43 PESQUISA – SEMINÁRIO IMIGRAÇÃO E IDENTIDADE NA UFPR

Revista MEMAI em parceria com a UFPR e a Livraria Vertov organiza o seminário “Imigração e Identidade”, com os pesquisadores Jeffrey Lesser (Emory University) e Alexandre Kishimoto (Antropologia da USP).

A  revista MEMAI, em parceria com o Departamento de Ciências Humanas da Universidade Federal do Paraná (UFPR) e a Livraria Vertov organizam o seminário “Imigração e Identidade”, no qual os pesquisadores Jeffrey Lesser (Emory University)  e Alexandre Kishimoto (Antropologia da USP) conversam com o público sobre suas pesquisas e livros, na próxima quarta-feira (08),  a partir das 15h30 min, no anfiteatro 1000, do Edifício D. Pedro I (Reitoria).

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Jeffrey Lesser ocupa a Cátedra de Estudos Brasileiros na Universidade Emory, em Atlanta, Estados Unidos, e é professor visitante do Instituto de Estudos Avançados da Universidade de São Paulo. É autor de muitos livros publicados no Brasil, incluindo três premiados internacionalmente: “Uma Diáspora Descontente: Os Nipo-Brasileiros e os Significados da Militância Étnica”, 1960-1980 (Paz e Terra, 2008), “A Negociação da Identidade Nacional: Imigrantes, Minorias e a Luta pela Etnicidade no Brasil”, (Editora Unesp, 2001) e “O Brasil e a Questão Judaica: Imigração, Diplomacia e Preconceito” (Imago Editora, 1995).

Kishimoto01Alexandre Kishimoto é mestre em Antropologia Social pela Universidade de São Paulo, pesquisador especialista em cinema e antropologia. Autor do lvro “Cinema Japonês na Liberdade”, integra o Grupo de Antropologia Visual da USP e atua em projetos culturais e educativos em coletivos como a Associação Cultural Cachuera! e o Núcleo Hana de Pesquisa e Criação Teatral.

O evento será mediado pela jornalista Marilia Kubota e conta a participação dos professores Karina Bellotti, do Departamento de História da UFPR, Márcio de Oliveira, do Departamento de Sociologia e Mônica Okamoto, do Departamento de Letras. O Edifício D. Pedro I fica na Rua General Carneiro, 460.

34 KOTOBA | A NOVA CARA DOS NIKKEI NO BRASIL

Erica Kaminishi.
Erica Kaminishi.

Por Marilia Kubota

Saia na rua e pergunte, se você é descendente de japonês, para um conterrâneo: você acha que eu sou japonês ou brasileiro ? A resposta,  salvo exceções,  será: japonês. Se você é nikkei de primeira, segunda e terceira geração acostumou-se a ser o “japonês” do grupo. Mas daqui para frente, a identidade do descendente de japonês pode sofrer transformações profundas na comunidade brasileira.  Isto se deve à presença cada vez maior de jornalistas e artistas  nikkei em destaque na mídia brasileira. E também à consciência dessas personalidades, sobre sua responsabilidade pela  disseminação de estereótipos e preconceitos em relação aos nikkei brasileiros.

Um artigo do jornalista Leonardo Sakamoto, publicado em seu blogue, no site UOL, no dia 30 de junho e uma reportagem , escrita pelo jornalista e fotógrafo freelance Henrique Minatogawa  publicada no Discovery Nikkei, no último dia 14 de jullho são exemplos desse tipo de consciência. Sakamoto comenta, com seu  estilo irônico, as expressões mais usuais em relação à etnia japonesa no Brasil. De apelidos a cliclês, como: Você deveria ter vergonha. O japonês é um povo honrado e trabalhador, que conquista as coisa do próprio suor. Não fica defendendo invasão como você.”
A reportagem do Discovery Nikkei analisa como as novelas de tevê e o cinema projetam a imagem do nikkei no Brasil. A análise se fundamenta no depoimento de atores nikkei, usualmente chamados a representar personagens estereotipados, marcados pela imagem dos imigrantes japoneses do inicio do século, Em novelas e filmes, personagens japoneses usualmente são retratados como agricultores, tintureiros ou donos de mercearia. Ou professores,  lutadores de artes marciais e chefs de sushi. E quase sempre são cômicos ou ingênuos –  usualmente dizendo “ne” no fim de cada frase e com  um sotaque depreciativo.
O esteréotipo e discriminação são persistentes porque, para fazer sucesso na tevê, são incorporados por celebridades É o que acontece com a apresentadora Sabrina Sato, que faz o tipo japonesa sexy e ingênua. Mas atores como  Marcos Miura, Camila Chiba, Érica Suzuki, Cristina Sano, Henrique Kimura e Ricardo Oshiro, defendem uma representação mais realista. De acordo com Miura, o campo de trabalho para asiáticos é ainda limitado. “A imagem padrão imposta no Brasil é de personagens com atores brancos. Negros já administram bem para superar o obstáculo, conquistando papéis de protagonismo na TV e no cinema. Infelizmente, para nós asiáticos, há ainda uma visão turva, e nossos papéis, geralmente são estereotipados.”

