を取つて跳びませう。」

Compromisso

Sempre o homem,
sem jeito,
não sabe responder
às minhas palavras.

Sempre o homem
finge-se de bêbado.
Teatrinho barato.

“Então, meu bem,
vamos pular lá da torre,
de mãos dadas,
tal como você se comprometeu
lá no início.”

如何に若き男

如何に若き男、
ダイヤの玉を百持てこ。

空手しながら採り得べき
物とや思ふ、あはれ愚かに。

たをやめの、
たをやめの紅きくちびる。

Ei, Moço…
Ei, moço,
traga para mim
cem esferas de diamante.

Acha que consegue extrair
sem nenhum esforço?
Ai, que tonto!

Lábios vermelhos
de uma moça,
da mulher delicada e sensível.

男こそ慰めはあれ、
おほぎみの側にも在りぬ、
みいくさに出でても行きぬ、
酒ほがひ、夜通し遊び、
腹立ちて罵りかはす。

男こそ慰めはあれ、
少女らに己が名を告り、
厭きぬれば棄てて惜まず。

Homem

Os homens têm distrações:
Aproximam-se de autoridades,
Participam de guerras santas,
Comemoram com bebidas alcoólicas,
Brincam a noite toda,
Insultam ao ficar com raiva.

Os homens têm distrações:
Aproximam-se das mocinhas,
Abandonando-as ao se saciarem
e desprezando-as sem pena.

わが見るは人の身なれば、
死の夢を、沙漠のなかの
青ざめし月のごとくに。
また見るは、女にしあれば
消し難き世のなかの夢。

Sonhos

Num sonho, fui alguém.
Sonhei com a morte
como se fosse a lua pálida no deserto.
Num outro sonho, fui mulher.
Sonhei com a sociedade;
não se pode eliminá-la.

伴奏

われはをみな、
それゆゑに
ものを思ふ。

にしき、こがね、
女御、后、
すべて得ばや。

ひとり眠る
わびしさは
をとこ知らじ。

黒きひとみ、
ながき髪、
しじに濡れぬ。

恋し、恋し、
はらだたし、
ねたし、悲し。

Melodia Companheira

Sou mulher orgulhosa,
por isso,
eu sofro.

Suntuosos vestidos,
bens e ouro,
posição de madame.
Quero tudo!

O vazio do sono solitário.
Não saberá meu homem.

Olhos pretos,
cabelos longos.
Todos molhados.

Que saudade!
Que chato!
Que irritante!
Que triste!

Livro: 『晶子詩篇全集』Coletânea de Poemas de Akiko
Autora: 与謝野晶子Akiko Yosano
Editora: 青空文庫Aozora Bunko, 2012
(original: 実業之日本社Jitsugyō-no-Nihonsha, 1929 (4º ano de Era Shōwa)
Capítulo: 薔薇の陰影、雑詩廿五章 “Nuance de Rosa, 25 poemas diversos”
Artigo e Tradução: ビトリア齊之平Ayuko V. Sainohira, 2017

Ayuko V. Sainohira é japonesa, radicada em Vitória do ES/Brasil desde 2002. Professora de língua japonesa, tradutora, musicista e regente de coral.

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49 – O HAICAI TROPICAL DE ADRIANA CALCANHOTO

A antologia Haicai do Brasil (Edições de Janeiro, 2014), organizada e ilustrada por Adriana Calcanhotto, é um apanhado de vários autores sobre a poesia japonesa no Brasil. Traz desde haicais históricos (de Monteiro Lobato e Afrânio Peixoto) a poemas síntese criados por Oswald de Andrade, Manuel Bandeira, Carlos Drummond de Andrade, Mário Quintana. A ideia geral da antologia, de acordo com o posfácio assinado por Eduardo Leite, é aproximar o haicai da poesia brasileira, mais especificamente, da poesia modernista.

