46 PALCO – ATORES NIKKEI PROTESTAM CONTRA DISCRIMINAÇÃO

Coletivo Oriente-se composto por atores de ascendência oriental lança manifesto pela igualdade étnica nas produções audiovisuais

46sociedadeimagem01Cerca de 200 atores de ascendência oriental lançaram um manifesto pela igualdade étnica nas produções audiovisuais no B_arco Centro Cultural, na última quarta-feira (31/08), em São Paulo.Os atores integram o Coletivo Oriente-se, que segundo sua página no Facebook, tem como objetivo “Difundir que somos atores brasileiros, que podemos interpretar diferentes papéis como os atores de outras etnias e que existe a necessidade de mudanças de paradigmas nas produções cênicas, midiáticas e audiovisuais no que tange à diversidade, assim como é na vida real. ”

O coletivo lançou um vídeo em que atores e atrizes afirmam a nacionalidade brasileira ao lado da etnia japonesa e a pouca representatividade nas produções culturais cênicas, denunciando as imagens estereotipadas e negativas. Na novela “Sol Nascente”, que estreou esta semana na Rede Globo, por exemplo, há um personagem de ascendência japonesa caracterizado como  nerd, num clichê em produções de teledramaturgia, em que os homens nipo-brasileiros são representados como assexuados.

Na quarta-feira, além do lançamento do manifesto e do vídeo, também houve discussão sobre a representatividade étnica nas produções audivisuais brasileira. Participaram do debate, além do Coletivo, os cineastas Paula Kim e Sandro de Andrade, o  antropólogo Alexandre Kishimoto e o curador Yudi Rafael, os dois últimos, integrantes do grupo  Estudos Asiáticos-brasileiros.

Kishimoto criticou o imaginário estereotipado veiculado pela indústria televisiva, citando um artigo do produtor de TV e professor  Gabriel Priolli, publicado em 2003. Segundo o professor a  TV e os noticiários veiculam “uma determinada imagem do Brasil , e de suas características, inteiramente construída no Sudeste e, por um número bastante reduzido de pessoas, os roteiristas, redatores e artistas de meia dúzia de emissoras, no máximo”.

O antropólogo lembra que o episódio da escolha do ator Luís Mello para interpretar um japonês ressoa em 1969, com outra novela da Globo, com a escolha do ator Sérgio Cardoso para interpretar o velho negro Pai Tomás, segundo pesquisa de Joel Zito Araújo. Houve muitos protestos, boicote e um incêndio no estúdio de gravação, abreviando a duração da novela. Nos anos 1970, com a novela Escrava Isaura, mais uma vez se tentou o blackface, com a escolha da atriz  Lucélia Santos, para interpretar uma heroína afro-brasileira, numa reconstituição adocicada da história da escravidão. O argumento do produtor da novela, Walter Avancini?  O mesmo de hoje: ” não havia atrizes negras preparadas para fazer o papel.”

Kishimoto destacou que poucas foram as novelas que apresentaram personagens negros de classe média: Vidas em Conflito, (1969), Corpo a corpo, (1985), e  A próxima vítima (1995).  “Somente em 2004, na novela Da cor do pecado,  Taís Araújo viria ocupar o posto de primeira protagonista negra em 40 anos de história dessa emissora”, ressaltou.

Para o pesquisador, o branqueamento na televisão brasileira  afeta  não apenas os asiático-brasileiros, mas  diversos grupos sociais e minorias étnicas : afro-brasileiros, indígenas, bolivianos, africanos, nordestinos, LGBTS, mulheres, os sem teto e os excluídos.” Trata-se de um sistema social que discrimina, segrega, estigmatiza e hierarquiza social e racialmente. Que representa os afro-brasileiros com estereótipos como da empregada doméstica e do bêbado; o índio como vagabundo; o asiático como o abobado que não sabe se expressar em português; o nordestino como ignorante, o ativista do movimento social como baderneiro etc.”, completa.

Para reverter o quadro da discriminação, Kishimoto diz que é preciso  criar novas narrativas da perspectiva dos asiático-brasileiros: “Para isso é preciso estimular, valorizar e se conectar com o trabalho de roteiristas, fotógrafos, artistas plásticos, cineastas, documentaristas, historiadores, antropólogos, dramaturgos e teledramaturgos asiático-brasileiros.” Citou o surgimento de iniciativas independentes, como o do coletivo Oriente-se e o do Yo Ban Boo, além do grupo  Estudos Asiático-Brasileiros que reúne historiadores, antropólogos, artistas plásticos, escritores e ativistas que discutem questões sobre identidade e representatividade.

Leia  o Manifesto do Coletivo Oriente-se.