Os atores têm se recusado não só a atuar em papéis estereotipados, mas também rejeitam anúncios que veiculam imagens preconceituosas. Sakamoto argumenta que “quem não se adequa ao modelo “Ilha de Caras” (mais ricos), “Família Margarina” (classe média) e “Núcleo Suburbano da Novela das 21h” (mais pobres) não raro é excluído do rol de “brasileiros possíveis” na cabeça de certas pessoas que não foram educadas para a diferença e procuram te encaixar em algum modelo para justificar a sua existência.” Mas para os atores , a percepção dentro da própria comunidade nikkei está mudando.  A esperança é que na quarta geração no Brasil as generalizações e preconceitos hajam sido eliminados na indústria cultural brasileira.

O MEMAI trabalha para eliminar a disseminação dessas generalizações sobre a cultura e arte japonesas. Não aprovamos a propaganda do exotismo da “feijoada com sushi”. Defendemos que há  lugar para a cultura japonesa no Brasil, assim como para os descendentes. E a miscigenação que vem sendo feita com  mais de 100 anos de presença japonesa no Brasil torna natural o aumento de chefs de culinária japonesa vindos do Nordeste;  de mestres de artes marciais ou língua japonesa não descendentes; ou  de uma quantidade crescente de pesquisadores não descendentes interessados em aprofundar seus conhecimentos científicos no campo Estudos Japoneses. E  artistas que conseguem entender o espírito das artes japoneses, incorporando seus conceitos estéticos em suas obras. Essa incorporação pode ser feita  por um ocidental, como o pintor o Gustave Klimt. Prova de que a arte e a cultura são patrimônios universais .

"Mulher em pé com kimono. Gustav Klimt, 1918.
“Mulher em pé com kimono. Gustav Klimt, 1918.

19 POP | A CULTURA POP NA PRODUÇÃO DE IDENTIDADES

Por  Ana Cristina Gonçalves

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“Gen pés descalços”, de Keiji Nakazawa: mangá que cria uma identidade japonesa.

O objetivo deste artigo é situar os artefatos culturais japoneses (mangás , animês, games e produtos da indústria cultural)  no universo dos fenômenos identitários. Para tal, em sua primeira parte, serão discutidos brevemente alguns conceitos sobre identidade, a partir de uma perspectiva sociológica, contrapondo com o discurso de homogeneidade das teorias Nihon-Jin-Ron 日本人論 (teorias ou discussões sobre a identidade nacional e cultural dos japoneses), Nihonjinron. Em seguida,  serão  analisado os   encontros, conflitos e conexões entre o Ocidente e o Japão, e de que forma esses fenômenos contribuíram em vários níveis para o processo de (re) construção de uma identidade moderna em face da dominação ocidental, buscando uma articulação com a questão do orientalismo e self-orientalismo. A abordagem aqui proposta parte do entendimento de que toda cultura além de dinâmica é resultado de uma estratificação semiótica dentro de um determinado contexto histórico, político e social no qual e pelo qual interagimos (re) construindo significados.

Para podermos compreender a (re) construção identitária, se faz necessário observar de que forma as práticas e valores culturais foram (re) construídos por meio do intercâmbio das representações culturais dentro de um determinado contexto histórico, político e social. Uma visão ampla que contempla a complexidade observada no tema da identidade pode ser observada em Castells (2000), no seguinte fragmento:

Não é difícil concordar com o fato de que, do ponto de vista sociológico, toda e qualquer identidade é construída. A principal questão, na verdade, diz respeito a como, a partir de quê, por quem, e para quem, e para quê isso acontece. A construção de identidades vale-se da matéria prima conhecida pela história, geografia, biologia, instituições produtivas e reprodutivas, pela memória coletiva e por fantasias pessoais, pelos aparatos de poder e revelações de cunho religioso. Porém, todos esses materiais são processados pelos indivíduos, grupos sociais e sociedades que se reorganizam seu significado em função de tendências sociais e projetos culturais enraizados em sua estrutura social, bem como em sua visão tempo/espaço. (Manuel Castells p.23, 2000).

