53 LITERATURA – “SONO”, DE HARUKI MURAKAMI É UMA FÁBULA SOBRE TERRORES FEMININOS

No conto Sono (Alfaguara, 2015, tradução de Lica Hashimoto), de Haruki Murakami, a protagonista está há 17 dias sem dormir. Ela é uma dona-de-casa japonesa com 30 anos, com marido dentista e filho pequeno. A insônia começa quando tem um pesadelo, e logo após, a visão de um velho magro de cabelos brancos ao pé de sua cama. O susto provoca o despertar contínuo.

A protagonista, sem nome, tem uma rotina monótona: vai ao mercado, cozinha, limpa a casa, lava a roupa e à tarde faz natação ou vai ao shopping. Eventualmente faz sexo mecanicamente com o marido. Durante o período insone, passa a desfrutar de prazeres clandestinos, como a leitura do livro Anna Karenina, de Leon Tolstoi, beber conhaque e tomar chocolate. Note-se que estas eram atividades corriqueiras em sua juventude, que ela deixou de fazer quando casou. Mais adiante, ela rodará de carro a esmo pela cidade.

É sintomático que o livro que a insone escolhe para ler seja Anna Karenina. O romance narra a história de uma aristocrata casada que tem um caso extra-conjugal. Assim como a personagem russa, a mulher precisa de algo que a tire da rotina. A leitura do romance a desloca para outro tempo e espaço, afastando-a da realidade prática.

“Após verificar que meu marido dormia, fui me sentar no sofá da sala e, sozinha, tomei o meu conhaque e abri o livro. Durante a primeira semana reli três vezes Anna Karenina. Quanto mais eu lia, mais eu descobria coisas novas. Esse longo romance possuía muitos segredos e estava repleto de respostas. E nas respostas descortinava-se um novo segredo. Era como uma caixa artesanal em que dentro de um mundo havia outro mundo pequenino e, no interior deste, outro mundo ainda menor. Todos esses mundos formavam um universo complexo. Um universo que sempre existiu e que aguardava ser descoberto pelo leitor. O meu eu de antigamente só conseguia desvendar uma pequena fração desse universo. Mas o meu eu atual era capaz de enxergar um mundo imensamente maior. Conseguia entender o que o grande Tolstoi quis dizer, ler nas entrelinhas, entender como estas mensagens estavam organicamente cristalizadas em forma de romance, e o que nele de fato superava o próprio autor. Eu conseguia enxergar isso tudo como se estivesse em pé no topo de uma colina e contemplasse a paisagem.” (Páginas 86 e 87)

Segundo Ricardo Piglia (O último leitor, Companhia das Letras, 2006), “a leitura de um romance (no romance) é um exercício de construção da passagem e do cruzamento entre ficção e realidade”). Murakami é especialista neste cruzamento, construindo túneis, bibliotecas, corredores escuros e poços em suas histórias. A leitura  é um ponto de passagem que permite ao leitor ser um outro. É a detecção de algo falta na vida. A saída do mal-estar existencial de Anna Karenina é o adultério e o suicídio.Anna Karenina é também leitora de romances (em uma cena, é retratada num trem, lendo um romance inglês) e representa a modernidade. No século XIX, a leitura de romances era considerada adequada ao universo feminino. As mulheres eram vistas como criaturas de capacidade intelectual limitada, imaginativas, frívolas e emotivas. A leitura de jornais era oposta à leitura de romances. Como relatavam acontecimentos públicos, estavam reservados ao público masculino.

A mulher insone de Murakami identifica-se com a angústia da personagem russa. A insônia a conduz à leitura e outras pequenas transgressões a um cotidiano sem sobressaltos. Ela não chega a concretizar o adultério, embora os passeios noturnos indiquem o desejo latente.

Além de Tólstoi, outra personagem leitora famosa na literatura é Madame Bovary. Para muitos escritores, tais personagens eram o signo da mulher oprimida que deseja emancipação.[/highlight] Murakami já investiu no tema feminino, na trilogia 1Q84 (Alfaguara, 2009/2010) e no livro de contos Homens sem mulheres (Alfaguara, 2015). O conto Sono aponta para um aprofundamento da discussão. O melancólico é que o desfecho da história continua seguindo o padrão do século XIX de Anna Karenina.

