46 KINEMA – OFENSIVA CONTRA DISCRIMINAÇÃO AOS AMARELOS

solpoente

Nesta semana, a novela “Sol Nascente” sofreu um duro golpe da comunidade de  descendentes de orientais no Brasil. O cineasta Mário Jun Okuhara fez um denúncia no Ministério Público contra a prática de discriminação racial pela novela nesta sexta-feira (16). E na última quinta-feira (15), o Canal Yo Ban Boo e o Coletivo Oriente-se lançam vídeos de protesto contra a discriminação ao ator brasileiro de descendência oriental nas produções audiovisuais nacionais. O Canal Yo Ban Boo lançou a paródia “Sol Poente”  em que o ator Kenichi Kaneko interpreta o patriarca de uma família italiana,  Don Luigi.

O mafioso é pai de Antonella (Francine Missaka), jovem corajosa e inteligente que quer escapar do pai super-protetor. Ela namora Akira (Dudu de Oliveira), descendente de japoneses, que quer fugir com Antonella para viver um amor livre. Don Luigi conta com dezenas de capangas para exercer suas vontades, dentre eles, seu fiel “braço direito” interpretado por Eduardo Goto. Hoje não é um dia como qualquer outro, hoje é o dia em que o sol se pôs, hoje é o dia do Sol Poente.

46kinemaimagem01Já o vídeo do Coletivo Oriente-se apresenta uma história sobre um velório. O elenco é formado por Carla Passos, Cristina Sano, Edson Kameda, Gilberto Kido e Keila Fuke. O roteiro é de Cristina Sano e a direção de
Paula Kim. O “ORIENTE-SE” é um coletivo de atores profissionais brasileiros com ascendência oriental. O coletivo tem como objetivo difundir que seus componentes são atores brasileiros capazes de  interpretar diferentes papéis como os atores de outras etnias e que combatem os papéis estereotipados em geral destinados às etnias orientais.

45 KINEMA -YO BAN BOO, UM CANAL PARA VER ASIÁTICOS NO BRASIL

45kinemaimagem04Desde maio deste ano, youtubers têm um canal alternativo para assistir vídeos bem-humorados. Mas ao contrário dos canais que costumam bombar,  Yo Ban Boo não tem protagonistas adolescentes: seus personagens são vividos por atores descendentes de orientais e as histórias giram em torno de seu cotidiano. Cansados de ver  os homens asiáticos interpretando  nerds ou  lutadores de kung fu,  em geral assexualizados, em contraponto com mulheres asiática em papéis de “mulher fatal”, o  produtor de vídeos Leonardo Hwan e seus parceiros Beatriz Diaféria e Kiko Morente criaram o  Yo Ban Boo, com a  proposta de ressaltar preconceitos vividos cotidianamente por descendentes de  asiáticos no Brasil.

Num dos vídeos, por exemplo, a mãe dominadora tenta convencer a filha “inteligente” a não desistir da faculdade. Em outro, o  tio “descolado”  dá conselhos amorosos ao sobrinho homossexual. Há também vídeos que se referem claramente aos preconceitos, como “Coisas que os orientais sempre ouvem”, um dos mais vistos do canal, com mais de 22  mil visualizações. Em geral, as histórias vêm carregadas de humor, que facilita a interatividade com o público.

45kinemaimagem03Leonardo acha que o canal pode incentivar atores e equipes de trabalho audiovisual a buscar espaços em que possam atuar em papeis não estereotipados. Ele acredita que este trabalho de conscientização da representatividade do ator étnico oriental pode vir daqui a alguns anos.Seu trabalho é inspirado em canais étnicos que existem em outros países, como o americano Wong Fu Productions.

Para o produtor, o  Yo Ban Boo  pode ser um trabalho bacana para os atores, e uma vitrine para eles, mas a ideia é que o canal seja objeto de desejo deles tanto quanto é fazer algo na TV ou cinema. Leonardo  acha que o pequeno trabalho do canal, somado a outras iniciativas – como os coletivos que discutem questões sobre racismo na internet e associações de atores, como o Coletivo Oriente-se (cujo canal será lançado em setembro) – podem provocar um “abalo” nos bastidores da produção audiovisual. “Precisamos de roteiristas asiáticos, diretores asiáticos, produtores asiáticos, investidores asiáticos. Só assim teremos papéis asiáticos e não-estereotipados. Um cara branco pode ser muito bem intencionado e querer incluir um asiático em seu filme, e ir atrás de formas para não estereotipá-lo, mas não é a mesma coisa que um asiático escrevendo sobre um asiático. E isso vale para outras minorias marginalizadas no audiovisual também. Precisamos de mais produtores, roteiristas e diretores mulheres, negros, LGBTs”, opina ele.

