30 KINEMA | OSCAR NAKASATO ESCREVE SOBRE "TOKIORI"

Foto: divulgação.
Foto: divulgação.

por Oscar Nakasato

O documentário Tokiori – dobras do tempo, de Paulo Pastorelo, inicia com a voz off de um narrador que revela um olhar externo às histórias que serão contadas.  Não é, porém, a simples curiosidade que leva ao contar. O olhar é de alguém profundamente aderido ao tema e às dezenas de personagens que vão surgindo e revelando os sucessos e os dramas que resumem a aventura do imigrante japonês e seus descendentes no Brasil.

O filme conta as histórias de famílias que se instalaram na década de 1930 no bairro rural de Graminha, município de Oscar Bressane, no oeste paulista. Depoimentos  constituem um painel dos primeiros anos dos imigrantes no país, desvelando uma época em que a tradição e os costumes trazidos do Japão eram bastante presentes. Lembrando a sua juventude, a imigrante Yoshie Yanai  conta que se casou pressionada pela família. Ela não queria se unir  ao  futuro esposo porque sabia que não teria sua própria casa, já que ele era o primogênito e, obedecendo aos costumes, seguiria morando com os pais após o matrimônio.   Os diversos casamentos entre os membros das famílias pioneiras resultaram numa colônia em que todos se tornaram parentes. O documentário conta a trajetória desses  homens e mulheres que atravessaram décadas cultivando a terra. A partir dos anos 1980, alguns deles, impelidos pela crise econômica brasileira, participaram  do processo inverso impetrado por seus pais ou avós: foram trabalhar como decasséguis nas indústrias do Japão.

As diversas estratégias usadas para contar essas histórias dão dinamismo ao filme. Após uma indefinida voz off da leitura de uma carta, ilustrada com fotografias e cenas de filmadoras caseiras, assistimos ao depoimento de um parente que ficou no Japão, ao qual se segue outra voz em off, agora da imigrante anciã. Em algumas passagens, as imagens silenciosas são suficientes para dizer. Por fim, o espectador vê cenas de imigrantes em um navio e, depois,  em um trem, enquanto ouve a mesma indefinida voz off das cartas revelando anotações de um diário sobre a longa viagem do Japão ao Brasil (a morte de uma criança a bordo do navio, a qual é lançada ao mar em um saco com pedaços de ferro; as aulas de língua “brasileira”;  a realização de undokai – gincana esportiva – no convés), a chegada ao porto de Santos e o deslocamento de trem até a Hospedaria dos Imigrantes, em São Paulo.

O entrecruzamento de vozes e imagens colhidas no Brasil e no Japão vai conduzindo o espectador por uma senda descontínua, num vai-e-vem no tempo. Estabelecer as redes de relações familiares é tarefa desse espectador,  o qual,  talvez acostumado a documentários  realistas, tenha alguma dificuldade em compreender a obra autoral  e poética de Pastorelo.

O filme também encanta pela fotografia sensível.  Em mais de uma cena, fotografias em preto e branco impressas em tecidos pendurados em varais balançam ao vento: metáfora de histórias  que se desdobram através do tempo  e se anunciam no título do filme. Em outro momento,  a câmera parece enquadrar a solidão na imagem do velho imigrante, sentado numa cadeira, de costas, o andador ao lado, em frente a um horizonte limpo, quase monocromático,  dizendo de seu desejo de morrer no Brasil e ser enterrado no cemitério de Oscar Bressane: “Minha pai tá lá, minha esposa tá lá…” E na cena mais bonita do filme, compartilhamos o olhar que, de dentro do automóvel, segue a estrada em direção ao sol poente , que mancha o horizonte de amarelo-laranja. Estradas, aliás, são recorrentes no filme, lembrando as travessias dos personagens do Japão para o Brasil, no Brasil e do Brasil para o Japão.