Haruki Murakami (村上春樹 , nascido em 12 de Janeiro de 1949), em Quioto, Japão. Em 1986, partiu para a Europa e depois para os EUA, onde acabaria por se fixar. Escreveu o primeiro romance Hear the Wind Swing em 1979, livro ainda não traduzido para português, mas seria em 1987, com Norwegian Wood, que o seu nome se tornaria famoso no Japão. Sua obra foi traduzida para 42 idiomas e recebeu importantes prêmios. Livros traduzidos no Brasil: Caçando carneiros (2001, relançado em 2014), Norwegian Wood (2005, relançado em 2008), Dance, dance, dance (2005, relançado em 2015), Minha querida Sputnik (2003, relançado em 2008), Kafka à beira-mar (2008), Após o anoitecer (2009), Do que eu falo quando eu falo de corrida (2010), 1Q84 (3 volumes – 2012, 2013), O Incolor Tsukuro Tazaki (2014), Romancista como vocação (2017).

SONO | Haruki Murakami

Editora: Alfagura;
Tradução: Lica Hashimoto;
Ilustrações: Kat Menschik;
Quanto: R$ 29,90 (120 págs.);
Lançamento: Março, 2015

 

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52 LITERATURA — HIROMI KAWAKAMI NARRA A SOLIDÃO EM “A VALISE DO PROFESSOR”

‘A valise do professor’, de Hiromi Kawakami, foge de estereótipos romanescos.

51literaturaimagem01Em A valise do professor, ganhador do Prêmio Tanizaki, um dos mais prestigiosos do Japão, Hiromi Kawakami apresenta um romance inusitado entre uma mulher adulta e desiludida e um professor de literatura. O romance foge a todos estereótipos: a protagonista não é bela e decidida; seu par não é jovem e forte.

Tsukiko, 38 anos, uma mulher solitária e sem grandes objetivos na vida, costuma frequentar um bar. Ali, encontra casualmente um ex-professor de ensino médio, Harutsuna Matsumoto, trinta anos mais velho que ela. A princípio, aproximam-se pela coincidência de gosto culinário. Ao longo da narrativa, ela o chama apenas de Professor, por ter esquecido seu nome.

“Nessa noite bebemos ao todo cerca de cinco frascos de saquê. Ele pagou a conta. Na vez seguinte em que nos encontramos no bar para beber, foi a minha vez de pagar. A partir da terceira vez, separamos a conta, e cada um pagou sua parte. Este sistema continua, desde então. O temperamento de ambos foi provavelmente a razão de termos continuado a frequentar o estabelecimento assiduamente. Sem dúvida, não só a preferência pelos tira-gostos é semelhante, como também a forma de se relacionar com as pessoas. Apesar da diferença da idade, mais de trinta anos, sinto-me muito mais próxima dele do que de amigos da mesma faixa etária.” (pág. 13)

O Professor é um homem já maduro, formal e tradicional em sua maneira de se relacionar com os outros. Sempre com sua valise, sua severidade contrasta com a doçura de Tsukiko. O Professor ensina literatura e é culto. A ex-estudante, desatenta, não sabe recitar poemas japoneses, nem distinguir uma árvore de cerejeira.

Entre encontros e desencontros no bar, eles combinam passeios. Num domingo de verão, vão a uma feira perto de uma estação de trem; em outro, num outono, vão colher cogumelos com o dono do bar. Neste passeio, o Professor revela que foi casado, e sua mulher, numa saída, contrariando a ele e seu filho, comeu um cogumelo alucinógeno que a fez ter um ataque riso. Dez anos depois deste episódio, ela fugiria.

Alguns dias depois visitar a família, na comemoração de um  Ano Novo, Tsukiko tem um acidente doméstico. Aí ficamos sabendo de sua sensação de deslocamento na vida:

“A culpa é do retorno da casa agitada por minha mãe, irmão e esposa, sobrinhos e sobrinhas, os quais raramente visito apesar de vivermos no mesmo distrito. Há muito deixei de sentir esse tipo de mal-estar familiar. O problema é que de alguma forma pareço me sentir insatisfeita. É como, por exemplo, quando você encomenda alguns vestidos do seu tamanho, mas, no momento em que os veste, um deles está curto demais, outro de tão longo arrasta a barra pelo chão. A surpresa faz você despir as roupas, mas ao colocá-las em frente ao corpo, constata estarem todas exatamente do seu tamanho. É exatamente assim.” (Página 76)

O relacionamento conflituoso com de Tsukiko com a mãe é semelhante à do Professor com a ex-mulher. O desconforto familiar é um ponto de comunhão em ambos: a harmonia do amor familiar é rompida, o que explica a solidão, e a entrega ao álcool. Em alguns momentos, o leitor se dá conta que a vida de Tsukiko é dividida entre a realidade e o delírio.