A postura da Yo Ban Boo se contrapõe ao yellowface praticado pela Rede Gobo, que traz um ator branco (Luís Mello) no papel de um imigrante japonês, na próxima novela das seis.O humor usado nas histórias do Yo Ban Boo é também antagonista ao humor da grande mídia,  que em geral reforça o imaginário popular contra as minorias sociais, étnicas e sexuais, como orientais, negros, mulheres  e homossexuais.

A Strada Filmes, produtora do Yo Ban Boo, já realizou trabalhos de audiovisual para empresas e outras produtoras, e atua  em vários setores do audiovisual. A produtora investe  boa parte do que arrecada em histórias que querem  contar,  como o Yo Ban Boo, “A Vida \o/ de Lucas Batista”, e outras produções que ainda virão como uma série para TV que se chamará “Sobreamor”. A produtora pretende realizar e apoiar filmes e produções que concedem espaço para minorias, como a websérie “Copan”, com temática LGBT, da qual foram parceiros.

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Leonardo Hwan (à frente, à esquerda),  Beatriz Diaféria (à direita), Kiko Morente (ao lado de Beatriz)  e equipe do Canal Yo Ban Boo

38 KINEMA – FICBIC INCLUI MOSTRA DE CINEMA JAPONÊS

O Festival Internacional de Cinema da Bienal Internacional de Curitiba (FICBIC) abre nesta quinta-feira (05), em Curitiba, incluindo Mostra de Cinema Japonês a partir de terça-feira (10), com destaque para animes e a obra do diretor Kon Ichikawa.

Cena de Conflagration.
Cena de Conflagration. Foto: divulgação.

O Festival Internacional de Cinema da Bienal Internacional de Curitiba (FICBIC), que abre nesta quinta-feira (05), em Curitiba,  inclui uma Mostra de Cinema Japonês, promovida pela Fundação Japão e Consulado do Japão em Curitiba. A mostra terá quatro  dias (10, 11, 12 e 13) e será apresentada na Cinemateca de Curitiba, tendo como destaque animes e a obra do diretor Kon Ichikawa.

Entre os animes, os títulos são; Princess Arete, de Sunao Katabuchi, (2001), Genius Party, de Atsuko Fukushima (2007), After School Midnighters, de de Hitoshi Takekiyo (2012), MInd Game, de Masaaki Yuasa, Japão (2004), Genius Party Beyond, de Masahiro Maeda e outros (2008).

Na mostra Kon Ichikawa, os destaques são os filmes Conflagratiion (1958), Irmão mais novo (1960) e A Vingança do Ator (1973).  Nascido em 1915 no oeste do Japão, Ichikawa estudou s em Osaka, mas desde jovem era fascinado pelos shows de marionetes e desenhos animados e, a partir de 1933, passou a fazer parte do departamento de animação de J.O. Studios, em Quioto. Estreou em 1948 como diretor de cinema e, em 1956, dirigiu o épico antiguerra A Harpa da Birmânia (ou “Não Deixarei os Mortos”). Considerada sua obra-prima, o filme é baseado em um romance em que um soldado japonês desafortunado tenta convencer um grupo de colegas a se renderem após o final da Segunda Guerra Mundial.

Outros filmes: Fogos na Planície (1959,)  voltando ao tema da guerra e criando cenas de excessiva atrocidade, com necrofagia, mutilações e canibalismo; Estranha Obsessão (1960),  Olimpíadas de Tóquio (1964, documentário).  Em 1994, foi premiado pelo governo japonês  e, em 2001, o Festival de Cinema de Montreal homenageou-o com prêmio pelo conjunto da obra. Em 2006, o Festival Internacional de Tóquio lhe entregou o Prêmio Akira Kurosawa, também pelo conjunto da carreira. Fez seu último filme em 2006 –  refilmagem de The Inugami Family. Morreu aos 92 anos, vítima de pneumonia em um hospital de Tóquio.