A obra de Pastorelo é feita de imagens, vozes, violão, viola caipira e músicas japonesas. Mas o silêncio também é protagonista em algumas passagens. No final do filme, a voz off que inicia a narração de Tokiori – dobras do tempo retorna:  “(…) me contentei com o silêncio que ele deixou quando partiu, o mesmo silêncio que habitava as fotografias (das famílias dos imigrantes japoneses) que me fascinaram desde o começo…”. Na sequência, fotografias mudas   em preto e branco  finalizam o filme, reafirmando a eloquência da imagem e do silêncio.

29 KINEMA | "TOKIORI" ESTREIA EM CIRCUITO COMERCIAL

Crédito: divulgação.A partir dessa sexta-feira (22), o documentário Tokiori  – As dobras do tempo, de Paulo Pastorello, estreia em circuito comercial no  Espaço Itaú de Cinema, em São Paulo.    A produção,  finalizada em 2011, já foi exibida  na capital paulistana no evento Travessias  em conflito e no Festival É tudo Verdade, em 2012. A partir de 04/12, também entrará no Espaço Itaú de Cinema, em Curitiba.

O filme  conta a história de cinco famílias de imigrantes japoneses que se instalaram na comunidade rural de Graminha, na cidade de Oscar Bessane, que fica a 500 quilômetros a Oeste de São Paulo. Em japonês, a palavra  Toki significa  tempo e a palavra Ori, do verbo Oru, dobrar. Graminha agrupa pequenos sítios tocados por famílias de origem japonesa . Yoshie Sato chegou no Brasil em 1929, aos nove anos de idade, acompanhada dos pais, quatro irmãs e o irmão mais velho. Depois da vida de colono numa fazenda de café na região da Mogiana, chegaram na Graminha por volta de 1936, onde ela e suas irmãs foram o pivô de uma série de casamentos que uniram, em laços de parentesco, as principais famílias japonesas fundadoras do bairro: os Yanai, Yoshimi, Funo e Okubo. Atualmente, a Graminha conta com pouco mais de vinte pessoas, e é difícil de encontrar alguém que não seja  parente próximo. Aos 90 anos, Yoshie é viúva e vive no sítio com a família do seu filho mais velho.Três gerações reunidas sob o mesmo teto.

Para tentar se aproximar dessa experiência de travessia, Tokiori se articula em torno de cinco viagens entre o Japão e o Brasil, realizadas entre 1927 e 1992. Essas idas e vindas, vivenciadas por um ou outro membro dessas famílias, acontecem em períodos específicos nos quais mudanças de ordem econômica e política nos dois países tiveram repercussões diretas sobre suas vidas, emaranhando cada vez mais suas referências identitárias.

Pastorello tem uma ligação sentimental muito forte como o  bairro rural da Graminha, onde passava as férias, em sua infância, na fazendo do avô espanhol. Com frequência eu cruzava essas famílias de origem japonesa nas festas e quermesses da cidade, misturados aos “não- japoneses” – gaijins do município – de origem italiana, espanhola, portuguesa e “brasileira mestiça” (nordestinos e mineiros, sobretudo), conta. Como lugar de memória dessas famílias de imigrantes japoneses, a história da Graminha é inerente à sua identidade mais profunda. Ao mesmo tempo em que elas estão “integradas” à vida cotidiana “brasileira” do município, elas não deixam de delimitar fronteiras móveis, fazendo com que terra natal e terra estrangeira se confundam, como se a Graminha não fosse nem no Brasil nem no Japão, e ambos ao mesmo tempo.

Pastorelo é arquiteto e mestre em Estudos Cinematográficos e Audiovisuais pela Universidade de Paris 3. Começou a carreira de documentarista com  Vale o Homem seus Pertences (52min), coprodução com a Sesc TV que foi ao ar em 2005. Em 2006 foi pesquisador e diretor de Elevado 3.5, e em 2010 , dirigiu o documentário Paisagens da Memória – Vila Nova Cachoeirinha (26min). Atualmente leciona cinema para os alunos do 5o (São Paulo) no quadro do projeto Le cinéma, centans de jeunesse coordenado pela Cinemateca Francesa.