 Assim,  o homem é entendido nesta perspectiva como um ser de projeto. Dialogando com este autor podemos perceber como as dinâmicas envolvendo a questão da identidade e das representações culturais estão profundamente imbricadas ente si. Parafraseando Hall, as representações atuam simbolicamente classificando o mundo a nossa volta e nossas relações em seu interior. Portanto identidade é (re) construção.

Por outro ângulo, em relação à questão identitária japonesa, Oguma (2002) pontua que foi a partir do mito de uma identidade homogênea, pura e essencial japonesa, que os pilares das teorias Nihon-Jin-Ron 日本人論 (teorias ou discussões sobre a identidade nacional e cultural dos japoneses) foram construídos e se sustentam até os dias de hoje. Alguns aspectos destas teorias partem do entendimento de que o estado-nação-japonês é formado pela noção de uma nação japonesa, que compartilha a mesma língua e cultura. Outro aspecto é a compreensão de que somente esta nação japonesa compartilha uma herança única e pura originária do arquipélago japonês desde os tempos imemoriais. Assim as teorias Nihon-Jin-Ron debatem entre si as características únicas desta homogeneidade em uma perspectiva essencialista.

Já para Hall (2005), se sentimos que temos uma identidade unificada desde o nascimento até a morte é porque construímos uma cômoda história sobre nós mesmos ou uma confortadora “narrativa” do “eu”. Hall ainda observa que: “A identidade plenamente unificada, completa, segura e coerente é uma fantasia. Ao invés disso à medida que os sistemas de significação e representações culturais se multiplicam somos confrontados por uma multiplicidade desconcertante e cambiante de identidades possíveis, com cada uma das quais poderíamos nos identificar ao menos temporariamente”. Neste sentido pode-se dizer que estamos constantemente negociando nossas relações, simetricamente ou assimetricamente, na estrutura social na qual estamos inseridos no âmbito da nossa etnia, gênero, classe, idade. Sendo assim, não podemos ignorar a importância das representações imagéticas no contexto dos estudos identitários, pois as imagens trazem elementos passíveis de identificação e análise que possibilitam um maior entendimento dos processos de representação simbólica, que re-significam os artefatos culturais no contexto da grande arena global, produzindo identidades e estranhamento.

Atualmente percebe-se no contexto das mudanças e transformações globais, das questões referentes aos deslocamentos de culturas, a importância que se têm dado às discussões em torno dos fenômenos identitários, ao hibridismo e ao transnacional ismo. Koichi Iwabuchi, abordando o transnacionalismo japonês  argumenta que uma forte característica da identidade moderna japonesa é a grande capacidade de apropriação de culturas alheias, não como um processo natural de hibridismo, mas sim como uma forma chamada por Iwabuchi de “hibridismo estratégico”. Isto é o Japão absorve a cultura estrangeira enfatizando as diferenças, já que o hibridismo em si desestabiliza o conceito de homogeneidade japonês. Desta forma segundo Iwabuchi, o “hibridismo estratégico” japonês além de enfatizar a auto-representação japonesa por meio das diferenças, sustenta paradoxalmente o discurso do transnacionalismo japonês.

Como já postulava sabiamente o teórico Edward Said, o Oriente não existe como tal, seria uma invenção do Ocidente para juntar tudo o que esteja além de suas fronteiras, tudo o que não seja ocidental, todos os seus “outros”. Said afirma que por meio do Orientalismo construiu-se um saber para o Ocidente sobre o Oriente, ou seja, produziu-se um discurso científico capaz de legitimar uma autoridade sobre o Oriente, desqualificando assim os artefatos orientais, colocando-os apenas no patamar do “diferente” e “exótico”.  Daisuke Nishihara em seu texto sobre a teoria do Orientalismo de Edward Said no contexto do Japão, aponta que mesmo o Japão, estando localizado geograficamente na Ásia, sendo, portanto classificado como um país oriental, politicamente sempre assumiu uma postura imperialista ocidental frente aos seus vizinhos asiáticos. Pois em face da dominação das grandes potencias ocidentais, defendia um discurso essencialista por meio das teorias Nihon-Jin-Ron, onde pregava a existência de uma linhagem em comum entre os países asiáticos, mas praticou intensivamente uma política imperialista ocidental invadindo e colonizando estes mesmos vizinhos.