MANIFESTO DO COLETIVO ORIENTE-SE NO BRASIL PELA IGUALDADE ÉTNICA
 
Nós, artistas e profissionais das artes com ou sem ascendência oriental, seja japonesa, chinesa ou coreana, reivindicamos por igualdade no tratamento justo a todos os cidadãos, repugnando práticas de discriminação étnica que ocorre em algumas produções de audiovisual que retratam o oriental de forma estereotipada, preconceituosa e distorcida da realidade. Em especial para produções populares de rede aberta como novelas, seriados e comerciais que, atingem a maioria da parcela dos cidadãos brasileiros, influenciam diretamente a sociedade promovendo às vezes, o conceito deturpado e negativo, denegrindo a imagem dos orientais e educando as novas gerações com a visão preconceituosa contra a nossa comunidade.
Somos parte integrante da sociedade brasileira, nascemos, vivemos e contribuímos com muito trabalho para o enriquecimento e desenvolvimento de nossa nação. Ter a presença de atores e artistas orientais em produções de audiovisual em papéis não estereotipados e de forma respeitosa, é o mínimo e o justo que a comunidade oriental brasileira merece em retribuição e gratidão por mais de um século de história em terras brasileiras. Somos brasileiros e exigimos respeito para com todos, independentemente de sua ascendência. A diversidade étnica, social e/ou de gênero é fundamental e necessária para o crescimento de qualquer cidadão.
Entendemos que, frente às desigualdades existentes, não basta rejeitar as práticas de discriminação, mas sim realizar ações que possam corrigir distorções e aproximar indivíduos. É responsabilidade de cada um de nós brasileiros, promover a igualdade no cotidiano, através de nossos atos, trabalhos e postura. É de extrema importância que os profissionais que atuam diretamente na concepção e produção de obras de audiovisual, tenham a consciência de que a sua criação pode influenciar positivamente a nossa sociedade e difundir a diversidade. Cabe também a nós, artistas orientais brasileiros, fomentar a imagem positiva de nossa comunidade, através de nosso trabalho artístico, para que as futuras gerações possam se olhar com a autoestima de um cidadão brasileiro pertencente a esta nação.

 

38 PALCO – BAN’YU INRYOKUTRAZ `TEATRO TOTAL’ EM SÃO PAULO

O grupo teatral japonês Ban’yu Inryoku retorna ao BRASIL para celebrar os 120 Anos do Tratado de Amizade, apresentndo a peça “Nuhi Kun” (Instruções aos Criados), uma retrospectiva de Shuji Terayama, um dos artistas mais importantes da vanguarda que continua sendo o mestre do grupo e de seu diretor, J.A. Seazer.

O grupo teatral japonês Ban’yu Inryoku retorna aos palcos brasileiros após 20 anos. Na primeira visita, em 1995, o grupo apresentou o espetáculo “Suna”, no Teatro Sesc Anchieta e no Sesc Santos, por ocasião das comemorações dos 100 Anos do Tratado de Amizade, Comércio e Navegação Brasil-Japão. Desta vez, para celebrar os 120 Anos do Tratado de Amizade, o grupo apresentará “Nuhi Kun” (Instruções aos Criados). Trata-se de uma nova montagem e também uma retrospectiva de Shuji Terayama, um dos artistas mais importantes da vanguarda que foi e continua sendo o inspirador e mestre do grupo e de seu diretor, J.A. Seazer.

Grupo esteve no Brasil em 1995 para celebrar os 100 Anos do Tratado e volta agora para os 120 Anos (Foto: Yuji Kussuno)

A agenda prevê uma série de apresentações. A primeira será no dia 13 de novembro, no Teatro Yuba, em Mirandópolis (SP), que recentemente recebeu o dançarino Yoshito Ohno, filho e herdeiro artístico de Kazuo Ohno (1906-2009) um dos fundadores do butô.

Nos dias 21 e 22 de novembro, o espetáculo será apresentado no Teatro Sesc de Santos. O grupo encerrará sua mini turne na capital paulista, com duas apresentações no Teatro Sesc Pinheiros, nos dias 28 e 29 de novembro.

Crítica define trabalho do grupo como “teatro total” (Foto: Yuji Kussuno)

Com 1h40 de duração, “Instruções aos Criados”, de Jonathan Swift (adaptado e dirigido originalmente por Shuji Terayama e, agora, por J.A. Seazer) já foi apresentado mais de 200 vezes, sendo 154 delas fora do Japão, em países das Europa, Oriente Médio e Estados Unidos, totalizando 31 nações diferentes, sempre recebendo aclamações da crítica e do público.

Fundado há mais de três décadas, o Ban’yu Inryoku mistura elementos circenses, artes marciais, releituras de Nô e Kabuki, punk-rock, cultural popular, teatro ritual, mímica surrealismo, ópera experimental e outras referências. Não à toa, a crítica costuma classificar seu trabalho como “teatro total”.

Ban’yu Inryoku utiliza várias referências em seu trabalho (Foto: Yuji Kussuno)

O grupo, que virá com 30 pessoas, costuma utilizar linguagem visual e muita iluminação, com pouco texto, sendo, portanto, de fácil percepção”, explica o fotógrafo  e coordenador da vinda do grupo ao Brasil, Yuji Kusuno. Segundo ele, parte da estrutura do palco, de 15 níveis, virá especialmente do Japão.