38 CINEMA – DOCUMENTÁRIO ENFOCA BRASILEIROS NO JAPÃO

Já está disponível no Youtube o primeiro episódio da série “O Outro Lado do Mundo”, sobre os 25 anos da comunidade brasileira no Japão. O documentário é dirigido pelo cineasta Roberto Maxwell e patrocinado pela Revista Alternativa e a Alternativa Online e foi lançado na última quinta-feira.

Imagem do docume ntário "Pioneiros".
Imagem do docume ntário “Pioneiros”.

Já está disponível no Youtube  o primeiro episódio da série “O Outro Lado do Mundo”, sobre os 25 anos da comunidade brasileira no Japão. O documentário é dirigido pelo cineasta Roberto Maxwell e patrocinado pela Revista Alternativa e a Alternativa Online e foi lançado na última quinta-feira.

Embora muitos brasileiros vivam no Japão há mais de 25 anos,  foi em 1990 que o governo japonês alterou a legislação de imigração para permitir residência e trabalho aos descendentes de japoneses. “Pioneiros”, o primeiro episódio da série , apresenta três brasileiros que vieram ao Japão até o ano de 1990. São histórias reveladoras de um momento difícil em um país que ainda não tinha estrutura para dar suporte às comunidades estrangeiras.

Os próximos episódios prometem abordar a infância, a juventude, as crenças, o voluntariado e outros temas. Todos os vídeos são legendados em japonês. Maxwell, radicado há mais de 10 anos no Japão, viajou por diversas províncias do Japão em busca de histórias que representassem a diversidade da comunidade brasileira residente no país. Cada episódio tem um tema e apresenta de três a quarto entrevistados.  (Informações extraídas do site Alternativa).

 

 

 

32 KINEMA | O RECADO DE GODZILLA

Lanternas em Chinatown: advertência americana.
Lanternas em Chinatown: advertência americana. Imagem: divulgação.

Por Marilia Kubota

O novo “Godzilla”, de Gareth Edwards é coadjuvante em seu próprio filme, como afirmam as críticas ? Como em todo filme americano, a família está em primeiro plano, assim como a ação do herói.  Mesmo que as câmeras busquem iluminar os dramas familiares, a estrela do filme continua sendo o monstro. E é ele quem os espectadores esperam ver em ação. E o monstro só entra em ação quando luta com os  “mutos” . Estes também são monstros pre-históricos que crescem com a radiação nuclear.

O embate entre os monstros permite  ver  muito além da narrativa de aventuras.  O nome Godzilla é uma transliteração de  Gojira (ゴジラ?), uma combinação de duas palavras japonesa : gorira (ゴリラ?), que significa gorila, e kujira (鯨? or クジラ?), que significa baleia. Ou sea, Gojira seria uma mutação de gorila e baleia. Essa última representaria o lado aquático e  bulk do monstro.

A origem histórica de Godzilla são os testes nucleares do Atol de Biquini, acontecidos em 1954.  É o ano da aparição do mutante japonês nas telas. Os testes nucleares e um incidente com um navio pesqueiro japonês é que desencadeou o filme. Como  relembra Yushikuni Igarashi, em março de 1954, um navio pesqueiro de atum, o Daigo Fukuryûmaru (Lucky Dragon V), foi apanhado pela chuva de partículas radioativas de um dos testes, e todos os 23 tripulantes foram expostos à radiação. Notícias sobre o Lucky Dragon romperam o longo silêncio sobre o estado de guerra nuclear no Japão, um silêncio que foi imposto ao Japão ocupado pelas restrições da censura americana.

Em sua abertura, Gojira aludia ao  episódio e Gareth cita rapidamente o original. Para os que desconhecem a história do Japão ou de conflitos mundiais, a citação passa batida.  Alguns espectadores  se surpreendem porque a ação do filme se desloca de Tóquio para São Francisco.  Para os críticos mais atentos, tudo no filme  é intencional. Desde o fato de um dos thrillers divulgar as cenas em território americano e até por algumas dessas cenas de destruição se passar no bairro de Chinatown.