Portanto, para este autor a teoria de Edward Said no contexto do Japão, neste aspecto específico não se sustenta, pois fica comprometida em relação à postura antagônica japonesa. Por outro lado, é evidente a presença de ícones orientais japoneses na cultura ocidental como, por exemplo, a figura do samurai e da gueixa, representada como sinônimo de bravura e sensualidade. O Japão também  utilizou-se de  discursos orientalistas na construção imagética da China no período Taisho reproduzindo/reforçando paradoxalmente o próprio discurso orientalista um modelo de beleza feminino estereotipado, amplamente representadas na literatura japonesa por autores como Tanizaki Jun’ichirō, por exemplo.

Os discursos orientalistas ainda ecoam na contemporaneidade, no contexto dos novos artefatos culturais, que ainda é, em grande parte, percebido como apenas como um gênero da arte sequencial vindo do Oriente, portanto com características exóticas. A maioria das análises feitas sobre estes artefatos privilegia a sua linguagem a partir de um caráter formalista e semiótico que se utiliza de perspectivas e olhares ocidentais em suas análises. Não que essas análises não sejam importantes ou não contribuam, mas quando não dialogam com outras áreas do conhecimento, outros saberes ou com os teóricos japoneses sobre o assunto adquirem um caráter reducionista, revelando em muitos casos apenas  um discurso orientalista, do diferente, do outro.

Os artefatos culturais japoneses dialogam com  a tradição imagética japonesa, onde a imagem se sobrepõe à palavra, seu desenvolvimento e influências ocidentais no pós-guerra fizeram que adquirisse uma maior plasticidade e características híbridas (hibridismo estratégico), contribuindo não apenas para o universo da arte sequencial, mas para as artes visuais como um todo, como é o caso da cultura pop japonesa com uma grande repercussão no cenário cultural internacional. O signo visual desses artefatos estão carregados de uma simbologia  muito particular repleta de ícones. Entendendo-se aqui as leituras de ícone como uma visão do mundo transfigurado, ou seja:

A leitura dos ícones tem como objetivo não apenas fazer que conheçamos melhor as tradições nas quais foram concebidos, mas também nos iniciar na prática visionária que os inspirou, permitindo nos integrar no tecido de nossa existência os elementos dos qual o ícone é composto: as cores, as formas que o estruturam, a presença discreta e forte da qual é a evocação eficaz. (Jean-Yves Leloup p.16, 2001).

Assim,  a questão referente ao fenômeno identitário, remete às matrizes históricas da cultura japonesa e é um  aspecto central, no meu entender, para as pesquisas onde esses artefatos tornam se  objeto de estudo. A questão da recepção local/global, também situa os artefatos  no contexto dos estudos culturais, contribuindo para uma maior compreensão dos processos de seus deslocamentos, apropriações e produções, e suas implicações com os fenômenos identitários.

 Na perspectiva de Iwabuchi os discursos atuais sobre a disseminação global dos artefatos culturais japoneses, entendendo-se aqui por artefatos culturais japoneses o mangá, são relacionados a certa  “fragrância” à medida que se tornam cada vez mais populares e aceitos no contexto de uma determinada cultura. Nesta direção Iwabuchi pontua:

 Any product has the cultural imprint of the producing country; even if it is not recognized as such I would suggest that the major audiovisual products Japan exports could be better characterized as the “culturally odorless” three C’s: consumer technologies (such as VCRs, Karaoke, and Walkman); comics and cartoons (animation); and computer/video games. I use the term “cultural odor” to focus on the way in which cultural features of a country  of origin and images or ideas of its national, in most cases stereotyped, way  of life are associated positively witch  a particular product in the consumption process. Any product may have various kinds of cultural association with the country of its invention. Such images are often related to exoticism, such as the image of Japanese samurai or the geisha girl”. (…)The way in which the cultural odor of a particular product becomes a “fragrance” – a socially and culturally acceptable smell – is not determined simply by the consumer’s perception that something is “made in Japan”. (…) The cultural odor  of a product  is also  closely  associated  with a racial  and bodily  images  of a country  of origin .The three C’s I mentioned earlier are cultural artifacts in which a country’s bodily, racial, and ethnic characteristics are erased or softened. The characters of Japanese animation and computer games for most part do not look “Japanese”. (Koichi Iwabuchi p. 27-28, 2002).

