45 ARTES – LEILÃO DE OBRAS DE ARTISTAS NIPO-BRASILEIROS

Artistas da mostra “Olhar Incomum” participam de leilão na internet para produzir catálogo

 

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Gravuras  de Fernando Saiki na exposição “Olhar InComum”: a primeira obra está no leilão.Foto: Tatewaki Nio.

De 15 a 21 de agosto acontece um leilão virtual com obras de artistas nipo-brasileiros. O leilão estará aberto o dia todo, até as 23h59, aqui.  O lance inicial é de 50% do valor das obras. Estarão à venda duas obras de Takako Nakayama (gravura em metal), duas de Marta Matsushita (fotografia), uma de Fernando Saiki (xilogravura) e outra de Alline Nakamura (fotografia).

O leilão tem como objetivo ajudar a arrecadar fundos para produção do catálogo da mostra “Olhar InComum – Japão Revisitado”, que está aberta no Museu Oscar Niemeyer, em Curitiba, até o dia 11 de setembro. Com vistas a este objetivo, também está em curso um projeto de financiamento coletivo no Catarse, no valor de R$ 14 mil. Até agora foram arrecadados R$ 4850,00.

44 ARTES – “OLHAR INCOMUM” LANÇA PROJETO NO CATARSE

Equipe da exposição “Olhar InComum – Japão Revisitado” lança campanha no valor de R$ 14 mil no Catarse para arrecadar fundos para produzir o catálogo da mostra.

A equipe técnica da exposição “Olhar InComum – Japão Revisitado” lançou nesta última quinta-feira (14/07) uma campanha no valor de R$ 14 mil no Catarse . O objetivo é arrecadar fundos para produzir o catálogo da mostra.  “Olhar InComum” é um panorama que abrange obras de 21 artistas nipo-brasileiros contemporâneos,  com  curadoria da professora de História de Arte da Ásia, Michiko Okano.  A mostra foi aberta no dia 16 de março, no Museu Oscar Niemeyer, em Curitiba e segue até o dia 11 de setembro.

A capa do catálogo será feita por Sandra Hiromoto, que também é designer, as fotos por Tatewaki Nio e os textos críticos, por Michiko Okano, Denise Bandeira e Rosemeire Odahara Graça.

As colaborações começam com R$ 10 e vão até R$185. Dependendo do valor do apoio, o colaborador ganhará  recompensas: ecobags (R$ 25), catálogo (R$60), catálogo com nome impresso (R$85), catálogo e ecobag (R$ 95), fotografia da obra de Sandra Hiromoto  (R$120), ilustração de Érica Mizutani (R$125), fotografia da obra de James Kudo (R$130), catálogo com nome impresso mais  fotografia de James Kudo e Sandra Hiromoto (R$170), catálogo com nome impresso mais ilustração de Érica Mizutani (R$180),  catálogo com nome impresso mais  fotos de Tatewaki Nio e James Kudo (R$ 185).

A campanha ira até o dia 12 de setembro. Para colaborar, é só clicar no valor da colaboração desejada . Caso a meta não seja atingida, o dinheiro será devolvido.

44 ARTES – O JAPÃO COM A COR DO BRASIL

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Série “Puxadinho”, de James Kudo. Foto: Tatewaki Nio.

Por Benedito Costa

O gentílico é um tipo de adjetivo que aponta para uma origem, nação ou grupo. O gentílico “japonês” refere-se então ao que é do Japão, seja pessoa, discurso ou objeto. Já o adjetivo “nipo-brasileiro” refere-se ao que é comum entre dois países, Brasil e Japão. Geralmente, refere-se aos ascendentes, aos descendentes, ao que se produziu no Brasil a partir do que é “japonês”, etc. O contrário também seria “nipo-brasileiro”, embora aqui e ali, quando o sentido é inverso, prefira-se o adjetivo de origem anteposto. O adjetivo é um nome, nada mais.

 Em verdade, o gentílico é um problema. Ele aponta para objetos fechados em si. Facilita, até certo ponto, o estudo. Assim, “eslavo”  refere-se a qualquer coisa, dentro de um grupo, que seja, justamente, eslavo, mas ele não diferencia o que seja tcheco do que seja ucraniano e tampouco caminha por aqueles espaços de sombra em que o eslavo esbarrou no latino (Romênia) ou no magiar (Hungria). Então, o gentílico é um nome, uma palavra, uma voz, a partir do/da qual eu começo uma questão.