O haicai é uma forma poética japonesa e seus fundamentos foram criados por Matsuo Bashô, no século XVII. Apesar de ser uma forma japonesa, o haicai tem muitos pontos de contato com o ocidente. Seu ritmo é familiar aos ritmos populares ocidentais. Usa versos com cinco ou sete sílabas, como a nossa poesia popular. A preferência pelo vocabulário simplificado, temas cotidianos, síntese de imagens contrastantes e registro do imediato conflui com os ideais do movimento modernista brasileiro. O papa do modernismo, Oswald de Andrade, criou o poema-pílula, espécie de epigrama que tem como base o humor. Diferente do haicai, que é o registro de instantâneos da natureza, os poemas modernistas buscam o testemunho da modernidade. Incorporam a paisagem das cidades no início do século XX, recriando cenas em que as novas tecnologias de então – o automóvel, bonde, o trem e o cinema – são protagonistas.

O haicai não entrou na ordem do dia com os modernistas. Um dos primeiros poetas brasileiros a publicar a poesia japonesa foi Monteiro Lobato, num artigo escrito em 1906. Afrânio Peixoto, em 1919, ampliou a divulgação, em outro artigo. Uma diferença gritante da poesia ocidental é que o haicai não usa rimas. Afrânio foi fiel a esta regra. Outros poetas brasileiros, como Guilherme de Almeida, não puderam se abster de usá-las. Além de rima, Guilherme também usava título, outro recurso inexistente no haicai:

Caridade
Desfolha-se a rosa:
Parece até que floresce
O chão cor-de-rosa.

Tanto o uso de rimas quanto de título enfraquecem o tom coloquial do haicai. O título reduz o efeito surpresa, direcionando o sentido do poema. Uma das forças do haicai é a ambigüidade, em que interpretação pode caminhar para vários sentidos. O haicai tem como tema não só a natureza, mas a transformação que o ambiente sofre durante as mudanças de estação.

A antologia de Calcanhotto lista vários poemas originalmente não escritos na forma de haicai. É o caso desta anotação de Manuel Bandeira:

Água de rosas
Ácido bórico
Essência de mel da Inglaterra

Ao encontrar a anotação no diário de sua mãe, o poeta logo descobriu ali um poema. Embora seja um terceto, não é nem haicai livre, o haicai adaptado no Ocidente, com título, rima, sem referência à estação do ano.

Outro exemplo de não haicai incluído na antologia é Drummond:

O pintor ao meu lado
Reclama:
Quando serei falsificado?

O terceto de Erico Veríssimo guarda alguma aproximação com o haicai, por citar um tema relacionado à natureza:

Gota de orvalho
Na carola de um lírio:
Joia do tempo.

Mais autênticos, os poemas de Jorge Fonseca Júnior, convencido pelo poeta japonês Masuda Goga a seguir as regras do haicai tradicional:

Escurece rápido:
Insistente, a corruíra
Cisca no quintal.

Millôr Fernandes retornou à trilha dos modernistas, reintroduzindo a rima e o humor:

Na poça da lua
O vira-lata
Lambe a lua

Ledo Ivo é pouco conhecido por ter se aventurado nas sendas do haicai, mas sua elegância e sobriedade seria acolhida pelos japoneses:

O lago habitado

Na água trêmula
Freme a pálida
anêmona

O poema japonês muito encantou aos concretistas, que retomam as ideias modernistas: valorização da fragmentação, da montagem, da síntese e da visualidade. Décio Pignatari aproxima o clássico haicai da rã, de Bashô, do poema visual concretista:

VELHA
LAGOA

UMA RÃ
MERG ULHA
UMA RÃ
ÁGUAÁGUA

Eunice Arruda e Teruko Oda são duas poetas excepcionais a seguirem a trilha do haicai tradicional. Pena que a antologia traga apenas uma amostra de cada. Subentende-se que a organização privilegiou os autores mais conhecidos:

Por entre as flores
Procurando pela mãe
Dia de Finados
(Eunice Arruda)

Sequência de clics –
Um turista japonês
Ao redor do ipê.
(Teruko Oda)

Seguindo a trilha dos concretos, Leminski teria sido o mais influente poeta a divulgar o haicai no Brasil. Como Milllôr Fernandes, Leminski opta, na maior parte de suas composições, pelo humor:

A noite – enorme
Tudo dorme
Menos teu nome

Os insights de Alice Ruiz também merecem destaque na antologia:

Varal vazio
Um só fio
Lua ao meio

Outro poeta, ou personagem, Satori Uso (na verdade, criação do poeta Rodrigo Garcia Lopes) merece destaque por incluir nos poemas a justaposição de imagens (os poemas são diagramados na vertical, simulando a escrita ideogramática):

Um saco de pães
Alguém remexendo
Primeiros ruídos da chuva

A antologia, como um todo, representa a corrente do haicai livre, entremeando tercetos de poetas brasileiros famosos como haicai. Vale como amostra do haicai praticado no Brasil, e menos como fonte de estudo. Mas é um exemplo típico da literatura brasileira dos últimos anos, que graças ao efeito Flip equipara arte a entretenimento.

HAICAI DO BRASIL | Adriana Calcanhotto (org.)

Editora: Edições de Janeiro;
Quanto: R$ 33,66 (168 páginas);
Lançamento: Julho, 2014.

47 HAICAI – O JAPÃO NO FEMININO – TANKA

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Ono no Komachi,  Utagawa Toyokuni, 1810. Fonte: Museum of Fine Arts.

O  período Heian  (794 a 1185) começou quando a capital japonesa foi instalada em Quioto, e é marcado por um florescimento ímpar na  literatura japonesa. As mulheres da corte, que tinham como ofício entreter a imperatriz, são as principais responsáveis por este florescimento. Os homens  estavam ocupados em dominar conhecimentos sobre a língua chinesa e estudavam temas nobres, como a história e filosofia.  As mulheres, impedidas de aprender os ideogramas chineses, propagaram a escrita silábica (hiragana), escrevendo sobre  literatura e poesia, explorando temas como o amor, a natureza e a religiosidade.

Assim surgiu o romance O conto de Genji (Genji monogatari), escrito por Lady Murasaki Shikibu e O livro do travesseiro (Makura no sôushi), escrito por Sei Shônagon, considerados os dois maiores clássicos da literatura japonesa.

Também neste período surgem  as duas maiores poetas clássicas: Ono no Komachi  (834 – ?) e Izumi Shikibu (974-1034). As duas escreveram numa época em que as mulheres cultivavam grande independência. Embora os privilégios fossem masculinos,  às solteiras era permitido ter vários namorados, inclusive com homens casados, desde que usassem a discrição. As casadas só podiam ter um marido, enquanto estes poderiam ter vários casos extraconjugais. A mulher podia ser proprietária de terras e usufruir de renda própria. Também podia divorciar-se e separar-se, independente da opinião familiar.

O domínio da escrita e da poesia era um fator de ascensão social. A arte  não era confinada aos aristas, mas partilhada por todos os membros da corte. Qualquer acontecimento público ou privado era acompanhado de versos. A poesia era o veículo essencial para ativar os relacionamentos amorosos. A forma poética usada nesta época era o tanka, com 31 sílabas. O haiku ainda era uma forma usada só pelos homens.

A pesquisadora Luísa Freire publicou, em 2007, versões para o português lusitano de uma tradução em inglês,  de Jane Hirshfield e Mariko Aratami – The Ink Dark Moon: love poems by Ono no Komachi and Izumi Shikibu .

ono no komachi

Quando o meu desejo
se torna intenso demais,
visto a roupa de dormir
virada pelo avesso,
escura casca da noite.

*

Pescador não deixa

a baía plena de algas…

Vais abandonar

este corpo flutuante

à espera das tuas mãos ?

*

O vento que enreda

É tal qual as derradeiras

Rajadas de Outono.

Só um orvalho de lágrimas

É novo na minha manga.

*

 

Hoje de manhã

Até as minhas campainhas

Estão escondidas

Para evitarem mostrar

O cabelo em desalinho

*

47haicaiimagem02
Izumi Shikibu

Deitada e sozinha
de cabelo negro solto
e emaranhado,
sinto desejo daquele
que primeiro veio me tocar.

