45 ARTES – LEILÃO DE OBRAS DE ARTISTAS NIPO-BRASILEIROS

Artistas da mostra “Olhar Incomum” participam de leilão na internet para produzir catálogo

 

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Gravuras  de Fernando Saiki na exposição “Olhar InComum”: a primeira obra está no leilão.Foto: Tatewaki Nio.

De 15 a 21 de agosto acontece um leilão virtual com obras de artistas nipo-brasileiros. O leilão estará aberto o dia todo, até as 23h59, aqui.  O lance inicial é de 50% do valor das obras. Estarão à venda duas obras de Takako Nakayama (gravura em metal), duas de Marta Matsushita (fotografia), uma de Fernando Saiki (xilogravura) e outra de Alline Nakamura (fotografia).

O leilão tem como objetivo ajudar a arrecadar fundos para produção do catálogo da mostra “Olhar InComum – Japão Revisitado”, que está aberta no Museu Oscar Niemeyer, em Curitiba, até o dia 11 de setembro. Com vistas a este objetivo, também está em curso um projeto de financiamento coletivo no Catarse, no valor de R$ 14 mil. Até agora foram arrecadados R$ 4850,00.

44 ARTES – O JAPÃO COM A COR DO BRASIL

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Série “Puxadinho”, de James Kudo. Foto: Tatewaki Nio.

Por Benedito Costa

O gentílico é um tipo de adjetivo que aponta para uma origem, nação ou grupo. O gentílico “japonês” refere-se então ao que é do Japão, seja pessoa, discurso ou objeto. Já o adjetivo “nipo-brasileiro” refere-se ao que é comum entre dois países, Brasil e Japão. Geralmente, refere-se aos ascendentes, aos descendentes, ao que se produziu no Brasil a partir do que é “japonês”, etc. O contrário também seria “nipo-brasileiro”, embora aqui e ali, quando o sentido é inverso, prefira-se o adjetivo de origem anteposto. O adjetivo é um nome, nada mais.

 Em verdade, o gentílico é um problema. Ele aponta para objetos fechados em si. Facilita, até certo ponto, o estudo. Assim, “eslavo”  refere-se a qualquer coisa, dentro de um grupo, que seja, justamente, eslavo, mas ele não diferencia o que seja tcheco do que seja ucraniano e tampouco caminha por aqueles espaços de sombra em que o eslavo esbarrou no latino (Romênia) ou no magiar (Hungria). Então, o gentílico é um nome, uma palavra, uma voz, a partir do/da qual eu começo uma questão.

 Algo semelhante ocorre com “japonês”. A diversidade e os problemas culturais que abraçam ainos e habitantes de Okinawa, por exemplo, ficam de fora na designação genérica “japonês”.  Não direi que os gentílicos casados, entre dois povos/grupos/identidades ou mais que dois, sejam mais complexos. Eles abordam, inclusive, situações muito semelhantes. Mas eles transportam situações diferentes das dos gentílicos comuns: eles apontam para a esquerda, onde se encontra o país de origem; apontam para a direita, onde está o país de chegada; e apontam para o centro, onde está o encontro desses dois.  Mas não basta passar de uma problemática dupla para uma tripla. Não é o caso de  criar mais ramos para a árvore. Ela já os tem à farta.

Vamos por ora deixar em suspenso o que está nos extremos e fixar o olhar onde está justamente o encontro: é aí que reside a maior questão no caso de exposições ou eventos que tentam mostrar esse encontro. Deixemos de lado a ideia de “choque cultural” e de “guerras e confrontos culturais” e ainda de “choque de civilizações”,  como muito bem Amartya Sen já mostrou ser problemático (entre outros autores).

Em particular, quero lidar aqui com uma exposição “nipo-brasileira”, esta justamente que, ao tratar do que haveria de “incomun” entre artistas japoneses e artistas brasileiros, tenta mostrar o que há de “em comum”, como sugere o trocadilho do título da exposição.

Michiko Okano, que fez a curadoria da exposição, lembra muito bem que parte dos artistas brasileiros da mostra recusa ou refuta sua ancestralidade e outra parte faz questão de visitá-la em seus trabalhos. Evidentemente, o comentário da curadora pode ser amplificado para se verificar o que existe por trás dessa recusa ou desse diálogo (embora o silêncio também fosse uma forma de diálogo). Pode-se imaginar o quanto descendentes de imigrantes sofreram e o quanto durante tempos foi vergonhoso ou até mesmo perigoso (lembre-se o caso da Segunda Guerra) demonstrar afeição pelas origens. Pode-se imaginar também o quanto é de orgulho mostrar-se descendente de um povo de um país milenar, com uma bela, antiga e poderosa tradição. Não creio que haja inverdades nesses pensamentos, mas ele corre o risco de polarizar algo que é muito mais profundo.