O próximo encontro é numa festa de hanami – contemplação de floradas de cerejeira. Na festa, o Professor reencontra uma ex-colega, e Tsukiko, sai com outro ex-colega, Kojima. Aparentemente, cada um encontra outro par, mas Tsukiko e o Professor acabam se reaproximando para jogar Pachinko (máquinas de jogatina no Japão). Kojima ainda insiste em se relacionar com Tsukiko, mas ela descobre que seu amor é o Professor.

Um ponto controverso na tradução é a citação de pratos da culinária japonesa. Muitos são petiscos de izakaya (bar japonês) e estão relacionados às estações do ano. É um pouco difícil, para quem conhece esta culinária, decifrar que “enrolado de pasta de peixe” é kamaboko, ou “biscoito de arroz com pimenta” é okaki.

Hiromi Kawakami nasceu em Tóquio em 1958. Estudou ciências biológicas na Universidade de Ochanomizu e foi professora até 1994, quando estreou na literatura com o romance Kamisama [Deus]. Com Hebi o fumu [Pisar uma cobra], recebeu em 1996 o Prêmio Akutagawa. Desde então, vem sendo reconhecida e laureada em diversas premiações importantes, incluindo o Prêmio Tanizaki de 2001, por A valise do professor.

A VALISE DO PROFESSOR | Hiromi Kawakami

Tradução: Jefferson José Teixeira;
Editora: Estação Liberdade;
Quanto: R$ 34,90 (232 págs.);
Lançamento: Maio, 2012.

 

51 LITERATURA – AKIKO YOSANO E O PODER DA POESIA

por Ayuko V. Sainohira

Japonesa, poeta, escritora, crítica literária, pesquisadora, educadora e ativista social. “Viveu” intensamente o agitado período do final do Século XIX até o início da II Guerra Mundial. Uma das mulheres mais famosas de sua época foi também a protagonista do Romantismo Literário no país.

50LITERATURAimagem01Akiko Yosano nasceu em Ōsaka, em 07 de dezembro de 1878 (11º ano da Era Meiji) e faleceu em Tōkyō, em 29 de maio de 1942 (17º ano da Era Shōwa). Seu nome de nascimento era Shō Hō, e ao se casar se tornou Shō Yosano. Akiko é seu pseudônimo como escritora.

Sua família de origem administrava uma loja de doces tradicionais na cidade de Sakai, e Akiko, boa na matemática, cresceu ajudando na loja. Aos 9 anos ingressou numa escola de sinologia e ainda na infância, aprendeu a tocar koto e shamisen, instrumentos japoneses de cordas. Na sua adolescência mergulhou na leitura de revistas literárias, romances contemporâneos e também clássicos antigos.

Por volta dos 20 anos, começou a publicar seus poemas em estilo lírico (tanka) em revistas e participou ativamente de um grupo de estudo literário para jovens. Em 1900, conheceu pessoalmente Tekkan Yosano, jovem maduro e energético escritor em ascensão. Contraindo uma relação amorosa com Tekkan (extraconjugal para ele na época), publicou seus tanka na revista Myōjō, da editora Shinshi-sha fundada pelo próprio Tekkan. No ano seguinte, saiu de casa e foi morar em Tokyo com Tekkan, e na Capital, publicou, com colaboração do namorado, sua primeira coletânea de poemas Midare-gami, aos 22 anos, usando o pseudônimo Akiko Hō. A obra, que desenha honestamente a sensualidade da mulher japonesa, impactou e chamou atenção da sociedade, e Akiko se estabeleceu como poeta do Romantismo. No mês seguinte da publicação do livro, em 1901, casou-se com Tekkan Yosano e com ele, teve doze filhos (perdeu um recém-nascido).

Em 1904, durante a Guerra Japão-Rússia, publicou o polêmico poema Kimi shinitamoukoto nakare, um libelo a favor da vida e contra guerra, e debatendo corajosamente com o escritor Keigetsu Ōmachi, seguidor da política nacionalista, opositor ferrenho da autora. Em 1911, colaborou com sua obra à 1ª edição da revista Seitō, primeira revista feminina do Japão, de literatura e ideologia social.

Em 1912, o jornal Yomiuri-shinbun iniciou a série Nova Mulher e tratou Akiko Yosano na sua 1ª edição, então, no dia seguinte, na partida dela para a Europa reuniram-se no porto mais de quinhentas pessoas, amigos, admiradores e curiosos, para a sua despedida. Akiko passou quatro meses em Paris, França, e conheceu também Inglaterra, Bélgica, Alemanha, Áustria e Holanda, junto com o marido que permaneceu na Europa mais tempo. Esta viagem gerou, dois anos depois, o livro Pari-yori (De Paris), assinado pelo casal, e nele discutiam a necessidade de liberdade da mulher em receber educação.

