28 KINEMA | MOSTRA DE CINEMA NIKKEI : POLÍTICA

Okuhara filma Hidaka. Foto: divulgação.
Okuhara filma Hidaka. Foto: divulgação.

Na terça-feira (29), a MOSTRA DE CINEMA NIKKEI,  a ser exibida no Cine Guarani, no Portão Cultural, em Curitiba, apresenta dois documentários sobre a segunda fase da  imigração japonesa ao Brasil.  Depois dos primeiros anos  trabalhando nas lavouras de café no interior de São Paulo e do Paraná, muitos arrecadaram um pé-de-meia e mudaram para centros urbanos maiores. Foi o caso da maioria dos que foram se instalar na capital paulista. O documentário “Gamabarê ou Liberdade”, de José Carlos Lage, mostra apresenta  a história do maior ponto de concentração da comunidade nipo-brasileira, o bairro da Liberdade, em São Paulo,  principal ponto de referência comercial e de costumes orientais para a comunidade japonesa no Brasil.

José Carlos Lage é formado em Publicidade e Propaganda, com pós-graduação em comunicação e marketing pela ESPM. Em 1992,  trabalhou em Nova York ,  realizando videoclipes para artistas como: George Michael, Natalie Cole e Tonny Benett. Produziu e dirigiu filmes publicitários para as principais agências de São Paulo: DPZ, Peraltastrawberryfrog, Ogilvy, Sunset Comunicação entre outras Dirigiu os documentários Paulista(2003)  e Um dia de lobo (2005)..

Yami no ichi nichi

Nessa segunda fase da imigração, com o propósito inicial de “preservar os costumes e cultura japonesa”, foram criadas muitas associações de nipo-brasileiros. Se algumas tiveram como objetivo apenas o entretenimento, outras tiveram viés mais político, como foi o caso da Shindo Renmei – a Liga do Caminho dos Súditos. A organização ultranacionalista defendia que os japoneses não havia perdido a guerra –  eram os kachigum, os vitoristas –  e atacavam os que defendiam tese contrária  dos makegumi, os derrotistas.

O documentário Yami no ichi nichi, o crime que abalou a colônia japonesa no Brasil, de Mario Jun Okuhara, traz a versão da história  de Tokuichi Hidaka, que, em 1946, aos 19 anos de idade, foi um dos autores do assassinato do coronel Jinsaku Wakiyama, líder dos “derrotistas” em São Paulo. Hidaka entregou-se à polícia com o restante do grupo e cumpriu 15 anos de prisão. Em liberdade, sofreu a punição da colônia japonesa: foi discriminado, condenado ao ostracismo, sem oportunidade para contar a sua versão. Décadas mais tarde, Hidaka inicia uma busca por amigos e pessoas desse período para reconstruir a memória da época e encontrar o sentido da sua vida no Brasil. Nesta nova versão do documentário, integrantes da família Wakiyama falam do papel exercido por Jinsaku na comunidade nipo-brasileira paulista dos anos 1940 e expõem seu ponto de vista sobre os fatos.

Desdobramentos

O documentário de Okuhara ganha relevância, pois graças a ele, foram ouvidos depoimentos de nipo-brasileiros presos na Ilha de Anchieta, para onde foram levados os envolvidos com a Shindo Renmei. Os presos relataram casos de tortura e violação de direitos humanos.  A presidente da Comissão Nacional da Verdade, Rosa Cardoso, pediu desculpas pelo tratamento racista e detenção de vários membros da comunidade durante a segunda guerra , abrindo caminho para uma retratação pública oficial .

Não houve só presos por crimes,  também foram fichadas no Dops (Departamento de Ordem Pública e Social) e presas pessoas que apenas guardavam livros escritos em japonês, em casa, e agricultores foram expropriados de suas terras, no área costeira brasileira, acusados de ser espiões dos japoneses O governo também fechou escolas, proibiu jornais em língua japonesa e também qualquer tipo de reunião pública na comunidade.

O pedido de desculpas será encaminhado no relatório final da Comissão da Verdade ao governo brasileiro. Os imigrantes japoneses sofreram com os preconceitos desde que chegaram ao Brasil, em 1908. As restrições foram aumentando até culminar no verdadeiro estado de sítio imposto pelo Governo Vargas. Para  Okuhara, as desculpas da CNV são um marco histórico, o início do reconhecimento da violência sofrida pelos japoneses no Brasil.

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25 POLÍTICA |OS TABUS DA HISTÓRIA DOS NIKKEIS NO BRASIL

 