Então voltamos ao gentílico: o uso do gentílico aponta para um grupo, isso é certo, e no interior desse grupo há práticas, sociais, há discursos, há religiões, há toda a história da alimentação e do vestuário, etc., mas o gentílico é uniformizador. Ele não dá conta de mostrar a diversidade interna do grupo. Conheço descendentes de japoneses que aprenderam o idioma dos pais e avós em casa e até hoje falam (inclusive um japonês antiquado para a língua japonesa que evoluiu no Japão), assim como conheço uma família cujo patriarca proibiu o uso da língua em casa (e costumes também), para que a família abraçasse de vez o novo idioma e os novos costumes.

Há muito, então, nesses trabalhos apresentados na mostra “Olhar InComum: Japão Revisitado”. Revisitar o Japão, seja através da citação direta dele, com a escrita ou com elementos culturais reconhecíveis, seja através da negação, é contar um pouco da história de cada indivíduo da grande comunidade nipo-brasileira.

A respeito desses elementos “reconhecíveis”, ocorre uma situação muito curiosa nas mostras temáticas de países ou grupos. Os elementos são o que costumo chamar de “elementos de superfície”. São elementos mais ou menos reconhecíveis de uma cultura e são escolhidos justamente por isso. Por vezes, são uma fantasia a respeito do grupo de origem. No caso dos japoneses: a gueixa, o sushi, o quimono, elementos possivelmente mundialmente conhecidos como “japoneses” e, em outros casos, elementos um pouco mais eruditos, como certo modo de pensar o desenho e a pintura ou certo tipo de escrita ou ainda certa tradição poética. Em alguns casos, como o é o Japão no Brasil, tais elementos de superfície constroem uma relação mais próxima com o objeto retratado, no caso, esse “revisitar do Japão”.  Fossem elementos mais complexos da cultura japonesa, como ícones do xintoísmo ou um trecho específico de Madame Murasaki, em que o leitor/apreciador/fruidor da arte necessitasse (re)conhecer algo para melhor entendimento de um discurso artístico, então a relação ficaria rarefeita, se o objetivo fosse pensar “coisas japonesas”. A cultura milenar japonesa tem elementos eruditos o bastante para seus próprios membros ficarem em dúvida se se trata de algo japonês, ou se se trata de um diálogo com a China ou com a Índia…

Fato curioso, a título de comparação, ocorreu com as exposições sobre os 500 anos do Brasil. Houve uma exposição de arte “afro-brasileira” e muitos artistas não mostravam nenhum elemento “afro”. Fato: os descendentes de africanos no Brasil são brasileiros, falam português e a maioria não teve contato algum com seus ancestrais, por terríveis motivos históricos. (Valeria lembrar que descendentes de japoneses no Brasil também são brasileiros.) Há vínculos bem rarefeitos entre descendentes de africanos e a África — e parte do público que ia à exposição desejava ver justamente aqueles “elementos de superfície” que eu citei. Não os encontrando, pensava-se que a exposição não era afro-brasileira. (Em nenhum momento proponho comparar o sofrimento dos povos africanos com o dos japoneses. São situações e momentos históricos distintos.)

Em relação à comunidade nipo-brasileira, a vinda de japoneses ao Brasil ocorreu bem depois à dos povos africanos. A vinda ocorreu em situações absolutamente distintas., como sabemos. Hoje, a comunidade japonesa no Brasil talvez seja uma das maiores fora do Japão e isso por só explica a importância de uma avaliação e investigação do que a comunidade de descendentes de japoneses produz. Exposições como essa do MON permitem um olhar para isso. Claro que houve críticas em relação à simplicidade da mostra. Eu costumo dizer que os trabalhos de uma exposição/mostra/documenta/bienal/seleção qualquer, a despeito de haver uma curadoria, ou seja, um olhar em particular, é também o que se tem. É isso. O que temos de uma produção nipo-brasileira, muito possivelmente já de uma segunda ou terceira geração de artistas nipo-brasileiras, é o que o MON expõe.