Os inimigos que lutam com Godzilla são uma espécie de louva-deus gigante. Esse inseto é um símbolo para as culturas japonesa, coreana e chinesa.  Culturas de países que têm se digladiado, nos últimos anos, por disputas de poder no Extremo Oriente. O fiel da balança  nas disputas políticas tem sido os Estados Unidos. Seu poderio atômico  tem mantido o equilíbrio político na região. Nessa leitura,  a nova versão de Godzilla não representa apenas as catástrofes naturais.   O monstro salva os Estados Unidos do ataque dos louva-deus gigante. Não à toa. As ogivas americanas estão sempre preparadas para serem lançadas consta os monstros que as desafiarem.

Nesse sentido, a história familiar,  o tsunâmi  são  dramas secundários. Godzilla continua sendo o monstro que representa o horror nuclear. Se para os japoneses é um trauma permanente, para os americanos é a garantia de supremacia política no cenário mundial.

Godzilla: o monstro nuclear a favor dos EUA.
Godzilla: o monstro nuclear a favor dos EUA.

Bibliografia consultada:  Igarashi, Yoshikuni. Corpos da memória. Annablume, 2011.

30 KINEMA | OSCAR NAKASATO ESCREVE SOBRE "TOKIORI"

Foto: divulgação.
Foto: divulgação.

por Oscar Nakasato

O documentário Tokiori – dobras do tempo, de Paulo Pastorelo, inicia com a voz off de um narrador que revela um olhar externo às histórias que serão contadas.  Não é, porém, a simples curiosidade que leva ao contar. O olhar é de alguém profundamente aderido ao tema e às dezenas de personagens que vão surgindo e revelando os sucessos e os dramas que resumem a aventura do imigrante japonês e seus descendentes no Brasil.

O filme conta as histórias de famílias que se instalaram na década de 1930 no bairro rural de Graminha, município de Oscar Bressane, no oeste paulista. Depoimentos  constituem um painel dos primeiros anos dos imigrantes no país, desvelando uma época em que a tradição e os costumes trazidos do Japão eram bastante presentes. Lembrando a sua juventude, a imigrante Yoshie Yanai  conta que se casou pressionada pela família. Ela não queria se unir  ao  futuro esposo porque sabia que não teria sua própria casa, já que ele era o primogênito e, obedecendo aos costumes, seguiria morando com os pais após o matrimônio.   Os diversos casamentos entre os membros das famílias pioneiras resultaram numa colônia em que todos se tornaram parentes. O documentário conta a trajetória desses  homens e mulheres que atravessaram décadas cultivando a terra. A partir dos anos 1980, alguns deles, impelidos pela crise econômica brasileira, participaram  do processo inverso impetrado por seus pais ou avós: foram trabalhar como decasséguis nas indústrias do Japão.

As diversas estratégias usadas para contar essas histórias dão dinamismo ao filme. Após uma indefinida voz off da leitura de uma carta, ilustrada com fotografias e cenas de filmadoras caseiras, assistimos ao depoimento de um parente que ficou no Japão, ao qual se segue outra voz em off, agora da imigrante anciã. Em algumas passagens, as imagens silenciosas são suficientes para dizer. Por fim, o espectador vê cenas de imigrantes em um navio e, depois,  em um trem, enquanto ouve a mesma indefinida voz off das cartas revelando anotações de um diário sobre a longa viagem do Japão ao Brasil (a morte de uma criança a bordo do navio, a qual é lançada ao mar em um saco com pedaços de ferro; as aulas de língua “brasileira”;  a realização de undokai – gincana esportiva – no convés), a chegada ao porto de Santos e o deslocamento de trem até a Hospedaria dos Imigrantes, em São Paulo.

O entrecruzamento de vozes e imagens colhidas no Brasil e no Japão vai conduzindo o espectador por uma senda descontínua, num vai-e-vem no tempo. Estabelecer as redes de relações familiares é tarefa desse espectador,  o qual,  talvez acostumado a documentários  realistas, tenha alguma dificuldade em compreender a obra autoral  e poética de Pastorelo.