 Algo semelhante ocorre com “japonês”. A diversidade e os problemas culturais que abraçam ainos e habitantes de Okinawa, por exemplo, ficam de fora na designação genérica “japonês”.  Não direi que os gentílicos casados, entre dois povos/grupos/identidades ou mais que dois, sejam mais complexos. Eles abordam, inclusive, situações muito semelhantes. Mas eles transportam situações diferentes das dos gentílicos comuns: eles apontam para a esquerda, onde se encontra o país de origem; apontam para a direita, onde está o país de chegada; e apontam para o centro, onde está o encontro desses dois.  Mas não basta passar de uma problemática dupla para uma tripla. Não é o caso de  criar mais ramos para a árvore. Ela já os tem à farta.

Vamos por ora deixar em suspenso o que está nos extremos e fixar o olhar onde está justamente o encontro: é aí que reside a maior questão no caso de exposições ou eventos que tentam mostrar esse encontro. Deixemos de lado a ideia de “choque cultural” e de “guerras e confrontos culturais” e ainda de “choque de civilizações”,  como muito bem Amartya Sen já mostrou ser problemático (entre outros autores).

Em particular, quero lidar aqui com uma exposição “nipo-brasileira”, esta justamente que, ao tratar do que haveria de “incomun” entre artistas japoneses e artistas brasileiros, tenta mostrar o que há de “em comum”, como sugere o trocadilho do título da exposição.

Michiko Okano, que fez a curadoria da exposição, lembra muito bem que parte dos artistas brasileiros da mostra recusa ou refuta sua ancestralidade e outra parte faz questão de visitá-la em seus trabalhos. Evidentemente, o comentário da curadora pode ser amplificado para se verificar o que existe por trás dessa recusa ou desse diálogo (embora o silêncio também fosse uma forma de diálogo). Pode-se imaginar o quanto descendentes de imigrantes sofreram e o quanto durante tempos foi vergonhoso ou até mesmo perigoso (lembre-se o caso da Segunda Guerra) demonstrar afeição pelas origens. Pode-se imaginar também o quanto é de orgulho mostrar-se descendente de um povo de um país milenar, com uma bela, antiga e poderosa tradição. Não creio que haja inverdades nesses pensamentos, mas ele corre o risco de polarizar algo que é muito mais profundo.

Então voltamos ao gentílico: o uso do gentílico aponta para um grupo, isso é certo, e no interior desse grupo há práticas, sociais, há discursos, há religiões, há toda a história da alimentação e do vestuário, etc., mas o gentílico é uniformizador. Ele não dá conta de mostrar a diversidade interna do grupo. Conheço descendentes de japoneses que aprenderam o idioma dos pais e avós em casa e até hoje falam (inclusive um japonês antiquado para a língua japonesa que evoluiu no Japão), assim como conheço uma família cujo patriarca proibiu o uso da língua em casa (e costumes também), para que a família abraçasse de vez o novo idioma e os novos costumes.

Há muito, então, nesses trabalhos apresentados na mostra “Olhar InComum: Japão Revisitado”. Revisitar o Japão, seja através da citação direta dele, com a escrita ou com elementos culturais reconhecíveis, seja através da negação, é contar um pouco da história de cada indivíduo da grande comunidade nipo-brasileira.

A respeito desses elementos “reconhecíveis”, ocorre uma situação muito curiosa nas mostras temáticas de países ou grupos. Os elementos são o que costumo chamar de “elementos de superfície”. São elementos mais ou menos reconhecíveis de uma cultura e são escolhidos justamente por isso. Por vezes, são uma fantasia a respeito do grupo de origem. No caso dos japoneses: a gueixa, o sushi, o quimono, elementos possivelmente mundialmente conhecidos como “japoneses” e, em outros casos, elementos um pouco mais eruditos, como certo modo de pensar o desenho e a pintura ou certo tipo de escrita ou ainda certa tradição poética. Em alguns casos, como o é o Japão no Brasil, tais elementos de superfície constroem uma relação mais próxima com o objeto retratado, no caso, esse “revisitar do Japão”.  Fossem elementos mais complexos da cultura japonesa, como ícones do xintoísmo ou um trecho específico de Madame Murasaki, em que o leitor/apreciador/fruidor da arte necessitasse (re)conhecer algo para melhor entendimento de um discurso artístico, então a relação ficaria rarefeita, se o objetivo fosse pensar “coisas japonesas”. A cultura milenar japonesa tem elementos eruditos o bastante para seus próprios membros ficarem em dúvida se se trata de algo japonês, ou se se trata de um diálogo com a China ou com a Índia…