Grupo japonês Ban’yu Inryoku traz ao país o ‘teatro total’ (Foto: divulgação)

Com organização do Sesc, o espetáculo conta com apoio do Ministério da Cultura do Japão, Comissão Organizadora Nacional dos 120 Anos do Tratado de Amizade, Comércio e Navegação Brasil-Japão, Fundação Japão, Bunkyo (Sociedade Brasileira de Cultura Japonesa e de Assistência Social), Kenren (Federação das Associações de Províncias do Japão no Brasil) e jornais Nikkey Shimbun, Nippak e São Paulo Shimbun. (NOTÍCIA EXTRAÍDA DO NIPPAK SHIMBUN)

38 PALCO – 120 ANOS DE AMIZADE: Apresentação inédita reúne koto e canto gregoriano

Em homenagem aos 120 Anos do Tratado Brasil-Japão, acontece no próximo dia 5, a partir das 20h, no Mosteiro de São Bento de São Paulo, o Concerto de Koto e Canto Gregoriano.

Em homenagem aos 120 Anos do Tratado de Amizade, Comércio e Navegação Brasil-Japão, o Mosteiro de São Bento de São Paulo e a Associação Cultural de Koto Miyagui do Brasil realizam no próximo dia 5, a partir das 20h, no Mosteiro de São Bento de São Paulo, o Concerto de Koto e Canto Gregoriano. A entrada é franca. “Será a primeira vez que o canto gregoriano será apresentando em Rokudan”, explica a presidente da Associação Cultural de Koto Miyagui do Brasil, Reiko Nagase, lembrando que o Rokudan surgiu no Japão por volta de 1500, por influência portuguesa.

Associação Cultural de Koto Miyagui do Brasil (Foto: Arquivo)

“Portugal influenciou o Japão não só pela introdução da arma de fogo como também na música, através do canto gregoriano, que mais tarde daria origem ao Rokudan, primeiro clássico da música japonesa”, conta Nagase, destacando que além da participação dos monges do Mosteiro, acompanhados pelo koto, a apresentação terá também a presença da Associação Brasileira de Música Clássica Japonesa.

Para o monge Dom Alexandre Andrade, o evento é cercado de simbolismos. “Essas duas culturas se encontraram pela primeira vez no século XVI, no Japão, mesmo época da fundação do Mosteiro. E agora, para celebrar os 120 Anos de Amizade do Japão e do Brasil, acontece essa apresentação justamente no Mosteiro. Então, nos sentimos muito honrados com essa oportunidade”, conta o monge.

O programa será dividido em três partes: 1) Credo: Canto Gregoriano – Credo IV; Koto e Canbto Gregoriano – Credo III (Rokudan); Koto, Sanguen e Shakuhachi; 2) Cantos Gregorianos: Ubis Caritas, Ave Maria, Te Laudumus; 3) Instrumental: Haru no umi, Solo de Shakuhachi e Hounendaiko. (DO NIPPAK SHIMBUN).

38 NOTÍCIAS – CURITIBA VÊ TEATRO NOH INÉDITO

Hagoromo. Divulgação.
Hagoromo. Divulgação.

Curitiba receberá, nos dias 8 e 9 de outubro, pela primeira vez, uma companhia  japonesa de teatro Noh, do mestre  Takayuki Kizuki, da Escola Kanze, de Tóquio. A companhia encenará duas peças, Hagoromo (Manto de Plumas) e Tshuchigumo no Guairinha. Hagoromo é uma das mais famosas peças encenadas no mundo todo, de autoria  atribuida a Zeami (1363~1443), um dos fundadores do Noh. A peça foi traduzida, em 1993,  pelo poeta Haroldo de Campos, num grande trabalho de transcriação da língua japonesa arcaica.

Na trama, o pescador Hakurijo encontra a ninfa dos céus Tennin. Ela desce para um banho aos pés do monte Fuji, deixando seu manto numa árvore. Quando encontra o artigo tão sublime, o pescador decide guardá-lo como relíquia familiar, mas logo é interpelado por Tennin. Ela chora pedindo o manto, sem o qual não pode retornar ao céu. Ele pede então que ela dance para ele, e ela aceita, mas pede o manto primeiro. Quando ele desconfia e diz que, se entregar o artigo, ela partirá sem dançar, a ninfa sentencia: somente na Terra existe a mentira. Envergonhado, Hakurijo entrega o manto e assiste à dança maravilhosa enquanto o ser alado vai embora lentamente.

Tsuchigumo é um clássico em torno de um tema muito frequente: a presença de espíritos maus ou bons que definem o andamento das situações. Em sua apresentação, sobressaem os recursos tecnológicos do século 21 – as teias de aranha –  visualmente um espetáculo à parte, em meio ao gestual e indumentárias suntuosas e clássicas do Noh.

No intervalo das duas peças será encenado o Kyogen, uma espécie de comédia japonesa. A companhia traz a peça Kombu-Uri (O Vendedor de Algas),  farsa que junta um nobre arrogante   e um vendedor de algas muito esperto. Reparem nas expressões faciais, nos gestos rápidos e largos, no tom de voz que insinua situações duvidosas, na sátira inteligente e nas brincadeiras.