O filme também encanta pela fotografia sensível.  Em mais de uma cena, fotografias em preto e branco impressas em tecidos pendurados em varais balançam ao vento: metáfora de histórias  que se desdobram através do tempo  e se anunciam no título do filme. Em outro momento,  a câmera parece enquadrar a solidão na imagem do velho imigrante, sentado numa cadeira, de costas, o andador ao lado, em frente a um horizonte limpo, quase monocromático,  dizendo de seu desejo de morrer no Brasil e ser enterrado no cemitério de Oscar Bressane: “Minha pai tá lá, minha esposa tá lá…” E na cena mais bonita do filme, compartilhamos o olhar que, de dentro do automóvel, segue a estrada em direção ao sol poente , que mancha o horizonte de amarelo-laranja. Estradas, aliás, são recorrentes no filme, lembrando as travessias dos personagens do Japão para o Brasil, no Brasil e do Brasil para o Japão.

A obra de Pastorelo é feita de imagens, vozes, violão, viola caipira e músicas japonesas. Mas o silêncio também é protagonista em algumas passagens. No final do filme, a voz off que inicia a narração de Tokiori – dobras do tempo retorna:  “(…) me contentei com o silêncio que ele deixou quando partiu, o mesmo silêncio que habitava as fotografias (das famílias dos imigrantes japoneses) que me fascinaram desde o começo…”. Na sequência, fotografias mudas   em preto e branco  finalizam o filme, reafirmando a eloquência da imagem e do silêncio.

29 KINEMA | "TOKIORI" ESTREIA EM CIRCUITO COMERCIAL

Crédito: divulgação.A partir dessa sexta-feira (22), o documentário Tokiori  – As dobras do tempo, de Paulo Pastorello, estreia em circuito comercial no  Espaço Itaú de Cinema, em São Paulo.    A produção,  finalizada em 2011, já foi exibida  na capital paulistana no evento Travessias  em conflito e no Festival É tudo Verdade, em 2012. A partir de 04/12, também entrará no Espaço Itaú de Cinema, em Curitiba.

O filme  conta a história de cinco famílias de imigrantes japoneses que se instalaram na comunidade rural de Graminha, na cidade de Oscar Bessane, que fica a 500 quilômetros a Oeste de São Paulo. Em japonês, a palavra  Toki significa  tempo e a palavra Ori, do verbo Oru, dobrar. Graminha agrupa pequenos sítios tocados por famílias de origem japonesa . Yoshie Sato chegou no Brasil em 1929, aos nove anos de idade, acompanhada dos pais, quatro irmãs e o irmão mais velho. Depois da vida de colono numa fazenda de café na região da Mogiana, chegaram na Graminha por volta de 1936, onde ela e suas irmãs foram o pivô de uma série de casamentos que uniram, em laços de parentesco, as principais famílias japonesas fundadoras do bairro: os Yanai, Yoshimi, Funo e Okubo. Atualmente, a Graminha conta com pouco mais de vinte pessoas, e é difícil de encontrar alguém que não seja  parente próximo. Aos 90 anos, Yoshie é viúva e vive no sítio com a família do seu filho mais velho.Três gerações reunidas sob o mesmo teto.

Para tentar se aproximar dessa experiência de travessia, Tokiori se articula em torno de cinco viagens entre o Japão e o Brasil, realizadas entre 1927 e 1992. Essas idas e vindas, vivenciadas por um ou outro membro dessas famílias, acontecem em períodos específicos nos quais mudanças de ordem econômica e política nos dois países tiveram repercussões diretas sobre suas vidas, emaranhando cada vez mais suas referências identitárias.

Pastorello tem uma ligação sentimental muito forte como o  bairro rural da Graminha, onde passava as férias, em sua infância, na fazendo do avô espanhol. Com frequência eu cruzava essas famílias de origem japonesa nas festas e quermesses da cidade, misturados aos “não- japoneses” – gaijins do município – de origem italiana, espanhola, portuguesa e “brasileira mestiça” (nordestinos e mineiros, sobretudo), conta. Como lugar de memória dessas famílias de imigrantes japoneses, a história da Graminha é inerente à sua identidade mais profunda. Ao mesmo tempo em que elas estão “integradas” à vida cotidiana “brasileira” do município, elas não deixam de delimitar fronteiras móveis, fazendo com que terra natal e terra estrangeira se confundam, como se a Graminha não fosse nem no Brasil nem no Japão, e ambos ao mesmo tempo.