Com muitos filhos e a escassez de trabalho de Tekkan, o casal Yosano passou dificuldade financeira, e praticamente os escritos de Akiko e a rede de amizade do casal sustentavam a grande família, até Tekkan se tornar professor universitário, em 1919.

Em 1921, junto com o arquiteto I. Nishimura, o pintor e gravurista H. Ishii e Tekkan criaram a escola técnica de arte Bunka Gakuin, em Tokyo. A instituição foi a primeira escola privada mista no Japão, resistindo a repressão política durante a II Guerra Mundial e logo ganhou fama de “símbolo da liberdade, inteligência e arte”.

Em 1923, Akiko perde um grande trabalho literário pela força da natureza: o incêndio provocado pelo Grande Terremoto de Kantō queimou a edição pronta a ser publicada da obra Shin-Shin’yaku Genji Monogatari (Tradução Renovada da História de Genji) e também Genji Monogatari Kōgi (Palestra sobre História de Genji), que estavam guardadas na escola Bunka Gakuin. A obra, tradução moderna e integral da clássica do século X, da autora original Murasaki Shikibu, já era uma reescrita de sua publicação anterior, no entanto, com nova e ampla pesquisa. Mas a paixão pela arte venceu a tristeza desta perda: Akiko escreveu pela terceira vez a tradução do livro – aproximadamente dez mil páginas manuscritas-, e finalmente conseguiu publicá-la em 1938, quinze anos depois. Os fundadores da escola, inclusive casal Yosano, reconstruíram-na imediatamente após o Terremoto.

Em 1940, Akiko sofreu um AVC, ficando paralisada, e, após quatro meses em coma, faleceu em 1942. Deixou um grande volume de tanka (50 mil), traduções de obras clássicas japonesas para o japonês moderno, poemas em versos livres, pesquisas literárias, livros didáticos, artigos de crítica política e social, etc.. Publicou mais de 70 livros em vida. Teve grande contribuição para o movimento feminista no Japão: incentivando a independência econômica e psicológica da mulher, a sua participação política e a liberdade pela educação.

約束

いつも男はおどおどと
わたしの言葉に答へかね、

いつも男は酔つた振。
あの見え透いた酔つた振。

「あなた、初めの約束の
塔から手を取つて跳びませう。」

Compromisso

Sempre o homem,
sem jeito,
não sabe responder
às minhas palavras.

Sempre o homem
finge-se de bêbado.
Teatrinho barato.

“Então, meu bem,
vamos pular lá da torre,
de mãos dadas,
tal como você se comprometeu
lá no início.”

如何に若き男

如何に若き男、
ダイヤの玉を百持てこ。

空手しながら採り得べき
物とや思ふ、あはれ愚かに。

たをやめの、
たをやめの紅きくちびる。

Ei, Moço…
Ei, moço,
traga para mim
cem esferas de diamante.

Acha que consegue extrair
sem nenhum esforço?
Ai, que tonto!

Lábios vermelhos
de uma moça,
da mulher delicada e sensível.

男こそ慰めはあれ、
おほぎみの側にも在りぬ、
みいくさに出でても行きぬ、
酒ほがひ、夜通し遊び、
腹立ちて罵りかはす。

男こそ慰めはあれ、
少女らに己が名を告り、
厭きぬれば棄てて惜まず。

Homem

Os homens têm distrações:
Aproximam-se de autoridades,
Participam de guerras santas,
Comemoram com bebidas alcoólicas,
Brincam a noite toda,
Insultam ao ficar com raiva.

Os homens têm distrações:
Aproximam-se das mocinhas,
Abandonando-as ao se saciarem
e desprezando-as sem pena.

わが見るは人の身なれば、
死の夢を、沙漠のなかの
青ざめし月のごとくに。
また見るは、女にしあれば
消し難き世のなかの夢。

Sonhos

Num sonho, fui alguém.
Sonhei com a morte
como se fosse a lua pálida no deserto.
Num outro sonho, fui mulher.
Sonhei com a sociedade;
não se pode eliminá-la.

伴奏

われはをみな、
それゆゑに
ものを思ふ。

にしき、こがね、
女御、后、
すべて得ばや。

ひとり眠る
わびしさは
をとこ知らじ。

黒きひとみ、
ながき髪、
しじに濡れぬ。

恋し、恋し、
はらだたし、
ねたし、悲し。

Melodia Companheira

Sou mulher orgulhosa,
por isso,
eu sofro.