Fato curioso, a título de comparação, ocorreu com as exposições sobre os 500 anos do Brasil. Houve uma exposição de arte “afro-brasileira” e muitos artistas não mostravam nenhum elemento “afro”. Fato: os descendentes de africanos no Brasil são brasileiros, falam português e a maioria não teve contato algum com seus ancestrais, por terríveis motivos históricos. (Valeria lembrar que descendentes de japoneses no Brasil também são brasileiros.) Há vínculos bem rarefeitos entre descendentes de africanos e a África — e parte do público que ia à exposição desejava ver justamente aqueles “elementos de superfície” que eu citei. Não os encontrando, pensava-se que a exposição não era afro-brasileira. (Em nenhum momento proponho comparar o sofrimento dos povos africanos com o dos japoneses. São situações e momentos históricos distintos.)

Em relação à comunidade nipo-brasileira, a vinda de japoneses ao Brasil ocorreu bem depois à dos povos africanos. A vinda ocorreu em situações absolutamente distintas., como sabemos. Hoje, a comunidade japonesa no Brasil talvez seja uma das maiores fora do Japão e isso por só explica a importância de uma avaliação e investigação do que a comunidade de descendentes de japoneses produz. Exposições como essa do MON permitem um olhar para isso. Claro que houve críticas em relação à simplicidade da mostra. Eu costumo dizer que os trabalhos de uma exposição/mostra/documenta/bienal/seleção qualquer, a despeito de haver uma curadoria, ou seja, um olhar em particular, é também o que se tem. É isso. O que temos de uma produção nipo-brasileira, muito possivelmente já de uma segunda ou terceira geração de artistas nipo-brasileiras, é o que o MON expõe.

O que mais me chama a atenção não é o que está à esquerda, ou seja, o que é/seria japonês, tampouco o que está à direita, ou seja, o que é/seria brasileiro, e sim a fusão, o que volta ao “nipo-brasileiro”, ao gentílico com o qual comecei esta explanação. Do mesmo modo que a partir dos anos 1980 as grandes cidades brasileiras passaram a consumir uma comida “japonesa”, que via de regra de “japonês”  tem apenas o nome, criando algo, a partir de uma releitura de algo (supostamente) japonês, parte dos trabalhos expostos também é um “desterritório”. São um sonho do sonho. São uma forma de pensar algo que não é nem japonês, nem brasileiro.

Esses desterritórios e esses elementos criados a partir do que existe/existiu há no mundo todo. O curry indiano em pó não é exatamente uma criação indiana, a despeito do que se pensa; a pimenta indiana provavelmente tenha sido levada para lá pelos portugueses; o modo de agradecer em muitas línguas é o uso de outra língua, exótica, adaptado, e por aí vai. No Japão isso também ocorre. O Brasil não passa ao largo disso também. A arte não é alheia a esses usos e costumes e transforma mesmo o existente, mesmo que seja aquele elemento “de superfície” e mesmo que crie outros “elementos de superfície”, verdadeiros ou falsos de algum lugar remoto, como é o caso do sushi de doce de leite com confetes coloridos, algo até, perdoe-me, “kawaii”.

Creio que a exposição seja um modo de olhar para o Japão que se instalou no Brasil, ou pelo menos parte do Japão que se instalou no Brasil, no que ele tem de sonho, no que ele tem de imaginação, no que ele tem de “desterritório”, no que ele tem de “elemento de superfície”. É uma das mil maneiras de tentarmos investigar a já secular relação direta “nipo/brasileira”, mesmo que seja ela traduzindo  “Senbazuru” por “mil tsurus” ou por “nuvem de pássaros brancos”.