Criada em 2006, a Primo Filmes é  produtora de filmes como  O Cheiro do Ralo ( Heitor Dhalia), Fabricando Tom Zé ( Décio Matos  Júnior)   a série No Estranho Planeta dos Seres Audiovisuais, criada por Cao Hamburger e exibida no  Canal Futura, Trago Comigo, (Tata Amaral) , entre outros. O filme está sendo distribuído pela Lumes Filmes, fundada no ano 2000 pelo cineasta Frederico Machado, responsáve pela distribuição de mais de 200 títulos no mercado brasileiro. Entre eles  David Lynch, Luis Buñuel, Yasujiro Ozu, , R.W. Fassbinder, Kenji Mizoguchi, Claude Chabrol, Akira Kurosawa, entre muitos outros que fazem parte deste que é o maior acervo de DVDs de filmes autorais do país.

O Espaço Itaú  de Cinema, em São Paulo fica no Shopping Frei Caneca  – 3º Piso – Rua Frei Caneca, 569 – Consolação. E em Curitiba, no Shopping Crystal,  Piso L1, na Rua Comendador Araújo, 731 – Batel.

28 KINEMA | MOSTRA DE CINEMA NIKKEI : OS ARTISTAS

Cena de "Tomie Ohtake".
Cena de “Tomie Ohtake”.

Na próxima quinta-feira (31), a MOSTRA DE CINEMA NIKKEI apresenta dois documentários sobre o trabalho de artistas nipo-brasileiros : Susana Yamanouchi e Tomie Ohtake. O vídeo À flor da pele, de Bettina Turner, é um documentário que aborda alguns aspectos da cultura nipo-brasileira contemporânea. São fragmentos, pinceladas, movimentos através dos quais os imigrantes e seus descendentes se expressam e revelam a síntese de seu hibridismo, de sua cultura, de sua alma. O eixo narrativo se desenvolve a partir dos espetáculos solo de Susana Yamauchi:“À Flor da Pele” e “A Face Oculta”. O vídeo mostra a participação da bailarina e coreógrafa no projeto Yugen, quando realizou  intervenção na instalação de Tomie Ohtake.

Bettina Turner é jornalista , fez  especialização na área de fotografia, vídeo e cinema na BBC Open University Production Centre At Milton Keynes, em Londres, em  1982 e “em Edinburgo, Escócia, em 1983. De 1984 a 1992  trabalhou na área editorial, em empresas jornalísticas e agências de publicidade. Desde 1993 é sócia-diretora da Turner Imagem e Comunicação, agência produtora que realiza peças comerciais, didáticas e culturais multimídia. Desde 2002 vem produzindo e dirigindo documentários na área de responsabilidade social. Filmes:  “Virgem Mãe de Nossos Dias” (1994), Lucia Azul” (2000), “À Flor da Pele” (2001/2002) , “Guardiões do Oceano” (2002), “Jovens e o seu Potencial Criativo na Resolução de Conflitos” (2011), Zilda Arns (2011/2012), Grupo de dança Juanita (2011 / 2013 ) ..

E para finalizar a mostra, um documentário sobre a grande dama das artes no Brasil, Tomie Ohtake, realizado por Cacá Vicalzi e Zezo Cintra. Tomie Ohtake é a edição de várias entrevistas e depoimentos da pintora , ados à tevênos últimos anos. Tomie fala muito pouco, mas como na sua pintura, a gestualidade revela a sua grandeza. O DVD reúne os documentários e registros de imagens de O Traço Essencial, Tomie por Haroldo de Campos, Tomi-es e Arcos.

HOJE (25),  a  MOSTRA DE CINEMA NIKKEI abre com a exibição de curtas contemporâneos. Veja a programação aqui. Os filmes serão exibidos no Cine Guarani, a partir das 20 horas, no Portão Cultural – Avenida República Argentina, 3430 – Portão.