Suntuosos vestidos,
bens e ouro,
posição de madame.
Quero tudo!

O vazio do sono solitário.
Não saberá meu homem.

Olhos pretos,
cabelos longos.
Todos molhados.

Que saudade!
Que chato!
Que irritante!
Que triste!

Livro: 『晶子詩篇全集』Coletânea de Poemas de Akiko
Autora: 与謝野晶子Akiko Yosano
Editora: 青空文庫Aozora Bunko, 2012
(original: 実業之日本社Jitsugyō-no-Nihonsha, 1929 (4º ano de Era Shōwa)
Capítulo: 薔薇の陰影、雑詩廿五章 “Nuance de Rosa, 25 poemas diversos”
Artigo e Tradução: ビトリア齊之平Ayuko V. Sainohira, 2017

Ayuko V. Sainohira é japonesa, radicada em Vitória do ES/Brasil desde 2002. Professora de língua japonesa, tradutora, musicista e regente de coral.

50- A TRANSCRIAÇÃO DE POEMAS DE YOSA BUSON

Escotilha19imagem01A borboleta e o sino – uma antologia de haikus (Cultura e Barbárie Editora, 2016, tradução de Sérgio Medeiros) é um esforço de mudar poemas japoneses de Yosa Buson para a língua portuguesa. Sérgio Medeiros emprestou a expressão “poemas mudados para o português”,usada por  Herberto Hélder, que traduziu haicais e tankas, reunidos na antologia O bebedor nocturno. Neste empréstimo, o tradutor indica o caminho da transcriação poética, cotejando versões em inglês e francês e rudimentos de japonês.

A borboleta e o sino é uma publicação artesanal do selo catarinense Cultura e Barbárie. Além de haicais, separados pela estação do ano, traz reproduções de ilustrações de Egon Schiele. O título é uma referência ao poema mais conhecido de Buson:

no sino do templo
dorme
uma borboleta

A antologia traz os poemas em romaji, a transliteração da língua japonesa para o alfabeto romano. E também notas de rodapé para explicar aspectos da cultura japonesa, como este:

a raposa vem
vestida de cortesão
nesta primavera

De acordo com a nota, as raposas se fantasiam para pregar peças. Para o leitor não iniciado, cabe uma explicação maior: A raposa (kitsune) é um animal sagrado na mitologia japonesa. Tem poderes mágicos. Em geral, transforma-se numa bela moça para seduzir rapazes. Aqui, vê-se a raposa travestida num príncipe.

Há ecos intertextuais, referências à poesia clássica:

chego aos arrozais:
ouço a lua claramente
e percebo as rãs
***
no fundo do lago
uma sandália de palha:
chuva de granizo

O primeiro poema alude ao canto da rã, tema clássico da poesia chinesa e japonesa. O tema (kigo) foi subvertido por Bashô, no poema: velho lago / barulho de água / a rã salta. Com o segundo poema, Buson teria respondido a seu mestre com a percepção da transitoriedade de todas as coisas no universo. A percepção sobre a passagem do tempo é uma das chaves para compor e ler haicais.

Outro kigo clássico é flores caindo, ou flores que caem:

as flores caindo…
e o menino embaixo delas
limpa o seu calção

Estas reflexões são o objetivo do haicai: pensar sobre o sentido último de nossa existência.

A referência é o poema Uma flor que cai/ Ao vê-la tornar ao galho/ Uma borboleta!, de Arakida Moritake. E há, também, uma repercussão transversal da metamorfose operada por Bashô ao corrigir o poema de seu aluno Kikaku. O aluno escreveu uma libélula/ tirando as asas/ uma flor de pimenta. A versão de Bashô, propondo um exercício de compaixão é: uma flor de pimenta/ ao colocar asas/ uma libélula.

A pintura era um instrumento privilegiado para ajudar Buson a criar haicais. Só o pintor poderia ter esta perspectiva panorâmica ao observar um camponês:

Ao cruzar o campo
vestindo só roupas leves
vira uma manchinha

Ou aproximar-se de seu objeto, como um close:

noite de verão:
nos pelinhos das lagartas,
as gotas de orvalho

E outros aspectos culturais, não só da mitologia, são evocados, como o das modelos (bijins) retratadas em xilogravuras por artistas como Kitagawa Utamaro. E as catástrofes naturais que abalam o arquipélago:

a bela mulher
franze a testa ao mordiscar
uma ameixa verde
***
o cesto no chão
sente logo o terremoto
que estremece o campo

Por trás de poemas que têm como tema os elementos da natureza em cada estação do ano, oculta-se uma reflexão filosófica:

Flor de lótus branca:
será que o monge já sabe
quando vai cortá-la ?

