39 NOTÍCIA – OFICINAS PRODUZEM LIVROS DE HAICAI EM PARANAGUÁ

Oficinas do projeto “Pontes de Cultura”, patrocinado pela lei de incentivo de Paranaguá produzirão 300 livros artesanais com poemas do tipo haicai. As oficinas orientadas por Marília Kubota e Lauro Borges finalizam o projeto, iniciado em fevereiro deste ano, com parcerias com a Fundação Municipal de Cultura de Paranaguá, Secretaria Municipal de Educação/Semedi e Associação Beneficente Cultural e Esportiva Nipo-brasileira de Paranaguá com a Revista MEMAI.

Oficina que produziu capa de livros.
Oficina que produziu capa de livros, com orientação do  artista Lauro Borges. Foto: Maria Carolina Felício.

Duas oficinas do projeto “Pontes de Cultura”, patrocinado pela lei de incentivo municipal da Prefeitura de Paranaguá produziram 300 livros artesanais com poemas do tipo haicai. As oficinas de haicai e publicação de livros, orientadas pela poeta Marília Kubota e pelo artista plástico Lauro Borges finalizam o projeto, iniciado em fevereiro deste ano, com parcerias com a Fundação Municipal de Cultura de Paranaguá, Secretaria Municipal de Educação/Semedi e Associação Beneficente Cultural e Esportiva Nipo-brasileira de Paranaguá com a Revista MEMAI.

O projeto comemorou, pela primeira vez, na cidade o Dia da Imigração Japonesa em Paranaguá, no dia 19 de junho, em alusão à data histórica da chegada dos imigrantes japoneses ao Brasil, que aconteceu no dia 18 de junho de 1908. Em 2015, o evento também comemorou os 120 anos de Tratado de Amizade e Comércio Brasil-Japão.

“Pontes de Cultura” tem como objetivo disseminar a cultura japonesa para novos públicos. As oficinas de haicai e publicação de livros aconteceram em dez escolas DE tempo integral do município, escolhidas entre as turmas de professoras que participaram dos cursos de formação (oficinas) realizadas em 19 de junho.

Uma exposição, com data ainda a ser definida, mostrará, no hall da Biblioteca Mário Lobo, os livros produzidos nas oficinas. As capas, feitas de cartolina, foram produzidas nas oficinas de publicação de livros, orientada por Lauro Borges: “Dialogar com as professoras antes e durante o contato com os alunos/crianças foi muito produtivo. Fica a certeza do quanto é benéfico o uso das linguagens artísticas nas escolas. Nossa proposta para uma construção coletiva e colaborativa de uma publicação de poesia é uma oportunidade para se tratar das muitas questões e etapas da palavra, da escrita, ilustração e leitura.” Os haicais – poesia em forma poética japonesa – foram escritos em oficinas orientadas pela poeta Marília Kubota: “Foi uma grande experiência dar oficinas de haicai para crianças pequenas em Paranaguá. A criação de livros e poemas pelas mãos das próprias crianças funciona como um estímulo às atividades de leitura e arte. Espero poder dar continuidade a esse projeto envolvendo a cultura japonesa e a comunidade nipo-brasileira”, diz.

Os livros devem ser montados no mês de novembro e estarão em exposição no Hall da Biblioteca Mário Lobo, em data ainda a ser definida.

Na oficina da poeta Marilia Kubota, as crianças escreveram haicai. Foto: Maria Carolina Felíciio.
Na oficina da poeta Marilia Kubota, as crianças escreveram haicai. Foto: Maria Carolina Felíciio.

38 HAICAI – MARILIA KUBOTA LANÇA "micropolis" EM SÃO PAULO E CURITIBA

A poeta Marilia Kubota lança seu primeiro livro de haicai “micropolis”, nesta quinta-feira (22), em Sâo Paulo e no sábado (24), em Curitiba.

Capa do livro "micropolis". Arte: Ronald Polito.
Capa do livro “micropolis” sobre ilustração de Ronald Polito.