 *

Desperta pelo cheiro
duma ameixeira florida…
A escuridão
da noite primaveril
vem encher-me de saudade

*

Não fiques corado!
Todos adivinharão
Que dormimos juntos
Sob as pregas enrugadas
deste manto avermelhado

o japão no feminino – tanka  – séculos ix a xi e o japão no feminino – organização e tradução, luísa freire.assírio e alvim, 2007.

46 HAICAI -TANKA, UMA FORMA FEMININA

46haicaiimagem04No Japão existem formas poéticas distintas, que funcionam para determinados temas. A forma poética mais conhecida fora do Japão, o haicai (ou haikai ou haiku) tem como eixo temático uma das estações do ano, ou algum evento ou fenômeno natural que aconteça numa determinada estação do ano. Cerejeiras, por exemplo, estão relacionadas à primavera, crisântemos, ao outono, neve ao inverno e calor ao verão. Os eventos ou fenômenos naturais são pontos de partida para refletir sobre a efemeridade da vida. Assim, o estado wabi sabi (que vem das palavras wabishi = ermo, solitário e sabishi= triste) é a prerrogativa do poeta que se retira do tumulto das cidades para comungar com a natureza e nela encontrar a resposta para o sentido mais profundo da existência.

O tanka é a forma poética mais antiga no Japão, que deu origem ao haicai. O haicai ficou conhecido como uma forma que privilegia o olhar objetivo da vida . Já o tanka está relacionado a um olhar mais subjetivo. Duas grandes poetas japonesas da Era Heian, Ono no Komachi (834?-?) e Izumi Shikibu (974?-1034?) representam esta forma poética. Tanto as poetas quantos o tanka são poucos conhecidos no Ocidente. A razão talvez seja o fato de que o tanka privilegia o olhar feminino.

Os maiores poetas japoneses do tanka contemporâneo são Masaoka Shiki (também mestre de haiku), Akiko Yosano e Takuboku Ishikawa, estes dois últimos com pelo menos uma obra traduzida no Brasil. Ono Komachi, Izumi Shikibu e   o monge Saygio são os autores clássicos mais conhecidos. Uma curiosidade:  o hino nacional japonês Kimigayo também está vazado na forma poética do tanka. No Brasil, tivemos poetas que já se aventuraram a recriar tankas, como Pedro Xisto, Helena Kolody e Wilson Bueno, em molduras mais ou menos carnavalizadas.

A poeta Rose Mendes pesquisou sobre a poesia feminina no Japão e buscando aperfeiçoar a aprendizagem iniciada em seu primeiro livro “Nas ondas do haicai”,  lança agora, “Travessia” (Editora Inhouse, 2016). O que se vê neste seu mais novo rebento são exercícios livres em cinco versos . Aponta-se a ousadia desta “Travessia” do ocidente ao oriente. Porém, falta à autora iniciante  maior conhecimento sobre a linguagem poética, o que tornariam seus poemas menos superficiais.  Já experiências de vida não lhe faltam, tocando temas da maturidade:

mora às escuras / na árvore centenária / um ninho vazio / ah, não é um pirilampo / que tranquilamente surge

muito de repente / duas andorinhas entram/ na capela antiga / que saudades estou sentindo / dos sonhos divididos

névoa da manhã / o mar e a gaivota / brincam com o tempo / o barquinho que balança / parece acenar um adeus

notícias do mundo / trazem espanto e tristeza  -/ incerto futuro//meu pai falava da guerra / e quase sempre chorava

Para que seus tankas saiam do chão, resta à Rose apenas prestar mais atenção nas palavras. As experiências, a sensibilidade, a acuidade para observar os dramas psicológicos retratados na paisagem da vida ela já tem.

(Marilia Kubota)

NOTÍCIA | NY TIMES CRIA HAICAI ELETRÔNICO

21noticiasimagem07Manchetes e notícias de jornal já renderam poemas para autores como Manuel Bandeira e Ferreira Gullar.  Até agora, ninguém havia pensado que  manchetes e notícias poderiam ser transformadas em haicais, o poema de três versos japonês.  O programador americano Jacob Harris, que trabalha no jornal  The New York Times criou um algoritmo que faz isso.