Estas reflexões são o objetivo do haicai: pensar sobre o sentido último de nossa existência. Por que não escrever um tratado sobre o tema, como fazem os filósofos ocidentais ? Os japoneses preferem esta forma concisa, inacabada e aparentemente banal. Há 400 anos tenta transmitir uma mensagem. Quantos terão captado seus sentidos?

Yosa Buson é um dos integrantes do quarteto de mestres do haicai japonês. Renovou a poesia japonesa com Matsuo Bashô, Issa Kobayashi e Masaoka Shiki. Poeta e desenhista,  Taniguchi Buson nasceu em 1716, in Kema, na província de Settsu, Japão e morreu em 24 de dezembro de 1783, em Quioto. Nasceu em família rica e, como Bashô, abandonou tudo pela arte. Viajou pelo nordeste do Japão e estudou haicai com vários mestres. Em 1751 estabeleceu-se em Quioto, como pintor profissional, ficando aí a maior parte de sua vida. Mudou o nome para Yosa, cidade da província de Tango, onde viveu de 1754 a 1757. Começou a ficar famoso depois de 1772.

Sérgio Medeiros é professor de Literatura na Universidade Federal de Santa Catarina. Tem 16 livros publicados entre ensaios, traduções e poesia, com destaque para Sexo Vegetal (Iluminuras), Totens (Iluminuras) e O Choro da Aranha (7Letras). Sua obra poética já foi traduzida para o espanhol, o italiano e o inglês e foi finalista do prêmio Jabuti em 2008 e 2010 e semi-finalista do Prêmio Portugal Telecom em 2010 e 2012.

A BORBOLETA E O SINO | Yosa Buson – Sérgio Medeiros

Editora: Cultura e Barbárie;
Tradução: Sérgio Medeiros;
Quanto: R$ 50,00 (180 págs.);
Lançamento: Março, 2016.

 

49 – O ARREPIANTE MUSEU DO SILÊNCIO DE YOKO OGAWA

A escritora japonesa Yoko Ogawa foge de enredos convencionais, românticos. Em O Museu do Silêncio (Estação Liberdade, 2016, tradução de Rita Kohl), ela conta a história do sonho de uma velha ricaça em construir um museu bizarro. A ideia é preservar lembranças de pessoas que morreram no vilarejo em que  mora. Para levar tal tarefa adiante, ela contrata um museólogo.

Pouco a pouco o museólogo torna-se cúmplice da velha, sua filha adotiva e do jardineiro que construirá o edifício do museu. Também, gradativamente, o narrador familiariza-se com o mau humor e grosserias da velha e o cotidiano do lugar.

Como em outros museus, o Museu do Silêncio destina-se a abrigar uma coleção de objetos  que representa um patrimônio histórico ou cultural de uma época ou civilização. Mas estes objetos não podem ter uma simples conotação afetiva. Têm que representar fundamentalmente a vida das pessoas que morreram.

“— Sempre que alguém da vila morre, recolho um único objeto relacionado àquela pessoa. É uma vila pequena, como você sabe, então não é todo dia que morre alguém. Mas não é fácil reunir esses objetos, algo que descobri na prática.Talvez fosse pesado demais para uma criança de onze anos. Mas, mesmo assim, consegui fazê-lo por muitas décadas. A minha maior dificuldade é porque não me contento com uma recordação qualquer.Nunca me contentei com algo fácil, uma roupa que a pessoa vestiu uma ou duas vezes, uma jóia que viveu fechada no armário, uns óculos feitos três dias antes de morrer. O que eu quero são coisas que guardam, da forma mais vívida e fiel possível, a prova de que aqueles corpos realmente existiram, entende ? Algo sem o que os anos acumulados ao longo da vida desmoronariam desde a base, algo que possa eternamente impedir que a morte seja completa. Não são lembrancinhas sentimentais, não tem anda a ver com isso. É claro que o valor financeiro também está fora de questão.” (página 45)

Entre os objetos coletados, estão, por exemplo, um DIU, que pertenceu a uma prostituta assassinada há cinqüenta anos. Ou a capa de pele de bisão-do-rochedo-branco, que pertenceu a um “monge do silêncio”. O monge do silêncio e o bisão-do-rochedo-branco são referências imaginárias. Como em seu último romance publicado no Brasil,  nem um personagem é nomeado. Nem o lugar é identificado.

