25 ARTES | O POLÊMICO WEI WEI E OUTROS ORIENTAIS

Instação de Ai Wei Wei na Bienal de Arte de Curitiba.
Instalação de Ai Wei Wei na Bienal  Internacional de Curitiba.

O polêmico  Ai Wei Wei,  que faz de sua arte um protesto contra a liberdade de expressão na China, trará à  Bienal Internacional de Curitiba a instalação feita de bicicletas  Very Yao, a ser  exposta no pátio do prédio da Secretaria de Estado da Cultura (SEEC).  Ele está entre os mais de 100 artistas de 5 continentes que participam da bienal, que acontece de 31 de agosto a 1o. de setembro em Curitiba. O evento, já no calendário cultural da cidade há 20 anos, tem curadoria dos críticos Teixeira Coelho (MASP/Museu de Artes de São Paulo)  e Ticio Escobar (Trienal do Chile) nessa edição.

A ironia faz parte do trabalho de Wei Wei. Ele  manipula ferramentas midiáticas  como um gênio para publicizar suas obras, como mostra o clip Dumbass. No vídeo, o artista denuncia sua prisão domiciliar  por dois meses, em 2011,  pelo governo chinês, a pretexto de sonegação de impostos.  “Fique na linha de frente como um idiota, num país que se oferece a todos como uma prostituta”, diz um dos versos da canção do clip. A prisão também é tema de seu último disco,  A Divina Comédia, lançado em junho.

A artista japonesa Sakiko Yamaoka também foi selecionada para participar da bienal.  Sakiko nasceu em 1961, vive e trabalha em Tóquio, Japão. Atua com performance, video, fotografia e instalação. Define sua obra como esculturas que representam ação, tempo e relacionamento entre o artista e seu público, o artista e os materiais, na qual tenta criar uma amostra da condição humana. Em suas performances, por exemplo, os corpos humanos são considerados objetos. Sakiko participou de vários festivais de arte, na Ásia (Japão, Indonésia, Tailândia)  e na Europa (Suécia, Polônia e Escócia).

Além de Wei Wei e Sakiko, entre os nomes internacionais figuram Ann-Sofi Sidén (Suécia), Antoni Abad (Holanda), Luis Felipe Noé (Argentina), Katharina Grosse (Alemanha), Martine Viale (Canadá), Peter Kubelka (Áustria), Regina Silveira (Brasil) e William Kentridge (África do Sul).

Entre os artistas brasileiros,  a poeta Marilia Kubota,  editora do MEMAI teve uma obra selecionada pela curadoria de Literatura. Seu poema Trem-fantasma estará ao lado de outros poemas de autores de Curitiba e do Brasil. A curadoria foi feita pelo poeta Ricardo Corona, concorrente ao prêmio Jabuti de Poesia em 2012, com o livro Curare. Obras de poetas locais serão lidas por monitores do evento, dentro dos ônibus da cidade.  Todos os poemas  selecionados serão reunidos na antologia Fantasma Civil, a ser lançada no dia 17 de outubro, no Palacete Wolf, no Largo da Ordem.

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POEMAS | ESPERANDO AS BÁRBARAS / TÃO BREVE QUANTO O AGORA

wabi sabi
a vida quebra
sonhos em pedaços
mas sonhando no espaço
nada quebra:
mais um elo,
um motivo,
ser mais belo
que a beleza
destruída.
(já havia aviso de asas)
(Esperando as bárbaras)
***
Não cresceu com fermento
Para o pão ficar grande
usei lentes de aumento
A vida é um flash
entre quem está parado
e quem se mexe
Curitiba não nos poupa
Ontem eu tomei sorvete
Hoje eu tomo sopa
(Tão breve quanto agora)

NOTICIA | POESIA “JAPONESA” EM CURITIBA

Capa de "Esperando as bárbaras"

No dia 06 de outubro, a partir das 10h30min, acontece o lançamento dos livros Esperando as bárbaras, de Marília Kubota e  Tão breve quanto o agora, de Alvaro Posselt, na Livraria do Paço da Liberdade. Os dois livros foram publicados pela Editora Blanche, de Curitiba.

Esperando as bárbaras traz 55 poemas longos e Tão breve quanto o agora, 59 poemas em forma de tercetos. Embora Marilia Kubota  seja descendente de japoneses, nem um de seus poemas tem a forma do haicai. Por outro lado, sem ter sequer qualquer traço nipônico, Alvaro Posselt é um praticante convicto do poema japonês. Os amigos se conheceram através da poeta Teruko Oda, que indicou o haicaísta para escrever sobre o tema no JORNAL MEMAI, um jornal voltado para as artes japonesas, do qual Marilia é editora.

