34 KOTOBA | A NOVA CARA DOS NIKKEI NO BRASIL

Erica Kaminishi.
Erica Kaminishi.

Por Marilia Kubota

Saia na rua e pergunte, se você é descendente de japonês, para um conterrâneo: você acha que eu sou japonês ou brasileiro ? A resposta,  salvo exceções,  será: japonês. Se você é nikkei de primeira, segunda e terceira geração acostumou-se a ser o “japonês” do grupo. Mas daqui para frente, a identidade do descendente de japonês pode sofrer transformações profundas na comunidade brasileira.  Isto se deve à presença cada vez maior de jornalistas e artistas  nikkei em destaque na mídia brasileira. E também à consciência dessas personalidades, sobre sua responsabilidade pela  disseminação de estereótipos e preconceitos em relação aos nikkei brasileiros.

Um artigo do jornalista Leonardo Sakamoto, publicado em seu blogue, no site UOL, no dia 30 de junho e uma reportagem , escrita pelo jornalista e fotógrafo freelance Henrique Minatogawa  publicada no Discovery Nikkei, no último dia 14 de jullho são exemplos desse tipo de consciência. Sakamoto comenta, com seu  estilo irônico, as expressões mais usuais em relação à etnia japonesa no Brasil. De apelidos a cliclês, como: Você deveria ter vergonha. O japonês é um povo honrado e trabalhador, que conquista as coisa do próprio suor. Não fica defendendo invasão como você.”
A reportagem do Discovery Nikkei analisa como as novelas de tevê e o cinema projetam a imagem do nikkei no Brasil. A análise se fundamenta no depoimento de atores nikkei, usualmente chamados a representar personagens estereotipados, marcados pela imagem dos imigrantes japoneses do inicio do século, Em novelas e filmes, personagens japoneses usualmente são retratados como agricultores, tintureiros ou donos de mercearia. Ou professores,  lutadores de artes marciais e chefs de sushi. E quase sempre são cômicos ou ingênuos –  usualmente dizendo “ne” no fim de cada frase e com  um sotaque depreciativo.
O esteréotipo e discriminação são persistentes porque, para fazer sucesso na tevê, são incorporados por celebridades É o que acontece com a apresentadora Sabrina Sato, que faz o tipo japonesa sexy e ingênua. Mas atores como  Marcos Miura, Camila Chiba, Érica Suzuki, Cristina Sano, Henrique Kimura e Ricardo Oshiro, defendem uma representação mais realista. De acordo com Miura, o campo de trabalho para asiáticos é ainda limitado. “A imagem padrão imposta no Brasil é de personagens com atores brancos. Negros já administram bem para superar o obstáculo, conquistando papéis de protagonismo na TV e no cinema. Infelizmente, para nós asiáticos, há ainda uma visão turva, e nossos papéis, geralmente são estereotipados.”

Os atores têm se recusado não só a atuar em papéis estereotipados, mas também rejeitam anúncios que veiculam imagens preconceituosas. Sakamoto argumenta que “quem não se adequa ao modelo “Ilha de Caras” (mais ricos), “Família Margarina” (classe média) e “Núcleo Suburbano da Novela das 21h” (mais pobres) não raro é excluído do rol de “brasileiros possíveis” na cabeça de certas pessoas que não foram educadas para a diferença e procuram te encaixar em algum modelo para justificar a sua existência.” Mas para os atores , a percepção dentro da própria comunidade nikkei está mudando.  A esperança é que na quarta geração no Brasil as generalizações e preconceitos hajam sido eliminados na indústria cultural brasileira.

O MEMAI trabalha para eliminar a disseminação dessas generalizações sobre a cultura e arte japonesas. Não aprovamos a propaganda do exotismo da “feijoada com sushi”. Defendemos que há  lugar para a cultura japonesa no Brasil, assim como para os descendentes. E a miscigenação que vem sendo feita com  mais de 100 anos de presença japonesa no Brasil torna natural o aumento de chefs de culinária japonesa vindos do Nordeste;  de mestres de artes marciais ou língua japonesa não descendentes; ou  de uma quantidade crescente de pesquisadores não descendentes interessados em aprofundar seus conhecimentos científicos no campo Estudos Japoneses. E  artistas que conseguem entender o espírito das artes japoneses, incorporando seus conceitos estéticos em suas obras. Essa incorporação pode ser feita  por um ocidental, como o pintor o Gustave Klimt. Prova de que a arte e a cultura são patrimônios universais .