 Dialogando com este autor,  podemos perceber como as dinâmicas envolvendo a questão da identidade e das representações culturais estão profundamente imbricadas entre si e estão envolvidas com os fenômenos identitários, entre relações de poder, na estrutura social das sociedades. Se por um lado existem discursos que exaltam essa produção cultural  a partir de uma análise formal, outras análises, talvez, devessem buscar entender outras dimensões presentes  nestas narrativas. Por exemplo:  qual a visão de mundo que os mangás trazem em sua ideologia? Como estes artefatos dialogam com sua herança estética e tradição imagética? Qual a imbricação política, social e econômica das quais fazem parte como artefato cultural? Quais as influências que produz nas variadas esferas artísticas e culturais das diferentes culturas em que se insere? Como se relaciona com as dimensões do humano e com as transgressões?  Assim sendo a proposta deste artigo foi situar o mangá enquanto medium, que produz identidade e estranhamento no olhar do observador ocidental. Este artigo buscou refletir e contribuir com os estudos feitos sobre essa produção cultural no sentido de pontuar outras possibilidades, buscando outros olhares.


Ana Cristina Gonçalves é Mestre em  Língua, Literatura e Cultura Japonesa pela Universidade de São Paulo.  Pesquisadora colaboradora no Museu da Infância/UNESC), participa o Grupo de Pesquisa em Educação Estética (UNICAMP). Desenvolve pesquisas acerca das Representações Culturais Japonesas, das suas interfaces com a Literatura e Arte.

NOTÍCIA | "ELES QUEREM SER BRASILEIROS"

 

Foto de Chizuo Osava nos anos 60.

“Nasce daí um emaranhado de recalques, uma tremenda confusão íntima. A perplexidade torna-os aparentemente adaptados. Na verdade, há pouca autenticidade em seus sentimentos e julgamento de valores ocidentais. O seu íntimo, também, é uma tentativa de autocompreensão. A inibição, neles, tem raízes profundíssimas. Num mundo onde a extroversão é exaltada, são, às vezes, obrigados a fabricar emoções e reações  para fingir uma perfeita assimilação. Esse fingimento, essa imitação ridícula, acaba por agravar os conflitos dos mais sensíveis.

Há um permanente constrangimento nas relações do niseis, o que provoca neles  um isolamento bem acima do normal. A solidão, a absoluta incapacidade de comunicação, é uma característica da quase totalidade deles. Alguns, numa aparente incoerência, manifestam  verdadeira aversão pelos asiáticos e procuram refúgio junto aos ocidentais.

Marcados por um grande excesso de frustrações, geralmente são aplicados no trabalho e nos estudos. Eles são louvados pela capacidade de produzir e aprender.  Chega-se a confundir seu esforço com inteligência privilegiada. O nisei comum, porém , tem enorme carência de cultura geral. Sua dedicação, na verdade, é uma total submissão às exigências dos professores, na tentativa de compensar uma falha afetiva. Facilidade de assimilação é uma visão unilateral e excessivamente otimista de uma perigosa resignação. Os niseis são por demais crédulos. A vivência confunde-0s, mais que os orienta…

Não é ainda o momento de se exigir deles uma adaptação completa. Lutam ainda contra um resistência paterna e patriarcal. Não querem o reconhecimento formal de seus méritos, alguns falsos. Necessitam apenas de uma compreensão mais profunda, uma feto mais autêntico e , sobretudo, de uma orientação segura e sadia. Repudiá-los com ridicularização é desprezar a utilíssima capacidade de produção, e retarda neles o processo de assimilação.”

Trechos de um artigo escrito pelo jornalista  Chizuo Ozava (Shizuo Osawa), para a revista Panorama, de Curitiba.  Ozava foi ex- militante  da Vanguarda Popular Revolucionária, conhecido pelo codinome Mário Japa e um dos braços direitos do guerrilheiro Carlos Lamarca. O artigo foi extraído do livro “Uma diáspora descontente”, de Jeffrey Lesser (Paz e Terra, 2008).