44 ARTES – AS VÁRIAS FACES DAS ARTE NIPO-BRASILEIRA CONTEMPORÂNEA

A história da arte nipo-brasileira começa com a atuação do grupo Seibi, que reuniu artistas como Tomie Ohtake, Manabu Mabe e Tomoo Handa, de 1935 a 1972.A primeira geração prezava pela pintura figurativa, a segunda geração preferia a abstrata. A atual é formada por artistas que usam as mais diversas linguagens artísticas.

Instalação "Nagoya", criada para Fernanda Takai. Foto: Taewaki Nio.
Instalação “Nagoya”, criada para Fernanda Takai. Foto: Taewaki Nio.

A arte nipo-brasileira já tem uma história, graças à atuação do grupo Seibi, que reuniu vários artistas de 1935 a 1972.  Faziam parte do grupo artistas como  Tomie Ohtake, Manabu Mabe e Tomoo Handa,  contribuindo para o desenvolvimento da arte abstrata e dando continuidade às ideias da Semana da Arte Moderna. A primeira geração de artistas nipo-brasileiros prezava pela pintura figurativa. A segunda geração preferia a pintura abstrata. A atual é formada por artistas que usam as mais diversas linguagens artísticas. Muitos artistas com sobrenomes japoneses se projetarm na arte nacional a partir da década de 50, quando surgiu o Salão do Grupo Seibi, com a realização de 14 edições até a década de 70. Vários estrearam na Bienal de Artes de 51.

Na exposição “Olhar Incomum – Japão Revisitado”, vemos um pouco da pesquisa dos artistas nipo-brasileiros contemporâneos. Muitos mantèm ainda profunda conexão com a arte japonesa, tanto na forma como no conteúdo (como Sandra Hiromoto). Outros usam apenas as formas japonesas (como Alice Shintani, Erika Kobayashi e Mai Fujimoto). As artes japonesas tradicionais, como a gravura japonesa (ukiyo-e), a Cerimônia do chá, o haiku e tanka, a arte de colar peças com ouro (kintsugui) fazem parte do repertório destes artistas.  Ou então, há citações sobre os hábitos da vida dos imigrantes japoneses, como o baralho de flores (hanafuda) e o ofuro (banho japonês). Um terceiro grupo usa apenas o tema japonês (como Fernanda Takai) e há aqueles que se desconectaram do Japão, como James Kudo e Alline Nakamura.

Os mapas de Erica Kaminishi. Foto: Tatewaki Nio.
Os mapas de Erica Kaminishi. Foto: Tatewaki Nio.

Entre os brasileiros que já estiveram no Japão, temos Fernanda Takai, que compôs a canção” Nagoya”, em ritmo de bossa-nova para maior terceira maior cidade japonesa, depois de Tóquio e Osaka.  Há três artistas que fizeram estudos de pós-graduação no Japão: Erica Kaminishi, Fernando Saiki e Yukie Hori. Kaminishi trabalha com o mapa e relevo do Japão, colocando as várias ilhas japonesas em destaque.  Saiki, além de apropriar-se da técnica de ukiyo-e, também faz referência á técnica de amarração erótica shibari, usada para prender mulheres e que atualmente é usada para  tingir tecidos.  Usando o e-maki (rolos de imagens,  no qual se ilustravam narrativas), Hori faz citações de fotógrafos japoneses famosos, como Hiroshi Sugimoto.

Shibari, a técnica japonesa de amarração de nós, na gavura deFernando Saiki. Foto: Tatewaki Nio.
Shibari, a técnica japonesa de amarração de nós, na gravura deFernando Saiki. Foto: Tatewaki Nio.
Yukie Hori: citações de artistas japoneses famosos. Foto: Tatewaki Nio.
Yukie Hori: citações de artistas japoneses famosos. Foto: Tatewaki Nio.

A invisibilidade parece não ter nada a ver com o dragão colorido, pintado numa das paredes do museu por Atsuo Nakagawa.  Atsuo nasceu na cidade de Quioto e  faz uma pintura mural onde está presente o ícone de várias culturas do oriente, desde os mongóis, passando pelos chineses e japoneses. No grafite de  Atsuo, o dragão tem composição sinistra com caveiras e cruzes, lembrando a predileção destes símbolos pelo movimento punk. Ao mesmo tempo, do animal mitológico saem muitos pássaros. Aí, a citação é de Sun Tzu. O estrategista chinês conta em seu livro que venceu uma batalha ao montar um exército com espantalhos no alto da montanha, e uma equipe de guerreiros que faziam muito barulho atrás. Através de tal estratégia, conseguiu aterrorizar o inimigo e vencer a batalha.