MÁSCARAS

No teatro Noh, os atores usam pesadas máscaras, com expressões faciais consagradas pela tradição. A principal delas é Ko-Omote, (Era Edo/ 1603-1867) , símbolo do Teatro Nô, representando a pureza feminina. “Ko” significa graça e jovialidade e “Omote”, a máscara. É amplamente utilizada nas peças divinas, como a famosa Tsuru e Kame (Cegonha e Tartaruga), oriunda da China antiga, quando se festeja o início da primavera no Palácio Imperial. É também usada em Hagoromo .

Uma Exposição de Máscaras do Teatro Noh estará aberta no Hall da Biblioteca do Clube Curitibano a partir de 17/09/15.

PROGRAMAÇÃO PARALELA

A programação paralela do evento inclui dois workshops e uma série de palestras. Na quinta-feira (8), à tarde, das 14 às 16 horas, os mestres da escola Kanze farão um workshop pago, no valor de R$ 150, incluindo o ingresso, e na sexta-feira (9) o workshop será aberto ao público em geral.  As palestras acontecem na  Reitoria da Universidade Federal do Paraná ( Rua General Carneiro, 460)  e contam com a participação dos professores  Christine Greiner (PUC – SP),  Luci Collin (UFPR), Munira Mutran e Klaus Eggensperger (UFPR) e Marcia Namekata (UFPR)

Mais informações no site do evento.

21 PALCO | PEÇA DE TEATRO USA TÉCNICA DO HAIKAI

Foto: divulgação.
Foto: divulgação.

Até 12 de maio o público curitibano pode ver a peça Haikai, de Roberto Alvim, que estreou no Festival de Teatro de Curitiba e segue temporada no Espaço Cênico, no bairro do São Francisco.

Haikai ? Sim, o  título da peça vem da forma poética japonesa que trabalha com  a forma sintética. E o espetáculo é um trabalho com a linguagem formal. Não há um enredo linear, mas a sugestão de algum acontecimento traumático na vida da (s) personagem (s). Não se sabe se os tês atores, Nena Inoue, Paulo Alves e Martina Gallazara desempenham três personagens ou apenas um.  A confusão também vem do princípio do haikai,  a simultaneidade que justapõe imagens diferentes num só momento.

Além dos três atores e um texto poético, háo jogo com a iluminação.  Os personagens estão mergulhados em  escuridão ou semi-escuridão, sugerindo apagamentos da memória e o conflito em reorganizar o mundo depois de um choque mental.  A luz é como uma  fonte da reorganização, clareando as falas fraturadas.

No haikai tradicional,  o conflito deve ser solucionado através da meditação sobre o vazio. Na peça, o vazio é trágico, trazendo à tona a  oposição de conceitos no Oriente e no Ocidente. Depois de meia hora de aturdimento sensorial, o espetáculo acaba. É claro, isso também é haikai: não explicar quase nada e intervir com um súbito corte final.  Apesar de  a apresentação ser breve, a repercussão no espírito do espectador não é. (MK)

Haikai, de Roberto Alvim, com Nena Inoue e elenco –  Espaço Cênico –  Rua Paulo Graeser Sobrinho, 305 – São Francisco. Até  12 de maio, quinta e sexta às 20h30 e sábado e domingo às 19h e 20h30. Ingresso: A partir de R$10

20 PALCO | PRÊMIO DO BUNKYO ESTÁ NO FTC

20palcoimagem01
Foto: Vanessa Vzorek

 

O monólogo Corrente fria, corrente quente,  peça a ser apresentada no Fringe, a mostra alternativa do Festival de Teatro de Curitba,  é uma adaptação de um conto escrito pela atriz e dramaturga Fernanda Fuchs, que recebeu o terceiro lugar no I Concurso de Contos do Bunkyo de SP, realizado em 2012.  A narrativa é a história de  uma menina de Okinawa (província localizada no Sul do Japão),  que perde o pai, um pescador que saiu para trabalhar em alto-mar e nunca mais voltou. A montagem busca transmitir impressões sobre como era o cotidiano da garota. O peso da rotina e do trabalho árduo ligado à pesca é evocado indiretamente, através da manipulação de sacos de juta. Os sacos são usados como adereços, objetos de cena e cenário, criando um universo de sonho, a poucos metros do público.

De acordo com a autora, o  texto foi pensado para ser adaptado para o teatro. No ano passado, foi apresentado no Seto Matsuri. A seguir, uma pequena entrevista de Fernanda Fuchs à jornalista Mylle Silva sobre a peça e  seu interesse sobre cultura japonesa:

De onde surgiu o seu interesse pelo Japão e pela cultura japonesa?
No ensino fundamental fiz amizade com uma menina de origem japonesa, que me ensinou a fazer tsurus. Fiquei maravilhada e comecei a fazer vários outros tipos de origamis. Foi meu primeiro contato com o Japão. O interesse maior veio depois, com o teatro. Quando comecei a fazer aulas com o Hermison Nogueira, meu primeiro professor e hoje um dos diretores da peça Corrente fria, Corrente Quente,  ele trazia várias referências de Butô, Teatro Nô e filmes do Kurosawa para assistirmos.

