38 LITERATURA – VIAGEM A UM DESERTO INTERIOR

A escritora Leila Gunther lança “Viagem a um Deserto Interior”, diversificando sua produção, já que seu primeiro livro “O Voo Noturno das Galinhas” era de contos. Ambos foram publicados no Brasil pela Ateliê Editorial.

Ao conhecer  Leila Guenther, inevitável pensar em sua herança oriental. Apesar do sobrenome do pai alemão, Leila tem ascendência japonesa por parte de mãe. E aí vêm os estereótipos sobre quem tem uma outra etnia e é mulher, no Brasil. Pensa-se primeiro na etnia e a seguir no gênero para tentar definir a que grupo o autor pertence. Mas a poesia de Leila foge dos estereótipos, deixando-se tocar de leve pelo charme de pertencer a uma etnia milenar e ser feminina.

Viagem a um Deserto Interior é  dividido em cinco partes: Paisagens de Dentro, O Deserto Alheio, Castelo de Areia, Um Jardim de Pedra e A Possibilidade do Oásis. Cada parte está relacionada com um tema contemporâneo: solidão, o Outro, o estranhamento do cotidiano, o zen-budismo e amor. A autora publicou um primeiro livro, de ficção  O Voo Noturno das Galinhas pela Ateliê Editorial, que acaba de ser lançado em uma edição portuguesa.  O livro foi um dos 17 contemplados pelo Prêmio Petrobrás Cultural de 2012.

De acordo com o poeta e crítico Alcides Villaça, Viagem a um deserto interior contém “um espanto de vida a um tempo estóico e dilacerado, ressurgido de incêndios, vingando um calar histórico. Urro e desprezo podem acalantar a criatura ofendida, as inquietudes podem se abrigar numa forma zen, a paisagem contemplada pode guardar uma guerra dentro. ” O deserto explicita a metáfora do esforço zen-budista , visto no jardim seco zen-budista. A mente é como o jardim e das pedras e areias pode surgir um mundo mais profundo. As angústias não deixem de ser belas, porque constituem a beleza da paisagem humana.  Dominadas, nada resta a não ser contemplá-las, em doce abandono.

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Leila Guenther é formada em Letras pela Universidade de São Paulo e autora do livro de contos O Vôo Noturno das Galinhas (Ateliê Editorial), traduzido para o espanhol (Borrador Editores) e em Portugal.  Este lado para cima, (Sereia Ca(n)tadora, Revista Babel). Participou de  antologias de contos e poesia.  Para os palcos de Robert Wilson, adaptou a peça A dama do mar, de Susan Sontag (N-1 Publications), baseada em Ibsen, e traduziu A velha, adaptação de Darryl Pinckney para uma novela de Daniil Kharms.

POEMA

CIMENTO

Todas as fotos sumiram.
Seu rosto se desfez
como um muro aos poucos encoberto pelo musgo,
um muro cada vez mais rabiscado,
que vai perdendo a pintura,
até desabar com os anos de chuva e descuido
e deixar entrever a casa abandonada.
Uma foto apenas
quase derruída
sobre o meu
enquanto desaparecíamos.
Penso se o cachorro, 
aquele cão que se perdeu na mudança,
hoje também se lembraria de seu rosto futuro
reside em algum lugar de mim
tornado árido e áspero.
Um instantâneo
onde seu rosto se debruçava

 

34 LITERATURA | O JARDIM DE HIDEKO

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Por Akira Yamasaki

no jardim de hideko/equilibram-se colibri / cuitelicópteros

motor de moto na rua /manhã de primavera /  no jardim de hideko / da haste de antena / benteviu-me / três vezes seguida

da porta da cozinha / hideko contempla / o inverno na cerejeira / os olhos distantes / xícara de chá fumegante / nas mãos esquecida / pesam sobre as flores / silêncios de bentevis / e solidões esmagadas

hideko, amanhã a morte virá ao seu jardim, tocará flores e folhagens, e, especialmente, as pedras consumidas pelo silêncio das nossas tristezas incineradas / e então ficaremos juntos à sua espera, com mãos inertes e abraços pendentes de submissão aos caramujos condenados a subir com suas ventosas de cola deslizante pelas nossas pernas, costas e faces nuas, para alimentar-se do adubo e da caspa dos nossos cabelos / hideko, amanhã o sol virá ao seu jardim, escorregará com generosa luminosidade pelas palavras abertas e pelos calos, juntas e cicatrizes das plantas podadas centenas de vezes pelos bisturis do tempo / e então ficaremos juntos à sua espera, com nossas mãos molhadas de igrejas e desapegos, de perfumes indecifrados e de sabedorias de mantas e portais milenares onde os peregrinos param para descansar à sua sombra antes de seguir viagem