A poeta Marilia Kubota lança seu primeiro livro de haicai “micropolis”,  nesta quinta-feira (22), em Sâo Paulo e no sábado (24), em Curitiba. O lançamento em São Paulo é promovido pela Lumme Editora, que publicou o livro, em 2014, e acontece no evento denominado “Recital Caixa Preta”, na Casa das Rosas, a partir das 19 horas.  O recital celebra os autores publicados pela editora, como Claudio Daniel (“Cadernos Bestiais”) e Contador Borges (“Lautréamont Anacrônico”). Em Curitiba, “micropolis” será lançado com outros dois livros: “Livro Arbítrio” (Casa Verde, 2015), do gaúcho Lau Siqueira e “Febre Terçã” (selo Off-Flip, 2013), da belenense Vássia Silveira, no Museu Guido Viaro, a partir das 20 horas.

micropolis traz 34 haicais, a maior parte escritos em oficinas de criação literária.  A capa do livro foi criada pelo poeta Ronald Polito e remete a um tema recorrente na arte japonesa, as pedras. No ano de 2014 Marilia Kubota começou a orientar oficinas sobre a forma poética japonesa, e escreveu alguns exercícios, que nunca havia experimentado antes. “Foi uma brincadeira. Jamais imaginei que poderia escrever haicais. Para mim, a poesia de Bashô, Issa e outros mestres japoneses é inigualável. Só pude me soltar porque escrevi sem pretensão de publicar um livro”, conta a poeta. micropolis é seu terceiro livro de poesia, antecedido por “Esperando as bárbaras”, de 2012 (Blanche Editora) e Selva de Sentidos, em 2008 (Água-forte Edições).

Embora este seja o primeiro livro, a autora organizou  um concurso de haicai, o Concurso Nacional de Haicai Nenpuku Sato, em 2008, nas comemorações dos 100 anos da imigração japonesa ao Brasil.   A partir daí, seu contato com a forma poética japonesa se aprofundou, orientando oficinas ou dando palestras sobre o tema.

neste outono
nem uma seta no alvo
pássaros nas nuvens

34 KOTOBA | A NOVA CARA DOS NIKKEI NO BRASIL

Erica Kaminishi.
Erica Kaminishi.

Por Marilia Kubota

Saia na rua e pergunte, se você é descendente de japonês, para um conterrâneo: você acha que eu sou japonês ou brasileiro ? A resposta,  salvo exceções,  será: japonês. Se você é nikkei de primeira, segunda e terceira geração acostumou-se a ser o “japonês” do grupo. Mas daqui para frente, a identidade do descendente de japonês pode sofrer transformações profundas na comunidade brasileira.  Isto se deve à presença cada vez maior de jornalistas e artistas  nikkei em destaque na mídia brasileira. E também à consciência dessas personalidades, sobre sua responsabilidade pela  disseminação de estereótipos e preconceitos em relação aos nikkei brasileiros.