"Mulher em pé com kimono. Gustav Klimt, 1918.
“Mulher em pé com kimono. Gustav Klimt, 1918.
Advertisements

32 KOTOBA | O RETORNO DA VERTIGEM E A OPÇÃO POÉTICA

Ukiyo-e "Tokonoma".
Ukiyo-e “Tokonoma”.

Depois de um intervalo intermitente, MEMAI  volta a ter atualizações mensais de artigos, ensaios e eventos, e  flashes e imagens sobre as artes japonesas, em sua página no Facebook.Voltamos no mês da estreia do blockbuster Godzilla, produção americana dirigida por Garethe Edwards no circuito comercial nacional. O monstro japonês Gojira, criado por Ishihiro Honda, já foi repaginado pelo menos 30 vezes, em filmes e ganhou até uma versão como personagem de desenho animado. Nas versões mais recentes, o lagartão, que representava o horror japonês à catástrofe nuclear, viu enfraquecer sua característica original como vetor de protesto político.  Para os fãs de Godzilla, as comparações serão inevitáveis.

Para nós, do MEMAI, o remake interessa dentro de uma crítica diacrônica, para conhecer a evolução do personagem ao longo da história contemporânea e  refletir sobre o seu significado em cada contexto histórico.  Mas deixemos a divulgação, alavancada pelo marketing da Warner Bros.,  para a grande imprensa. Preferimos divulgar  a caixa de  DVDs do cineasta Kenji Mizoguchi, contendo cinco clássicos de sua filmografia. Ou a saga de Tokuichi Idaka, registrada pelo cineasta independente nipo-brasileiro Mário Jun Okuhara no filme”Yami no ichi nichi- o dia que abalou a comunidade nipo-brasileira.

MEMAI opta pela divulgação da arte japonesa ou da arte que sofre a sua influência. Privilegia  o olhar poético antes do midiático. Às obras superexpostas dedica um olhar mais critico.E contempla as que permanecem  no tokonoma, o nicho que nas salas de chá guarda os documentos ou objetos sagrados no ritual da cerimônia de chá. Nem sempre teremos um  tokonoma  à disposição. Mas sempre podemos resguardar um nicho dentro de nós para guardar o que consideramos sagrado.

Marilia Kubota

31 KOTOBA | PARA NÃO DIZER QUE NÃO FALEI DO CAVALO

Oda Nobutaka (Onoe Kikugoro) leva o cavalo com a carga. | NATIONAL THEATRE

Em 31 de janeiro de  2014 começa o Ano do Cavalo, segundo o calendário lunar chinês.  De acordo com as profecias astrológicas, é um período que favorece impulsos, ataques e agressões. O cavalo aparece não só na astrologia oriental, como também em muitas lendas. Há uma, especial, em que a boca aberta do cavalo com seu dentes poderosos representa uma espécie de porta para um mundo paralelo. O herói que consegue colocar a mão na boca do cavalo sem que ele a arranque é que faz com que a porta se abra.

O cavalo aparece ainda na peça de kabuki é Sanzenryo Haru no Komahiki ( As três mil Ryo carregadas por um cavalo no ano novo), encenada este mês no Teatro Nacional de Tóquio. Muitas peças de kabuki são similares aos folhetins eletrônicos brasileiros.  O  enredo com frequência é melodramático e repleto de intrigas, atos de lealdade, romances, auto-sacrifício e vilania, entremeados a algum fundo histórico, ou totalmente fantasiosos, como uma novela de Glória Perez. Sanzenryo Haru no Komahiki foi premiada em Osaka em 1794, pelo trabalho do escritor Tatsuoka Mansaku, da região de  Kansai .  Agora é interpretada pelo ator Onoe  Kikugoro, 71 anos, de uma linha de atores de kabuki.

Um ponto interessante da peça, é que o protagonista é Oda Nobutaka, 0 terceiro filho de Oda Nobunaga (1534-82), o poderoso Senhor da Guerra. Mas sua fonte de inspiração é  Matsudaira Choshichiro, o filho de um cortesão chamado Tokugawa Tadanaga.  Rei Sasakuguchi, crítico do Japan Times, explica que o artifício foi necessário porque um decreto oficial do shogunato  baniu qualquer menção do nome de oficiais ou senhores em obras de ficção pelo público. Desse modo,  Matsudaira ficava fora da restrição com Nobutaka,  personagem de um regime anterior.