O que mais me chama a atenção não é o que está à esquerda, ou seja, o que é/seria japonês, tampouco o que está à direita, ou seja, o que é/seria brasileiro, e sim a fusão, o que volta ao “nipo-brasileiro”, ao gentílico com o qual comecei esta explanação. Do mesmo modo que a partir dos anos 1980 as grandes cidades brasileiras passaram a consumir uma comida “japonesa”, que via de regra de “japonês”  tem apenas o nome, criando algo, a partir de uma releitura de algo (supostamente) japonês, parte dos trabalhos expostos também é um “desterritório”. São um sonho do sonho. São uma forma de pensar algo que não é nem japonês, nem brasileiro.

Esses desterritórios e esses elementos criados a partir do que existe/existiu há no mundo todo. O curry indiano em pó não é exatamente uma criação indiana, a despeito do que se pensa; a pimenta indiana provavelmente tenha sido levada para lá pelos portugueses; o modo de agradecer em muitas línguas é o uso de outra língua, exótica, adaptado, e por aí vai. No Japão isso também ocorre. O Brasil não passa ao largo disso também. A arte não é alheia a esses usos e costumes e transforma mesmo o existente, mesmo que seja aquele elemento “de superfície” e mesmo que crie outros “elementos de superfície”, verdadeiros ou falsos de algum lugar remoto, como é o caso do sushi de doce de leite com confetes coloridos, algo até, perdoe-me, “kawaii”.

Creio que a exposição seja um modo de olhar para o Japão que se instalou no Brasil, ou pelo menos parte do Japão que se instalou no Brasil, no que ele tem de sonho, no que ele tem de imaginação, no que ele tem de “desterritório”, no que ele tem de “elemento de superfície”. É uma das mil maneiras de tentarmos investigar a já secular relação direta “nipo/brasileira”, mesmo que seja ela traduzindo  “Senbazuru” por “mil tsurus” ou por “nuvem de pássaros brancos”.

40 ARTES – 'OLHAR INCOMUM' REVISITA O JAPÃO NO MON

Fernanda Takai será uma das artistas participantes da mostra. Foto: Bruno Senna
Fernanda Takai é uma das artistas participantes da mostra. Foto: Bruno Senna

O Museu Oscar Niemeyer (MON), em Curitiba, recebe a partir do dia 16 de março a exposição“Olhar InComun: Japão Revisitado”, que traz o olhar de 21 artistas contemporâneos que possuem laços sanguíneos com o país asiático. A mostra, que tem curadoria de Michiko Okano, professora de História da Arte da Ásia da Unifesp (Universidade Federal de São Paulo), contempla múltiplas linguagens, como desenho, pintura, gravura, grafite, escultura, objeto, fotografia, cerâmica, urushi (charão), design, vídeo, música, poesia, caligrafia, instalação, intervenção, performance e a cerimônia do chá.

Participam da exposição Alice Shintani, Alline Nakamura, AtsuoNakagawa, César Fujimoto, Erica Kaminishi, Erica Mizutani, Erika Kobayashi, Fernanda Takai, Fernando Saiki, FutoshiYoshizawa, James Kudo, Júlia Ishida, Mai Fujimoto, Marcelo Tokai, Marília Kubota, Marta Matushita, Sandra Hiromoto,TakakoNakayama, TatewakiNio, Yasushi Taniguchi e YukieHori.Todos eles revisitam o Japão, cada um com sua poética particular e distinta.

Obra de James Kudo, artista nipo-brasileiro de projeção internacional.
Obra de James Kudo, artista nipo-brasileiro de projeção internacional.

Olhar nipônico

Os primeiros imigrantes japoneses chegaram no Brasil em 1908. Atualmente, o país abriga a maior comunidade nipônica fora do Japão, com cerca de 1,5 milhões de descendentes. Apesar de estar na sexta geração, o nipo-brasileiro tem uma relação bastante complexa e diversificada com sua ascendência: ora nega a origem, ora cria uma relação de paixão com o Japão ou, ainda, recria umoutro Japão dentro do Brasil.

As obras refletem estes múltiplos desdobramentos dos artistas que constroem um espaço interessante de confronto, troca e diálogo. As referências vêm tanto do Japão tradicional quanto do da atualidade. O que todas têm em comum é a visão contemporânea da arte e o território brasileiro como cenário do cotidiano.

 Obra de Sandra Hiromoto, artista paranaense que vem ganhando destaque nacional.

Obra de Sandra Hiromoto, artista paranaense que vem ganhando destaque nacional.

A partir das 18 horas haverá um bate-papo da curadora Michiko Okano com alguns artistas. A mostra tem patrocínio da Eletrofrio, governo do Paraná e é produzida por Suemi Hamasaki, produtora de eventos nipo-brasileiros em Curitiba. A artista Julia Ishida também está na equipe principal do projeto, como co-produtora e co-curadora.