 

28 KINEMA | MOSTRA DE CINEMA NIKKEI : DEKASSEGUIS

Cena de Ou est le soleil, de Claire-Sophie Dagnan. Foto: divulgação.
Cena de Ou est le soleil, de Claire-Sophie Dagnan. Foto: divulgação.

Na próxima quarta-feira (30), a MOSTRA DE CINEMA NIKKEI apresenta dois documentários sobre a vida dos descendentes de japoneses,   Permanência, de Hélio Ishii,  e Ou est Le soleil, de Claire Sophie Dagnan.  Permanência  volta o seu olhar para os brasileiros e filhos de brasileiros que estudam em solo japonês. Os entrevistados questionam a situação do dekassegui – o trabalhador sem vínculos , que na imigração ao Brasil veio trabalhar na lavoura, e na imigração ao Japão labuta na indústria.  Os  brasileiros que trabalham no Japão vivem num mundo à parte, seguindo  a cultura latino-americana. Já, os filhos, que frequentam escolas japonesas, passam a vivenciar a cultura japonesa, criando conflitos familiares e até, de comunicação.

Hélio Ishii é formado em Ciências Sociais pela USP e trabalhou como dekassegui no Japão, em 1991. Teve uma experiência marcante. Depois de sua volta, em 1994, começou a pensar em registrar em vídeo experiências como a sua, não a do “sucesso”, mas as mais conflituosas.   A partir de 2000 começou a pesquisar novos formatos e meios de distribuição e deu início ao projeto  “Narco Talk Show” para internet. O programa é uma sátira a indústria de celebridades e usa o formato de “Talk show” para  transformar personagens marginais em celebridade inconvenientes.

A partir de 2003 vem se dedicando a produção de obras cuja temática  tratam das migrações. Em 2004 lançou o documentário Cartas , sobre a experiência de mulheres brasileiras que emigraram ao Japão. Em novembro de 2006 lançou após uma temporada no Japão o documentário Permanência . Foi  curador da mostra  “Olhares Transversais” realizado pela Japan Foundation em novembro de 2006 reunindo documentários e ficções que tratassem dos cruzamentos culturais  preparando assima discussão no cinema para o centenário da imigração japonesa no Brasil. Em 2006 criou o Núcleo Virgulino para desenvolver e promover as atividades de um  grupo de artistas que trabalha de forma coletiva.

Ou est le soleil

Ou est le soleil – Onde está o sol, de Claire Sophie Dagnan, é um documetário que registra depoimentos de artistas e pesquisadores japoneses ou descendentes que moram em São Paulo. O artista visual  Dudu Tsuda, a bailarina Letícia Sekito, o ator  Henrique Kimura , entre  outros, questionam  as diferenças culturais, os modos de ver, de ser e reconhecer como plural o outro. Este filme reconta as trajetórias pessoais, em busca de um lugar na sociedade, de um lugar ao sol , deixando no ar a pergunta sobre a identidade de uma etnia que, depois de um longo tempo insularizada, passa a se tornar diaspórica.

Claire-Sophie Dagnan é formada em ciências sociais, e estudante em mestrado de relações internacionais na universidade Sciences Po em Paris. Após um ano trabalhando no Brasil entre o Rio de Janeiro e a região amazônica para a ONG PlaNet Finance, prepara um intercâmbio em antropologia com a universidade de Nova York. Trabalha sobre um projeto de curta-metragem relatando histórias de mulheres amazônicas.

A MOSTRA DE CINEMA NIKKEI está sendo exibida no Cinea Guarani, às 20 horas, no Portão Cultural – Avenida República Argentina, 3430.

28 KINEMA | MOSTRA DE CINEMA NIKKEI: HIKOMA UDIHARA

Hikoma Udihara. Foto: divulgação.
Hikoma Udihara. Foto: divulgação.