O dragão de Atsuo Nakagawa. Foto: Tatewaki Nio.
O dragão de Atsuo Nakagawa. Foto: Tatewaki Nio.

A gravação em laca japonesa, cuja técnica é conhecida como charão, feita por Takako Nakayama é um trabalho que exige paciência. Num workshop oferecido no MON, a artista explicou que a gravação pode ser feita com tinta dourada ou prateada para sobressair no fundo negro. A filosofia de esconder-se, ou entremostrar-se continua presente. Para que as imagens se tornem visíveis, a gravadora precisa de horas e horas de trabalho.

Laca japonesa (charão) é a técnica usada por Takako Nakayama. Foto: Tatewaki Nio.
Laca japonesa (charão) é a técnica usada por Takako Nakayama. Foto: Tatewaki Nio.

Tatewaki Nio, nascido em Kobe, compõe grandes painéis fotográficos da cidade de São Paulo, trazendo as rúinas da metrópole, com um olhar japonês. Embora as fotos retratem construções abandonadas da métropole, o artista estudou a composição para integrar os prédios na paisagem. Desta maneira, as edificações monstruosas – incluindo a ponte espraiada – tornam-se parte de uma estética, que joga com a simetria (buscando um ângulo ocidental) e a assimetria (ângulo japonês) das formas. O trabalho de Nio foi colocado pelo jornal New York Times como de excelência internacional, ao lado de Miguel Rio Branco e outros 7 brasileiros.

Série "Escultura do Inconsciente", de Nio. Foto: Tatewaki Nio.
Série “Escultura do Inconsciente”, de Nio. Foto: Tatewaki Nio.

Na obra “Carapaça”, de Futoshi Yoshizawa, o que se vê é o olhar japonês: um objeto que parece uma grande vagem com frestras. Pela abertura não se vê nada, mas tal proposta lembra o caminho até os templos japoneses. Para entrar nos templos,  é preciso vencer várias barreiras com cordões até chegar ao lugar mais profundo (oku), onde se localizar o santuário. Tal “carapaça” representa com exatidão uma cultura que prefere esconder-se a mostrar, como descreve o escritor  Jun-ichiro Tanizaki em seu livro de ensaio lírico “Em louvor da sombra”. O artista fez uma performance de shodô (caligrafia japonesa) na abertura da exposição, apontando a mistura das culturas brasileira e japonesa: “no ipê-amarelo / florescem com orgulho / as cerejeiras”.

Carapaça, de Futoshi. Foto: Tatewaki Nio.
Carapaça, de Futoshi Yoshizawa. Foto: Tatewaki Nio.

Há um grupo de artistas que aparentemente não fazem referência ao Japão, nem na técnica nem na obra, Para estes, a natureza se impõe como um elemento essencial.  James Kudo usa adesivos para compor um painel que denuncia a transformação social de pequenas cidades, como sua cidade natal, Pereira Barreto, no interior de São Paulo, através da construção de barragens. A composição em módulos, entretanto, é um processo muito japonês, que lembra a técnica de montagem, presente na composição dos ideogramas e no planejamento da casa japonesa.

Série "Puxadinho", de James Kudo. Footo: Tatewaki Nio.
Série “Puxadinho”, de James Kudo. Footo: Tatewaki Nio.

Yasushi Taniguchi denuncia a devastação ecológica, ao expor desenhos de árvores sobre lâminas de motosserras. Alline Nakamura expõe desenhos e fotos cuja tônica é o deslocamento do olhar, retratando a pequena cidade com traços de urbanização. Vistos de longe, a “escrita da luz” (fotografia)  assemelha-se a outros  tipos de escritas.Marta Matsushita traz uma obra em que propõe um jogo com  resíduos de insetos e de pássaros, inseridos num contexto urbanizado. Cesar Fujimoto fala de um outro tipo de casa, as habitações populares, que se assemelham a caixas de correio.