Akira Yamasaki é poeta e ativista cultural e mora no Itaim Paulista, bairro da extremo leste da cidade de São Paulo, desde 1964. Natural de Osvaldo Cruz, do interior do estado, foi um dos idealizadores do MPA – Movimento Popular de Arte de São Miguel Paulista, movimento de resistência cultural que impulsionou as artes na região até 1986. Os poemas acima fazem parte do livro Bentevi, itaim, publicado em julho de 2012, dentro do projeto Memória Musical.

 

 

FICÇÃO | FAÇA UM BUDA

Fernando Chammas

Passaram-se muitos séculos, como tudo irá passar, mas ainda podemos reconhecer a imagem de uma pessoa meditando. Pode ser uma estatueta numa vitrine de uma loja qualquer. Se for bem feita, na fisionomia e na postura, ela vai chamar a atenção de um público específico que busca algo mais, e a mensagem dessa imagem é bem clara: medite! Essa é a mensagem da arte budista. A arte clássica budista é a arte da iluminação. Pode ser que seja um Buda de origem indiana, como um iogue, contemplando seu microcosmos, ou de um Buda chinês, gordinho e sorridente, compartilhando a alegria da sabedoria Zen, ou ainda, um Buda japonês, meio Kami meio Buda. Há muitos outros modelos dentro dessa tradição milenar de fazer estátuas budistas, pois também se deve a sua arte muito da sua popularização. Nas imagens mais complexas, há uma infinidade de símbolos de culturas de meio mundo que nos costumamos, de um modo geral, a diferenciá-lo como “oriental”. Porém, quando despido de todas as convenções mundanas, inclusive roupa e cabelo, resta apenas uma figura quase desinteressante se sua expressão geral não explicitasse completamente sua interiorização. No que ele estará pensando? O que ele tem a nos dizer? Bem, para isso, há muitos ensinamentos escritos, mas como todo ensinamento, mesmo decorado, se não interiorizado, não passa de um boneco de barro.

Fonte imagem: http://www.thebuddhasface.co.uk/complete-buddhas-face-blog-index--november-2010-185-c.asp
Fonte imagem: http://www.thebuddhasface.co.uk/complete-buddhas-face-blog-index–november-2010-185-c.asp

Então, tente fazer um Buda de barro e pense como mostrar plasticamente a fisionomia dessa interiorização. Por um lado, você pode acessar milênios de tentativas históricas mais ou menos bem sucedidas. Por outro lado há toda a sua concepção pessoal e cultural. Qual o grau de realismo de um estado metafísico como a iluminação? Porém, você não pode perder de vista que esta interiorização é totalmente lúcida. Esta imagem deve ser a máxima expressão da ilusão da realidade. Buda está acordado e você está sonhando com ele e é por isso que ele tem uma forma.

Ao fazê-lo, coloque-o ao tempo e deixe o tempo passar sem mais nenhuma interferência racional ou emocional dramática de preservação da sua obra e sua assinatura. Deixe-o ficar verde de musgo, e talvez, deixe-o desintegrar-se. De modo algum, deixe de observá-lo com nossa misteriosa memória e abstração das coisas. Então e só assim, sua arte estará completa, e o ensinamento interiorizado.

14 FICÇÃO | GENJI MONOGATARI – Livro um

Poema 1

Sussurros de favorita agonizante

pelo menos

através do desejado

nós fomos

porque vou sozinha

como queria viver[4

Poema 2

A criança desprotegida

ao som do vento

que cola o orvalho

na charneca de Takagi,

meu coração vai,

à deriva, no lilás[5]

Poema 3

Coro de grilos sob um céu sem nuvens

incessante

não pára nunca

grilo como sino

a noite toda –

lágrimas caem[6]

Poema 4

Resposta da avó aos grilos

sobre moitas

sussurrantes de insetos

orvalho-lágrimas

de quem vive

nas nuvens[7]

Poema 5

O destino do jovem principe

flor desprotegida do galho

em meio ao vento forte

selvagem e intocada

pelas mãos daqueles

que choram a morte[8]

Poema 6

Lamento ao ver o leque da favorita morta

um mago podia ir

e buscá-la,

por mensageiro ensinar-me

onde seu espírito

repousa[9]

Poema 7

Lágrimas do imperador sob a lua de outono

homens sobre as nuvens

deslizam

quando a lua

submerge

no céu[10]

Poema 8

A taça real

laços púrpura

simbolizam união

diz o pai,

olhando nos olhos

de dois jovens[11]

Poema 9

Réplica do ministro ao brinde real

nada pode dividir

união selada –

nem o desvanecer

de um dos lados

em púrpura[12]

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[4] WALEY, 1965, p. 9.