Um artigo do jornalista Leonardo Sakamoto, publicado em seu blogue, no site UOL, no dia 30 de junho e uma reportagem , escrita pelo jornalista e fotógrafo freelance Henrique Minatogawa  publicada no Discovery Nikkei, no último dia 14 de jullho são exemplos desse tipo de consciência. Sakamoto comenta, com seu  estilo irônico, as expressões mais usuais em relação à etnia japonesa no Brasil. De apelidos a cliclês, como: Você deveria ter vergonha. O japonês é um povo honrado e trabalhador, que conquista as coisa do próprio suor. Não fica defendendo invasão como você.”
A reportagem do Discovery Nikkei analisa como as novelas de tevê e o cinema projetam a imagem do nikkei no Brasil. A análise se fundamenta no depoimento de atores nikkei, usualmente chamados a representar personagens estereotipados, marcados pela imagem dos imigrantes japoneses do inicio do século, Em novelas e filmes, personagens japoneses usualmente são retratados como agricultores, tintureiros ou donos de mercearia. Ou professores,  lutadores de artes marciais e chefs de sushi. E quase sempre são cômicos ou ingênuos –  usualmente dizendo “ne” no fim de cada frase e com  um sotaque depreciativo.
O esteréotipo e discriminação são persistentes porque, para fazer sucesso na tevê, são incorporados por celebridades É o que acontece com a apresentadora Sabrina Sato, que faz o tipo japonesa sexy e ingênua. Mas atores como  Marcos Miura, Camila Chiba, Érica Suzuki, Cristina Sano, Henrique Kimura e Ricardo Oshiro, defendem uma representação mais realista. De acordo com Miura, o campo de trabalho para asiáticos é ainda limitado. “A imagem padrão imposta no Brasil é de personagens com atores brancos. Negros já administram bem para superar o obstáculo, conquistando papéis de protagonismo na TV e no cinema. Infelizmente, para nós asiáticos, há ainda uma visão turva, e nossos papéis, geralmente são estereotipados.”

Os atores têm se recusado não só a atuar em papéis estereotipados, mas também rejeitam anúncios que veiculam imagens preconceituosas. Sakamoto argumenta que “quem não se adequa ao modelo “Ilha de Caras” (mais ricos), “Família Margarina” (classe média) e “Núcleo Suburbano da Novela das 21h” (mais pobres) não raro é excluído do rol de “brasileiros possíveis” na cabeça de certas pessoas que não foram educadas para a diferença e procuram te encaixar em algum modelo para justificar a sua existência.” Mas para os atores , a percepção dentro da própria comunidade nikkei está mudando.  A esperança é que na quarta geração no Brasil as generalizações e preconceitos hajam sido eliminados na indústria cultural brasileira.

O MEMAI trabalha para eliminar a disseminação dessas generalizações sobre a cultura e arte japonesas. Não aprovamos a propaganda do exotismo da “feijoada com sushi”. Defendemos que há  lugar para a cultura japonesa no Brasil, assim como para os descendentes. E a miscigenação que vem sendo feita com  mais de 100 anos de presença japonesa no Brasil torna natural o aumento de chefs de culinária japonesa vindos do Nordeste;  de mestres de artes marciais ou língua japonesa não descendentes; ou  de uma quantidade crescente de pesquisadores não descendentes interessados em aprofundar seus conhecimentos científicos no campo Estudos Japoneses. E  artistas que conseguem entender o espírito das artes japoneses, incorporando seus conceitos estéticos em suas obras. Essa incorporação pode ser feita  por um ocidental, como o pintor o Gustave Klimt. Prova de que a arte e a cultura são patrimônios universais .

"Mulher em pé com kimono. Gustav Klimt, 1918.
“Mulher em pé com kimono. Gustav Klimt, 1918.

32 KOTOBA | O RETORNO DA VERTIGEM E A OPÇÃO POÉTICA

Ukiyo-e "Tokonoma".
Ukiyo-e “Tokonoma”.

Depois de um intervalo intermitente, MEMAI  volta a ter atualizações mensais de artigos, ensaios e eventos, e  flashes e imagens sobre as artes japonesas, em sua página no Facebook.Voltamos no mês da estreia do blockbuster Godzilla, produção americana dirigida por Garethe Edwards no circuito comercial nacional. O monstro japonês Gojira, criado por Ishihiro Honda, já foi repaginado pelo menos 30 vezes, em filmes e ganhou até uma versão como personagem de desenho animado. Nas versões mais recentes, o lagartão, que representava o horror japonês à catástrofe nuclear, viu enfraquecer sua característica original como vetor de protesto político.  Para os fãs de Godzilla, as comparações serão inevitáveis.