Por que você decidiu transformar o conto em um monólogo teatral? Como foi o processo de transformação?

Em 2012, eu voltei a fazer aulas de teatro e a proposta  era que cada ator fizesse um monólogo contando uma pequena história. A sugestão foi trabalhar a temática japonesa, com   vários materiais: músicas, imagens e filmes sobre a cultura nipônica.  Fui ao Consulado do Japão em Curitiba e fiz pesquisas sobre a geografia e a história do país.  Juntando tudo, sentei  e escrevi, de uma só vez, Corrente Fria, Corrente Quente.
Essa história não é somente japonesa, mas universal. Fala sobre perda, espera e ausência. Na montagem, a intenção não é me caracterizar como japonesa, mas fugir dos clichês,  deixar em aberto para que cada espectador traga significados. A peça tem esse clima intimista, quase confidencial com o público. Buscamos um trabalho bastante focado no corpo, em cena estou somente eu e vários sacos de juta,   manipulados ao longo da peça.

Na entrevista publicada no blog da peça você diz que tem um pouco de medo do Japão. Por quê?

Não sei explicar ao certo. Não sou descendente de japoneses e ainda estou aprendendo sobre a cultura nipônica. Talvez o fato de me sentir tão diferente deles me cause certo medo.  Os filmes do Kurosawa também me passam essa impressão sombria. São lindos, poéticos, mas têm uma aura, um tempo e um ritmo tão diferente do nosso.  Enfim, são  impressões e o medo do desconhecido. Espero conhecer logo o Japão para tirar ou confirmar essas impressões. Mas acho curioso os  dois lados do Japão: seriedade, tradicionalismo, tranquilidade, paz X cultura pop, explosão de cor, de som, tecnologia. O  cosplay, os mangas e animes me assustam um pouco.  Alguns personagens são bem assustadores. Não deixa de ser um grande teatro, mas são imagens que causam certo medo.

Como foi ganhar o 3º lugar no concurso de contos do Bunkyo? Qual a sensação de participar de uma cerimônia japonesa de premiação?

Foi  importante,  meu primeiro grande prêmio. Esse texto tem valor enorme, estou desde julho do ano passado em cima dele, pensando em como transformá-lo em espetáculo teatral. Em setembro de 2012 enviei para o  Bunkyo e em fevereiro de 2013, recebi a notícia sobre a premiação. Isso deu um gás ainda maior para a produção do espetáculo.

A cerimônia de premiação foi ótima, havia um clima sério no ar, um respeito grande por parte da equipe organizadora. Na hora de agradecer não me contive e fiz a “brasileira”, chorei. Apesar de uma aparência mais fechada, o pessoal foi acolhedor. Pude conversar com várias pessoas e divulguei a minha peça. A premiação foi na sede do Bunkyo, no bairro da Liberdade em São Paulo. Em breve, pretendo apresentar a peça também em São Paulo. (Mylle Silva).

O monólogo será apresentado no dia 29 às 17 horas e no dia 30 às 19 horas, na Casa Hoffmann (Largo da Ordem), em Curitiba.  A entrada é gratuita. 

20myllesilvafotoMylle Silva é jornalista e escritora. Publicou o livroDevaneios de Amor e Um Vintém (E-book, 2011 – download gratuito) e está organizando seu primeiro livro impresso. Mantém o blog Tadaima Curitiba sobre cultura japonesa e é editora-assistente do JORNAL MEMAI.

16 PALCO | MAWACA RECRIA CANÇÕES JAPONESAS

 

Mawaca no Ibirapuera. Foto: divulgação.

Mawaca no Ibirapuera. Foto: divulgação.

Depois de namorar as canções tradicionais japonesas em vários CDs, o grupo Mawaca lança um DVD apenas com músicas folclóricas japonesas: Ikebanas musicais. Treze canções tradicionais japonesas têm  um novo arranjo, fundidas ao cancioneiro de outras partes do mundo. A diretora do grupo, Magda Pucci, tem a liberdade de misturar  os ritmos da canção Kazoe Uta a  Se esta rua fosse minha ou de Hotaru koi e uma canção dos índios Gavião. Instrumentos musicais orientais, como koto, shamisen, sakuhachi e  taiko dialogam  com a flauta transversal, o acordeom, o saxofone, o vibrafone e demais  instrumentos ocidentais.

Os músicos  Tamie Kitahara (koto e shamisen), a dupla de taiko Daniella e Deborah Shimada e o flautista Shen Ribeiro (shakuhachi) têm  participações especiais. A artista plástica Érica Mizutani colabora com ilustrações que compõem  o projeto cenográfico do show, com imagens de várias facetas do Japão moderno e antigo.

Para conhecer mais sobre o trabalho do grupo, clique aqui, para ouvir  a releitura das canções  Asadoya Yunta Sakura, Sakura. E aqui você pode comprar os CDs e DVDs do Mawaca.