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Instalação criada por Yasushi Taniguchi.   Foto: Taewaki Nio.
Os ninhos de Marta Matsushita. Foto: Tatewaki Nio.
Os ninhos de Marta Matsushita. Foto: Tatewaki Nio.
Deslocamento no olhar urbano, de Alline Nakamura. Foto: Tatewaki Nio.
Deslocamento no olhar urbano, de Alline Nakamura. Foto: Tatewaki Nio.
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Instalação criada por César Fujimoto.  Foto: Taewaki Nio.

Com grandes blocos de pedra,  Julia Ishida propõe um jogo para descobrir representações eróticas  no claro e o escuro de uma caverna. Num grande painel, Erica Mizutani se refere à presença de elementais da natureza,  coloridos e disfarçados sob as substâncias químicas do cérebro, dopamina e serotonina.

Tríptico de Júlia Ishida. Foto: Tatewaki Nio.
Tríptico de Júlia Ishida. Foto: Tatewaki Nio.
"Dopamina e serotonina", de Érica Mizutani. Foto: Tatwaki Nio.
“Dopamina e serotonina”, de Érica Mizutani. Foto: Tatwaki Nio.
Erika Kobayashi: transgressão do ritual do chá. Foto: Taewaki NIo.
Erika Kobayashi: transgressão do ritual do chá. Foto: Taewaki NIo.

A presença do Japão pode ser confortável ou perturbadora, como na obra “Esta não sou eu”, de Erika Kobayashi. Numa performance de 15 minutos, a artista carrega uma boneca kokeshi até chegar ao lugar em que realizará o ritual da cerimônia do chá. Chegando ao lugar, Erika desveste o quimono e, de pernas à mostra, procede rigorosamente o ritual. A transgressão às regras do Chado tem um componente da modernidade feminina, substituindo a disciplina imposta pela tradição. Temos, em seu lugar uma reafirmação de identidade, mais brasileira do que japonesa.

A antropofagia na obra de Alice Shintani. Foto: Taewaki Nio.
A antropofagia na obra de Alice Shintani. Foto: Taewaki Nio.

O mesmo acontece com o hanafuda de Alice Shintani: num jogo de linguagem muito irônico, as tradicionais imagens de flor, pássaro e lua são substituídas por imagens de pontas de flecha e grafismo indígenas. O que está em jogo é a antropofagia, com a deglutição do outro externo (Japão) e outro interno (Ameríndia/Brasil).

Sandra Hiromoto propõe um jogo  de olhar a partir de tambores de latão. No pós-guerra, os latões  serviam como recipientes para o banho do ofurô – o banho é retratado na imagens de mulheres  japonesas . Através do processo alquímico, a  matéria densa – lembrar que os tambores  transportam petróleo, o precioso combustível  que fez riquezas e misérias no século XX – transmuta-se em matéria fluida. Imensos talos de bambu apontam para a expansão do universo feminino nos últimos cinquenta anos.

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Por fim, há a poesia de Marilia Kubota. Se na abertura da exposição o haicai “nesta tribo / nada é proibido / siga os sentidos” indica a liberdade de invenção que pauta uma cultura marcada pela mestiçagem, o poema ryoanji lembra o rigor do  jardim zen de Kyoto. Neste jardim , onde se estão dispostas 15 pedras de diferentes tamanhos e grupos. Diz-se que só um iluminado pode ver todas as 15 pedras ao mesmo tempo.  O poema de Marilia aponta para este aquietamento, talvez o estado de espírito  mais desejado  pelas multidões inquietas de nosso tempo.

O JAPÃO COM A COR DO BRASIL

41 ARTES – ARTISTAS BRASILEIROS DIALOGAM COM O JAPÃO EM CURITIBA

Três coletivas na cidade de Curitiba apresentam exposições com artistas de ascendência japonesa ou japoneses radicados no Brasil. As exposições “Olhar InComum – Japão Revisitado”, no Museu Oscar Niemeyer, “Sinal de Fogo”, na Galeria do Sesi e “5,10 e 20”, no Museu Alfredo Andersen, apresentam mostras onde a arte brasileira com influência japonesa pode ser apreciada. A maior delas pensada especificada sob o foco do diálogo entre arte brasileira e japonesa é a do MON, que apresenta 17 artistas nipo-brasileiros e mais 5 japoneses, sob o traço comum da convivência não apenas com arte, como também como a cultura japonesa.