Esperando as bárbaras é uma seleção de trabalhos que refletem sobre o fazer poético, sua inquietação e inutilidade como sobra de luminosidade no mundo pós-moderno. O poema-título tem origem no poema “À espera dos bárbaros”, do grego Konstantin Kaváfis. “Minha japonesidade está relacionada ao intimismo com o qual os orientais veem a vida, e não à forma poética. A ‘ brevidade’ ou ‘síntese’ pelas quais é  conhecida a poesia japonesa estão presentes no meu trabalho, privilegiando os tons delicados e a tendência à solidão”, garante a autora.

Tão breve quanto o agora é todo composto por poemas de três versos cada. Não se trata de haicai tradicional, pois a maioria privilegia o humor, o lúdico e a metalinguagem, e algumas características da poesia são bem marcantes, como a rima, principalmente. O livro é apresentado pelo poeta Lau Siqueira e ilustrado por Luiza Nogueira.

 

POEMAS

OS AUTORES
Marilia Kubota (Paranaguá/PR, 1964) é escritora, jornalista. Participou das antologias PindoramaPassagens8 FemmesAntologia da Poesia Brasileira do Início do Terceiro Milênio,  BlablablogueTodo Começo é Involuntário – Poesia Brasileira no Início do Século 21,  Em 2010, organizou a antologia Retratos Japoneses no Brasil – Literatura Mestiça. Em 2008 publicou o livro de poesia Selva de Sentidos. Em 2008, organizou o Concurso Nacional de Haicai Nempuku Sato. Em 2009, passou a ser editora do JORNAL MEMAI – Letras e Artes Japonesas, do qual foram impressas 9 edições e publicados, na internet, 14 números.  Escreve no blogue Micrópolis: WWW.micropolis.blogspot.com
Alvaro Posselt (Curitiba/PR, 1971) é professor de português e poeta. Participou das antologiasPoetrix 34, da coletânea de minicontos A brisa é você e recentemente da coletânea de haicais A lâmpada e as estrelas. Tem minicontos e haicais classificados em concursos e publicados em diversas revistas, jornais e sites da internet.

 

14 HAICAI | HAICAIS DA INDIA

Por Rafael Noris

India: foto de Rajiv Lather.

O haicai só nasceu no Japão, mas sua prática ocorre no mundo inteiro: isso não é novidade.

Em uma recente pesquisa que fiz, tive a oportunidade de conhecer o haicai praticado na Índia. É interessante que alguns poetas transformaram ele num terceto espiritualista, em contraponto com os tercetos espirituosos do Ocidente.

Neste estilo, vale conferir os poemas de Mohammed Fakhruddin, publicados em Haiku Self-Exploration:

O pior dos poderes
É o do dinheiro que compra
Favores de Deus.

A natureza não é livre
Assim são as aves e os pensamentos:
Escravos, assim somos.

A música é divina –
Seu sabor estético é melhor
que o do vinho ou da mulher.

Sem julgar o valor literário deles como tercetos, é claro que comohaicais eles falham: são moralistas e se encaixam muito mais no gênero dos aforismos. Mas isso tem uma desculpa, e quem dá é Angelle Deodhar: na Índia, não há associações ou grêmios onde possam estudar.

Claro que ninguém depende destas organizações para compreender o haicai (embora não seja possível negar a importância delas na divulgação e teorização do haicai).

Kala Ramesh.

Nestas minhas caminhadas pela web tive o prazer de conhecer os versos de Kala RameshRajiv Lather e da própria Angelee Deodhar, estes sim bons haicais que faço questão de compartilhar com vocês.

Haicais de Kala Ramesh:

silenciosamente
recebo as boas-vindas –
mangueira em flor

chuva de inverno –
mais fria que nunca
a tigela de arroz.

moscas
até dentro do templo:
issa

lua de verão –
a espuma branca da onda
dá brilho ao rochedo

Haicais de Rajiv Lather:

fim da primavera –
a velha acácia
continua sem folhas

tarde da noite –
me dirijo ao banheiro
pra terminar o livro

sesta de verão –
em sua quinta tentativa,
a mosca é morta

noite fria –
o apito da chaleira
cala o trem distante

Haicais de Angelee Deodhar:

uma brisa suave –
no banho do pássaro
a lua tremula

ameixeira em flor
entra e sai da sombra do Buda
um par de esquilos

súbito blecaute –
tantos vagalumes
no jardim de casa…

explico ao mestre
meu atraso para o zazen –
a borboleta branca…

***

Saiba mais sobre:

Kala Ramesh – em Tanka Online
Rajiv Lather – em Haryana Online
Angelee Deodhar – em World Haiku

Publicado originalmente aqui.

Rafael Noris é poeta e blogueiro, escreve no Hai-kais.