O primeiro cineasta do Norte do Paraná foi um  imigrante japonês Hikoma Udihara. Amador e intuitivo, apaixonado por fotografia e filmagens, fotografava e gravava tudo o que via: as visitas de conterrâneos a Londrina, visitas de políticos, autoridades, personalidades e dirigentes, inaugurações de lojas. Gravou mais de 100 filmes em preto e branco e mudos, em 16 mm.

De acordo com o pesquisador de sua obra, Caio Cesaro, sua primeira câmera foi comprada em 1927, em São Paulo.   Mostrava seus filmes em clubes, festas, encontros e, em algumas ocasiões comemorativas, marcava reuniões com os moradores dos lugarejos, vilas e cidades para que vissem as imagens. Os filmes eram projetados em paredes ou em lençóis esticados. Só parou de gravar em 1969, quando sofreu um derrame cerebral e ficou paralítico. Faleceu em São Paulo, em 1972, pouco antes de completar 90 anos Suas gravações, hoje, são consideradas documentários da colonização e  desenvolvimento do norte do Paraná, especialmente de Londrina.

Hikoma Udihara nasceu em  Kami-Yakawa,  província de Kochi, no Japão, em 1882. Chegou ao Brasil em 1910, indo trabalhar nas lavouras de café  no interior de São Paulo.   Depois de dois anos,  mudou para a capital. No início dos anos 20, Udihara começou outra atividade: corretagem de terras em novas fronteiras agrícolas no noroeste de  São Paulo e no norte do Paraná. Devido a sua facilidade em falar português, foi contratado pela Companhia de Terras do Norte do Paraná para essa função.

De janeiro de 1930 a 4 de março de 1955, quando se desligou da Companhia Melhoramentos Norte do Paraná (sucessora da CTNP), fundou 31 núcleos de colonização japonesa no norte do Paraná. Em junho de 1956, pouco depois de se desligar da CTNP/CMNP, publicou História da minha vida e de minhas atividades no Japão e Brasil, uma brochura autobiográfica.

Um episódio resgatado por Caio Cesaro revela a importância histórica de seus registros fílmicos. A colônia japonesa produzia hortaliças, frutas e grãos (café, arroz, milho e feijão), mas tinha dificuldades de comercializar o excedente da produção. E esses japoneses não tinham para onde mandar a produção, não havia estrada para lugar nenhum. Nem para Curitiba, nem para São Paulo. Os potenciais compradores – os grandes mercados consumidores – ficavam muito distantes. As estradas eram precárias, sem qualquer tipo de pavimentação. O transporte rodoviário era uma aventura cara, demorada e incerta Udihara resolveu filmar a situação e com o material em mãos viajou para Curitiba para mostrar às autoridades. Como o filme era mudo,  ficou toda apresentação ao lado das imagens narrando. A ação surtiu efeito e estradas foram construídas. Muito se afirma que o desenvolvimento da região tem a influencia desse fato, ele continuou a realizar essa tarefa de denunciar problemas ao mesmo tempo em que fazia propagandas publicitárias para a venda de terras, ele afirmava que era necessário para custear os caros equipamentos e materiais de filmagem.

Udihara sensibilizou e revelou 128 rolos de pelìculas fílmicas. Todos os filmes são silenciosos, sem banda sonora. As imagens foram tomadas à velocidade de 18 quadros por segundo. O tempo de duração de cada filme é relativamente curto, os mais longos atingem entre 13 e 14 minutos de imagens em movimento, ou seja, a capacidade média de um rolo de película fílmica para o formato 16mm à época. Ao todo, os filmes somavam cerca de 10 (dez) horas de imagens.

Em 1979,  seu filho Issao Udihara, doou o acervo do pai ao Museu Histórico de Londrina Padre Carlos Weiss. Em 1983 a UEL encaminhou o acervo para recuperação à Cinemateca Brasileira, em São Paulo.

A MOSTRA DE CINEMA NIKKEI exibe os documentários de Hikoma Udihara recuperados pela Cinemateca Brasileira no próximo sábado (26), no Cine Guarani, no Portão Cultural – Avenida República Argentina, 3430 – Portão – Curitiba – PR.