Ambientes 2 e 3 da exposição "Olhar InComum". Foto: Tatewaki Nio.
Ambientes 2 e 3 da exposição “Olhar InComum”. Destaque para a obra de Marcelo Tokai. Foto: Tatewaki Nio.

Três coletivas na cidade de Curitiba apresentam exposições com artistas de ascendência japonesa ou japoneses radicados no Brasil. As exposições “Olhar InComum – Japão Revisitado”, no Museu Oscar Niemeyer, “Sinal de Fogo”, na Galeria do Sesi e “5,10 e 20”, no Museu Alfredo Andersen, apresentam mostras onde a arte  brasileira com influência japonesa pode ser apreciada. A maior delas pensada especificada sob o foco do diálogo entre arte brasileira e japonesa é a do MON, que apresenta 17 artistas nipo-brasileiros e mais 5 japoneses, sob o traço comum da convivência não apenas com arte, como também como a cultura japonesa.

De acordo com a curadora da exposição “Olhar InComum”, Michiko Okano, há várias “japonesidades” que os unem e os distinguem: a da experiência de vida no Japão; a da memória de famíliares e grupos de convivência; a da paixão pela cultura nipônica, a da negação de certos aspectos japoneses  ou, ainda,  a da idelaização do Japão. É aqui que encontramos obras artísticas em linguagens e estilos tãos variados como uma canção de Fernanda Takai ou um mural em adesivo de James Kudo,  as pinturas de Alice Shintani e Júlia Ishida, as instalações de César Fujimoto e Sandra Hiromoto,  as fotografias de  Alline Nakamura,  Tatewaki Nio e Yukie Hori,  os objetos de Érica Kaminishi, Mai Fujimoto e Marta Matsushita, os haicais de Marilia Kubota e Futoshi Yoshizawa, os murais de Erica Mizutani e Atsuo Nakagawa, a gravura de Fernando Saiki e de Takako Nakayama , as esculturas de Marcelo Tokai e Yasushi Yoshizawa.

Ambiente 2 da Exposição "Olhar InComum". Destaque para Erica Kaminishi e ao fundo, Mai Fujimoto.Fot: Tatewaki Nio.
Ambiente 2 da Exposição “Olhar InComum”. Destaque para Erica Kaminishi e ao fundo, Mai Fujimoto.Fot: Tatewaki Nio.

Já em “Sinal de Fogo”, temos obras de sete ceramistas radicados em Curitiba, sob a curadoria de Marilia Diaz. Celso Settogutte e Elisa Maruyama representam a porção japonesa do grupo, mas não são os únicos a sofrer influencia japonesa. Settogutte continua sua investigação sobre a estética wabi-sabi. E Elisa Maruyama apresenta uma escultura que lembra as grandes fogueiras de festas juninas brasileiras.

Esculturas de Celso Setogutte segundo o conceito wabi sabi. Foto: Tatewaki Nio.
Esculturas de Celso Setogutte segundo o conceito wabi sabi. Foto: Celso Setogutte.
A instalação de Eliza Maruyama relembra as fogueiras juninas. Foto: Celso Setogutte.
A instalação de Eliza Maruyama relembra as fogueiras juninas. Foto: Celso Setogutte.

Lígia Borba relembra o drama das vítimas da bomba atômica em Hiroshima, narrando a sensação de “estar no inferno” que os japoneses sentiram. A artista usa a técnica da narrativa de história em quadrinhos.

Lígia Borba relembra Hiroshima. Foto: Celso Setogutte.
Lígia Borba relembra Hiroshima. Foto: Celso Setogutte.

Já na mostra”5,10 e 20″,  seis alunos que foram alunos dos ateliês de arte do museu mostram suas obras.  Claudine Watanabe apresenta várias cerâmicas feitas com a técnica japonesa do raku (que apresenta, no final, cores de formatos inusitados devido à exposição ao fogo em alta temperatura) e Akiko Miléo, em suas peças, traz inscrições com ideogramas.