O grupo

O Mawaca  é um grupo que pesquisa e recria a música étnica do mundo todo.  Seu repertório é formado por canções  da  Irlanda, Finlândia, Japão, Indonésia, entre outros países. A esses ritmos diversos  contrapõem-se a música brasileira.

Formado por sete cantoras e seis músicos, o Mawaca interpreta canções em vários  idiomas, misturando instrumentos tradicionais e clássicos  – como acordeom, violoncelo, flauta e sax soprano, contrabaixo, com os típicos de cada cultura: tablas indianas, derbak árabe, djembés africanos, berimbau, vibrafone e pandeirões do Maranhão.

Desde sua criação, em 1995, já foram produzidos seis CDs, dois DVDs e um livro. Seu último trabalho lançado em CD e DVD é Rupestres Sonoros, um delicado e profundo entrelaçamento entre os cantos indígenas de povos da Amazônia e a arte rupestre brasileira.

Em 2013, o MAWACA lança  o show Inquilinos do Mundo, uma viagem musical pelo universo dos povos nômades, ciganos e refugiados .

16 PALCO | O TREINAMENTO NA ARTE ZEN

Por Marco Lienhard

 

Fui para o Japão para um programa de intercâmbio e  já tocava o piano e  lauta transversal. Chegando ao Japão,  assisti a uma performance do grupo de taiko Ondekoza, primeiro grupo a excursionar internacionalmente e que deu origem ao grupo Kodô. Eu pedi para fazer parte do grupo e o diretor, que era aberto a este tipo de proposta, me permitiu treinar com os membros do Ondekoza. Yokoyama Katsuya, já nesta época (1985),  era um dos grandes mestres do shakuhachi no Japão, e estava excursionando com grupos de taiko e ao assistir uma de suas performances,  conheci o shakuhachi e achei as possibilidades do instrumento muito mais interessantes do que as da flauta transversal. Algum tempo depois,  pedi para ser apresentado ao mestre como aluno e assim iniciei meus estudos com ele.

Yokoyama perto de Tokyo e eu, na época, estava na região de Nagasaki. Muitas vezes eu agendava com ele 10 dias de aulas seguidas e viajava  para Tokyo, uma distância de aproximadamente 2 mil km, e fazia aulas todos os dias pela manhã e estudava sozinho o restante do dia. Ás vezes,  assistia as aulas de outros alunos também. Esse era o estilo do Yokoyama Sensei: nos dias de aula você chegava à casa dele e poderia esperar até 3 horas aguardando a sua vez. Durante a aula o aluno tocava para ele a peça que estava estudando e o sensei o corrigia na frente de todos os outros alunos e muitas vezes pedia a opinião deles sobre a performance que acabara de ser executada.

Por vezes consegui estar com o sensei  por vários meses consecutivos, em outros momentos passavam-se de 2 a 3 meses estudando sozinho e depois eu o reencontrava para avaliar o meu progresso.

O diretor do grupo Ondekoza também queria que o shakuhachi estivesse presente nas apresentações do grupo. Três meses depois de iniciados meus estudos,  eu já estava no palco tocando um peça, em parte forçado pelo diretor do grupo. Foram vários o momentos deste tipo e em todos eu ficava com os nervos à flor da pele. Mas isso também contribuiu muito para meu desenvolvimento como artista profissional.

Concerto de Lienhard em São Paulo, em 2009.

É por isso que muitos artistas recebem novos nomes no Japão, na medida em que evoluem na  carreira. Cada etapa conquistada simboliza um novo nascimento e dai a necessidade de um novo nome. Isto também acontece em alguns clãs de shakuhachi onde o aluno adota parte do nome de seu mestre.

Tradicionalmente,  o aprendizado de artes japonesas pode ser muito rigoroso e por vezes intimidador. Não de forma gratuita, mas sim com o objetivo de forçar o aluno a dar saltos de evolução no seu aprendizado, quebrando as estruturas condicionadas de seu ego.

Minha prática diária como membro do Ondekoza consistia de 5 horas diárias de treino de taiko e mais 3 horas diárias de shakuhachi ao ar livre. O diretor do grupo sempre me incentivava a tocar ao ar livre, pois estudar o shakuhachi em espaços pequenos cria uma ilusão de que seu sopro é forte e tocar ao ar livre e se fazer escutar, mesmo para um público grande, é uma tarefa que exige pulmões vigorosos. Mesmo durante o inverno, e o inverno no Japão pode ser bem rigoroso, eu tocava ao ar livre por 10 minutos esquentava minhas mãos e voltava tocar novamente até completar meu treino diário.

Lienhard no Japão.

Durante a turnê americana do Ondekoza, que durou quase 2 anos, além de treinar todos os dias o shakuhachi e o taiko, eu corria até 30 km por dia, junto com o restante do grupo. Tínhamos transporte apenas para nossos instrumentos e corríamos de cidade a cidade até finalizar a turnê. Muitos membros do grupo abandonaram a turnê ao longo do caminho. Era muito duro para o corpo e eu também desenvolvi uma hérnia de disco por causa desta “aventura.