O terceto chamado de haiku no Japão e nos EUA, tem  dezessete sílabas , cinco na primeira linha, sete na segunda e cinco na terceira. De acordo com os seguidores do haiku tradicional, a métrica não é a sua principal característica. Um  haicai tradiconal deve conter uma palavra que indica a estação do ano – o kigo – e justaposição de imagens verbais, cortadas pelo   kireji, geralmente indicado por um sinal gráfico, travessão, dois pontos ou reticências.

Como funciona o algoritmo ? Harris explica que a  ferramenta checa a página principal do jornal  periodicamente buscando artigos recém publicados. Então, escaneia cada sentença, procurando por haikus potenciais, usando um dicionário eletrônico contendo sílabas contadas. O programador diz que começou com um vocabulário básico rimado, mas com o tempo, acrescentaram sílabas contadas para palavras  “Rihanna” ou  “terroir” , para manter  o compasso com o extenso vocabulário do  The Times.

Nem sempre o poema que o computador descobre tem qualidade. O algoritmo descarta alguns, se for construído desajeitadamente  e não varre artigos  cobrindo tópicos sensíveis. Além disso, a máquina não tem senso estético, não pode distinguir entre um verso elegante e um grosseiro.  Mas, quando funciona bem,  cruza algo bonito ou engraçado ou um precioso haicai, e jornalistas humanos o selecionam e postam no blogue. Leia os haicais construídos pelo poeta eletrônico aqui.

18 HAICAI | A POESIA CLÁSSICA DO HYAKUNIN-ISSHU

Por Regina Bostulim

Jogo de cartas inspirado no Hyakunin-Isshu .
Jogo de cartas inspirado no Hyakunin-Isshu .

O Hyakunin-Isshu é uma antologia de cem wakas[1], escritos entre os séculos VII e XIII, período em que Fujiwara no Teika (1162-1241) juntou a coleção. Os poemas são cem tankas, compostos por 31 sílabas (5-7-5-7-7)[2].

Hyakunin significa cem pessoas e isshu significa poemas (sendo shu a contagem do número de poemas). O Hyakunin-Isshu é a antologia dos poemas dos cem maiores poetas do período Heian. Os poemas estão em ordem do ano 670 até 1235, ano de sua compilação.

O nobre Fujiwara no Teika, que compilou as poesias sob as ordens do imperador, viveu durante a transição do período Heian, que foi aristocrático, ao período Kamakura, de característica guerreira, dominado pelo shogunato. Mais tarde seu filho Fujiwara no Tameie efetuou uma revisão do livro. A marca deixada por Fujiwara no Teika na obra é o tanka 97, de sua autoria.

Cerca de metade das poesias têm como tema o amor, pois foram originalmente escritas como cartas de amor. Outros temas presentes são a natureza e as estações do ano. O Hyakunin Isshu (Cem poemas de 100 poetas) é tão importante para a literatura japonesa, que influenciou obras como os Contos de Gengi e os Contos de Ise. Os versos também inspiraram um jogo de cartas (karuta), que consistia em juntar os versos de cada poema.

Os poemas foram escritos por cortesãos ou por pessoas da família imperial. Nos velhos tempos, somente nobres, altos dignatários, e o clero escreviam versos. Era suposto que os pobres desconhecessem tudo sobre arte.

Porém os poemas eram amados pelo povo, que os conhecia de cor. Uma vez um rei que passava por um campo, recebeu um ramo de flores de uma camponesa que lhe disse algumas palavras. Mais tarde, o rei se deu conta de que as palavras ditas pela camponesa eram versos do Hyakunin Isshu. E a admirou pela sua perspicácia, não esperava que alguém tão simples pudesse saber de literatura.