Para nós, do MEMAI, o remake interessa dentro de uma crítica diacrônica, para conhecer a evolução do personagem ao longo da história contemporânea e  refletir sobre o seu significado em cada contexto histórico.  Mas deixemos a divulgação, alavancada pelo marketing da Warner Bros.,  para a grande imprensa. Preferimos divulgar  a caixa de  DVDs do cineasta Kenji Mizoguchi, contendo cinco clássicos de sua filmografia. Ou a saga de Tokuichi Idaka, registrada pelo cineasta independente nipo-brasileiro Mário Jun Okuhara no filme”Yami no ichi nichi- o dia que abalou a comunidade nipo-brasileira.

MEMAI opta pela divulgação da arte japonesa ou da arte que sofre a sua influência. Privilegia  o olhar poético antes do midiático. Às obras superexpostas dedica um olhar mais critico.E contempla as que permanecem  no tokonoma, o nicho que nas salas de chá guarda os documentos ou objetos sagrados no ritual da cerimônia de chá. Nem sempre teremos um  tokonoma  à disposição. Mas sempre podemos resguardar um nicho dentro de nós para guardar o que consideramos sagrado.

Marilia Kubota

31 KOTOBA | PARA NÃO DIZER QUE NÃO FALEI DO CAVALO

Oda Nobutaka (Onoe Kikugoro) leva o cavalo com a carga. | NATIONAL THEATRE

Em 31 de janeiro de  2014 começa o Ano do Cavalo, segundo o calendário lunar chinês.  De acordo com as profecias astrológicas, é um período que favorece impulsos, ataques e agressões. O cavalo aparece não só na astrologia oriental, como também em muitas lendas. Há uma, especial, em que a boca aberta do cavalo com seu dentes poderosos representa uma espécie de porta para um mundo paralelo. O herói que consegue colocar a mão na boca do cavalo sem que ele a arranque é que faz com que a porta se abra.

O cavalo aparece ainda na peça de kabuki é Sanzenryo Haru no Komahiki ( As três mil Ryo carregadas por um cavalo no ano novo), encenada este mês no Teatro Nacional de Tóquio. Muitas peças de kabuki são similares aos folhetins eletrônicos brasileiros.  O  enredo com frequência é melodramático e repleto de intrigas, atos de lealdade, romances, auto-sacrifício e vilania, entremeados a algum fundo histórico, ou totalmente fantasiosos, como uma novela de Glória Perez. Sanzenryo Haru no Komahiki foi premiada em Osaka em 1794, pelo trabalho do escritor Tatsuoka Mansaku, da região de  Kansai .  Agora é interpretada pelo ator Onoe  Kikugoro, 71 anos, de uma linha de atores de kabuki.

Um ponto interessante da peça, é que o protagonista é Oda Nobutaka, 0 terceiro filho de Oda Nobunaga (1534-82), o poderoso Senhor da Guerra. Mas sua fonte de inspiração é  Matsudaira Choshichiro, o filho de um cortesão chamado Tokugawa Tadanaga.  Rei Sasakuguchi, crítico do Japan Times, explica que o artifício foi necessário porque um decreto oficial do shogunato  baniu qualquer menção do nome de oficiais ou senhores em obras de ficção pelo público. Desse modo,  Matsudaira ficava fora da restrição com Nobutaka,  personagem de um regime anterior.

O shogunato  Tokugawa foi o regime de governo , que teve o controle do país em 1603 e reteve o poder dentro da dinastia familiar até  1867. Ou seja, o dramaturgo pode ter usado Matsudaira como personagem por ter descoberto nele algo interessante, mas a história gira em torno da batalha para suceder Oda Nobunaga, que morreu em 1582. O violento fim veio no Templo  Honno-ji, em Quioto, onde ele foi atacado por forças leais a um general chamado  Akechi Mitsuhide, que estava conspirando com um outro  general, Toyotomi Hideyoshi, para retirar o  poder de Nobunaga.

