45 POLÍTICA – PRESENÇA NIPO-BRASILEIRA NA SEMANA DA ANISTIA

Mario-Jun-Okuhara
Mario Jun Okuhara,  um dos organizardores dos eventos da comunidade nipo na Semana da Anistia

De  22 a 28 de agosto, vários grupos que lutam contra o racismo contra a etnia amarela realizam eventos dentro da  “Semana da Anistia”, do Ministério da Justiça. Nesta quarta-feira (24), às 19h, acontece uma roda de conversa, no Sindicato dos Metalúrgicos, em Santos.  Na quinta (25), cine debate com a exibição dos curtas “Pique Esconde e Raul Soares: Histórias que não se apagam”, no Museu da Imagem e do Som, em Santos. Na mesma cidade, na sexta (26),  a partir das 19 h, há a exibição do filme “Em nome da Segurança Nacional”, no Museu da Imagem e do Som. 

Em São Paulo, a progamação começa na terça (23), às 17h30min,  com o lançamento do site e documentário sobre violações dos direitos do povo Krenak pelo Estado Brasileiro.no Saguão da Procuradoria Regional da República da 3a. Região, na sexta (26), às 13 h, Audiência Pública Perseguição, Homofobia e Ativismo LGBT na Ditadura Militar, no Espaço Transcidadania, no Largo do Arouche. No  sábado (27), há duas atividades, a primeira, às 9 h,no Centro Pastoral São José, no Belenzinho, com lançamento do livro “Quando os trabalhadores se tornaram classe: a construção da riqueza no estado de São Paulo”, e  às 15 h, Sarau e Roda de Conversa acerca da Identidade Asiática no Brasil, Memórias, Repressão e Resistência, no Centro Cultural São Paulo, organizada pelo coletivo Perigo Amarelo. No domingo (28), às 9h30min, na Igreja São Gonçalo,  missa em memória dos 6.500 imigrantes japoneses expulsos de Santos, no litoral paulista,  durante o governo de Getúlio Vargas .

Um dos organizadores da Semana é o  cineasta Mário Jun Okuhara, autor do filme “Yami no ichi nichi –  O crime que abalou a colônia japonesa” , que mostra a história de Tokuichi Hidaka, que aos 19 anos, foi um dos autores do assassinato do Coronel Jinsaku Wakiyama, em crime atribuído à organização ultranacionalista Shindo Renmei.  Okuhara milita pela retratação pelo Estado Brasileiro pelas  violações de direitos dos imigrantes japoneses durante o Estado Novo. O cineasta quer seguir o exemplo da  National Association of Japanese Canadians, que obteve  êxito no movimento de reparação em 1988.

Eventos fora da programação

Uma das raras fotos de Suely Kanayama.
Uma das raras fotos de Suely Kanayama.

Também haverá uma palestra e exibição do documentário “Perigo Amarelo” na Universidade de Mogi das Cruzes e uma missa no Rio de Janeiro, mas não foram inseridas na programação da Semana da Anistia. Em Curitiba, o Espaço Memória, Mulher e Trabalho homenageia as mulheres que lutaram contra as ditaduras no Brasil, no Estado Novo (como a poeta e feminista Patrícia Galvão e Olga Benares, companheira do fundador do Partido Comunista do Brasil,  Luís Carlos Prestes) e no Golpe de 1964, com a exposição “Onde está Suely? – Mulheres que não se calaram na ditadura”. O destaque da mostra é para Suely Yumiko Kanayama, que militou no Partido Comunista do Brasil  e lutou na Guerrilha do Araguaia.  O vídeo contando sua história, produzido para a Comissão da Verdade, também será exibido, com outros vídeos de guerrilheiras e mulheres torturadas pela ditadur. A guerrilheira Suely, de codinome Chica, foi assassinada com mais de cem tiros pelo exército, quando a guerrilha vivia seus últimos dias. Seu corpo não foi encontrado. Um militar afirma que teria sido queimado na Serra das Andorinhas, junto com o de vários outros guerrilheiros, para evitar posterior identificação. Haverá exibição de filmes e debates nos dias 25, 26 e 27. O Espaço Memória, Mulher e Trabalho fica na Livraria Vertov, Avenida Visconde de Rio Branco, 835, sobreloja 02.


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25 POLÍTICA |OS TABUS DA HISTÓRIA DOS NIKKEIS NO BRASIL

 