POEMAS

Para saber mais:

PORTER, William N. A Hundred Verses from Old Japan. (The Hyakunin-isshiu).  London: Clarendon Press, 1909. Kindle edition published by Evinity Publishing Inc, 2009.

Regina Bostulim é pesquisadora do Centro de Estudos Clássicos e Humanísticos de Coimbra.

[1] O waka (literalmente poema japonês), é um tipo de poesia da literatura japonesa clássica. Escrito em japonês, contrasta com a poesia conhecida como kanshi, escrita em chinês, que foi popular no período Heian.

[2] Os hai-kais, de 17 sílabas, começaram a ter proeminência no século XVII.

 

[3] Monte Uji, literalmente, monte da tristeza.

HAICAI | OS DEZ PRIMEIROS POEMAS DO HYAKUNIN-ISSHU

Transcriação: Regina Bostulim

Do Imperador Tenchi em seu reinado (668-671)

poeta número 1
Imperador Tenchi: imagem de Ogura Hyakunin Isshu

campo dum dia de outono -/casas cheias de feno/fico no estábulo/meu chinelo bordado/molhado de chuva

秋の田の  かりほの庵の  苫をあらみ わが衣手は 露にぬれつつ

Da Imperatriz Jito em seu reinado (690-696)

vai primavera, vem verão/ e eu a observar -/ no pico de Ama-notagu/anjinhos colocam asas/para secar

春過ぎて  夏来にけらし 白妙の 衣ほすてふ天の香具山

Carta da Imperatriz Jito
Imperatriz Jito: imagem de Ogura Hyakunin Isshu
Kakinomoto: imagem de Ogura Hyakunin Isshu

Do cortesão Kaki-no-Moto no reinado do Imperador Mommu (697-707)

névoa na montanha/como cauda de pavão –/mas longe de mim/na solidão,/a noite é sem fim

あしびきの 山鳥の尾の しだり尾の ながながし夜を ひとりかもねむ

Akahito Yamabe: imagem de Ogura Hyakunin Isshu.

Do  poeta Akahito Yamabe(Cerca de 700)

praia cinza, mar de Tago mas o pico do monte Fuji

a reluzir, branco,através de flocos de neve

田子の浦に 打ち出でてみれば 白妙の 富士の高嶺に 雪はふりつつ

Do  oficial shinto Saru Maru(Cerca de 800)

um gamo chama,/longe, no lado da montanha,/e eu entre as folhas de bordo/que o vento espalha –/triste maré de outono

奥山に 紅葉ふみわけ 鳴く鹿の 声きく時ぞ 秋は悲しき

18haicaiimagem06
Chūnagon Yakamochi by Kanō Tan’yū, 1648.

Do vice-rei Yakamochi (morto em 785)

ponte dos passarinhos/um rei lança seu manto/ ela atravessa/a noite quase passa/o dia vem rápido

かささぎの渡せる橋に 置く霜の 白きを見れば夜ふけにける

Abe no Nakamaro (Cerca de 726, quando o poeta tinha 16 anos

observo o  céu/meus pensamentos voam longe/vejo a lua que surge/sobre o monte Mikasa/na distante Kasuga

天の原 ふりさけ見れば 春日なる 三笠の山に 出でし月かも

 

18haicaiimagem08

Do  sacerdote Kizen

moro no subúrbio/numa casinha simples/perto do monte triste[3]/então o povo fala/que sou só tristeza

わが庵は 都のたつみ しかぞすむ 世をうぢ山と 人はいふなり

Komachi no Ono : Kanō Tan’yū, 1648.

Komachi Ono 

tinta lavada/pela chuva forte/minha beleza fenece -/enfeite em vão/vã floração

花の色は うつりにけりな いたづらにわが身世にふるながめせしまtに

Semimaru: imagem de Ogura Hyakunin Isshu.

Semimaru, filho do  imperador Uda

(reinado de 888-897),  que não chegou a reinar por ter ficado cego.

estranho viajante/acolhido com um

sorriso -/na barreira da montanha/todos param,  /repousam e se vão

これやこの 行くも帰るも 別れては 知るも知らぬも 逢坂の関