Na adaptação contemporânea, o fundo histórico é carnavalizado. Mas o que interessa é o Ano do Cavalo, citado no Ato IV,  intitulado Lutando pela Ponte Yamato em  Sumiyoshi, onde se encena a celebração do Ano do Cavalo. O ato abre com uma cena de ladrões lutando em torno de uma cavalo perto da Ponte  Yamato, em  Sumiyoshi, Osaka. O cavalo está carregando uma fortuna de não menos do que 3 mil r que  Mashiba Hisayoshi está doando a um templo no sagrado Monte Koya, na  Peninsula Kii (atualmente Prefeitura de  Wakayama), em honra ao primeiro aniversário da morte de  Oda Nobunaga.

Então, quando os ladrões começam a levar o cavalo e sua carga, um  samurai aparece e manda eles devolver o roubo. Quando os ladrões o atacam, ele os mata  — nesse ponto, alguns oficiais de Hisayoshi voltam e descobrem que o samurai é  Oda Nobutaka. Quando os oficiais concordam que está certo dar o dinheiro em memória de seu pai,  Nobutaka deixa o cavalo, desviando a doação em dinheiro de seu amigo leal para o mercador   Tarosuke, que está todo endividado  depois de gastar todas as suas economias pagando as contas da casa de gueixas de  Nobutaka.

A arte é, quase sempre, perversa. No drama ou na comédia há modos de interpretar a realidade ou vingar-se dela.  Tatsuoka Mansaku se vinga da censura do shogunato Tokugawa elevando o pequeno vilão, em detrimento do maior deles.

Marilia Kubota

30 KOTOBA | RENASCER EM QUALQUER LUGAR

Lanternas acesas no fim de ano, em 2007. Koji Sasahara/AP
Lanternas acesas no fim de ano, em 2007, em Tóquio. Koji Sasahara/AP

Tradições orientais ou tradições ocidentais ? O Natal é a época em que muitas famílias nipo-brasileiras optam por conciliar as tradições culturais da etnia e da nacionalidade. Para os nikkei, em dezembro começa a série de comemorações do bonenkai –  o encontro do final de ano. Cada grupo social celebra o seu bonenkai e o Natal será reservado para a família.

Essa separação entre o que é público e o que é privado nas famílias nipo-brasileira encaixa-se dentro do “modelo familiar japonês”. O japonês diferencia as relações “de dentro” (uchi) e “de fora” (soto). Assim, cria  uma ética de permissões e restrições na linguagem (corporal, também) para definir a privacidade e a sociabilidade.

O cristianismo  foi expulso do Japão no século XVII, mas deixou suas marcas.  Com a modernização , a partir de 1980, o Natal passou a ser celebrado, embora seja um evento comercial, não uma data religiosa.  Os bonenkai  seguidos do shinenkai – a festa do início do ano é que têm prioridade.  Os japoneses também fazem a “ceia de natal” , com um curioso Bolo de Natal , decoram suas casas e trocam presentes.  Mas essa data se tornou um evento romântico, para ser celebrada entre namorados.

Mesmo diante do inevitável avanço da ocidentalização, os japoneses sempre encontram formas criativas de comemorar as festas de fim de ano. A árvore de natal pode ter a forma do aterrador monstro Godzilla, personagem de cinema trash. Ou lembrar as vítimas do mais recente terremoto, ocorrido em  Miyagi. Assim, a convivência pacífica das tradições, as  comemorações “soto” não ultrapassam as do “uchi”.

 MEMAI deseja a todos boas festas. Em 2014 continuamos seguindo a vertigem.

Marilia Kubota

25 ARTES | O POLÊMICO WEI WEI E OUTROS ORIENTAIS

Instação de Ai Wei Wei na Bienal de Arte de Curitiba.
Instalação de Ai Wei Wei na Bienal  Internacional de Curitiba.