Pastorelo é arquiteto e mestre em Estudos Cinematográficos e Audiovisuais pela Universidade de Paris 3. Começou a carreira de documentarista com  Vale o Homem seus Pertences (52min), coprodução com a Sesc TV que foi ao ar em 2005. Em 2006 foi pesquisador e diretor de Elevado 3.5, e em 2010 , dirigiu o documentário Paisagens da Memória – Vila Nova Cachoeirinha (26min). Atualmente leciona cinema para os alunos do 5o (São Paulo) no quadro do projeto Le cinéma, centans de jeunesse coordenado pela Cinemateca Francesa.

Criada em 2006, a Primo Filmes é  produtora de filmes como  O Cheiro do Ralo ( Heitor Dhalia), Fabricando Tom Zé ( Décio Matos  Júnior)   a série No Estranho Planeta dos Seres Audiovisuais, criada por Cao Hamburger e exibida no  Canal Futura, Trago Comigo, (Tata Amaral) , entre outros. O filme está sendo distribuído pela Lumes Filmes, fundada no ano 2000 pelo cineasta Frederico Machado, responsáve pela distribuição de mais de 200 títulos no mercado brasileiro. Entre eles  David Lynch, Luis Buñuel, Yasujiro Ozu, , R.W. Fassbinder, Kenji Mizoguchi, Claude Chabrol, Akira Kurosawa, entre muitos outros que fazem parte deste que é o maior acervo de DVDs de filmes autorais do país.

O Espaço Itaú  de Cinema, em São Paulo fica no Shopping Frei Caneca  – 3º Piso – Rua Frei Caneca, 569 – Consolação. E em Curitiba, no Shopping Crystal,  Piso L1, na Rua Comendador Araújo, 731 – Batel.

28 KINEMA | MOSTRA DE CINEMA NIKKEI : OS ARTISTAS

Cena de "Tomie Ohtake".
Cena de “Tomie Ohtake”.

Na próxima quinta-feira (31), a MOSTRA DE CINEMA NIKKEI apresenta dois documentários sobre o trabalho de artistas nipo-brasileiros : Susana Yamanouchi e Tomie Ohtake. O vídeo À flor da pele, de Bettina Turner, é um documentário que aborda alguns aspectos da cultura nipo-brasileira contemporânea. São fragmentos, pinceladas, movimentos através dos quais os imigrantes e seus descendentes se expressam e revelam a síntese de seu hibridismo, de sua cultura, de sua alma. O eixo narrativo se desenvolve a partir dos espetáculos solo de Susana Yamauchi:“À Flor da Pele” e “A Face Oculta”. O vídeo mostra a participação da bailarina e coreógrafa no projeto Yugen, quando realizou  intervenção na instalação de Tomie Ohtake.

Bettina Turner é jornalista , fez  especialização na área de fotografia, vídeo e cinema na BBC Open University Production Centre At Milton Keynes, em Londres, em  1982 e “em Edinburgo, Escócia, em 1983. De 1984 a 1992  trabalhou na área editorial, em empresas jornalísticas e agências de publicidade. Desde 1993 é sócia-diretora da Turner Imagem e Comunicação, agência produtora que realiza peças comerciais, didáticas e culturais multimídia. Desde 2002 vem produzindo e dirigindo documentários na área de responsabilidade social. Filmes:  “Virgem Mãe de Nossos Dias” (1994), Lucia Azul” (2000), “À Flor da Pele” (2001/2002) , “Guardiões do Oceano” (2002), “Jovens e o seu Potencial Criativo na Resolução de Conflitos” (2011), Zilda Arns (2011/2012), Grupo de dança Juanita (2011 / 2013 ) ..

E para finalizar a mostra, um documentário sobre a grande dama das artes no Brasil, Tomie Ohtake, realizado por Cacá Vicalzi e Zezo Cintra. Tomie Ohtake é a edição de várias entrevistas e depoimentos da pintora , ados à tevênos últimos anos. Tomie fala muito pouco, mas como na sua pintura, a gestualidade revela a sua grandeza. O DVD reúne os documentários e registros de imagens de O Traço Essencial, Tomie por Haroldo de Campos, Tomi-es e Arcos.