28 KINEMA | MOSTRA DE CINEMA NIKKEI: CURTAS CONTEMPORÂNEOS

Cena de "O samurai de Curitiba".
Cena de O samurai de Curitiba.

Na próxima sexta-feira (25), a MOSTRA DE CINEMA NIKKEI, promovida pelo MEMAI com o apoio do Consulado Geral do Japão em Curitiba e Fundação Cultural de Curitiba abre com uma sessão de curta-metragens dos cineastas Olga Futemma, Rodrigo Grota, Roberval Machado e Edson Takeuti.

De Olga Futemma, a mostra apresenta Retrato de Hideko e Chá verde e arroz. Retrato de Hideko trata do mito da boneca perdida típica à mulher do dia-a-dia, quatro gerações da mulher japonesa: a luta pela sobrevivência, o culto às tradições, a adaptação à cidade e a diluição cultural. Chá verde e arroz tem como tema o cinema ambulante japonês nas comunidades do interior paulista, no final da década de 50. Ex-benshi (narrador de filmes japoneses) e seu assistente visitam uma pequena cidade e promovem uma sessão. Tudo é acompanhado por Jo, um garoto que adora cinema.

De  Rodrigo Grota, serão exibidos Haruo Ohara e Satori Uso.  O primeiro é uma biografia lírica do Biografia do fotógrafo japonês radicado em Londrina, Haruo Ohara (1909-1999). O diretor remonta algumas cenas de fotografias que se tornaram famosas na obra de Haruo, como a do lavrador empunhando a enxada para o céu e a da menina saltando de sombrinha. Já Satori Uso simula, em ambientação de filme noir, um documentário sobre um poeta que nunca existiu apresentado por um cineasta imaginário: Jim Kleist. Inspirado na obra poética de Rodrigo Garcia Lopes (autor dos haicais).

De José Roberval Machado, o documentário O samurai de Curitiba, sobre o roteirista e desenhista Claudio Seto, com enfoque na sua produção de histórias em quadrinhos publicadas nas editoras Edrel e Grafipar entre os anos 60 e 80. Seto dedicou-se a diversos estilos de histórias, como de samurais, de terror, policiais e eróticas. Além dos enredos, foi um dos pioneiros do estilo mangá no Brasil, através da revista O Samurai, publicada na década de 60 pela Edrel. O filme também aborda a questão da censura, já que a publicação dos quadrinhos ocorria durante o governo militar e a maioria das histórias possuía teor erótico.

O Gralha  – O ovo ou a galinha, de Edson Takeuti (Tako-x)  presta homenagem aos super-heróis americanos, de forma irreverente  e com cor local.  Mais uma aventura do super-heroi curitibano em luta eterna contra seu inimigo mortal, O Craniano. O filme foi feito em 2002, depois de Tako-x participar de um curso com Tizuka Yamasaki. Ele escreveu e dirigiu um “live-action” , um filme com atores representando personagens de HQ.  Tako-x fez  mais 2 curtas: O Gralha e o Oil-Man – Um Encontro Explosivo e”O Apêgo.

NOTÍCIA | JAPÃO PROMOVE FESTIVAL DE CINEMA BRASILEIRO

"O palhaço" será visto pelo público japonês. Foto divulgação.
Tóquio, Osaka, Kioto e Hamamatsu são as cidades em que serão exibidos filmes brasileiros,  até o final do mês de outubro, durante o Festival Cinema Brasil, evento realizado anualmente para promover o cinema brasileiro e conquistar um espaço no mercado cinematográfico japonês,  já  na a oitava edição.
O festival tem um público de  20 mil  pessoas, interessadas na cultura brasileira e no diálogo entre  o Japão e o Brasil . É promovido pelo Ministério das Relações Exteriores do Brasil, Embaixada do Brasil em Tóquio, Consulado Geral do Brasil em Hamamatsu e Japan Arts Council.
Os brasileiros ou japoneses que apreciam o cinema brasileiro podem assistir os filmes “O Palhaço”, de Selton Mello, ” Heleno”, de José Henrique Fonseca,
“2 Coelhos”, de Afonso Poyart, “Peixinho mágico”, de Shihoei Suzuki e os documentários  Elis Regina”, produzido para o programa Ensaio, da TV Cultura, ” O homem que engarrafava nuvens!”, de Lírio Ferreira, “Andorinhas solitárias”, de Kimihiro Tsumura e Mayu Nakamura  e ” Hotxuá”, de Letícia Sabatella e Grinco Cardia.
A programação completa do festival está disponível aqui.