O shogunato  Tokugawa foi o regime de governo , que teve o controle do país em 1603 e reteve o poder dentro da dinastia familiar até  1867. Ou seja, o dramaturgo pode ter usado Matsudaira como personagem por ter descoberto nele algo interessante, mas a história gira em torno da batalha para suceder Oda Nobunaga, que morreu em 1582. O violento fim veio no Templo  Honno-ji, em Quioto, onde ele foi atacado por forças leais a um general chamado  Akechi Mitsuhide, que estava conspirando com um outro  general, Toyotomi Hideyoshi, para retirar o  poder de Nobunaga.

Na adaptação contemporânea, o fundo histórico é carnavalizado. Mas o que interessa é o Ano do Cavalo, citado no Ato IV,  intitulado Lutando pela Ponte Yamato em  Sumiyoshi, onde se encena a celebração do Ano do Cavalo. O ato abre com uma cena de ladrões lutando em torno de uma cavalo perto da Ponte  Yamato, em  Sumiyoshi, Osaka. O cavalo está carregando uma fortuna de não menos do que 3 mil r que  Mashiba Hisayoshi está doando a um templo no sagrado Monte Koya, na  Peninsula Kii (atualmente Prefeitura de  Wakayama), em honra ao primeiro aniversário da morte de  Oda Nobunaga.

Então, quando os ladrões começam a levar o cavalo e sua carga, um  samurai aparece e manda eles devolver o roubo. Quando os ladrões o atacam, ele os mata  — nesse ponto, alguns oficiais de Hisayoshi voltam e descobrem que o samurai é  Oda Nobutaka. Quando os oficiais concordam que está certo dar o dinheiro em memória de seu pai,  Nobutaka deixa o cavalo, desviando a doação em dinheiro de seu amigo leal para o mercador   Tarosuke, que está todo endividado  depois de gastar todas as suas economias pagando as contas da casa de gueixas de  Nobutaka.

A arte é, quase sempre, perversa. No drama ou na comédia há modos de interpretar a realidade ou vingar-se dela.  Tatsuoka Mansaku se vinga da censura do shogunato Tokugawa elevando o pequeno vilão, em detrimento do maior deles.

Marilia Kubota

30 KOTOBA | RENASCER EM QUALQUER LUGAR

Lanternas acesas no fim de ano, em 2007. Koji Sasahara/AP
Lanternas acesas no fim de ano, em 2007, em Tóquio. Koji Sasahara/AP

Tradições orientais ou tradições ocidentais ? O Natal é a época em que muitas famílias nipo-brasileiras optam por conciliar as tradições culturais da etnia e da nacionalidade. Para os nikkei, em dezembro começa a série de comemorações do bonenkai –  o encontro do final de ano. Cada grupo social celebra o seu bonenkai e o Natal será reservado para a família.

Essa separação entre o que é público e o que é privado nas famílias nipo-brasileira encaixa-se dentro do “modelo familiar japonês”. O japonês diferencia as relações “de dentro” (uchi) e “de fora” (soto). Assim, cria  uma ética de permissões e restrições na linguagem (corporal, também) para definir a privacidade e a sociabilidade.

O cristianismo  foi expulso do Japão no século XVII, mas deixou suas marcas.  Com a modernização , a partir de 1980, o Natal passou a ser celebrado, embora seja um evento comercial, não uma data religiosa.  Os bonenkai  seguidos do shinenkai – a festa do início do ano é que têm prioridade.  Os japoneses também fazem a “ceia de natal” , com um curioso Bolo de Natal , decoram suas casas e trocam presentes.  Mas essa data se tornou um evento romântico, para ser celebrada entre namorados.

Mesmo diante do inevitável avanço da ocidentalização, os japoneses sempre encontram formas criativas de comemorar as festas de fim de ano. A árvore de natal pode ter a forma do aterrador monstro Godzilla, personagem de cinema trash. Ou lembrar as vítimas do mais recente terremoto, ocorrido em  Miyagi. Assim, a convivência pacífica das tradições, as  comemorações “soto” não ultrapassam as do “uchi”.

 MEMAI deseja a todos boas festas. Em 2014 continuamos seguindo a vertigem.