Foto publicada no livro do escritor Ichiro Tamai que revela a brutal repressão contra os japoneses na ditadura de Getúlio Vargas. Outro arquivo histórico que resgata a Verdade e a Memória Nipo-Brasileira. Foto: Abrangências.
Foto publicada no livro do escritor Ichiro Tamai . Divulgação: Abrangências.
Por Marilia Kubota
Dois projetos idealizados por nipo-brasileiros, Travessias em conflito, de Alexandre Kishimoto e Alice K.  e Abrangências, de Mário Jun Okuhara , estão ajudando a romper o silêncio sobre o lado negro da história da imigração japonesa no Brasil.  Travessias em conflito, organizado pelo Núcleo Hana,   realizou de 2012 a 2013 uma série de seminários, exibição de filmes  e dramatizações, culminando numa catarse em torno de um tabu mantido por anos na comunidade no Brasil: discussões sobre organizações ultranacionalistas que agiam durante o período Vargas, o envolvimento dos nikkeis na militância política nos anos 60/70 e a discriminação dos okinawanos.
Um dos  pontos altos dos seminários  foi o encontro do pesquisador americano Jeffrey Lesser (autor de Uma diáspora descontente) com  Chizuo Osava, militante da Vanguarda Popular Revolucionária, liderada pelo guerrilheiro Carlos Lamarca.  Osava, de codinome Mário Japa, foi torturado durante dois dias e duas noites pelo delegado Sérgio Fleury.
Os eventos do Travessias em Conflito foram filmados, estão sendo editados num documentário  e devem ser publicados em  livro. Em breve o Núcleo Hana deve retomar o projeto, com novas pesquisas, e criações dramatúrgicas.  Alexandre Kishimoto é neto do jornalista Koichi Kishimoto,  autor de   Isolados no campo de batalha na América do Sul, publicado no Brasil, em japonês, em 1947. O livro aborda os crimes cometidos contra os nipo-brasileiros durante a Segunda Guerra. A  primeira edição foi esgotada, e a segunda edição do mesmo ano foi confiscada das livrarias. Nos anos 1960 foi reeditado em japonês no Brasil; apenas na década de 2000,  o livro foi publicado no Japão, graças ao professor Shuhei Hosokawa. A família está tentando publicar a versão em português.
O projeto Abrangências  também aborda a violação aos direitos humanos dos  imigrantes japoneses, mas  nos anos 40.  O documentário  Yami no ichi nichi – o crime que abalou a colônia japonesa, dirigido por Okuhara,  estimulou o depoimento  de 14 vítimas de tortura do governo Vargas na Comissão Nacional da Verdade. O documentário  conta a história de Tokuichi Idaka, assassino do coronel  Jinsaku Wakayama, líder da Shindo Renmei, a maior organização ultranacionalista japonesa atuante na comunidade nipo-brasileira durante o período da Segunda Guerra.  Idaka foi preso durante 15 anos na Ilha Anchieta, em São Paulo. Quando saiu, foi hostilizado pela comunidade nipo-brasileira. Okuhara busca  uma retratação pública do governo brasileiro a vítimas de tortura e morte na  comunidade.
Para Okuhara,  um pedido de retratação pública do governo  pelas violações aos direitos humanos dos imigrantes japoneses é o reconhecimento do papel desses brasileiros na  história do pais:   Não só a comunidade ganha, mas cada um dos nipo-brasileiros que construíram e constroem o Brasil. A retratação seria semelhante ao processo de resgate de direitos dos nikkei nos EUA, onde, durante o governo Reagan, reconheceu-se o crime cometido contra  norteamericanos presos em  campos de concentração.  O cineasta esclarece  que a imagem  dos nikkei como bons trabalhadores, diligentes e honestos atende parcialmente à condição do povo nipo-brasileiro: Isto porque, o período da ditadura Vargas demonstrou a força de resistência dos imigrantes japoneses que sofreram uma brutal violência do Estado, e que a “comunidade” tem vergonha de colocar perante a sociedade maior. A cultura da vergonha,  com a cultura do sigilo e do esquecimento formaram uma mentalidade para a falta de enfrentamento. Se a comunidade  nega a existência ou generaliza os casos de tortura e morte de imigrantes japoneses, terá que rever os seus conceito e o seu papel na sociedade brasileira.
HISTÓRIA
Como é sabido, até a Segunda Guerra Mundial, os nikkei eram malvistos no Brasil. A entrada dos imigrantes causou acalorados debates no congresso nacional e nos jornais. Discutia-se a tese do Perigo Amarelo, criada pelos americanos, devido à  política de expansão imperialista japonesa . Nesse período de aberta hostilidade, surgiram obras como O Perigo Japonês, de Vivaldo Coaracy, publicado em 1942, no Brasil. O fluxo da imigração foi interrompido com a adesão de Vargas aos aliados, na Segunda Guerra. E tanto nos EUA como no Brasil, os imigrantes japoneses começaram a ser discriminados com violência. Os imigrantes, suspeitos de “ajudar o inimigo como espiões” foram evacuados  nos dois países ,  retidos em campos de concentração. A história é conhecida no EUA, onde 110 mil cidadãos foram presos, sendo metade deles americanos (descendentes de japoneses).
Mas no Brasil, pouco se falava até 1996. As pesquisas sobre racismo contra japoneses foram conhecidas até os anos 40.  Depois disso, divulgou-se apenas as que revelavam a ascensão da comunidade nikkei. São conhecidos alguns  campos de concentração de japoneses no Brasil, como o da Ilha de Acará, em  Tomé-açu, no Pará.
Já no Paraná, a delegacia de Antonina, em 25 de setembro de 1942, retirou 85 migrantes da cidade: 53 japoneses, 10 alemães e 22 italianos. Do litoral, o “trem dos evacuados” partiu para Curitiba, conforme contam Maria Helena Uyeda e Claudio Seto no livro Ayumi – caminhos da imigração. Os colonos foram expropriados de suas terras e presos  na Granja de Canguiri, que fica na Região Metropolitana de Curitiba. Durante semanas foram expostos à chacota de estudantes, instruídos para insultá-los  Os estudantes imitavam o mugido de vacas e o  relincho dos cavalos, já que a área era um estábulo. É uma página negra na história da comunidade no Brasil, mas que não deve ser esquecida.