[5] Id., ibid., p. 11.

[6] Id., ibid., p. 12.

[7] Id., ibid., p. 12-13.

[8] Id., ibid., p. 13-14.

[9] Id., ibid., p. 14.

[10] Id., ibid., p. 14.

[11] Id., ibid., p. 19.

[12] Id., ibid., p. 19.

 

 

 

10 FICÇÃO | ERA A FESTA DAS FLORES

Por Francisco Handa

Foto: Júlio Covello

Quando passou pela Praça da Liberdade, a segunda estação do metrô a partir da Praça da Sé, em sentido sul, verificou algo diferente: a instalação na qual havia monges de cabeças raspadas e um pequeno altar. Não era um altar comum. Numa espécie de banheira estava em pé a imagem de um Buda. Diferente dos outros, este era um menino, com os cabelos encaracolados, olhos finos como os dos orientais, lábios grossos como os de uma criança. Inicialmente ficou acanhado, queria se aproximar, entretanto algo o impedia. Chegou perto, ao que um monge, diferente dos demais, de pele escura e sorriso intenso, fora percebido. Cobria-lhe o corpo uma vestimenta amarelada, quase açafrão, e os pés descalços. Apontou este em direção ao altar. Aquela imagem tinha o braço direito que apontava o céu, o outro os próprios pés. Ficou intrigado, por fim contemporizou-se.

Uma fila de seis a sete pessoas se formara, cada um esperando a vez para ficar diante da imagem. O que verificou foi o seguinte: com uma concha posta na bacia em que estava a imagem do Buda, retirava da mesma uma porção de um líquido marrom, parecia chá, e derramava sobre os ombros e na cabeça do menino Buda. Era isso. Não questionou neste momento e resolveu seguir os passos dos outros. Havia pessoas que se aproximavam e perguntavam do que se tratava. “Estamos comemorando o aniversário do Buda Shakyamuni”, explicou um que dava assistência.  Outras intervenções eram feitas como “o que significava banhar a imagem”, bem como “para que servia isso”.  Num canto, um monge mais velho abriu um sorriso demorado. As pessoas estavam preocupadas demais por achar um significado ou uma serventia para o ato simbólico. Nenhuma resposta bastava, por isso as perguntas cessaram por algum momento.

Mas indiferente ao pequeno tumulto, sem dar muita atenção ao ocorrido, aproximou-se do altar. Havia algo de convidativo. Com a concha recolheu o chá – realmente era chá, um tipo adocicado – e aplicou sobre o corpo do menino. Sentiu o próprio corpo sendo banhado e emocionou-se. Mais uma vez, o monge de veste açafrão, estava próximo com seus olhos oceânicos profundos.  Em instantes tinha desaparecido. Tentou procurar de um lado, de outro, sem que ele fosse visto, pois naquele momento um grupo saia apressadamente do túnel do metrô.

Antes daquele acontecimento, tinha ouvido falar de Buda, algo exótico demais para as suas preocupações do cotidiano. Fazia cursinho no Anglo e não poderia deixar-se levar por divagações que o tirava da realidade. Mas ele tinha um colega que estudava para prestar o vestibular para filosofia. Quando se encontraram, contou a ele tudo que tinha ocorrido. O amigo ficou interessado e procurou saber mais a respeito. Claro, o budismo não pertencia ao conhecimento da filosofia grega, a base de todo conhecimento especulativo ocidental. Mas não se mostrava uma religião como as outras, misteriosas e proféticas. Talvez, por isso o assunto mereceu atenção.

– Espere até amanhã, eu vou pesquisar mais a respeito.

Independente das informações que o amigo poderia lhe acrescentar, não se tratava de preocupação, mas certa atração por algo que não compreendia direito.  Nunca soube direito do que se tratava, senão o pequeno altar que a avó mantinha no quarto, com uma plaqueta colocada dentro em homenagem ao ancestral imediato: o avô. Tinham lhe dito que o avô era o Hotoke, que podia ser entendido também como Buda.  Existia, por outro lado, um Buda, alguém do passado, dos rincões da Índia, que teria sido o primeiro deles, iniciando o que passaria a se chamar de budismo.