As peças musicais para o shakuhachi normalmente contêm uma história ou enredo que ajuda o músico na interpretação da peça. A peça que vamos estudar agora, por exemplo, chama-se Miyama Higurashi que quer dizer Cigarra no Vale Profundo. A cigarra japonesa tem um som muito específico e no caso desta peça, o som almejado é o de uma cigarra bem pequena e seu som é representado na notação musical pela articulação das notas ni no ha go no hi, mas tocar esta frase corretamente demanda que o músico tenha escutado esta cigarra ao vivo e possa relembrar esta imagem enquanto toca. Eu praticava esta peça nas montanhas perto de Nagasaki e é deste cenário e deste momento de vida que eu me lembro enquanto toco para o público esta peça.

Zeami, um dos grandes autores de peças do teatro Nô, fala em seus livros e textos de como o ator/artista, deve trazer o público para o seu mundo e criar uma experiência de interação com quem assiste. Ele fala que se o artista pode encontrar dentro de si “a flor” ele pode oferecê-la a platéia transportando-os para o mundo do artista (N.T.: a flor é q metáfora utilizada por Zeami e que simboliza o estado interno do artista enquanto ele realiza sua performance). Muitas vezes eu recomendo estes textos para meus alunos como parte de seu treino no shakuhachi.

O shakuhachi é um instrumento tipicamente japonês, e apesar de ser possível tocar todas as notas da escala temperada de 12 tons ocidental, ele nasceu num contexto histórico totalmente diferente dos instrumentos ocidentais e para conseguir compreender todas as suas nuances, isto demanda que o aluno mergulhe na cultura japonesa. Principalmente no caso de estudantes ocidentais.

Constantemente Yokoyama Sensei recomendava que eu fosse assistir peças de teatro Nô e Kabuki, principalmente o Kabuki que é uma das poucas artes representadas até hoje da mesma forma desde a época medieval do Japão. Ele também sugeriu que eu fosse ver exibições de pinturas tradicionais japonesas, estudar o shodô, caligrafia japonesa, e também a cerâmica e a dança. O objetivo não era tentar entender estas artes do ponto de vista mental e sim receber todas estas impressões e tentar deixá-las transbordar de dentro para fora durante a minha perfomance.

O shakuhachi tem muitos movimentos delicados e simples, mas de difícil execução, é como no shodô, as vezes o ideograma desenhado tem detalhes tão sutis e de rara beleza, pode ser um pequeno traço ou um rabisco, mas conseguir demonstrar a maestria para fazer este traço ou rabisco é o resultado de anos de treino, dai a grandeza do Yokoyama Sensei.

Muitas vezes o alunos ocidentais chegam até mim com muitas perguntas: “Como eu faço isso ou aquilo?” ou “Como você tocou esta frase mesmo?”. O problema é que muitas vezes eu não sei o que eu estou fazendo, eu simplesmente faço. O que quero dizer é que o aprendizado de artes tradicionais japonesas consiste muito mais em tentar copiar o seu mestre do que ficar fazendo perguntas. Qual o beneficio de fazer tantas perguntas e coletar informações se você não evolui no tocar do instrumento?

No Japão você não pode questionar o seu professor. As minhas aulas com Yokoyama Sensei praticamente não tinham explicações. Eu tocava para ele e ele me corrigia e depois tocávamos juntos e eu tinha que entender o que estava fazendo de errado e corrigir.

Eu tenho a impressão de que nós ocidentais fomos treinados para perguntar e muitas vezes sem nem saber porque estamos perguntando, simplesmente perguntamos como hábito, sem propósito algum e de maneira inconsciente. Desta forma evitamos fazer, saímos da ação e ficamos na cabeça.

Eu mesmo estou explicando demais para vocês agora. Mas Yokoyama Sensei me disse: Passe a diante! Compartilhe! Então eu acho importante as pessoas saberem um pouco da minha história para não precisarem viver quase 20 anos de suas vidas no Japão para saber como é estudar o shakuhachi.

Tradução e adaptação: Matheus Ferreira

13 ENTREVISTA | O CORAÇÃO E A ARTE DE RICARDO OSHIRO

Nessa entrevista,  Jorge Miyashiro conversa com  o ator Ricardo Oshiro, integrante do elenco “paraguaio” do filme Corações Sujos , de Vicente Amorim, discutindo sobre a imagem do nipo-brasileiro fora dos estereótipos do japonês atrapalhado .

Continue reading “13 ENTREVISTA | O CORAÇÃO E A ARTE DE RICARDO OSHIRO”

12 PALCO | A MÚSICA BRASILEIRA NO JAPÃO

O compositor Léo Nogueira escreve sobre o fascínio que a  música brasileira, em especial a bossa-nova,  exerce sobre os japoneses

Por Léo Nogueira

Loja de Ryosuke Itoh, proprietário da Tayo Records, que importa música brasileira.

