46 HAICAI -TANKA, UMA FORMA FEMININA

46haicaiimagem04No Japão existem formas poéticas distintas, que funcionam para determinados temas. A forma poética mais conhecida fora do Japão, o haicai (ou haikai ou haiku) tem como eixo temático uma das estações do ano, ou algum evento ou fenômeno natural que aconteça numa determinada estação do ano. Cerejeiras, por exemplo, estão relacionadas à primavera, crisântemos, ao outono, neve ao inverno e calor ao verão. Os eventos ou fenômenos naturais são pontos de partida para refletir sobre a efemeridade da vida. Assim, o estado wabi sabi (que vem das palavras wabishi = ermo, solitário e sabishi= triste) é a prerrogativa do poeta que se retira do tumulto das cidades para comungar com a natureza e nela encontrar a resposta para o sentido mais profundo da existência.

O tanka é a forma poética mais antiga no Japão, que deu origem ao haicai. O haicai ficou conhecido como uma forma que privilegia o olhar objetivo da vida . Já o tanka está relacionado a um olhar mais subjetivo. Duas grandes poetas japonesas da Era Heian, Ono no Komachi (834?-?) e Izumi Shikibu (974?-1034?) representam esta forma poética. Tanto as poetas quantos o tanka são poucos conhecidos no Ocidente. A razão talvez seja o fato de que o tanka privilegia o olhar feminino.

Os maiores poetas japoneses do tanka contemporâneo são Masaoka Shiki (também mestre de haiku), Akiko Yosano e Takuboku Ishikawa, estes dois últimos com pelo menos uma obra traduzida no Brasil. Ono Komachi, Izumi Shikibu e   o monge Saygio são os autores clássicos mais conhecidos. Uma curiosidade:  o hino nacional japonês Kimigayo também está vazado na forma poética do tanka. No Brasil, tivemos poetas que já se aventuraram a recriar tankas, como Pedro Xisto, Helena Kolody e Wilson Bueno, em molduras mais ou menos carnavalizadas.

A poeta Rose Mendes pesquisou sobre a poesia feminina no Japão e buscando aperfeiçoar a aprendizagem iniciada em seu primeiro livro “Nas ondas do haicai”,  lança agora, “Travessia” (Editora Inhouse, 2016). O que se vê neste seu mais novo rebento são exercícios livres em cinco versos . Aponta-se a ousadia desta “Travessia” do ocidente ao oriente. Porém, falta à autora iniciante  maior conhecimento sobre a linguagem poética, o que tornariam seus poemas menos superficiais.  Já experiências de vida não lhe faltam, tocando temas da maturidade:

mora às escuras / na árvore centenária / um ninho vazio / ah, não é um pirilampo / que tranquilamente surge

muito de repente / duas andorinhas entram/ na capela antiga / que saudades estou sentindo / dos sonhos divididos

névoa da manhã / o mar e a gaivota / brincam com o tempo / o barquinho que balança / parece acenar um adeus

notícias do mundo / trazem espanto e tristeza  -/ incerto futuro//meu pai falava da guerra / e quase sempre chorava

Para que seus tankas saiam do chão, resta à Rose apenas prestar mais atenção nas palavras. As experiências, a sensibilidade, a acuidade para observar os dramas psicológicos retratados na paisagem da vida ela já tem.

(Marilia Kubota)

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35 HAICAI – HAICAIS TRAZEM LIRISMO E HUMOR

36haicaiimagem01Nas ondas do haicai, Rose Mendes, Editora inHouse, 2014.

Primeiro livro de haicais de Rose Mendes (Rosemary Ruas Mendes), é um diário onde a autora faz breves anotações sobre a natureza. Muitos dos haicais, como já revela o título,  têm como tema o mar. O assunto é clássico na poesia, especialmente em Portugal. Na poesia brasileira,  foi explorado no romantismo  de Fagundes Varella e Gonçalves Dias. chegando até o século 20 na voz de  Cecilia Meirelles. Embora o Japão seja um arquipélago, o “mar” não é comum na  tradição poética do haicai.  Mais comumente,  os clássicos exploram o tema das águas :  tanques, lagos, chuva, rios, orvalho, sob forma de kigo – uma palavra-chave que designa a estação do ano. De Bashô, temos esses exemplos célebres:

Mar agitado —/ Estende-se até a ilha de Sado / A Via-láctea

O polvo num pote – / Sob a lua de verão / É tão breve o sonho

Lágrima no olho do peixe / choram as aves / primavera não nos deixe

Na poesia portuguesa, de Camões a Fernando Pessoa e Sophia de Mello Breyner Andresen é que abundam as citações. Não por acaso, em 2010, foi lançada uma antologia específica em Portugal.  O haicai, nessa vertente, traz a melancolia lusitana:

Lágrimas salgadas / o mar permanece nos olhos / desde o princípio (Casimiro de Brito)

Diferente da alegria tão brasileira:

E saber que um dia / serei onda  rindo / no teu mar de alegria (Hamilton Faria, Haikuazes, 2006).

Nas ondas do haicai traz um pretexto para refletir sobre a relação entre o mar e a linguagem. Além daquela trazida pela influência portuguesa, em que o mar é a imensidão e a aventura, há também o mar miúdo onde se pescam os  insights da poesia japonesa. Rose parece beber nessa segunda fonte, vislumbrando a imensidão em pequenos detalhes, como uma flanêur  passeando pela beira da praia.

Tarde de verão  / conchinha dupla-aurora / o mar leva e traz

Manhã de outono / Vão e vêm com as ondas / sonhos de juventude

Causos caiçaras / no casarão de avós  / Que saudade!

Nuvens escuras / Flutua pelo canal / círculo de gaivotas

Pedras espalhadas / apinhadas de mariscos  / Lembro de meu pai

Lufada de vento ? O cheiro do peixe frito / pela rua afora

Ah! Flutua / sobre o mar / a lua de maio

36haicaimagem02Entre arranhões e lambidas, Alvaro Posselt, Blanche, 2014.  O terceiro livro de Alvaro Posselt (Tão breve quanto o agora, 2012, Um lugar chamado instante, 2013) segue a linha do senryu,  o haicai humorístico da poesia japonesa. Ao contrário do haiku, no qual predomina o registro lírico e o aspecto sublime da vida, o senryu inclina-se a comentar o aspecto mais prosaico e popular do cotidiano.  O nome senryū vem do poeta Senryū Karai (柄井川柳, 1718-1790), que viveu no período Edo. Uma amostra de sua verve poética:

泥棒を dorobō wo / o ladrão
捕えてみれば toraete mireba / quando o pego
我が子なり wagako nari / meu próprio filho
No Brasil,  tivemos um humorista que usou a forma do haicai para praticar o  senryu : Millôr Fernandes. Eis uns de seus tercetos caústicos: 
Eis o meu mal /A vida para mim / Já não é vital.
Gatos também estão presentes nos haicais japoneses e brasileiros:
Um gato sem dono / Dormindo sobre o telhado — /Chuva de primavera.(Taigi)
As folhas caindo / Na roça em frente ao portão / Divertem o gato. (Issa)
janela que se abre /o gato não sabe / se vai ou voa (Alice Ruiz)
Uma característica do haicai livre praticado no Brasil é o uso de rimas.  A rima é consagrada na tradição poética brasilleira, por isso o haicai praticado aqui não pode prescindir desse efeito sonoro, como mostram os poemas de Alvaro:

Deus, dai-me um par de asas / com tanto gato esparramado / não há como andar pela casa 

Só come e dorme / em cima do sofá / um gato enorme

Em cima da fronha / um som no meio do sono / gato também sonha