O polêmico  Ai Wei Wei,  que faz de sua arte um protesto contra a liberdade de expressão na China, trará à  Bienal Internacional de Curitiba a instalação feita de bicicletas  Very Yao, a ser  exposta no pátio do prédio da Secretaria de Estado da Cultura (SEEC).  Ele está entre os mais de 100 artistas de 5 continentes que participam da bienal, que acontece de 31 de agosto a 1o. de setembro em Curitiba. O evento, já no calendário cultural da cidade há 20 anos, tem curadoria dos críticos Teixeira Coelho (MASP/Museu de Artes de São Paulo)  e Ticio Escobar (Trienal do Chile) nessa edição.

A ironia faz parte do trabalho de Wei Wei. Ele  manipula ferramentas midiáticas  como um gênio para publicizar suas obras, como mostra o clip Dumbass. No vídeo, o artista denuncia sua prisão domiciliar  por dois meses, em 2011,  pelo governo chinês, a pretexto de sonegação de impostos.  “Fique na linha de frente como um idiota, num país que se oferece a todos como uma prostituta”, diz um dos versos da canção do clip. A prisão também é tema de seu último disco,  A Divina Comédia, lançado em junho.

A artista japonesa Sakiko Yamaoka também foi selecionada para participar da bienal.  Sakiko nasceu em 1961, vive e trabalha em Tóquio, Japão. Atua com performance, video, fotografia e instalação. Define sua obra como esculturas que representam ação, tempo e relacionamento entre o artista e seu público, o artista e os materiais, na qual tenta criar uma amostra da condição humana. Em suas performances, por exemplo, os corpos humanos são considerados objetos. Sakiko participou de vários festivais de arte, na Ásia (Japão, Indonésia, Tailândia)  e na Europa (Suécia, Polônia e Escócia).

Além de Wei Wei e Sakiko, entre os nomes internacionais figuram Ann-Sofi Sidén (Suécia), Antoni Abad (Holanda), Luis Felipe Noé (Argentina), Katharina Grosse (Alemanha), Martine Viale (Canadá), Peter Kubelka (Áustria), Regina Silveira (Brasil) e William Kentridge (África do Sul).

Entre os artistas brasileiros,  a poeta Marilia Kubota,  editora do MEMAI teve uma obra selecionada pela curadoria de Literatura. Seu poema Trem-fantasma estará ao lado de outros poemas de autores de Curitiba e do Brasil. A curadoria foi feita pelo poeta Ricardo Corona, concorrente ao prêmio Jabuti de Poesia em 2012, com o livro Curare. Obras de poetas locais serão lidas por monitores do evento, dentro dos ônibus da cidade.  Todos os poemas  selecionados serão reunidos na antologia Fantasma Civil, a ser lançada no dia 17 de outubro, no Palacete Wolf, no Largo da Ordem.

25 KOTOBA | A CULTURA DO AVESSO

Mulher do período Jomon (10 mil anos atrás) fazendo cerâmica. http://www.nbz.or.jp/eng/middlejomon.htm
Mulher do período Jomon (10 mil anos atrás), no Japão, fazendo cerâmica. http://www.nbz.or.jp/eng/middlejomon.htm

Diversos intelectuais se aventuraram no Japão. Ou para conhecer o “exotismo” da cultura japonesa, ou para estudá-la, profundamente. Nesse último caso, os ocidentais não só se apaixonaram pela cultura e arte japonesa, como ajudaram a preservá-la como patrimônio artístico da humanidade. Ernest Fenollosa, que chegou em 1878,  ajudou a reviver o estilo de pintura Nihonga, foi professor da Universidade de Tóquio,  ajudou a fundar a Academia de Belas Artes de Tóquio e o Museu Imperial, sendo seu diretor em 1888. Mudou seu nome para Tei-Shin, adotando também o nome Kanō Yeitan Masanobu. O irlandês Lafcádio Hearn, que chegou em 1890, foi se encantando de forma tão radical que mudou seu nome para Yakumo Koizumi, adotando o sobrenome da esposa, Setsuko Koizumi, compilou várias narrativas de tradição oral e escreveu vários livros sobre diversos aspectos da cultura japonesa, como a religião e a literatura.