 

NOTÍCIA | IDENTIDADE NIKKEI NA PÓS-MODERNIDADE

Na era pós-moderna, a  identidade dos nipo-brasileiros entra em conflito. Até a 2a. Guerra Mundial ser japonês no Brasil era considerado uma ameaça à soberania nacional. Depois, passou a ter uma conotação positiva. Porém,  com a globalização, os japoneses do Brasil guardam dos antepassados apenas o aspecto físico ( fenótipo , sangue,  traços fisionômicos), esquecendo os aspectos culturais, como a língua e a gestualidade.  São, portanto, brasileiros que usam a identidade japonesa quando é conveniente.

Essa foi a conclusão a que os pesquisadores Jeffrey Lesser ,  Christiane Stallaert e Koichi Mori  chegaram após apresentação de suas pesquisas sobre a identidade dos nipo-brasileiros na atualidade, na conferência de abertura do XXII ENCONTRO NACIONAL DE PROFESSORES UNIVERSITÁRIOS DE LÍNGUA, LITERATURA E CULTURA JAPONESA e IX CONGRESSO INTERNACIONAL DE ESTUDOS JAPONESES NO BRASIL, realizada no auditório do Teatro da Reitoria da Universidade Federal do Paraná, nesta quinta-feira (30).

Lesser é professor da Universidade de Emory (EUA), especialista em pesquisas sobre etnicidade e Stallaert, professora da Universidade de Leuven (Bélgica), especialista em iberoamericanidade.  Mori é antropólogo, professor da Universidade de São Paulo.

Jeffrey Lesser

De acordo com Lesser, o conceito de identidade no Brasil é tão flexível que no grupo dos japoneses entram  chineses e  coreanos.  Não existe  diferenciação étnica , tanto que atores de ascendência japonesa podem representar personagens chineses. E chineses podem representar personagens japoneses, diz o pesquisador, citando como exemplo uma brincadeira feita pelo comediante Danilo Gentile, em março desse ano, com o jogador chinês Zizao.  Para conseguir um autógrafo, o apresentador contratou atores para se fazerem passar por um casal de fãs chineses.  Em seu programa, Gentile  revelou a farsa. O casal não era chinês, mas os atores nipo-brasileiros  Priscila Akemi e Ricardo Oshiro.

Christiane Stallaert

Num teste de elenco para o filme “Gaijin II”,  da cineasta Tizuka Yamasaki,  Lesser comprovou a flexibilidade identitária do nipo-brasileiro.  Resolveu se fazer passar por nikkei. Não conseguiu enganar a produção, é claro. Mas na fila, encontrou descendentes de chineses e coreanos

Stallaert resume que a identidade do nikkei pode ser considerada “transmoderna” – existe uma dissociação entre raça (fenótipo, sangue, fisionomia) e cultura (língua, gestos).  Esse tipo de identidade irrompe após o fenômeno da globalização, em 1992, com a divisão do mundo em duas grandes áreas geopolíticas.

 

Crise de identidade

Koichi Mori.

O  caso de  Maria Nobuko estudado por Mori também passa pela crise de identidade étnica. Quando sua mediunidade  (em japonês, kamidari) foi detectada , nos anos  40, ela passou a frequentar terrenos de umbanda e ter contato com as entidades da religião africana.  Ela recebia espíritos não apenas de pretos velhos, entidades frequentes na Umbanda, mas também de espiritos japoneses.

Por causa da atuação desse espíritos japoneses, Nobuko passou a atender em casa. Descobriu que era  uma yuta, uma xamã okinawana, com poderes para receber espíritos.  Assim, passou a atender exclusivamente os seus conterrâneos. Mas sofreu  influência do kardecismo e a atendia num centro espírita.

Assim, no centro ela recebia espíritos de preto velhos. Em casa, de ancestrais de Okinawa. Então, compôe uma dupla identidade, influenciada pela etnicidade nikkei.

Para os três pesquisadores, o conflito com a identidade nikkei só é pacificado com a aceitação da dupla identidade, a da etnia e a da cultura. Para Lesser, essa é a aceitação do E em lugar do OU: o nipo-brasileiro é brasileiro e japonês.

O congresso segue nessa sexta-feira (31), com conferência do professor Paulo Franchett sobre haicai, a partir das 15h15 min, no Anfiteatro de Terapia Ocupacional, do prédio de  Ciências da Saúde, no  Alto da Glória. Mais informações sobre a programação no site do evento: http://www.estudosjaponeses.com.br/con2012/