Marilia Kubota

29 KOTOBA | A ROSA DE FUKUSHIMA

Um pequeno monumento para os foragidos de Fukushima em Namie. Foto: Damir Sagolj/Reuters
Um pequeno monumento para os foragidos de Fukushima em Namie. Foto: Damir Sagolj/Reuters

A cada dia são detectados novos casos de câncer de tireóide em crianças moradoras de Fukushima. Se a quantidade de  casos está  acima da média, é difícil comprovar. As notícias do  vazamento da água radioativa no Pacífico, em setembro e o anúncio  de que a descontaminação nuclear da região levará 4o anos desenham um cenário pessimista. Técnicos estimam que, em 40 anos, o governo japonês gastará dezenas de bilhões de dólares  para descontaminar a região.  Por precaução, todas as usinas nucleares japonesas foram desativadas, após o acidente.

Com  todos os riscos,   os governos de todos os países do mundo insistem que a energia nuclear é a mais apropriada para substituir os combustíveis fósseis. Isso levando em conta os custos econômicos, não os sociais. Mas por outro lado, a  manutenção do aparato  significa a possibilidade de deter a tecnologia da bomba atômica.

O Japão sobreviveu a duas bombas atômicas. Com o vazamento da radiotividade nas águas do Pacifico, a  sombra do cataclisma nuclear paira não apenas sobre o arquipélago como também sobre o planeta. O tsunami de 11 de março seria  o início do apocalipse ?  O cenário apocalíptico, em vez de trazer pânico e alarmismo, deveria causar uma reflexão em torno dos riscos da energia nuclear.

Se os combustíveis fósseis são um perigo para a saúde e para o meio ambiente devido à liberação de carbono na atmosfera, a energia nuclear traz uma parcela considerável de riscos. Restam o carvão, as hidroelétricas, e as alternativas limpas: o biodiesel, a energia solar e a  eólica.  Curiosamente, das energias  não poluentes  nem um governo  quer ouvir falar. Não é um cataclisma nuclear que pode exterminar a vida no planeta Terra e sim a miopia de oligopólios interessados em defender  seus interesses econômicos.

Porém, não resta muito tempo para nutrir o egoísmo corporativo. Fukushima aciona a bomba relógio para pensar nos interesses coletivos.

Marilia Kubota

25 KOTOBA | A CULTURA DO AVESSO

Mulher do período Jomon (10 mil anos atrás) fazendo cerâmica. http://www.nbz.or.jp/eng/middlejomon.htm
Mulher do período Jomon (10 mil anos atrás), no Japão, fazendo cerâmica. http://www.nbz.or.jp/eng/middlejomon.htm

Diversos intelectuais se aventuraram no Japão. Ou para conhecer o “exotismo” da cultura japonesa, ou para estudá-la, profundamente. Nesse último caso, os ocidentais não só se apaixonaram pela cultura e arte japonesa, como ajudaram a preservá-la como patrimônio artístico da humanidade. Ernest Fenollosa, que chegou em 1878,  ajudou a reviver o estilo de pintura Nihonga, foi professor da Universidade de Tóquio,  ajudou a fundar a Academia de Belas Artes de Tóquio e o Museu Imperial, sendo seu diretor em 1888. Mudou seu nome para Tei-Shin, adotando também o nome Kanō Yeitan Masanobu. O irlandês Lafcádio Hearn, que chegou em 1890, foi se encantando de forma tão radical que mudou seu nome para Yakumo Koizumi, adotando o sobrenome da esposa, Setsuko Koizumi, compilou várias narrativas de tradição oral e escreveu vários livros sobre diversos aspectos da cultura japonesa, como a religião e a literatura.

Entre os viajantes, aqueles que não chegaram a morar no Japão, mas produziram ensaios de impacto sobre suas impressões estão os franceses Roland Barthes e Claude Levi-strauss. O primeiro, filósofo, escreveu O Império dos Signos, livro que compete, dentro do estudos japoneses (ou japonologia, como se diz na Europa), com o best-seller O crisântemo e a espada, da antropóloga americana Ruth Benedict.  Levi-strauss escreveu uma obra periférica em sua extensa bibliografia: A outra face da lua, resultado das cinco viagens que fez ao Japão.

O livro de Benedict reúne e analisa uma série costumes da vida japonesa, desde o ato de tomar banho a obrigações sociais, como o on e o giri. Como a autora avisa previamente, a pesquisa foi feita como encomenda do exército americano, e não teve pesquisa de campo in loco, mas apenas nas comunidade japonesa americana.