Entre os viajantes, aqueles que não chegaram a morar no Japão, mas produziram ensaios de impacto sobre suas impressões estão os franceses Roland Barthes e Claude Levi-strauss. O primeiro, filósofo, escreveu O Império dos Signos, livro que compete, dentro do estudos japoneses (ou japonologia, como se diz na Europa), com o best-seller O crisântemo e a espada, da antropóloga americana Ruth Benedict.  Levi-strauss escreveu uma obra periférica em sua extensa bibliografia: A outra face da lua, resultado das cinco viagens que fez ao Japão.

O livro de Benedict reúne e analisa uma série costumes da vida japonesa, desde o ato de tomar banho a obrigações sociais, como o on e o giri. Como a autora avisa previamente, a pesquisa foi feita como encomenda do exército americano, e não teve pesquisa de campo in loco, mas apenas nas comunidade japonesa americana.

O império dos signos, por sua vez, é um best-seller na Europa. Barthes esteve no Japão nos anos 70 e usou sua escritura característica. O estilo subjetivo é debitado ao que os  críticos dizem ser próprio dos japonologistas, em sua preferência por uma visão holística de seu campo de estudos. Numa série de ensaios, o semioticista aborda assuntos tão diversos como a caligrafia, a gastronomia, o teatro de boneco Bunarku, o haicai, os matsuri (festivais folclóricos), o sistema de endereçamento.

O autor de O pensamento selvagem, por sua vez, fala em cada um dos ensaios de A outra face da lua de temas muito diversos, mas o principal são as narrativas da mitologia japonesa. Ele encontra elementos semelhantes entre o mito de criação japonês , e na história de Amaterasu, com mitos de outras culturais, no Ocidente e no Oriente. Essas semelhanças, segundo o antropólogo francês, demonstram que o mundo é redondo. Ou seja, o elemento que emerge numa cultura como aparentemente em oposição à outra, é na verdade, seu avesso.

O estruturalismo de Levi-strauss podem ter sido ultrapassado, e também a ideia de uma circularidade primordial, pertencentes ao universo mental das  culturas primitivas.  A sociedade pós-moderna, fragmentada e reciclada, é reconfigurada pela imagem da teia, da comunicação enxameada, da hiperconectividade. Mas não deixa de ser fascinante remontar  os  fragmentos que um dia estiveram reunidos no continente afroasioamerindio em  Godwana.  Esperamos que mais pesquisadores tenham o espírito de aventura de Levi-strauss para ir atrás de nosso passado em comum.

Marilia Kubota

NOTÍCIA | CULTURA JAPONESA NO SOLAR DO ROSÁRIO

"O jardim de Kameido', ukiyo-e de Hiroshigue.
“O jardim de Kameido’, ukiyo-e de Hiroshigue.

Continuam abertas as vagas para o curso livre Japão: História e sociedade, arte, cinema e literatura, no Solar do Rosário, em Curitiba. O curso, ministrado por Marilia Kubota, é destinado a qualquer pessoa interessada em conhecer aspectos ainda não divulgados sobre a cultura japonesa.

O Japão não é apenas um paraíso high tech, nem habitado por herdeiros de samurais e gueixas; é também um país rico de tradições culturais, entre essas a poesia – que ultrapassa o aspecto mais conhecido e divulgado no Ocidente, do haicai, a arte narrativa, o teatro (Bunraku, Kabuki, Nô), a gravura (ukiyo-e) e também as chamadas artes contemporâneas, o cinema e literatura moderna .

O curso será dividido em quatro módulos: história e sociedade (0rigem e períodos históricos. Mitologia. Sociedade e religião. Criação da cultura autóctone japonesa.  Criação da escrita japonesa. Ideograma), artes tradicionais ( Hanashi Banashi. Literatura das mulheres. Tanka . Haicai. Cerimônia do chá. Caligrafia. Ikebana. Teatro Bunraku, Noh,  Kabuki) artes contemporâneas (gravura, literatura e cinema ) e artes híbridas (artes visuais, eletrônicas e dos imigrantes). O curso tem um total de 48 horas de aulas, sendo fornecidos certificados aos participantes com 80% de frequência.