À parte o projeto da velha, o vilarejo é sacudido por acontecimentos estranhos. Uma bomba explode, matando o monge do silêncio e ferindo a filha adotiva da velha. E uma série de assassinatos de mulheres guarda relação com a morte da prostituta.

A homenagem a pessoas quaisquer provoca uma reflexão sobre morte e esquecimento, ou morte e silêncio. Os dois únicos objetos afetivos que o museólogo leva para o vilarejo, o livro Diário de Anne Frank, que pertenceu à sua mãe, e um microscópio, herança de seu irmão, tornam-se emblemáticos.

Anne Frank leva a pensar sobre os milhares de mortos na Segunda Guerra. As meninas judias, que como Anne Frank, se esconderam em apartamentos clandestinos para fugir dos nazistas. Mas cujas vidas não ficaram conhecidas, como a autora do diário, e foram esquecidas pela história. Paradoxalmente, os milhares de mortos anônimos em Hiroshima e Nagasaki são lembrados permanentemente como protagonistas da maior catástrofe provocada pelo homem nos tempos modernos.

Já o microscópio evoca olhar para a vida insignificante, olhar que tem paralelismo com o trabalho do escritor. Os personagens da literatura representam vidas quaisquer, que em verdade, somos nós, em dimensão universal. Através da ampliação de vidas minúsculas, percebemos a relação entre todos os seres humanos. Com o microscópio da literatura nos tornamos mais sensíveis à alteridade e ao conceito de universalidade. A morte é a equiparação da humanidade em comum, gênios ou medíocres, famosos ou anônimos, empresários ou trabalhadores.

Yoko Ogawa é uma autora japonesa nascida em 1962. Natural de Okayama, já ganhou praticamente todas as honrarias literárias de seu país natal (prêmios Kaien, Akutagawa, Yomiuri, Izumi Kyoka e Tanizaki), publicando mais de 20 obras de ficção e não ficção. O Nobel Kenzaburo Oe disse que ela “é capaz de dar expressão às maquinações mais sutis da psique humana, em uma prosa que é delicada, mas penetrante”. No Brasil, a autora tem publicado os títulos Hotel Iris (Leya Editora, 2011), O museu do silêncio (Estação Liberdade, 2016) e A fórmula preferida do Professor (Estação Liberdade, 2017).

O MUSEU DO SILÊNCIO | Yoko Ogawa

Editora: Estação Liberdade;
Tradução: Rita Kohl;
Quanto: R$ 37,84 (304 págs);
Lançamento: Outubro, 2016.

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48 LITERATURA – YOKO OGAWA E O LADO AFETIVO DA MATEMÁTICA

A Fórmula Preferida do Professor (traduzido por Shintaro HayashiEstação Liberdade, 2017), de Yoko Ogawa, é um romance que assusta, a princípio. Não vamos encontrar uma intriga clássica, narrando a história de amantes apaixonados ou desencontros familiares. Há, sim, um encontro, mas entre um trio inusitado: um velho professor de matemática, uma empregada doméstica e seu filho de dez anos.  Toda a narração, feita pela empregada, concentra-se, pasme, em fórmulas matemáticas.

Professor –  nem um personagem na trama tem nome – sofreu um acidente em 1975 e acabou tendo problemas de memória. Só consegue ter lembranças até o ano do desastre e a cada 80 minutos a memória volta à estaca zero. Ele passa a maior parte do tempo em casa, resolvendo problemas de matemática para revistas. Por ter gênio difícil, entra em conflito com as empregadas contratadas pela cunhada, sua tutora legal. Ao conhecer o filho da narradora, o Professor resgata uma outra paixão, a de ensinar. A curiosidade do menino – a quem apelida de Raiz  – e sua mãe alimentam uma amizade que durará até o fim de sua vida. A partir desse estranho encontro de gerações, Raiz irá absorver não só o amor por contas e equações, como também valores sobre respeito às diferenças, amizade e tolerância.

A narrativa, que começa em março de 1992, acontece na pequena residência do Professor. A paixão do docente pela matemática acaba contagiando não só o filho, mas também a empregada doméstica. E a paixão de Raiz, o beisebol, é compartilhada pelo Professor, fascinado pelo jogador canhoto Yutaka Enatsu, detentor da camisa de número 28 do time Hanshin Tigers.

