25 LITERATURA | DIÁRIO DE KIOTO

Geiko, gueisha de Kioto. Foto; Marcos Giannotti. (Divulgação).
Geiko, gueisha de Kioto. Foto; Marcos Giannotti. (Divulgação).

O artista visual e crítico de arte Marco Giannotti esteve em Kioto, no Japão, durante 1 ano, a partir de março de 2011.  Ele foi convidado a lecionar na Universidade de Estudos Estrangeiros de Kioto. Sua estada rendeu artigos sobre o  estranhamento diante da arte e cultura japonesa, publicados no jornal O Estado de S.Paulo. E também um caderno de artista: um registro de criações usando o washi, o papel artesanal japonês em colagens consideradas “impensáveis” para um artista nativo, segundo um crítico local.  Os textos, as obras e as belas fotos que tirou de suas visitas a templos e jardins, foram reunidos no livro Diário de Kioto, publicado pela WMF Martins Editora, em 2012 .

Gianotti chegou em Kioto um mês depois do pior tsunami da história do Japão . Seu primeiro texto, Contemplando pedras em Kioto, (reproduzido aqui, em seu blogue), fala dessa relação entre a instabilidade da natureza e a estabilidade conseguida através do esforço humano:  Em uma terra que treme, este jardim celebra o oposto, a experiência zen do Satori, do despertar para a vida. Num momento em que toda a nação se torna mais solidária devido a tragédia do  terremoto, seguido por um Tsunami que destroçou Fukushima, estas pedras são o exemplo da capacidade japonesa de procurar estabilidade quando tudo que “é solido parece se desmanchar no ar” a qualquer instante, diz, contemplando o jardim zen Ryoan-Ji.

Os  artigos tratam de temas diversos, como visitas a templos budistas e xintoístas, ou a vilas, como a Katsura, a museus contemporâneos, como o Benesse Art Site, em Naoshima, ou o Museu Miho. Outros trazem temas cotidianos, como  a descoberta de lojas especializadas em ukiyo-e, como a Nishiaru, localizada no interior de uma galeria comercial chamada Terachi Kyogoku. São crônicas que trazem não apenas informações sobre o exotismo japonês. A sensibilidade do artista  celebra o encontro entre as culturas, e guia o olhar para o inusitado, das imagens caóticas da metrópole ao cuidado minucioso com a natureza.

Além das crônicas sensíveis, Giannotti produz uma iconografia deslumbrante. Clichês culturais  como o torii ( o portal xintoísta),  pontes, pagodes, bambus : tudo é reconstruído em formas minimalistas, em composições coloridas, imitando o kiri-ê (colagem com recortes , em japonês).   “Impensáveis” para um artista japonês, as colagens refletem a criatividade brasileira, que tem referências tanto em Anita Maffalti como em Mário Pedrosa e Tomie Ohtake.

Ponte japonesa, colagem com washi. Marco Giannotti.
Ponte japonesa, colagem com washi. Marco Giannotti.
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