Marilia Kubota é poeta e jornalista, mestre em Estudos Literários pela Universidade Federal do Paraná (2012). Participou de 7 antologias de poesia e prosa, publicadas no Brasil, Argentina e Portugal. Desde 2005 orienta oficinas de criação literária. Organizou o Concurso Nacional de Haicai Nempuku Sato (2008) e a exposição Arte Nikkei no Centenário. É organizadora da antologia Retratos Japoneses no Brasil – Literatura Mestiça (Annablume, 2010) e autora dos livros de poesia Selva de Sentidos (2008)  e Esperando as bárbaras (2012).

24 KOTOBA | A NOVA IDADE MÍDIA

Cena de "O livro de cabeceira", de Peter Greenaway.
Cena de “O livro de cabeceira”, de Peter Greenaway.

Nas duas últimas semanas de junho o Brasil foi sacudido por uma onda de manifestações públicas que abalou todo o país. Políticos, a grande imprensa, cidadãos comuns, todos se sentiram sem chão. Afinal, o que estava acontecendo ? Por que estudantes jovens se levantavam contra o aumento de R$ 0,20 na passagem de ônibus ?

O movimento, a princípio  atuante em São Paulo, ganhou força quando a polícia militar  reprimiu a manifestação que tomou a Avenida Paulista, no dia 13 de junho. No dia seguinte já estavam no ar, na internet, imagens sobre a truculência da polícia, sobrepostas sobre a trilha sonora de um videoclipe da Fiat, criado para a Copa do Mundo: o hit  Vem pra rua,  interpretado pelo cantor Falcão, do grupo Rappa.

O vídeo divulgado amplamente (no Youtube, as versões em português e em inglês atingiram, juntas, mais de 1,5 milhão  de visualizações) nas redes sociais mostraram que a arte está intrinsecamente vinculada à política. Os novos movimentos coletivos usam a mídia (Facebook, Twitter, câmeras e vídeos digitais) de forma inovadora. Não como instrumentos de controle social, como é propagado a todo momento nas redes sociais, mas para denunciar os abusos do poder e como forma de mobilização política.

Esse uso das novas mídias sociais já estava em curso no mundo, e foi visível no resultado das últimas eleições no Brasil. Mas parte da grande imprensa se recusa a creditar essa nova função  (o quinto poder?) às mídias alternativas. E vêem aí controle, conspiração, manipulação.

Vê-se no Brasil algo já encenado no Japão, no século X. Enquanto os homens da nobreza discutiam temas sérios como a Política, a Filosofia e  a Economia, em língua chinesa, as mulheres se recolhiam para debater sobre literatura, poesia e arte. Como não lhes era permitido aprender o kanji, elas inventaram o hiragana – a escrita fonética japonesa que decodifica para a fala japonesa os ideogramas chineses. Essa revolução silenciosa foi gestada entre biombos e diários, numa linguagem velada e sofisticada. Mas teve sua repercussão, pois  hoje, os escritos de Lady Shikibu Murasaki  e Sei Shonagon são considerados patrimônio cultural da humanidade. E, ironia da história, as leituras da   nobreza masculina do período Heian foram esquecidas.

A arte, como se vê, tem uma função  que não deve ser submetida a nem uma lei, pois atende ao princípio da liberdade de espírito. A juventude capta com rapidez o desejo de esperança e renovação.  Nós, do MEMAI, esperamos que os movimentos sociais que invadem as ruas no Brasil avancem para a Nova Idade Mídia e não para a moda da nova idade média, a  mídia da novidade média, como já cantou Cazuza.

Encha os bolsos com poesia e siga a vertigem .

Marilia Kubota