HOJE (25),  a  MOSTRA DE CINEMA NIKKEI abre com a exibição de curtas contemporâneos. Veja a programação aqui. Os filmes serão exibidos no Cine Guarani, a partir das 20 horas, no Portão Cultural – Avenida República Argentina, 3430 – Portão.

 

28 KINEMA | MOSTRA DE CINEMA NIKKEI : DEKASSEGUIS

Cena de Ou est le soleil, de Claire-Sophie Dagnan. Foto: divulgação.
Cena de Ou est le soleil, de Claire-Sophie Dagnan. Foto: divulgação.

Na próxima quarta-feira (30), a MOSTRA DE CINEMA NIKKEI apresenta dois documentários sobre a vida dos descendentes de japoneses,   Permanência, de Hélio Ishii,  e Ou est Le soleil, de Claire Sophie Dagnan.  Permanência  volta o seu olhar para os brasileiros e filhos de brasileiros que estudam em solo japonês. Os entrevistados questionam a situação do dekassegui – o trabalhador sem vínculos , que na imigração ao Brasil veio trabalhar na lavoura, e na imigração ao Japão labuta na indústria.  Os  brasileiros que trabalham no Japão vivem num mundo à parte, seguindo  a cultura latino-americana. Já, os filhos, que frequentam escolas japonesas, passam a vivenciar a cultura japonesa, criando conflitos familiares e até, de comunicação.

Hélio Ishii é formado em Ciências Sociais pela USP e trabalhou como dekassegui no Japão, em 1991. Teve uma experiência marcante. Depois de sua volta, em 1994, começou a pensar em registrar em vídeo experiências como a sua, não a do “sucesso”, mas as mais conflituosas.   A partir de 2000 começou a pesquisar novos formatos e meios de distribuição e deu início ao projeto  “Narco Talk Show” para internet. O programa é uma sátira a indústria de celebridades e usa o formato de “Talk show” para  transformar personagens marginais em celebridade inconvenientes.

A partir de 2003 vem se dedicando a produção de obras cuja temática  tratam das migrações. Em 2004 lançou o documentário Cartas , sobre a experiência de mulheres brasileiras que emigraram ao Japão. Em novembro de 2006 lançou após uma temporada no Japão o documentário Permanência . Foi  curador da mostra  “Olhares Transversais” realizado pela Japan Foundation em novembro de 2006 reunindo documentários e ficções que tratassem dos cruzamentos culturais  preparando assima discussão no cinema para o centenário da imigração japonesa no Brasil. Em 2006 criou o Núcleo Virgulino para desenvolver e promover as atividades de um  grupo de artistas que trabalha de forma coletiva.

Ou est le soleil

Ou est le soleil – Onde está o sol, de Claire Sophie Dagnan, é um documetário que registra depoimentos de artistas e pesquisadores japoneses ou descendentes que moram em São Paulo. O artista visual  Dudu Tsuda, a bailarina Letícia Sekito, o ator  Henrique Kimura , entre  outros, questionam  as diferenças culturais, os modos de ver, de ser e reconhecer como plural o outro. Este filme reconta as trajetórias pessoais, em busca de um lugar na sociedade, de um lugar ao sol , deixando no ar a pergunta sobre a identidade de uma etnia que, depois de um longo tempo insularizada, passa a se tornar diaspórica.

Claire-Sophie Dagnan é formada em ciências sociais, e estudante em mestrado de relações internacionais na universidade Sciences Po em Paris. Após um ano trabalhando no Brasil entre o Rio de Janeiro e a região amazônica para a ONG PlaNet Finance, prepara um intercâmbio em antropologia com a universidade de Nova York. Trabalha sobre um projeto de curta-metragem relatando histórias de mulheres amazônicas.

A MOSTRA DE CINEMA NIKKEI está sendo exibida no Cinea Guarani, às 20 horas, no Portão Cultural – Avenida República Argentina, 3430.

28 KINEMA | MOSTRA DE CINEMA NIKKEI : POLÍTICA

Okuhara filma Hidaka. Foto: divulgação.
Okuhara filma Hidaka. Foto: divulgação.