Claudine Watanabe usa a técnica de raku. Foto: Celso Setogutte.
Claudine Watanabe usa a técnica de raku. Foto: Celso Setogutte.
Akiko Miléo usa ideogramas em todas as suas peças. Foto: Celso Setogutte.
Akiko Miléo usa ideogramas em todas as suas peças. Foto: Celso Setogutte.

Exposição Olhar Incomum no Museu Oscar Niemeyer. Até  26 de junho. Horário de visitação: Terça a domingo | 10h às 18h. 

Rua Marechal Hermes, 999 – Centro Cívico, Curitiba, PR .Mais informações: (41) 3350 4400. Facebook e Twitter: /monmuseu

Exposição Sinal de Fogo no  Centro Cultural Sistema Fiesp. até 05 de junho. Horário de visitação: quarta a sábado | 10 às 18 horas. Av. Cândido de Abreu, 200 – Curitiba/PR.

Exposição 5, 10 e 20 no Museu Alfredo Andersen. Até 18 de junho. Horário de visitação: terça a sexta-feira | 9h às 18h, Sábados e domingos |10h às 16h. Museu Alfredo Andersen
Rua Mateus Leme, 336 – São Francisco. Curitiba – PR. 41 3222-8262 | 41 3323-5148
http://www.maa.pr.gov.br | maa@seec.pr.gov.br

40 ARTES – 'OLHAR INCOMUM' REVISITA O JAPÃO NO MON

Fernanda Takai será uma das artistas participantes da mostra. Foto: Bruno Senna
Fernanda Takai é uma das artistas participantes da mostra. Foto: Bruno Senna

O Museu Oscar Niemeyer (MON), em Curitiba, recebe a partir do dia 16 de março a exposição“Olhar InComun: Japão Revisitado”, que traz o olhar de 21 artistas contemporâneos que possuem laços sanguíneos com o país asiático. A mostra, que tem curadoria de Michiko Okano, professora de História da Arte da Ásia da Unifesp (Universidade Federal de São Paulo), contempla múltiplas linguagens, como desenho, pintura, gravura, grafite, escultura, objeto, fotografia, cerâmica, urushi (charão), design, vídeo, música, poesia, caligrafia, instalação, intervenção, performance e a cerimônia do chá.

Participam da exposição Alice Shintani, Alline Nakamura, AtsuoNakagawa, César Fujimoto, Erica Kaminishi, Erica Mizutani, Erika Kobayashi, Fernanda Takai, Fernando Saiki, FutoshiYoshizawa, James Kudo, Júlia Ishida, Mai Fujimoto, Marcelo Tokai, Marília Kubota, Marta Matushita, Sandra Hiromoto,TakakoNakayama, TatewakiNio, Yasushi Taniguchi e YukieHori.Todos eles revisitam o Japão, cada um com sua poética particular e distinta.

Obra de James Kudo, artista nipo-brasileiro de projeção internacional.
Obra de James Kudo, artista nipo-brasileiro de projeção internacional.

Olhar nipônico

Os primeiros imigrantes japoneses chegaram no Brasil em 1908. Atualmente, o país abriga a maior comunidade nipônica fora do Japão, com cerca de 1,5 milhões de descendentes. Apesar de estar na sexta geração, o nipo-brasileiro tem uma relação bastante complexa e diversificada com sua ascendência: ora nega a origem, ora cria uma relação de paixão com o Japão ou, ainda, recria umoutro Japão dentro do Brasil.

As obras refletem estes múltiplos desdobramentos dos artistas que constroem um espaço interessante de confronto, troca e diálogo. As referências vêm tanto do Japão tradicional quanto do da atualidade. O que todas têm em comum é a visão contemporânea da arte e o território brasileiro como cenário do cotidiano.

 Obra de Sandra Hiromoto, artista paranaense que vem ganhando destaque nacional.

Obra de Sandra Hiromoto, artista paranaense que vem ganhando destaque nacional.

A partir das 18 horas haverá um bate-papo da curadora Michiko Okano com alguns artistas. A mostra tem patrocínio da Eletrofrio, governo do Paraná e é produzida por Suemi Hamasaki, produtora de eventos nipo-brasileiros em Curitiba. A artista Julia Ishida também está na equipe principal do projeto, como co-produtora e co-curadora.