O Oriente costuma exercer um fascínio sobre nós, ocidentais. Essa coisa da cultura milenar, do zen, da sabedoria acima da intelectualidade, enfim, tudo o que é ligado a esse universo que é tão diferente do nosso. E, dentro desse universo, o Japão ocupa um lugar de destaque em nosso imaginário. Eu, quando moleque, via-me muito ligado aos desenhos e séries japoneses que ilustravam minhas tardes, da mesma forma que muitos outros garotos que eu conheci partilhavam dessa minha ligação. A gente se divertia à beça só de imaginar cavar um buraco na terra pra sair no Japão.

Mas com o crescimento,  tal universo não nos abandona; há outros elementos que mantêm a ligação acesa, o cinema, a literatura, a poesia; saindo da arte há a tecnologia. Enfim, a Terra do Sol Nascente possui um ímã que nos atrai, apesar da diferença. Ou melhor, é justamente isso o que nos atrai, afinal, o magnetismo obedece à máxima “os opostos se atraem”. E é justamente  a respeito do outro lado da moeda dessa atração que eu gostaria de tratar neste texto. O encanto que o Brasil exerce sobre o Japão.

Tive o privilégio de viajar ao Japão em três oportunidades e senti na pele o carinho com que os japoneses nos tratam. Eles, que formam um povo sério, tradicional, trabalhador, por sua vez sentem-se fascinados pelo Carnaval, pela alegria e pela informalidade de nosso comportamento. Claro que há um pouco de exagero (e mesmo de mito) nisso, mas a recíproca também é verdadeira. O mais importante nisso tudo, porém, é a relação que eles  têm com nossa música.

Ouso afirmar que eles, por meio de pesquisas, acabam conhecendo mais acerca de nossa música que nós mesmos. Ao passo que nossos meios de comunicação divulgam e difundem a música comercial, descartável e maniqueísta, no Japão é comum, por exemplo, alguém entrar num McDonalds e ouvir Garota de Ipanema. Claro que, como eles são tradicionalistas, não vão muito além do consumo de nossa música já consagrada, principalmente a bossa nova e o samba, que têm presença garantida em muitos estabelecimentos de música ao vivo em todo o Japão, principalmente em Tóquio.

Quando alguns artistas brasileiros, como João Gilberto, Joyce, Marcos Valle, Carlos Lyra, entre outros, apresentam-se por lá, os ingressos se esgotam rapidamente. Muitos destes provavelmente têm mais público lá que aqui. O mais triste é que, como há um total desinteresse de preservação de nossa música por parte das gravadoras daqui, grande parte de nosso acervo vem sendo paulatinamente adquirido pela indústria discográfica japonesa. A continuar nesse ritmo, em poucos anos, quando algum estudante brasileiro fizer um trabalho sobre determinada época da música brasileira, terá que, fatalmente, pesquisar em sites japoneses.

CDs de João Gilberto, em japonês Foto de Alexandre Mauj.

Brasileiros e japoneses

O brasileiro tem em seu DNA a mistura. Por conta disso, apropria-se do que vem de fora e transforma em produto nacional. A música brasileira do século XXI é exemplo disso: pop, rock, reggae, bolero, salsa, tango e muitos outros ritmos e estilos musicais que aportaram por aqui foram rapidamente absorvidos e reincorporados a nossos ritmos populares. Artistas como Lenine, Djavan, João Donato e tantos outros são perfeitos exemplos dessa característica brasileira de apropriação. Com o Japão ocorre algo parecido, mas com resultado distinto. Pela característica cultural do próprio povo japonês o que vem de fora é, sim, executado e reverenciado, mas poucas vezes entra no processo de criação.

Portanto, quando entramos em contato com cantores ou instrumentistas japoneses que se dedicam à música brasileira, notamos que o repertório que executam é sempre o mesmo, ou seja, clássicos da bossa nova e, em menor escala, do samba. Esse excesso de respeito impede que eles recriem partindo do já criado. Claro que há exceções, mas são muito poucas e, na maioria das vezes, com resultado aquém do original. Um exemplo até engraçado: certa vez vi uma roda de samba lá, até tudo muito parecida com as nossas. A diferença era que todos os músicos, tocassem cavaquinho ou pandeiro, tinham a sua frente, em vez de copos de cerveja, estantes com partituras!

Mas o mundo está mudando e, com ele, o Japão (já escrevi sobre isso no texto As Mulheres do Japão, no meu blogue). Já há até desfiles de escolas de samba por lá! E, ainda que timidamente, outros ritmos brasileiros estão chegando à terra de Kurosawa, principalmente a música nordestina, e cada vez mais artistas da nova safra têm aterrissado no aeroporto de Narita. Em contrapartida, e como não poderia deixar de citar, hoje no Brasil há uma compositora japonesa que nada contra a corrente e traduz tudo o que aprendeu de música brasileira em canções próprias. Não vou me estender muito, pois podem achar que se trata de nepotismo, mas queria terminar dizendo àqueles que não conhecem que pesquisem sobre Kana Aoki, uma japa do barulho que, só por mera coincidência, há exatos doze anos leva meu sobrenome e mora em minha residência.

Será o fim do mundo?

Links

 

Léo Nogueira é compositor, com mais de 500 composições gravadas. Escreve no blogue  O X do Poema.