Era desta que se tratava a Festa das Flores, assim estava anunciado numa faixa próximo ao local da comemoração.  Havia muitas flores naquele altar, o mais enfeitado jamais visto, num pequeno altar. Um exagero de flores e cores diversas.  Era assim que os budistas homenageavam o nascimento de Buda. Ficou sabendo depois que o Buda, antes chamava-se Siddharta Gautama, o príncipe do reino de Kapilavastu, no norte da Índia, quase na fronteira do atual Nepal. Uma cidade estado, governado então pelo rei  Suddhodana, da casta guerreira.

Por longos anos, Suddhodana não pode ter um herdeiro com a esposa Mayadevi, até que numa noite, assim reza a lenda, teria sonhado com um elefante branco, de seis presas. Este foi o sinal para a anunciação das boas novas. A rainha estava grávida de um menino, apesar de seus cinquenta anos. Numa viagem que a rainha fizera em direção ao seu país de origem, de onde, conforme o costume, deveria dar a luz, os acontecimentos apontaram outra direção. Antes da chegada, num jardim maravilhoso, o jardim de Lumbini, a rainha interrompe a viagem para repousar.

Foi quando sentiu as dores e lá mesmo deu nascimento ao único filho. Era o quarto mês do calendário lunar, oitavo dia. Aquela criança, assim que veio ao mundo andou: dez passos para o norte, dez passos para o sul, dez passos para o leste, e dez passos para o oeste. Parou e apontou acima com o braço direito e abaixo com o esquerdo.  Teria anunciado “entre o céu e a terra, sou um ser único”.

Durante uma semana as comemorações ocorreram na Praça da Liberdade, para encerrar no sábado. Neste dia, para conferir, o amigo e ele, foram assistir os acontecimentos. Havia um elefante branco, em cujo dorso um pequeno altar abrigava a figura do Menino Buda. Uma corda de uns quinze metros era puxada por crianças, de até sete anos. Tratava-se de chigo, crianças em estado de pureza, isentas de lembranças das existências anteriores, vestidas como as do Nepal, homenageavam a chegada do Menino Buda.

Enquanto assistia o cortejo festivo atravessando a Praça da Liberdade em direção à rua Galvão Bueno, do outro lado, avistou o monge das vestes açafrão. Fazia o mesmo, apreciava o espetáculo.

Desta vez, o amigo completou as explicações. Depois do nascimento, a mãe, Mayadevi faleceu devido o esforço do parto. Ao menino deram-lhe o nome Siddharta. O pequeno Siddharta ficou aos cuidados de Prajapati, irmã mais nova de Mayadevi.  Muitos vieram felicitá-lo, trazendo presentes e poemas, e entre eles, a visita do asceta Asita. Por longos anos, encontrava-se retirado do mundo, habitando as florestas numa vida de total renúncia. Asita tinha que conferir uma profecia. Pediu ao rei que deixasse carregá-lo por instantes. Assim fez e percebeu no corpo do menino os sinais.

Entregou-lhe a criança e juntando as palmas e prostrando-se venerou o enviado. De seus olhos secos, endurecidos pelos árduos exercícios, lágrimas jorraram. Então, o rei perguntou-lhe que motivo tinha para a preocupação.

-Haverá então uma má fortuna assombrando o pequeno?

O homem santo arrumou a postura e confessou.

– Majestade, a minha idade avançada impedirá que venha a participar deste acontecimento, por isso, de tristeza e de alegria derramo lágrimas.

Quis saber mais a respeito.

– Este menino, se permanecer no palácio será um grande governante; mas se abandonar o lar será o salvador do mundo.

Mal o cortejo se afastava, o som das flautas e o timbre da marimba desaparecendo na esquina, estava ele, desta vez, ao lado do monge das vestes açafrão. Olhou-o profundamente nos olhos e viu, por segundos, uma história que avançava por dois mil e quinhentos anos. Muitos outros tinham nascido depois daquele e igualmente experimentado a Iluminação.

– Mas quem é você, afinal? – lançou a pergunta de forma direta.

– Ninguém muito especial, meu nome é Ananda.

Francisco Handa é Doutor em História Social pela Unesp, monge  do Templo Busshinji (tradição Soto Zen), Presidente da Comissão das Atividades Literárias em Português, da Sociedade Brasileira de Cultura Japonesa e Assistencial – SP e membro fundador do Grêmio Haicai Ipê.