O romance, publicado originalmente em 2003, fez decolar a carreira internacional da escritora japonesa, de quem a Estação Liberdade também publicou O Museu do Silêncio (2016). Best-seller instantâneo no Japão quando de seu lançamento, em 2003, A Fórmula Preferida do Professor acumula mais de quatro milhões de exemplares vendidos. Ganhou uma adaptação cinematográfica, em 2006, dirigida por Takashi Koizumi. Quem faz o papel do Professor é o ator Akira Terao, conhecida figura dos filmes de Akira Kurosawa e protagonista do primeiro filme dirigido por Koizumi, Depois da Chuva (1999).

Vale lembrar que depois de A Fórmula Preferida do Professor, Ogawa publicou, em 2006, An Introduction to the World’s Most Elegant Mathematics, obra em coautoria com o matemático Masahiko Fujiwara, um diálogo sobre a extraordinária beleza dos números.

Yoko Ogawa nasceu em Okayama, Japão, em 1962. Estreou em 1988 com Agehacho ga kowareru toki (A decomposição da borboleta), pelo qual obteve o prestigioso Prêmio Kaien, voltado a novos escritores. Já publicou mais de 20 obras de ficção e não ficção. Prêmios, aliás, não faltam em sua carreira, valendo menção o Akutagawa pela novela Ninshin karenda (Diário da gravidez), o Izumi Kyoka por Burafuman no maiso (O enterro de Brahman), e o Tanizaki por Mina no koshin (A marcha de Mina). Por A Fórmula Preferida do Professor, ela ainda arrebatou os prêmios Yomiuri e o da Sociedade Nacional de Matemáticas. Yoko Ogawa vive em Ashiya, província de Hyogo — nas proximidades de Kyoto — com o marido e o filho.

A FÓRMULA PREFERIDA DO PROFESSOR | Yoko Ogawa

Editora: Estação Liberdade;
Tradução: Shintaro Hayashi;
Quanto: R$ 32,63 (232 págs);
Ano: Março, 2017.

46 LITERATURA – ESCRITORA LANÇA LIVRO DE POESIA COM ORIGAMI

A escritora Tereza Yamashita está lancando um livro sobre origami: “Poemanimais”, com ilustrações de animais em origami

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A escritora Tereza Yamashita está lançando o livro “Poemanimais”, projeto apoiado pela Filiperson Papéis Especiais, pela Funcadi (Casa de Cultura Carlos e Diva Pinhos) e pela Matéria Prima Editorial, com ilustrações de Teo Adorno. O tema são poemas sobre animais, com ilustrações baseadas no  origami – as dobraduras feitas de papel, originárias da cultura japonesa. 

O livro tem apenas 100 exemplares. O objetivo da autora é vendê-lo em exposições e oficinas que orienta. Teo Adorno, heterônimo do escritor Nelson de Oliveira, marido da escritora, começou a ilustrar a obra por brincadeira. A autora postou os poemas e as ilustrações no Facebook e fizeram sucesso. A edição é simples, com lombada canoa e com grampo.Os exemplares podem ser encomendados aos autores e custam R$20 mais taxa de correio.  Pedidos pelo e-mail teo.adorno1970@gmail.com

Tereza Yamashita é ilustradora, escritora de livros infantojuvenis e origamista.  Formada em Comunicação Visual, criou capas e projetos gráficos para livros e coleções de todos os tipos. Edita o blogue Abraços Dobrados. Livros publicados: Bia Olhos Azuis (com Luiz Braz), Editora Alaúde; Dias Incríveis e Nosso gato desbotado, Callis Editora, Pituca e a chuva, Editora Paulinas, Tudo muda: todo mundo, o mundo todo (a partir da obra de Aldemir Martins), Edições Pinakotheke, Poção de vida, LGE Editora, Última Guerra, Editora Biruta, Família Fermento contra o superívrus de computador, Atual Editora, A menina vermelha, selo Amarylis da Editora Manole e Ganhei uma menina!, Editora Scipione, Troca de pele,  Editora Hedra, Mãos Mágicas, Sesi Editora.

46literaturaimagem02Alguns dos poemas do livro:

Mil Tsurus

O grou
singrou
do Japão
para o Brasil

Aqui ele
conheceu
Marilou

Apaixonou
namorou
sambou
casou

Tiveram
Mari e Lou

A família
dobrou
redobrou
e agora ninguém
sofre mais de
depressão
nem extinção

Aprenderam
a dobrar
mil grous
de origami
que voaram
pra Miami

Suco de soluço

Soluçando soluçando
o cachorro
de gorro
tomou muito suco
quando morava
num morro
em Pernambuco

Eta cachorro maluco!

Hoje
o cachorro
sem gorro
mudou

Usa chapéu de papel
aprendeu a dobrar
barquinho de papel
mas continua
soluçando soluçando
agora morando
num morro
em Orlando