Na terça-feira (29), a MOSTRA DE CINEMA NIKKEI,  a ser exibida no Cine Guarani, no Portão Cultural, em Curitiba, apresenta dois documentários sobre a segunda fase da  imigração japonesa ao Brasil.  Depois dos primeiros anos  trabalhando nas lavouras de café no interior de São Paulo e do Paraná, muitos arrecadaram um pé-de-meia e mudaram para centros urbanos maiores. Foi o caso da maioria dos que foram se instalar na capital paulista. O documentário “Gamabarê ou Liberdade”, de José Carlos Lage, mostra apresenta  a história do maior ponto de concentração da comunidade nipo-brasileira, o bairro da Liberdade, em São Paulo,  principal ponto de referência comercial e de costumes orientais para a comunidade japonesa no Brasil.

José Carlos Lage é formado em Publicidade e Propaganda, com pós-graduação em comunicação e marketing pela ESPM. Em 1992,  trabalhou em Nova York ,  realizando videoclipes para artistas como: George Michael, Natalie Cole e Tonny Benett. Produziu e dirigiu filmes publicitários para as principais agências de São Paulo: DPZ, Peraltastrawberryfrog, Ogilvy, Sunset Comunicação entre outras Dirigiu os documentários Paulista(2003)  e Um dia de lobo (2005)..

Yami no ichi nichi

Nessa segunda fase da imigração, com o propósito inicial de “preservar os costumes e cultura japonesa”, foram criadas muitas associações de nipo-brasileiros. Se algumas tiveram como objetivo apenas o entretenimento, outras tiveram viés mais político, como foi o caso da Shindo Renmei – a Liga do Caminho dos Súditos. A organização ultranacionalista defendia que os japoneses não havia perdido a guerra –  eram os kachigum, os vitoristas –  e atacavam os que defendiam tese contrária  dos makegumi, os derrotistas.

O documentário Yami no ichi nichi, o crime que abalou a colônia japonesa no Brasil, de Mario Jun Okuhara, traz a versão da história  de Tokuichi Hidaka, que, em 1946, aos 19 anos de idade, foi um dos autores do assassinato do coronel Jinsaku Wakiyama, líder dos “derrotistas” em São Paulo. Hidaka entregou-se à polícia com o restante do grupo e cumpriu 15 anos de prisão. Em liberdade, sofreu a punição da colônia japonesa: foi discriminado, condenado ao ostracismo, sem oportunidade para contar a sua versão. Décadas mais tarde, Hidaka inicia uma busca por amigos e pessoas desse período para reconstruir a memória da época e encontrar o sentido da sua vida no Brasil. Nesta nova versão do documentário, integrantes da família Wakiyama falam do papel exercido por Jinsaku na comunidade nipo-brasileira paulista dos anos 1940 e expõem seu ponto de vista sobre os fatos.

Desdobramentos

O documentário de Okuhara ganha relevância, pois graças a ele, foram ouvidos depoimentos de nipo-brasileiros presos na Ilha de Anchieta, para onde foram levados os envolvidos com a Shindo Renmei. Os presos relataram casos de tortura e violação de direitos humanos.  A presidente da Comissão Nacional da Verdade, Rosa Cardoso, pediu desculpas pelo tratamento racista e detenção de vários membros da comunidade durante a segunda guerra , abrindo caminho para uma retratação pública oficial .

Não houve só presos por crimes,  também foram fichadas no Dops (Departamento de Ordem Pública e Social) e presas pessoas que apenas guardavam livros escritos em japonês, em casa, e agricultores foram expropriados de suas terras, no área costeira brasileira, acusados de ser espiões dos japoneses O governo também fechou escolas, proibiu jornais em língua japonesa e também qualquer tipo de reunião pública na comunidade.

O pedido de desculpas será encaminhado no relatório final da Comissão da Verdade ao governo brasileiro. Os imigrantes japoneses sofreram com os preconceitos desde que chegaram ao Brasil, em 1908. As restrições foram aumentando até culminar no verdadeiro estado de sítio imposto pelo Governo Vargas. Para  Okuhara, as desculpas da CNV são um marco histórico, o início do reconhecimento da violência sofrida pelos japoneses no Brasil.