O império dos signos, por sua vez, é um best-seller na Europa. Barthes esteve no Japão nos anos 70 e usou sua escritura característica. O estilo subjetivo é debitado ao que os  críticos dizem ser próprio dos japonologistas, em sua preferência por uma visão holística de seu campo de estudos. Numa série de ensaios, o semioticista aborda assuntos tão diversos como a caligrafia, a gastronomia, o teatro de boneco Bunarku, o haicai, os matsuri (festivais folclóricos), o sistema de endereçamento.

O autor de O pensamento selvagem, por sua vez, fala em cada um dos ensaios de A outra face da lua de temas muito diversos, mas o principal são as narrativas da mitologia japonesa. Ele encontra elementos semelhantes entre o mito de criação japonês , e na história de Amaterasu, com mitos de outras culturais, no Ocidente e no Oriente. Essas semelhanças, segundo o antropólogo francês, demonstram que o mundo é redondo. Ou seja, o elemento que emerge numa cultura como aparentemente em oposição à outra, é na verdade, seu avesso.

O estruturalismo de Levi-strauss podem ter sido ultrapassado, e também a ideia de uma circularidade primordial, pertencentes ao universo mental das  culturas primitivas.  A sociedade pós-moderna, fragmentada e reciclada, é reconfigurada pela imagem da teia, da comunicação enxameada, da hiperconectividade. Mas não deixa de ser fascinante remontar  os  fragmentos que um dia estiveram reunidos no continente afroasioamerindio em  Godwana.  Esperamos que mais pesquisadores tenham o espírito de aventura de Levi-strauss para ir atrás de nosso passado em comum.

Marilia Kubota

24 KOTOBA | A NOVA IDADE MÍDIA

Cena de "O livro de cabeceira", de Peter Greenaway.
Cena de “O livro de cabeceira”, de Peter Greenaway.

Nas duas últimas semanas de junho o Brasil foi sacudido por uma onda de manifestações públicas que abalou todo o país. Políticos, a grande imprensa, cidadãos comuns, todos se sentiram sem chão. Afinal, o que estava acontecendo ? Por que estudantes jovens se levantavam contra o aumento de R$ 0,20 na passagem de ônibus ?

O movimento, a princípio  atuante em São Paulo, ganhou força quando a polícia militar  reprimiu a manifestação que tomou a Avenida Paulista, no dia 13 de junho. No dia seguinte já estavam no ar, na internet, imagens sobre a truculência da polícia, sobrepostas sobre a trilha sonora de um videoclipe da Fiat, criado para a Copa do Mundo: o hit  Vem pra rua,  interpretado pelo cantor Falcão, do grupo Rappa.

O vídeo divulgado amplamente (no Youtube, as versões em português e em inglês atingiram, juntas, mais de 1,5 milhão  de visualizações) nas redes sociais mostraram que a arte está intrinsecamente vinculada à política. Os novos movimentos coletivos usam a mídia (Facebook, Twitter, câmeras e vídeos digitais) de forma inovadora. Não como instrumentos de controle social, como é propagado a todo momento nas redes sociais, mas para denunciar os abusos do poder e como forma de mobilização política.

Esse uso das novas mídias sociais já estava em curso no mundo, e foi visível no resultado das últimas eleições no Brasil. Mas parte da grande imprensa se recusa a creditar essa nova função  (o quinto poder?) às mídias alternativas. E vêem aí controle, conspiração, manipulação.

Vê-se no Brasil algo já encenado no Japão, no século X. Enquanto os homens da nobreza discutiam temas sérios como a Política, a Filosofia e  a Economia, em língua chinesa, as mulheres se recolhiam para debater sobre literatura, poesia e arte. Como não lhes era permitido aprender o kanji, elas inventaram o hiragana – a escrita fonética japonesa que decodifica para a fala japonesa os ideogramas chineses. Essa revolução silenciosa foi gestada entre biombos e diários, numa linguagem velada e sofisticada. Mas teve sua repercussão, pois  hoje, os escritos de Lady Shikibu Murasaki  e Sei Shonagon são considerados patrimônio cultural da humanidade. E, ironia da história, as leituras da   nobreza masculina do período Heian foram esquecidas.

A arte, como se vê, tem uma função  que não deve ser submetida a nem uma lei, pois atende ao princípio da liberdade de espírito. A juventude capta com rapidez o desejo de esperança e renovação.  Nós, do MEMAI, esperamos que os movimentos sociais que invadem as ruas no Brasil avancem para a Nova Idade Mídia e não para a moda da nova idade média, a  mídia da novidade média, como já cantou Cazuza.

Encha os bolsos com poesia e siga a vertigem .

Marilia Kubota