21 LITERATURA | AS JAPONESAS SEGUNDO LAFCADIO HEARN

"Ao lado da janela", Toraji Ishikawa, 1912:  japonesa que começa a se libertar

“Ao lado da janela”, Toraji Ishikawa, 1912: japonesa que começa a se libertar

A maior obra de arte  japonesa

“Isto porque já foi dito de maneira contundente que os produtos estéticos do Japão mais maravilhosos não são seus objetos de marfim, nem de bronze e nem suas porcelanas, nem suas espadas, e nenhuma de suas maravilhas em metal ou laca – mas suas mulheres. Ao aceitar como parcialmente verdadeiro a afirmação de que a mulher em geral é o que o homem faz dela, podemos dizer que esta afirmação é mais correta no caso da mulher japonesa do que qualquer outra. É lógico que levaram-se milhares de anos para criá-la,  mas o período ao que me refiro já estava com o trabalho completo e aperfeiçoado (…). a mulher japonesa tem uma ética completamente diferente da do homem japonês. Talvez este tipo de mulher não aparecerá novamente no mundo por milhares de anos: as condições da civilização industrial não vão permitir sua existência. Este tipo não poderia ter sido criado numa sociedade em que a competição acirrada se transforma  em algo imoral tal qual conhecemos bem de perto (…) em resumo, só uma sociedade baseada no culto aos ancestrais poderia tê-la produzido (….)A mulher japonesa só pode ser conhecida em seu próprio país – a mulher japonesa preparada e aperfeiçoada pela educação de antigamente para aquela sociedade estranha na qual seu charme moral – sua delicadeza, seu extremo altruísmo, sua piedade e confiança pueril, sua percepção refinada de todos os modos e maneiras de criar felicidade ao seu redor – pode ser entendida e apreciada (…) A educação à moda antiga de seu sexo foi direcionada para o desenvolvimento de toda qualidade essencialmente feminina, e para a exclusão da qualidade oposta. Bondade, docilidade, empatia, ternura, graça  – estes e outros atributos foram cultivados para desabrochar totalmente (…) Seu sucesso  na vida foi planejado para depender de seu poder de ganhar afeição pela gentileza, obediência, bondade – não somente a afeição do marido, mas dos sogros, dos cunhados, das cunhadas – em resumo, de todos os membros de um lar estranho. Deste modo, para ter sucesso, exigia-se bondade angelical e paciência. E  a mulher japonesa colocava em prática o ideal de um anjo budista. Um ser que trabalhava somente para outras pessoas, pensava somente em outras pessoas, feliz somente ao proporcionar prazer para outrem – um ser incapaz de maldade, incapaz de egoísmo, incapaz de agir contrário ao seu sentido de ser correto – e apesar desta gentileza e delicadeza, pronta para a qualquer momento, doar sua vida, sacrificar tudo ao chamado do dever, tal era o caráter da mulher japonesa.” (p. 361-366).

O sacrifício da mulher japonesa

“Para o pensamento moderno, a posição da mulher na família japonesa de outrora parece ter sido o contrário da felicidade. Na infância ela tinha que se submeter não somente aos mais velhos assim como a todos os adultos do sexo masculino da casa. Ao ser adotada como esposa num outro lar, ela simplesmente passava num estado semelhante de submissão, sem ter entretanto a afeição que os laços dos pais e irmãos lhe garantiam em seu lar ancestral. Sua estada na família do marido não dependia da afeição que ele lhe tivesse, mas sim da vontade das pessoas da casa, especialmente dos mais velhos. Ao divorciar, ela não podia ficar com os filhos: eles pertenciam à família do marido. Em todos os casos, seus deveres de esposa eram mais desafiadores do que de uma empregada. Somente na velhice ela poderia ter esperança de exercer alguma autoridade, sob tutela.  ‘Uma mulher não pode ser dona de sua própria casa nos Três Universos’, declarava um velho provérbio japonês. Não lhe era permitido também ter seu próprio culto – não havia culto especial para as mulheres da família – nenhum ritual especial diferente do de seu marido. E quanto mais alto fosse a posição da família em que ela entrou como esposa mais difícil seria sua posição. Para as mulheres da classe aristocrática não havia liberdade alguma: ela não podia nem mesmo passar além do portal de sua residência a não ser num palanquim ou escoltada, e sua existência como esposa era amargurada pela presença de concunbinas na  casa.”

Traduções do o livro Japan an attempt at interpretation (Tóquio, 1995). Trechos extraídos da tese O encontro Ocidente-Oriente na obra de Aluisio Azevedo e Lafcadio Hearn, de Maria Cristina Wiechmann Fukushiman (USP, 1996). 

Patricio Lafcádio Hearn chegou ao Japão em 12 de abril de 1890, aos 40 anos de idade. Apaixonou-se pela cultura japonesa de tal modo que adquiriu um nome japonês: Koizumi Yakumo. Lafcadio nasceu na ilha grega Leucadia, mas foi levado a Dublin para fazer parte da família Hearn aos dois anos de idade, em 1852. Em 1869 muda para Nova Iorque e em 1872 consegue seu primeiro trabalho num jornal de Cincinatti (Ohio). Casa-se com uma mulata e é perseguido por isso. Separa-se e muda para New Orleans, em 1877.  Ali, em 1878 consegue outro emprego em jornal, onde trabalha durante cinco anos e traduz seus escritores preferidos, como Pierre Loti. Em 1881, outro jornal lhe pede para fazer traduções de jornais franceses e espanhóis. Começa a publicar livros sobre literatura fantástica. Em 1897, vai para a Martinica e depois, em 1890, para o Japão. Ali,  instala-se em Matsue,  casa-se com Setsuko e em 1896 passa a ter cidadania japonesa.  Em 1894, o casal  muda para Kobe. Em 1895, passa dar aulas na Universidade de Tóquio. Na capital japonesa, Setsuko teve três filhos – Iwao, Kyoshi e Suzuko. Lafcadio morreu em 1904. 

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NOTÍCIA | FRANÇA TEM MUSEU COM ACERVO JAPONÊS

O Museu Guimet, na França, especializado em artes asiáticas, apresenta até 10 de dezembro uma exposição com 40 estampas de Katsushika Hokusai (1760-1849), autor da célebre obra “A grande onda de Kanagawa” e das vistas do Monte Fuji.

A obra de Hokusai foi fonte de inspiração para os pintores japonistas dos século XIX: : Van Gogh, Monet, Degas, Renoir, Pissaro, Klimt. A “grande onda” foi fonte de inspiração também para poetas e músicos, como Debussy, para criar a composição La Mer.

O Museu Guimet tem um acervo com 110o obras de arte japonesa, desde a pré-história à era moderna, especialmente o periodo Meiji – 1868. O acervo contém vasos de terracota do período  Jômon , Yayoi et Kôfun ,  estatuetas da arte búdica, esculturas e pinturas da arte japonesa do século VIII ao  XV. Mas o forte da coleção japonesa são os  kakemono, makimono e biombos dos séculos XVI ao  XIX, retratando a pintura japonesa, em especial o Ukiyo-e ( Imagens do Mundo Flutuante).  São mais de 3000 estampes reunidas por colecionadores.  Lacas, cerâmicas e espadas compõem ainda a diversidade do acervo de arte japonesa do museu, que fica em Paris e pode ser acessado aqui.