14 KINEMA | FILMES REGISTRAM O JAPÃO EM LONDRINA

Cartaz do filme Haruo Ohara. Foto: divulgação.
A poesia é o fundamento dos  curta-metragens Haruo Ohara e Satori Uso, dirigidos pelo cineasta  Rodrigo Grota, tendo como foco personagens da história e do imaginário da comunidade japonesa de Londrina.
Os dois  filmes compõem a Trilogia do Esquecimento, série iniciada pelos curtas Satori Uso (2007) e Booker Pittman (2008) e finalizada por Haruo Ohara (2010),  somando  mais de 20 prêmios entre festivais nacionais e internacionais.
O filme sobre Haruo Ohara foi  rodado em julho de 2009 em Londrina e arredores. O elenco está repleto de descendentes de japoneses, interpretando o fotógrafo, a esposa  e seus nove filhos.  Satori Uso também aparece no filme.  As imagens reproduzem as fotos mais famosas de Ohara,  como a do lavrador que equilibra a enxada tendo ao fundo um céu imenso e a da menina que salta de uma escada de mão com a sombrinha aberta  – o bom observador pode notar que essa última foi “roubada” pelo diretor Vicente Amorim e pode ser vista no filme Corações Sujos. Além de reproduzir as imagens das fotos de Ohara, Grota também incluiu um video doméstico produzido pelo próprio fotógrafo.
Ohara morou na cidade a partir dos anos 30 a passou a se dedicar à fotografia de 1938 em diante.  No final de 1970 obtém os primeiros indícios de reconhecimento a sua obra. Antes de morrer, em 1999, viu montarem três exposições individuais sobre sua obra, uma em Londrina, em  1998, e duas em Curitiba, nesse ano e no ano  seguinte.
O filme presta reverência à imagem pura, que Ohara cultivou.  O silêncio, aliás, é uma estratégias narrativas do filme: os diálogos quase sempre são em japonês ou estão em off.
Satori Uso
Cena do filme “Satori Uso”. Foto: divulgação.

Como conta o poeta Rodrigo Garcia Lopes,  Satori Uso nasceu em 1985,   inspirado no zen-budismo e influenciado pelo haiku. Garcia Lopes inventou toda uma biografia para o poeta japonês,  que teria imigrado para Assaí, cidade perto de Londrina, nos anos 50, depois de ter vindo do Japão, ter convivido com os beats na California, e  perder toda a sua obra na viagem de navio para o Brasil.  Uso acaba recebendo um convite da família Akiro para trabalhar no sítio da família na cidade paranaense,   até ser descoberto como o grande poeta japonês desaparecido e  ser assediado por poetas que vinham a seu encontro em seu sítio.

Satori Uso  significa falso brilhante, ou iluminação mentirosa e brinca com conceitos do zen-budismo que se popularizaram no mundo a partir dos anos 60. Uso, por exemplo, prefere as sombras à luz,  vive em ambientes mal iluminados e até há uma cena no filme em que  está deitado ao lado de um aparelho de tevê dos anos 50.  As  sombras aludem  não apenas aos beatniks como também ao cinema e literatura noir, e as narrativas policiais americanas,  que começaram a ganhar o mundo depois da Segunda Guerra Mundial.
As duas produções  estão disponíveis no Youtube.  Veja aqui o filme sobre Haruo Ohara e aqui o de Satori Uso. (MK)