Foto publicada no livro do escritor Ichiro Tamai que revela a brutal repressão contra os japoneses na ditadura de Getúlio Vargas. Outro arquivo histórico que resgata a Verdade e a Memória Nipo-Brasileira. Foto: Abrangências.
Foto publicada no livro do escritor Ichiro Tamai . Divulgação: Abrangências.
Por Marilia Kubota
Dois projetos idealizados por nipo-brasileiros, Travessias em conflito, de Alexandre Kishimoto e Alice K.  e Abrangências, de Mário Jun Okuhara , estão ajudando a romper o silêncio sobre o lado negro da história da imigração japonesa no Brasil.  Travessias em conflito, organizado pelo Núcleo Hana,   realizou de 2012 a 2013 uma série de seminários, exibição de filmes  e dramatizações, culminando numa catarse em torno de um tabu mantido por anos na comunidade no Brasil: discussões sobre organizações ultranacionalistas que agiam durante o período Vargas, o envolvimento dos nikkeis na militância política nos anos 60/70 e a discriminação dos okinawanos.
Um dos  pontos altos dos seminários  foi o encontro do pesquisador americano Jeffrey Lesser (autor de Uma diáspora descontente) com  Chizuo Osava, militante da Vanguarda Popular Revolucionária, liderada pelo guerrilheiro Carlos Lamarca.  Osava, de codinome Mário Japa, foi torturado durante dois dias e duas noites pelo delegado Sérgio Fleury.
Os eventos do Travessias em Conflito foram filmados, estão sendo editados num documentário  e devem ser publicados em  livro. Em breve o Núcleo Hana deve retomar o projeto, com novas pesquisas, e criações dramatúrgicas.  Alexandre Kishimoto é neto do jornalista Koichi Kishimoto,  autor de   Isolados no campo de batalha na América do Sul, publicado no Brasil, em japonês, em 1947. O livro aborda os crimes cometidos contra os nipo-brasileiros durante a Segunda Guerra. A  primeira edição foi esgotada, e a segunda edição do mesmo ano foi confiscada das livrarias. Nos anos 1960 foi reeditado em japonês no Brasil; apenas na década de 2000,  o livro foi publicado no Japão, graças ao professor Shuhei Hosokawa. A família está tentando publicar a versão em português.
O projeto Abrangências  também aborda a violação aos direitos humanos dos  imigrantes japoneses, mas  nos anos 40.  O documentário  Yami no ichi nichi – o crime que abalou a colônia japonesa, dirigido por Okuhara,  estimulou o depoimento  de 14 vítimas de tortura do governo Vargas na Comissão Nacional da Verdade. O documentário  conta a história de Tokuichi Idaka, assassino do coronel  Jinsaku Wakayama, líder da Shindo Renmei, a maior organização ultranacionalista japonesa atuante na comunidade nipo-brasileira durante o período da Segunda Guerra.  Idaka foi preso durante 15 anos na Ilha Anchieta, em São Paulo. Quando saiu, foi hostilizado pela comunidade nipo-brasileira. Okuhara busca  uma retratação pública do governo brasileiro a vítimas de tortura e morte na  comunidade.
Para Okuhara,  um pedido de retratação pública do governo  pelas violações aos direitos humanos dos imigrantes japoneses é o reconhecimento do papel desses brasileiros na  história do pais:   Não só a comunidade ganha, mas cada um dos nipo-brasileiros que construíram e constroem o Brasil. A retratação seria semelhante ao processo de resgate de direitos dos nikkei nos EUA, onde, durante o governo Reagan, reconheceu-se o crime cometido contra  norteamericanos presos em  campos de concentração.  O cineasta esclarece  que a imagem  dos nikkei como bons trabalhadores, diligentes e honestos atende parcialmente à condição do povo nipo-brasileiro: Isto porque, o período da ditadura Vargas demonstrou a força de resistência dos imigrantes japoneses que sofreram uma brutal violência do Estado, e que a “comunidade” tem vergonha de colocar perante a sociedade maior. A cultura da vergonha,  com a cultura do sigilo e do esquecimento formaram uma mentalidade para a falta de enfrentamento. Se a comunidade  nega a existência ou generaliza os casos de tortura e morte de imigrantes japoneses, terá que rever os seus conceito e o seu papel na sociedade brasileira.
HISTÓRIA
Como é sabido, até a Segunda Guerra Mundial, os nikkei eram malvistos no Brasil. A entrada dos imigrantes causou acalorados debates no congresso nacional e nos jornais. Discutia-se a tese do Perigo Amarelo, criada pelos americanos, devido à  política de expansão imperialista japonesa . Nesse período de aberta hostilidade, surgiram obras como O Perigo Japonês, de Vivaldo Coaracy, publicado em 1942, no Brasil. O fluxo da imigração foi interrompido com a adesão de Vargas aos aliados, na Segunda Guerra. E tanto nos EUA como no Brasil, os imigrantes japoneses começaram a ser discriminados com violência. Os imigrantes, suspeitos de “ajudar o inimigo como espiões” foram evacuados  nos dois países ,  retidos em campos de concentração. A história é conhecida no EUA, onde 110 mil cidadãos foram presos, sendo metade deles americanos (descendentes de japoneses).
Mas no Brasil, pouco se falava até 1996. As pesquisas sobre racismo contra japoneses foram conhecidas até os anos 40.  Depois disso, divulgou-se apenas as que revelavam a ascensão da comunidade nikkei. São conhecidos alguns  campos de concentração de japoneses no Brasil, como o da Ilha de Acará, em  Tomé-açu, no Pará.
Já no Paraná, a delegacia de Antonina, em 25 de setembro de 1942, retirou 85 migrantes da cidade: 53 japoneses, 10 alemães e 22 italianos. Do litoral, o “trem dos evacuados” partiu para Curitiba, conforme contam Maria Helena Uyeda e Claudio Seto no livro Ayumi – caminhos da imigração. Os colonos foram expropriados de suas terras e presos  na Granja de Canguiri, que fica na Região Metropolitana de Curitiba. Durante semanas foram expostos à chacota de estudantes, instruídos para insultá-los  Os estudantes imitavam o mugido de vacas e o  relincho dos cavalos, já que a área era um estábulo. É uma página negra na história da comunidade no Brasil, mas que não deve ser esquecida.